

Zoya

Danielle Steel




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Crculo de Leitores

Zoya

Danielle Steel

Traduo de
Maria Emlia Ferros Moura

Copyright 1988

Querida Maxx
Nunca sejas velha demais ou nova de mais,
mas procura sempre a fora necessria
para viver, amar e questionar,
sempre generosa,
sempre bondosa.
Que a vida continuamente te abenoe
e nunca com o seu peso te magoe.
Segue com o vento bem atrs
o sol na alma,
e o nosso amor no corao,
agora e para sempre.

O meu corao,
o meu amor, a minha vida,
de ti e do teu pai sempre sero.

D. S.

ZOYA
Vagueando pelo mundo
por lugares mgicos
rostos queridos
sussurrando do passado,
nuvens de memrias
erguendo-se da sua vida
e do seu nome,
nada sendo no momento,
como era h muito tempo,
os palcios,
as memrias,
os sonhos,
a estrutura de tudo o que foi,
de tudo o que devia e
podia ter sido
e do que outrora vira,
uma vida de magia,
de palcios e sales
tudo transformado em neve derretida
tudo se desfazendo em chuva esbatida,
o riso, a msica,
beleza, dor,
os amigos,
os sorrisos, no passado perdidos,
as memrias suaves qual orvalho
e cetim roando a face, to macios...
uma vida para procurar de novo
o que desapareceu rapidamente,
uma suave cano de Inverno
envolta na concha do amor,
uma vida qual labareda viva
to depressa consumada.
      SAMPETERSBURGO
      CAPTULO 1
       
       Zoya fechou novamente os olhos, enquanto a trica voava sobre o solo gelado. A leve bruma da neve depositava-lhe pequenos beijos molhados na face e rendilhava-lhe 
as pestanas, ao mesmo tempo que o som dos guizos dos cavalos soava como msica aos seus ouvidos.
       Eram os sons que amava desde a infncia. Aos dezessete anos considerava-se crescida, era na verdade quase uma mulher e, contudo, ainda se sentia uma criana 
enquanto Feodor fazia avanar os cavalos pretos e luzidios com o estalido do chicote... mais depressa... mais depressa... atravs da neve.
       Quando voltou a abrir os olhos, avistou a aldeia mesmo  sada de Tsarskoie Selo. Sorriu intimamente e semicerrou os olhos para divisar os palcios geminados 
para l dela, descalando em seguida uma grossa luva forrada de pele, a fim de verificar quanto tempo demorara a viagem. Prometera  me que chegaria a casa a horas 
do jantar... e assim seria... se no ficassem muito tempo  conversa... Mas como poderia isso ser? Marie era a sua melhor amiga, quase uma irm.
       O velho Feodor virou-se para trs e sorriu-lhe ao ouvi-la rir de excitao. Tinha sido um dia perfeito. Adorava as aulas de ballet e, at mesmo agora, conservava 
as sapatilhas enfiadas no assento, ao seu lado.
       Danar era um prazer especial, sempre havia sido a sua paixo desde muito novinha e, por vezes, sussurrava em segredo a Marie que o maior desejo da sua vida 
era fugir para o Marinski para viver l e praticar dia e noite com os outros bailarinos. S a idia provocava-lhe agora um sorriso. Era um sonho que no podia expressar 
em voz alta; as pessoas da sua classe no se tornavam bailarinas profissionais.
       Tinha, contudo, o talento, sabia-o desde os cinco anos, e as lies com Madame Nastova proporcionavam-lhe, pelo menos, o prazer de estudar o que mais gostava. 
Trabalhava arduamente ao longo das horas que l passava, imaginando sem cessar que, um dia, Fokine, o grande mestre da dana, a descobriria. O pensamento desviou-se, 
todavia, rapidamente do ballet para a sua amiga de infncia, enquanto a trica atravessava a aldeia, a toda a velocidade, rumo a casa da sua prima Marie.
       O pai de Zoya, Konstantin, e o czar eram primos afastados e, tal como a de Marie, tambm a sua prpria me era alem. 
       Possuam tudo em comum, as paixes, os segredos, o mundo. Haviam partilhado os mesmos terrores e alegrias quando eram crianas e agora tinha de v-Ia, embora 
tivesse prometido  me que no o faria. Que coisa estpida! Por que razo no havia de v-la? No visitaria os que estavam doentes nos quartos e Marie estava tima. 
No dia anterior mandara um bilhete a Zoya, comunicando-lhe o quanto estava desesperadamente aborrecida com os outros doentes,  volta dela. E, afinal, no era nada 
de grave. Apenas sarampo.
       Os camponeses apressavam-se a sair da estrada quando a trica passava a toda a velocidade e Feodor incitava os trs cavalos pretos que os transportavam. Trabalhara 
desde mido para o av dela e j o pai, antes dele, trabalhara para a famlia. S por Zoya teria arriscado enfrentar a ira do pai e o silencioso e elegante desagrado 
da me, mas Zoya prometera-lhe que ningum viria a saber e j a levara l inmeras vezes. Zoya visitava as primas quase diariamente - que mal poderia haver em faz-lo? 
- embora o pequeno e frgil filho do czar e as irms mais velhas tivessem sarampo. 
       Alexis era apenas um mido e no um rapaz saudvel, como todos sabiam. Mademoiselle Zoya era jovem, saudvel, forte, e muito, muito bonita. Fora a criana 
mais bonita que Feodor alguma vez tinha visto, e Ludmilla, a sua mulher, tomara conta dela em beb. A mulher morrera no ano anterior de febre tifide, uma terrvel 
perda para ele, sobretudo porque no tinham filhos. A sua nica famlia era aquela para quem trabalhava.
       A Guarda Cossaca deteve-os junto ao porto e Feodor puxou bruscamente as rdeas dos cavalos arquejantes. A neve caa agora com mais fora e dois guardas a 
cavalo aproximaram-se, com grandes gorros de pele e uniformes verdes, de expresso ameaadora at verem de quem se tratava.
       Zoya era uma figura familiar em Tsarskoie Selo. Apressaram-se a saudar delicadamente, Feodor incitou de novo os cavalos e passaram a toda a velocidade junto 
 Capela Fedorovski, rumo ao Palcio Alexandre. Das muitas moradas imperiais, era esta a favorita da imperatriz. Raramente utilizavam o Palcio de Inverno em Sampetersburgo, 
exceto para bailes e eventos oficiais. Todos os anos, em Maio, se mudavam para a villa na propriedade de Peterhof e, depois de Veres passados no seu iate, o Estrela
       Polar, e em Spala, na Polnia, iam sempre para o Palcio Livadia, em Setembro.
       Zoya estava freqentemente com eles, at regressar s aulas no Instituto Smolny. Contudo, o Palcio Alexandre era igualmente o seu favorito. Tinha uma paixo 
pelo famoso toucador cor de malva da imperatriz e pedira que o seu quarto, em casa, tivesse os mesmos esbatidos tons de opala do que o da tia Alix. A me sentia-se 
divertida que assim fosse e, no ano anterior, decidira fazer-lhe a vontade. Marie troava dela sempre que a visitava, afirmando que o quarto lhe recordava demasiado 
o da me.
       Feodor desceu do assento e dois jovens pegaram nas rdeas dos cavalos nervosos, ao mesmo tempo que a neve lhe roava a cabea e ele estendia uma mo a Zoya. 
Os flocos agarravam-se ao pesado casaco de peles da jovem que tinha as faces vermelhas do frio e da viagem de duas horas de Sampetersburgo.
       "Teria apenas o tempo suficiente para tomar ch com a amiga", pensou de si para si e desapareceu na imponente entrada do Palcio Alexandre, enquanto Feodor 
se apressava a ir tratar dos cavalos.
       Possua amigos nos estbulos e gostava de trazer-lhes notcias da cidade, passando algum tempo com eles  espera da sua jovem ama.
       Duas criadas pegaram-lhe no casaco, enquanto Zoya tirava vagarosamente o gorro de marta da cabea, libertando uma farta e revolta cabeleira que levava muitas 
vezes as pessoas a parar e a olharem quando ela a usava solta, o que fazia freqentemente no Livadia, no Vero.
       Alexis, o jovem filho do czar, gostava de gracejar com ela por causa do brilhante cabelo ruivo e acariciava-o com suavidade entre as mos delicadas, sempre 
que ela o abraava. Para Alexis, Zoya era praticamente como se fosse uma das suas irms. Nascida duas semanas antes de Marie, era da mesma idade, tinham temperamentos 
iguais e ambas o mimavam a toda a hora, tal como o resto das irms. Elas, a me e a famlia mais chegada tratavam-no por Baby. Mesmo agora, que tinha doze anos, 
ainda o viam assim e Zoya perguntou por ele com uma expresso sria. Uma das duas criadas abanou a cabea.
       - Pobrezinho! - comentou. - Est coberto de manchas e com uma tosse horrvel. Monsieur Gilliard tem passado o dia junto dele. Sua Alteza tem estado ocupada 
com as meninas.
       Alexis pegara o sarampo a Olga, Tatiana e Anastasia e tratava-se de uma verdadeira epidemia, motivo por que a me de Zoya quisera que ela se mantivesse afastada. 
Contudo, Marie no apresentara at ao momento quaisquer sintomas da doena e no bilhete que escrevera a Zoya no dia anterior suplicava-lhe que aparecesse... Vem 
ver-me, minha querida Zoya, se a tua me te deixar..
       Os olhos verdes de Zoya brilhavam. Abanou a farta cabeleira e alisou o grosso vestido de l. Tinha despido o uniforme escolar depois da aula de ballet e percorreu 
a passo rpido o imenso corredor at  porta familiar que a levaria ao quarto espartano de Marie e Anastasia. A caminho, passou silenciosamente junto ao quarto onde 
o prncipe Meshcherski, o ajudante-de-campo do czar, estava sempre sentado a trabalhar. Contudo, ele nem se apercebeu quando, calada com as pesadas botas, ela subiu 
as escadas sem fazer barulho, bateu  porta do quarto e ouviu a voz familiar:
       - Sim?
       Rodou a maaneta com a mo esguia e graciosa e uma madeixa de cabelo ruivo pareceu anteced-la quando enfiou a cabea e avistou a prima e amiga, tranqilamente 
de p junto  janela. Os grandes olhos azuis de Marie brilharam de imediato e correu ao encontro dela, ao mesmo tempo que Zoya se lanava como uma flecha nos seus 
braos para a beijar.
       - Vim salvar-te, Mashka, minha querida!
       - Graas a Deus! Julguei que ia morrer de tdio. Todos aqui esto doentes. At a pobre Anna ficou ontem de cama com sarampo. Est no quarto ao lado dos aposentos 
da minha me, que insiste em tratar de todos. Passou o dia a levar-lhes sopa e, quando esto a dormir, vai  ala ao lado cuidar dos homens. At parece que h dois 
hospitais em vez de um... - comentou, fingindo puxar os cabelos castanhos e provocando o riso em Zoya. O Palcio Catarina, ao lado da casa, fora transformado em 
hospital no incio da guerra e a imperatriz trabalhava ali incansavelmente, com o uniforme da Cruz Vermelha, esperando que as filhas lhe seguissem o exemplo; porm, 
de todas, Marie era a que menos gostava de tais obrigaes.
       - Mal consegui agentar! - desabafou. - Receava que no viesses. E a mezinha ficaria to zangada, se soubesse que te pedi.
       As duas jovens atravessaram o quarto de brao dado e sentaram-se junto  lareira. A diviso que partilhava com Anastasia era simples e austera.  semelhana 
das outras irms, Marie e Anastasia dispunham de camas simples de ferro, lenis brancos engomados, uma pequena secretria e sobre a cornija da lareira havia uma 
fila de ovos da Pscoa de delicado fabrico.
       Marie guardava-os de ano para ano, feitos por amigos e oferecidos pelas irms. Eram de malaquite e madeira e alguns belamente talhados ou incrustados de pedras. 
Prodigalizava-lhes os mesmos cuidados que aos seus pequenos tesouros.
       Os aposentos das crianas nada exibiam da opulncia ou luxo dos quartos dos pais ou do resto do palcio. E, atirado para cima de uma das duas cadeiras do 
quarto, havia um bonito xale bordado que Anna Virubova, uma grande amiga da me, lhe fizera. Tratava-se da mesma mulher a que Marie se referira quando Zoya entrara. 
E agora a sua amizade havia sido compensada por um caso de sarampo.
       A idia fez com que as duas jovens exibissem um sorriso de superioridade por terem escapado  doena.
       - Mas sentes-te bem? - indagou Zoya com um olhar afetuoso e parecendo ainda mais frgil dentro do pesado vestido de l cinzenta que pusera para se sentir 
mais quente na viagem de Sampetersburgo.
       Zoya era mais baixa do que Marie e ainda mais delicada, embora Marie fosse considerada a beleza da famlia. Herdara os fantsticos olhos azuis do pai e o 
seu encanto. E gostava muito mais de jias e roupas bonitas do que as irms. Era uma paixo que partilhava com Zoya. Passavam horas a falar dos belos vestidos que 
tinham visto e a experimentar os chapus e as jias da me de Zoya, sempre que Marie aparecia de visita.
       - Estou tima... S que a mam no me deixa ir  cidade com a tia Olga no domingo. - Era um ritual que adorava. Todos os domingos, a sua tia, a gr-duquesa 
Olga Alexandrovna levava-os a todos  cidade a almoarem com a av no Palcio Anitchkov e a visitar uma ou duas amigas, mas, com a doena das irms, tudo estava 
a ser cortado. O rosto de Zoya ensombrou-se ante as notcias.
       - J o receava. E gostava tanto de mostrar-te o meu vestido novo. A av comprou-mo em Paris. - A av de Zoya, Eugenia Peterovna Ossupov, era uma mulher extraordinria. 
Pequena e elegante, possua uns olhos que ainda emitiam um brilho de esmeralda aos oitenta e um anos. E todos insistiam que Zoya era muito parecida com ela. A me 
de Zoya era alta, esguia e lnguida, uma beleza loura de olhos azuis, do gnero que apetece proteger do mundo, e o pai sempre o fizera. Tratava-a como a uma criana 
delicada, muito diferente da exuberante filha. - A av comprou-me um belssimo vestido de cetim rosa enfeitado de perolazinhas.
       Gostava tanto que o visses! - insistiu. As duas jovens, idnticas a duas crianas, falavam de vestidos como se falassem dos seus ursos de pelcia e Marie 
bateu palmas de satisfao.
       - Mal posso esperar! - exclamou. - Na prxima semana, todos estaro bem. Ento, iremos, prometo. E nessa altura, vou fazer-te um quadro para aquele teu horrvel 
quarto cor de malva.
       - No te atrevas a dizer mal do meu quarto!  quase to elegante como o da tua me!
       As duas jovens riram e Joy, a cocker spaniel das crianas, entrou aos saltos no quarto e roou, satisfeita, os ps de Zoya, que aquecia as mos  lareira, 
enquanto contava tudo a Marie sobre as outras raparigas do Smolny. Marie adorava ouvir-lhe as histrias, dado estar enclausurada no meio do irmo e das irms, com 
Pierre Gilliard como tutor e Mr. Gibbes a ensinar-lhes ingls.
       - Pelo menos, agora no temos aulas. Monsieur Gilliard tem andado muito ocupado com o Baby. E h uma semana que no o vejo. O paizinho diz que ele tem pavor 
de apanhar sarampo.
       As duas jovens riram novamente e Marie ps-se a apanhar o cabelo ruivo de Zoya numa trana. Era um passatempo a que se dedicavam desde muito midas, o de 
entranar mutuamente o cabelo enquanto conversavam sobre Sampetersburgo e as pessoas que conheciam, embora tudo estivesse muito mais calmo desde o comeo da guerra.
       Os prprios pais de Zoya no davam tantas festas como dantes, com muita pena dela. Adorava falar com os homens de fardas reluzentes e observar as mulheres 
de vestidos elegantes e belas jias. Dava-lhe novidades para contar a Marie e irms sobre os namoricas que observara, quem estava bonita e quem no estava e quem 
ostentava o mais espetacular colar de diamantes.
       Tratava-se de um mundo que no existia em nenhuma outra parte, o mundo da Rssia imperial. Zoya sempre vivera feliz nesse meio, uma condessa como a me e 
a av antes dela, parente distante do czar por parte do pai, ela e a famlia sempre usufruindo de uma posio de privilgio e luxo, relacionadas com muitos nobres. 
At a sua casa constitua uma verso mais pequena do Palcio Anitchkov, e as companheiras de folguedos eram as pessoas que faziam Histria, s que aos seus olhos 
tudo parecia vulgar e normal.
       - A Joy parece to feliz - comentou, observando a cadela que brincava aos seus ps. - Que tal os cachorrinhos?
       - So um amor - retorquiu Marie esboando um sorriso secreto e encolhendo os ombros bem torneados. - Oh, espera... - Deixou cair a longa trana que fizera 
do cabelo de Zoya e precipitou-se para a secretria, a fim de ir buscar algo de que quase se esquecera. Zoya sups de imediato que se tratava da carta de um dos 
seus amigos, de uma fotografia de Alexis ou das irms. Marie dava sempre a sensao de ter tesouros a partilhar quando se encontravam, mas desta vez pegou num fresquinho 
e estendeu-o orgulhosamente  amiga.
       - O que  isso?
       - Uma coisa maravilhosa... toda para ti! - Depositou um beijo suave na face de Zoya que inclinou a cabea sobre o fresquinho.
       - Oh, Mashka!  mesmo?... ! - Confirmou, aspirando. Era Lilas, o perfume favorito de Marie, que Zoya cobiava h meses. Onde o arranjaste?
       - A Lili trouxe-mo de Paris. Pensei que te agradaria. Ainda tenho bastante do que a mam me deu.
       Zoya fechou os olhos e respirou fundo, com uma expresso feliz e inocente. Os prazeres das duas jovens eram to inofensivos e simples: os cachorrinhos, o 
perfume... e, no Vero, longos passeios pelos campos perfumados de Livadia... ou brincadeiras no iate real, enquanto deslizavam atravs dos fiordes.
       Era uma vida to perfeita, at mesmo distante das realidades da guerra, embora por vezes falassem do assunto. Marie ficava sempre perturbada depois de passar 
um dia com os homens a que davam assistncia no palcio ao lado da casa. Parecia-lhe to cruel que fossem feridos e ficassem estropiados... que morressem... mas 
no mais do que a permanente e ameaadora doena do irmo. A hemofilia de que ele sofria era freqentemente o tpico das conversas mais secretas e srias de ambas. 
Quase ningum, excetuando a famlia, conhecia a verdadeira natureza da doena.
       - Ele est bem, no est? Quero dizer... o sarampo no... Os olhos de Zoya denotavam uma enorme preocupao quando pousou o precioso frasco de perfume e voltaram 
a falar de Alexis. A expresso de Marie era, contudo, tranqilizadora.
       - No me parece que o sarampo o prejudique. A mezinha garante que a Olga est muito mais doente do que ele. - Olga era quatro anos mais velha do que elas 
e muito mais sria. Era tambm penosamente tmida, ao invs de Zoya, Marie ou das suas outras duas irms.
       - Hoje, tive uma aula de ballet maravilhosa - suspirou Zoya, no preciso momento em que Marie tocava a campainha para que lhe trouxessem ch. - Quem me dera 
poder fazer algo de extraordinrio com isto.
       Marie riu. No era a primeira vez que escutava os sonhos da sua querida amiga.
       - Como o qu? Ser descoberta pelo Diaghilev?
       As duas jovens soltaram uma gargalhada, mas os olhos de Zoya emitiam um intenso brilho, quando falou. Tudo nela era intenso, os olhos, o cabelo, a forma como 
mexia as mos ou corria pelo quarto, ou rodeava a amiga com os braos. Era pequena, mas transbordante de fora, vida e entusiasmo. O prprio nome significava vida 
e parecia a escolha perfeita para a rapariga que fora e a mulher em que se transformava aos poucos.
       - Falo a srio... e Madame Nastova garante que sou muito boa.
       - Marie riu novamente e os olhos das jovens encontraram-se, ambas com o mesmo pensamento... centrado em Mathilde Kschessinska, a bailarina que tinha sido 
amante do czar, antes de ele casar com Alexandra... um assunto totalmente proibido e apenas mencionado em noites escuras de Vero e sempre s escondidas dos adultos.
       Um dia, Zoya mencionara algo a esse respeito  me, e a condessa ficara furiosa, proibindo-a de o abordar novamente. Era, sem dvida, um tema nada adequado 
para jovens. Contudo, a av mostrara-se menos austera quando ela voltara a foc-lo e confessou num tom divertido que a mulher era uma talentosa bailarina.
       - Continuas a sonhar fugir para o Marinski? - H anos que no falava no assunto, mas Marie conhecia-a bem, o bastante para saber quando estava a brincar ou 
no, e at que ponto falava a srio em relao aos seus sonhos privados.
       Sabia tambm que para Zoya era um sonho impossvel. Um dia, a amiga casaria e teria filhos, seria to elegante como a me, e no viveria na famosa escola 
de ballet. Era, contudo, divertido, falar de coisas assim, e sonhar numa tarde de Fevereiro, bebendo o ch em pequenos goles e observando Joy a cabriolar pelo quarto.
       A vida parecia bastante cmoda na altura, mau grado a presente epidemia imperial de sarampo. Com Zoya, Marie podia esquecer por um tempo os seus problemas, 
as suas responsabilidades. Desejava poder vir a ser to livre quanto Zoya.
       Sabia perfeitamente que, algum dia, os pais escolheriam o homem com quem viria a casar. Todavia, tinham de pensar primeiro nas suas duas irms mais velhas... 
De olhos fixos no fogo, interrogou-se sobre se, na realidade, o amaria.
       - Em que estavas a pensar? - inquiriu Zoya num tom suave, enquanto o fogo crepitava e a neve caa l fora. J estava escuro e Zoya esquecera a sua pressa 
de regressar a casa. - Mashka?...
       Tinhas um ar to srio. - Acontecia freqentemente quando no estava a rir. Os olhos eram to intensos, azuis e to quentes e bondosos, contrariamente  me.
       - No sei... Idiotices, suponho... - Esboou um sorriso afetuoso  amiga. Ambas tinham quase dezoito anos e o casamento comeava a aflorar-lhes  mente... 
talvez depois da guerra... Interrogava-me sobre com quem casaremos um dia. - Era sempre honesta com Zoya.
       - Tambm penso nisso de vez em quando. A av diz que  quase altura de pensar no assunto. Acha que o prncipe Orlov seria um homem bom para mim... - E depois 
soltou uma sbita risada, abanou a cabea e o cabelo soltou-se da trana que Mashka lhe fizera. J alguma vez viste algum e pensaste que deveria ser ele?
       - No muito. A Olga e a Tatiana devem casar primeiro. E a Tatiana  to sria. Nem sequer a imagino desejando casar-se. De todas, era ela a mais chegada  
me e Marie imaginava-a facilmente a querer ficar eternamente no seio da famlia. - Mas seria engraado ter filhos.
       - Quantos? - espicaou-a Zoya.
       - Cinco, pelo menos. - Era o tamanho da sua prpria famlia e sempre lhe parecera perfeita.
       - Eu quero seis - retorquiu Zoya, com uma certeza absoluta. Trs rapazes e trs raparigas.
       - Todos de cabelo ruivo! - Marie riu, troando da amiga e debruando-se sobre a mesa para lhe acariciar suavemente a face. s de fato a minha maior amiga. 
- Os olhos cruzaram-se e Zoya pegou-lhe na mo, beijando-a com um arrebatamento de criana.
       - Sempre desejei que fosses minha irm. - Tinha, em vez disso, um irmo mais velho que a atormentava sem piedade, sobretudo por causa do cabelo ruivo. O dele 
era escuro como o do pai, embora tambm tivesse os olhos verdes. E possua a tranqila fora e dignidade do pai. Era um jovem de vinte e trs anos, cinco anos e 
meio mais velho do que a irm.
       - Que tal est o Nicolai?
       - Um horror como sempre. Contudo, a mam parece extremamente satisfeita por ele estar com a Guarda Preobrajenski aqui, e no algures, na frente. A av diz 
que ele ficou para no perder nenhuma festa.
       Ambas riram e o momento srio passou. A porta abriu-se sem rudo para dar passagem a uma mulher alta que entrou no quarto e as observou um instante, antes 
que dessem pela sua presena. Um enorme gato cinzento seguira-a e tambm se mantinha a observar ao seu lado. Era a imperatriz Alexandra, vinda do quarto das doentes, 
onde estivera a tratar das outras trs filhas.
       - Boa tarde, meninas. - Sorriu quando Zoya se virou, e as duas jovens puseram-se de p. Zoya apressou-se a ir beij-la. A czarina tivera sarampo h muitos 
anos e sabia que no havia risco de contgio.
       - Tia! Como esto todas?
       - Bom, no esto l muito bem - suspirou com um sorriso fatigado, abraando Zoya afetuosamente. - A pobre Anna parece ser a que est pior. - Referia-se  
sua querida amiga Anna Virubova que, juntamente com Lili Dehn, era a sua companheira mais chegada. 
       - E tu, mida? Ests bem?
       - Estou, muito obrigada. - Corou, como freqentemente lhe acontecia. Era o que mais odiava na sua compleio de ruiva, isso e queimar-se sempre sob o sol 
no iate real, ou quando iam a Livadia.
       - Surpreende-me que a tua me te deixasse visitar-nos, hoje.
       - Sabia o enorme medo que a condessa tinha do contgio. No entanto, as faces ruborizadas de Zoya indicaram-lhe o que a rapariguinha fizera mesmo sem o admitir 
e a czarina riu e acenou-lhe com um dedo. -  isso, portanto, o que fizeste? E o que vais dizer-lhe? Onde estiveste hoje?
       Zoya soltou uma risada culpada e depois admitiu diante da me de Marie o que planeara dizer aos seus.
       - Passei horas e horas na aula de ballet, a trabalhar imenso com Madame Nastova.
       - Percebo.  chocante que jovens da vossa idade inventem tais mentiras, mas devia ter sabido que no conseguiramos manter-vos afastadas. - Virou-se depois 
para a filha. - J deste o presente  Zoya, meu amor? - A imperatriz sorriu-lhes. Era habitualmente uma mulher reservada, mas o cansao parecia torn-la mais vulnervel 
e calorosa.
       - J! - informou logo Zoya, deliciada e com um gesto na direo do frasco de Lilas pousado em cima da mesa. -  o meu favorito! - Os olhos da czarina fitaram 
interrogativamente Marie e a filha soltou uma risada e saiu a correr do quarto, deixando a amiga a conversar com a me. - O tio Nicolau est bem?
       - Est, embora mal o veja. O pobre homem regressou a casa vindo da frente de combate para descansar e, em vez disso, v-se aqui no meio de um cerco de sarampo.
       As duas riam quando Marie voltou com algo embrulhado num pedao de cobertor. Ouviu-se um estranho pio, quase como se fosse um pssaro e, um momento depois, 
apareceu um focinho castanho e branco, com compridas orelhas e olhos brilhantes cor de nix. Era um dos cachorrinhos da sua cadela.
       - Oh,  to querido! H semanas que no via nenhum! - Zoya estendeu a mo e o animal emitiu uma srie de ganidos e lambeu-lhe os dedos.
       -  uma "ela" e chama-se Sava - indicou Marie num tom orgulhoso e fitando Zoya com um olhar excitado. - A mam e eu queremos que fiques com ela. - Estendeu-lhe 
a cadelinha.
       - Para mim? Oh, cus... O que... - Estava prestes a replicar: "O que dir a minha me?", mas no queria que lhe retirassem o presente e calou-se de imediato, 
s que a imperatriz entendera tudo.
       - Oh, meu Deus... A tua me no gosta de ces, pois no, Zoya? Tinha-me esquecido. Ficar muito zangada comigo?
       - No!... no... de forma alguma - contraps num tom feliz, agarrando na cadelinha e apertando-a, enquanto Sava lhe lambia o nariz, a cara e os olhos; tentou 
esconder a cabea, antes que a pequena spaniel lhe puxasse o cabelo. - Oh, ela  to amorosa!  mesmo minha?
       - Fazias-me um grande favor se a levasses, minha querida retorquiu a imperatriz a sorrir, deixando-se cair numa das duas cadeiras com um suspiro. Parecia 
extremamente cansada e Zoya reparou que no despira o uniforme da Cruz Vermelha. Interrogou-se sobre se o usara para cuidar das crianas doentes e da amiga, ou se 
tambm trabalhara no hospital nesse dia. Tomava muito a peito a sua ocupao ali e insistia para que as filhas a imitassem.
       - Apetece-lhe um ch, mam?
       - Muito. Obrigada, Mashka.
       Marie tocou a campainha para chamar a criada, que apareceu logo, sabendo que a czarina estava com elas e uma xcara de ch quente e acabado de fazer surgiu 
como por encanto. Marie serviu e as duas companheiras juntaram-se-lhe.
       - Obrigada, querida - agradeceu a czarina, virando-se em seguida para a prima afastada do marido. - A tua av tem passado bem, Zoya? H meses que no a vejo. 
Tenho estado to ocupada. J nem consigo ir a Sampetersburgo.
       - Est muito bem, obrigada, tia Alix.
       - E os teus pais?
       - timos. A mam sempre preocupada com a hiptese de o Nicolai ser mandado para a frente. O pap diz que lhe causa um enorme nervosismo.
       De fato, tudo causava um enorme nervosismo a Natalya Ossupov que era uma mulher muito frgil, e o marido acedia aos seus mnimos caprichos. A czarina dissera 
muitas vezes a Marie em particular que achava que essa atitude era muito pouco saudvel para ele, mas Zoya, pelo menos, nunca adotara aqueles ares lnguidos. Era 
uma jovem cheia de vida e entusiasmo. Alexandra lembrava-se sempre da me de Zoya, reclinada numa cadeira, vestida de seda branca da cabea aos ps, plida e loura, 
enfeitada de prolas e com um olhar aterrorizado, como se a vida fosse um fardo excessivo. No comeo da guerra, pedira-lhe que a ajudasse no seu trabalho com a Cruz 
Vermelha, e Natalya respondera simplesmente que era incapaz de agentar. No era um dos espcimes mais corajosos perante a vida, mas a czarina absteve-se nesse momento 
de comentrios e limitou-se a um aceno de cabea.
       - D-lhe saudades minhas quando chegares a casa. - Ao ouvir estas palavras, Zoya olhou l para fora e tomou conscincia de como se fizera escuro. Ps-se em 
p de um salto e consultou o relgio, horrorizada.
       - Oh! Tenho de ir para casa! A mam vai ficar furiosa!
       - No duvides! - exclamou a czarina a rir e acenou-lhe com um dedo, enquanto se levantava e a sua figura pairava sobre a rapariguinha. - No deves mentir 
 tua me sobre onde ests! E sei que ela ficar extremamente preocupada por te teres exposto ao nosso sarampo. J o tiveste?
       - No, no tive - declarou Zoya, a rir -, mas no vou apanh-lo e se assim for... - Encolheu os ombros com outro ataque de riso e Mashka imitou-a. Era uma 
das coisas que Marie apreciava nela, a coragem e aquela despreocupao. Tinham-se metido juntas em alguns sarilhos ao longo dos anos, mas nada de perigoso nem verdadeiramente 
prejudicial.
       - Vou mandar-te para casa. E tenho de regressar at junto das crianas e da pobre Anna... - Beijou-as e saiu do quarto, enquanto Marie ia buscar a cadelinha 
onde esta se escondera e a embrulhava no cobertor, estendendo-a a Zoya.
       - No te esqueas da Sava!
       - Posso mesmo ficar com ela? - inquiriu Zoya ao mesmo tempo que os olhares se cruzavam numa onda de afeto.
       -  tua. Foi sempre essa a idia, mas quis fazer-te uma surpresa. Agasalha-a no casaco, no caminho para casa. Assim, ficar quente. - Sava tinha apenas sete 
semanas e nascera durante o Natal russo. Zoya ficara excitadssima quando a vira pela primeira vez no dia de Natal, na altura em que a sua famlia viera jantar com 
a do czar. - A tua me vai ficar furiosa, no? inquiriu Marie  gargalhada e Zoya acompanhou-a naquela exploso de alegria.
       - Sim, mas digo-lhe que a tua ficaria terrivelmente desiludida, se a mandssemos de volta. A mam ficar com imenso receio de ofend-la. - As duas jovens 
ainda riam quando Marie a acompanhou at  porta no andar inferior e a ajudou a vestir o casaco, enquanto agarrava na cadelinha. Tapou os cabelos ruivos com o gorro 
e as duas amigas despediram-se. - Toma cuidado contigo e no adoeas!
       - No fao teno! - Estendeu-lhe igualmente o frasco de perfume e Zoya agarrou-o com a mo enluvada. A criada indicou-lhe que Feodor estava pronto.
       - Voltarei dentro de um ou dois dias... prometo... e obrigada! - Zoya abraou-a e dirigiu-se rapidamente  trica, onde Feodor a esperava. Este tinha as faces 
e o nariz vermelhos e ela sabia que ele estivera a beber com os amigos nos estbulos, mas no interessava. Precisaria de se manter quente, enquanto regressavam a 
toda a pressa a Sampetersburgo. Ajudou-a a sentar-se e sentiu-se aliviada ao ver que deixara de nevar. - Temos de apressar-nos, Feodor... a mam vai ficar zangadssima 
comigo, se chegar tarde.
       Sabia, porm, que no havia forma de chegar a tempo para o jantar. J estariam sentados quando ela aparecesse... e a cadelinha!... Riu em voz alta enquanto 
o chicote estalava na noite gelada e a trica avanava, puxada pelos trs garbosos cavalos pretos. Um instante depois, atravessaram os portes e os cossacos montados 
nos cavalos transformaram-se numa mancha, ao mesmo tempo que atravessavam a aldeia de Tsarskoie Selo.
       
CAPTULO 2
       
       Feodor fustigava os cavalos da trica rumo a Nevski e Zoya apertava a cadelinha de encontro ao corpo, tentando recompor-se e inventar desculpas que apaziguassem 
a me. Ela sabia que, sendo Feodor a conduzi-la, estariam seguros, mas a me ficaria decerto furiosa por chegarem to tarde e por ela ainda por cima levar a cadelinha.
       Em Fontanka, viraram subitamente  esquerda e os cavalos apressaram o passo, sabendo muito bem que estavam quase em casa e ansiosos por voltarem ao seu estbulo. 
Conhecendo bem o terreno, Feodor deu-lhes rdea solta e momentos depois estendia-lhe a mo para que descesse. Tomada de uma sbita inspirao, retirou a cadelinha 
do casaco e estendeu-lha com um olhar suplicante.
       - Por favor, Feodor... a imperatriz deu-ma... Chama-se Sava. Leva-a para a cozinha e entrega-a  Gallina. Deso mais tarde para ir busc-la. - Os olhos de 
Zoya assemelhavam-se aos de uma criana assustada e Feodor riu e abanou a cabea. - A condessa vai exigir a minha cabea por isto, mademoiselle! E talvez a sua tambm.
       - Eu sei... Talvez o pap... - O pap que intercedia sempre a seu favor, que era sempre to bom e generoso para a me.
       Tratava-se de um homem maravilhoso e a sua filha nica adorava-o.
       - Rpido, Feodor. Tenho de me apressar.
       Passava das sete e tinha de mudar de vestido, antes de se apresentar na sala de jantar. Ele pegou no pequeno animal e Zoya subiu apressadamente os degraus 
de mrmore do pequeno mas belo palcio. Parecia misturar os estilos russo e francs e fora construdo pelo av em homenagem  noiva.
       A av vivia num pavilho do outro lado do jardim, com um pequeno parque seu, mas Zoya no tinha tempo de pensar nela agora.
       Estava com muita pressa. Deslizou rapidamente para o interior, tirou o chapu e entregou o casaco a uma criada que estava por perto. Voou pelas escadas que 
levava ao quarto, mas nesse momento ouviu uma voz atrs das costas.
       - Alto! Quem vai a?
       - Cala-te! - sussurrou furiosa ao irmo, que se mantinha de p ao fundo das escadas. - O que ests a fazer a? - Ele exibia uma figura alta e elegante fardada 
e Zoya sabia que fazia parar o corao  maioria das suas amigas do Smolny. Ostentava as insgnias da famosa Guarda Preobrajenski, mas no se sentia impressionada 
nesse momento. - Onde est a mam? - Mas j sabia, contudo, a resposta sem necessitar de perguntar. 
       - Na sala de jantar, onde  que julgavas? Onde estiveste?
       - Por a. Tenho de me apressar. - Ainda tinha de se mudar e o irmo demorava-a. - Estou atrasada.
       Ele riu, e os olhos verdes, to semelhantes aos seus, emitiam um brilho divertido.
       - Acho melhor ires assim. A mam ficar furiosa se te atrasares mais. 
       Zoya hesitou uns segundos e fixou-o l em baixo.
       - Ela disse alguma coisa?... Viste-a?
       - Ainda no. Cheguei mesmo agora. Queria falar com o pap depois do jantar. Vai mudar-te que eu distraio-os. - O irmo gostava mais dela do que julgava, a 
irmzinha de que se vangloriava ante os amigos, que h anos estavam de olho nela.
       Contudo, t-los-ia morto antes que lhe tocassem. Era uma beleza mas ainda no o sabia e era nova de mais para namoricar. Um dia, casaria com um prncipe, 
ou pelo menos algum to importante como o pai. Ele era um conde e um coronel, um homem que inspirava o respeito e a admirao dos que o conheciam. - Vai l, ferazinha! 
gritou-lhe. - Despacha-te!
       Zoya voou at ao quarto e, passados dez minutos, desceu as escadas com um vestido de seda azul-marinho, de gola rendada.
       Detestava aquela vestimenta, mas sabia que agradava  me. Era um vestido juvenil, muito condigno, e no queria irrit-la ainda mais.
       Tomava-se impossvel aparecer na ombreira da porta da sala de jantar sem atrair as atenes e, quando entrou com um ar submisso e casto, o irmo brindou-a 
com um sorriso malicioso do seu lugar entre a av e a me. A condessa exibia um ar invulgarmente plido num vestido de cetim cinzento com um belo colar de prolas 
negras e diamantes; os olhos eram quase da mesma cor do vestido. Ergueu o rosto devagar e fitou a nica filha com uma expresso triste. 
       - Zoya! - Nunca erguia a voz, mas bastava fit-la para se ver o desagrado. A jovem agentou com firmeza e apressou-se a beijar-lhe a face fria, aps o que 
olhou nervosamente de relance para o pai e a av.
       - Lamento muito, mam... atrasei-me... na aula de hoje de ballet... Tive de ir ver uma amiga... Lamento muito... Eu...
       - Onde estiveste exatamente? - inquiriu a me num tom de voz gelado. O resto da famlia observava a cena.
       - Eu... eu tive de ir... Eu...
       Natalya fixou-a bem nos olhos, enquanto Zoya tentava alisar o cabelo. Ainda dava a sensao de o ter penteado  pressa, o que era verdade.
       - Quero saber a verdade. Foste a Tsarskoie Selo?
       - Eu... - Era intil mentir. A me era demasiado bonita, demasiado assustadora e demasiado controlada. - Sim, mam - anuiu, sentindo-se de novo com sete anos, 
em vez de dezessete. - Lamento.
       - s uma tola! - Os olhos gelados de Natalya brilharam e virou-se com uma expresso infeliz para o marido. - Dei-lhe ordens especficas para no ir, Konstantin. 
Todas as crianas l esto com sarampo e agora ficou exposta. Foi um ato de desobedincia.
       Zoya fixou nervosamente o pai, mas os olhos dele emitiam um brilho de esmeralda idntico ao seu e mal conseguia reprimir um sorriso. Embora amasse a mulher, 
adorava a filha. E desta vez Nicolai intercedeu a favor da irm, o que era invulgar, s que ela parecia to infeliz que sentiu pena.
       - Talvez lhe tivessem pedido que fosse e a Zoya no tivesse conseguido recusar.
       Todavia entre as suas qualidades contava-se a franqueza, e Zoya enfrentou a me, sentada agora no lugar, enquanto esperava que as criadas lhe servissem o 
jantar.
       - Fui eu que quis ir. A culpa foi apenas minha. A Marie tem estado to sozinha.
       - Foi uma idiotice, Zoya. Voltaremos a discutir o assunto depois do jantar.
       - Sim, mam. - Baixou os olhos para o prato e os outros prosseguiram a conversa sem a sua interveno. Um momento depois, ergueu o rosto e, ao descobrir que 
a av estava  mesa, sorriu alegremente. - Ol, av. A tia Alix manda-lhe saudades.
       - Ela est bem? - A pergunta partiu do pai. A me continuava sentada, imersa numa beleza silenciosa e ainda obviamente desagradada com a filha.
       - Est sempre bem quando cuida dos doentes - respondeu a av em seu lugar. -  algo de estranho na Alix. Parece sofrer de todos os males possveis at ser 
requisitada por algum mais doente e depois mostra-se espantosamente  altura. - A idosa condessa deitou um olhar intencional  nora e, em seguida, sorriu orgulhosa 
a Zoya. - A pequena Marie deve ter ficado satisfeita por te ver.
       - Ficou sim, av - confirmou a jovem, agradecida. E acrescentou para tranqilizar a me: - Nem sequer vi as outras.
       Estavam isoladas, algures. At mesmo Madame Virubova est doente concluiu, arrependendo-se de imediato ao ver que a me a olhava, horrorizada.
       - Que estupidez, Zoya... No consigo perceber porque foste at l. Queres apanhar sarampo?
       - No, mam. Lamento mesmo - desculpou-se, embora nada houvesse de pena no seu rosto. S as palavras ecoavam o arrependimento esperado. - No era minha inteno 
atrasar-me tanto. Ia a sair quando apareceu a tia Alix para tomar ch conosco e no quis ser indelicada...
       - Nem devias. Ela , afinal, a nossa imperatriz, alm de nossa prima - interferiu a av, que tinha uns olhos to verdes como os de Zoya, e os do pai e os 
do irmo. S os de Natalya eram de um plido azul-acinzentado, semelhantes a um cu de frio Inverno sem esperana de Vero. A vida sempre lhe exigira demasiado, 
tivera um marido enrgico e robusto que a amava fogosamente e quisera mais filhos do que podia comportar. Dois haviam sido nato-mortos, tivera vrios abortos e Zoya 
e Nicolai eram o resultado de partos difceis. Passara um ano na cama depois de dar  luz cada um deles e agora dormia nos seus prprios aposentos.
       Konstantin adorava os seus amigos e desejara dar inmeros bailes e festas, mas ela achava-os demasiado cansativos e usava a sade dbil como desculpa para 
a falta da alegria de viver e da sua enorme timidez. Dava-lhe um ar de gelado distanciamento, por detrs do qual escondia o fato de as pessoas a atemorizarem, sentindo-se 
muito mais feliz reclinada numa cadeira junto  lareira.
       No entanto, a filha parecia-se muito mais com o pai e, depois de Zoya dar a sua festa de debutante na Primavera, Konstantin ansiava pela perspectiva de a 
ter como companhia nas festas.
       Tinham falado durante muito tempo quanto a abandonarem a idia de um baile e Natalya insistira em que no deviam encar-lo naquele tempo de guerra.
       Contudo, a av de Zoya decidira o assunto por eles e Konstantin ficara muito aliviado. Haveria um baile, mal ela se formasse pelo Instituto Smolny em Junho, 
talvez no um baile to faustoso como seria se no houvesse guerra, mas de qualquer maneira uma festa encantadora.
       - H notcias do Nicolau? - inquiriu Konstantin. - A Marie disse alguma coisa?
       - Nada de significativo. A tia Alix diz que ele regressou da frente, mas acho que vai voltar em breve.
       - Eu sei. Vi-o na semana passada. Mas est bem, no est? Konstantin parecia preocupado, o que no escapou ao olhar do seu esbelto filho.
       Este soube, ento, que o pai devia ter ouvido os mesmos boatos do que ele no aquartelamento, que Nicolau estava exausto e consumido pelo desgaste da guerra. 
Alguns sussurravam mesmo quanto  possibilidade de um esgotamento nervoso. Porm, com a bondade do czar e a sua constante preocupao com todos, era algo quase impensvel. 
Era difcil imaginar que algum pudesse ter um esgotamento ou desistir. Tratava-se de um homem profundamente amado pelos seus companheiros e sobretudo pelo pai de 
Zoya.
       Tal como Zoya e Marie, tinham sido amigos de infncia e era padrinho de Nicolai, que fora batizado com este nome em sua honra; o prprio pai de Nicolau fora 
muito chegado ao pai de Konstantin. O afeto que tinham um pelo outro ultrapassava o sentido familiar; sempre haviam sido muito chegados e espicaavam-se por ambos 
terem casado com alems, embora Alix parecesse ser um pouco mais resistente do que Natalya. Pelo menos, mostrava-se  altura da situao quando necessrio, como 
o fizera a nvel do seu trabalho na Cruz Vermelha, e agora na doena dos filhos.
       Natalya teria sido, por constituio fsica, incapaz de algo no gnero. A velha condessa ficara muito desapontada por o filho no ter desposado uma russa. 
O fato de uma alem ter servido ao czar era apenas um ligeiro conforto.
       - E, a propsito, o que te traz aqui esta noite? - Konstantin virou-se para Nicolai com um caloroso sorriso. Orgulhava-se do filho e agradava-lhe que estivesse 
com a Preobrajenski e no na frente, do que no fazia segredo. No tinha qualquer desejo de perder o seu nico filho. As baixas russas haviam sido elevadas na batalha 
de Tannenberg, no Vero de 1914, devido aos terrveis reveses nos campos gelados da Galcia e queria que Nicolai estivesse bem a salvo em Sampetersburgo. Este era, 
pelo menos, um grande alvio para ele e para Natalya.
       - Queria falar consigo depois do jantar desta noite, pap. Expressava-se num tom calmo e firme e Natalya lanou-lhe um olhar nervoso. Esperava que no tivesse 
nada de inquietante a participar, pois ouvira recentemente a uma amiga que o filho andava envolvido com uma bailarina e teria muito que falar com o pai se ele lhe 
comunicasse que ia casar. - Nada de importante.
       A av observou-o com um olhar perspicaz e soube que o neto mentira sobre a importncia do que quer que tivesse a comunicar ao pai. Estava preocupado com algo, 
suficientemente preocupado para passar uma noite com todos, o que no se coadunava com ele.
       - Na verdade - acrescentou Nicolai, sorrindo para a famlia reunida -, vim assegurar-me de que este monstrinho andava a portar-se devidamente. - Olhou para 
Zoya que lhe correspondeu com uma expresso aborrecida.
       - J sou uma mulher, Nicolai. J no me porto mal. - Comps um ar arrogante e acabou a sobremesa, enquanto o irmo ria  gargalhada.
       - Ah, sim? Imagina s... Ainda h momentos voavas pelas escadas, atrasada como de costume para jantar, com as botas molhadas e parecendo que te tinhas penteado 
com um ancinho... Estava preparadssimo para continuar, e Zoya atirou-lhe um guardanapo, ao mesmo tempo que a me parecia  beira de desfalecer e lanava um olhar 
suplicante ao pai.
       - Manda-os parar, por favor, Konstantin! Pem-me to nervosa!
       -  apenas uma cano de amor, minha querida - interferiu sabiamente a condessa Eugenia. -  a nica forma de dilogo que conhecem nesta altura das suas vidas. 
Os meus filhos estavam sempre a puxar os cabelos e a atirar sapatos uns aos outros. No  verdade, Konstantin? - Ele soltou uma gargalhada e deitou um olhar cmplice 
 me.
       - Receio no ter sido muito bem-comportado quando era jovem, minha querida. - Fitou afetuosamente a mulher, passeou o olhar feliz pela mesa e seguiu o filho 
at uma sala contgua onde podiam falar em privado.  semelhana da mulher, tambm ele esperava que o filho no fosse comunicar-lhes que ia casar.
       Ao sentarem-se tranqilamente junto  lareira, reparou de imediato na bonita cigarreira de ouro que Nicolai tirou do bolso do uniforme. Era um dos modelos 
mais tpicos de Carl Faberg, em rosa e ouro com uma bonita safira. Konstantin tinha quase a certeza de que provinha de Hollming ou Wigstrom.
       - Uma bugiganga nova, Nicolai? - Tal como a mulher, tambm lhe chegara aos ouvidos a histria da alegadamente bonita bailarina.
       - Um presente de uma amiga, pap.
       Konstantin esboou um sorriso indulgente.
       - Mais ou menos o que eu temia - Os dois homens riram e Nicolai franziu o sobrolho. Era jovem mas bastante vivido para a sua idade e tinha um esprito perspicaz 
a somar  aparncia elegante. Era um filho que dava motivos de orgulho.
       - No tem com que se preocupar. Apesar do que possa ouvir, estou apenas a divertir-me um pouco. Nada de srio, garanto-lhe.
       - timo. Ento, o que te trouxe aqui esta noite?
       Nicolai parecia preocupado e desviou os olhos da lareira para o pai.
       - Algo bastante mais importante. Tenho ouvido coisas desagradveis sobre o czar, que est cansado, que est doente e que no devia liderar as tropas. Decerto 
tambm est ao corrente, pai.
       - Estou - anuiu com um lento aceno de cabea e fitando o filho. - Mas continuo a acreditar que no nos deixar ficar mal.
       - Na noite passada, estive numa festa com o embaixador Palologue, que esboou um quadro muito triste. Pensa que os cortes de comida e combustvel so muito 
mais graves do que admitimos, que o desgaste da guerra est a provocar estragos. Estamos a alimentar seis milhes de homens na frente e poucas condies temos de 
cuidar dos nossos aqui. Receia que possamos ir abaixo... que os Russos possam ir abaixo... e o czar Nicolau tambm... e... Ento, pai? Acha que ele tem razo?
       Konstantin pensou demoradamente e, em seguida, abanou a cabea.
       - No, no acho. Acho que todos estamos esgotados e o Nicolau tambm. Contudo, isto  a Rssia, Nicolai, e no um pequeno e fraco pas no meio de nenhures. 
Somos um povo pleno de vigor e fora e, por mais difceis que sejam as condies, no desfaleceremos. Nunca. - Era essa a sua crena, e Nicolai sentiu-se tranqilizado.
       - A Duma volta a reunir-se, amanh. Ser interessante ver o que acontece.
       - Nada acontecer, meu filho. A Rssia  e ser eterna. Certamente o sabes. - Deitou um olhar afetuoso ao filho, que se sentiu melhor.
       - Sei. Talvez apenas precisasse de o ouvir dizer isso.
       - Todos precisamos. Tens de ser forte pelo Nicolau, por todos ns, pelo teu pas. Todos temos de ser fortes agora e os bons tempos regressaro. A guerra no 
pode durar eternaMente.
       -  uma coisa horrvel. - Ambos estavam conscientes da gravidade das baixas. Contudo, nada disso implicava necessariamente um fim ao que lhes era querido. 
Agora que pensava no assunto, Nicolai sentia-se idiota pela preocupao que o dominara. S que o embaixador francs se mostrara to convincente com as suas previses. 
Ainda bem que decidira falar com o pai. A me anda bem? - Nicolai achara-a mais nervosa do que o habitual, ou talvez o fato se devesse a v-Ia agora com menos freqncia, 
mas Konstantin limitou-se a sorrir.
       - Tambm anda preocupada com a guerra... e contigo... e comigo... e com a Zoya... Ela d que pensar.
       - Mas est muito bonita, no est? - Referia-se a Zoya com um entusiasmo e uma admirao que negaria com veemncia se algum o dissesse  irm. - Metade do 
meu regimento parece estar apaixonado por ela. Passo a maior parte do tempo a ameaar mat-los.
       O pai sorriu e depois abanou a cabea com uma expresso triste.
       -  uma pena que ela tenha de fazer o seu dbut em tempo de guerra. Talvez tudo esteja terminado em Junho. - Era uma esperana que ambos partilhavam, mas 
que Nicolai receava no ser provvel.
       - Tem algum em mente para ela? - inquiriu, curioso, Nicolai, que achava que vrios dos seus amigos poderiam dar timos pretendentes.
       - No consigo s portar a idia de perd-la. Suponho que  um disparate.  demasiado viva para ficar entre ns muito mais tempo. A tua av tem o prncipe Orlov 
em elevada considerao.
       -  velho de mais para ela. - Ultrapassara os trinta e cinco anos e Nicolai franziu defensivamente o sobrolho ante a idia.
       De fato, no tinha a certeza de que algum fosse suficientemente bom para a sua irmzinha.
       Konstantin levantou-se, sorriu ao filho e deu-lhe uma pequena palmada no ombro.
       - Acho melhor voltarmos. Se no o fizermos, a tua me ficar preocupada. - Saram da sala, e Konstantin rodeou os ombros do filho com o brao. Quando se juntaram 
s senhoras numa das salas de estar mais pequenas, Zoya implorava algo  me.
       - Ento, o que fizeste agora, monstrinho? - Nicolai riu ante a expresso no rosto da irm e apercebeu-se de que a av virara costas para dissimular um sorriso. 
Natalya denotava uma palidez de morte e o rosto de Zoya estava corado de raiva quando fitou o irmo.
       - No te metas nisto!
       - O que h, mida? - Konstantin parecia divertido, at deparar com a expresso de censura no rosto da mulher. Ela achava-o demasiado brando em relao  filha.
       - Ao que parece - replicou a condessa num tom irritado -, a Alix deu-lhe um presente ridculo e no quero de forma alguma que o conserve.
       - Do que se trata, Deus do cu? Das suas famosas prolas? Aceita-as, querida, podes sempre us-las. - Konstantin estava de bom humor depois da conversa com 
Nicolai, e os dois homens trocaram um olhar cmplice por cima da cabea das mulheres.
       - No  nada divertido, Konstantin, e espero que lhe digas exatamente o que eu disse. Tem de livrar-se imediatamente do presente.
       - Do que se trata? De peste? Uma cobra treinada? - troou Nicolai.
       - No.  um dos filhotes da Joy. - Lgrimas brilhavam nos olhos de Zoya, que fitou o pai, suplicante. - Por favor, pap... Se prometer ser eu a cuidar dela 
e nunca a perder de vista, nem deixar que saia do meu quarto e a conservar afastada da mam... Por favor... - Lgrimas tremulavam nos seus olhos e tocaram no corao 
do pai, enquanto Natalya percorria a sala de um lado para o outro, com os olhos semelhantes ao brilho de diamantes.
       - No! Os ces so portadores de doenas! E todos sabem perfeitamente como a minha sade  delicada! - Estava longe de parecer frgil nesse momento, enquanto 
se mantinha no meio da sala, a imagem perfeita da fria. Konstantin recordou-se de como se sentira atrado por ela da primeira vez que a vira, mas sabia tambm que 
Natalya no era uma mulher fcil.
       - Talvez se viver na cozinha... talvez nesse caso... - Deitou um olhar esperanado  mulher, quando ela avanou para a porta e a abriu.
       - Acabas sempre por lhe satisfazer os caprichos, no , Konstantin?
       - Querida... no  um animal grande.  muito pequeno.
       - E tm mais dois e um gato, e o filho est sempre s portas da morte. - Referia-se, obviamente, ao mau estado de sade crnico de Alexis.
       - No tem nada a ver com os ces. Talvez a av no se importe de ficar com a cadelinha em casa... - Olhou, esperanado, para a me e ela sorriu, intimamente 
satisfeita com aquela tempestade.
       Era mesmo de Alix, oferecer um co a Zoya, sabendo como iria enfurecer a me. Existira sempre uma secreta rivalidade entre as duas mulheres, mas Alexandra 
era, afinal, a czarina.
       - No me importo nada - ofereceu-se a condessa mais velha.
       - Muito bem. - Konstantin sentia que encontrara a soluo perfeita, mas a porta bateu ruidosamente e sabia que s voltaria a ver a mulher na manh seguinte.
       - E  com este final feliz que vou voltar ao meu pacfico aquartelamento - replicou Nicolai, sorrindo e esboando uma vnia formal  av.
       - V l se voltas mesmo - vincou a av com um sorriso mal dissimulado e soltando uma risada quando ele lhe desejou as boas-noites. - Ouvi dizer que ests 
a tornar-te um estrina, meu querido.
       - No acredite em tudo o que ouve. Boa noite, av. Despediu-se, beijando-a nas duas faces e tocou ao de leve no ombro do pai. - E, quanto a ti, ferazinha... 
- Abraou carinhosamente a jovem ruiva quando a beijou e ela fitou-o com igual afeto. Porta-te bem. E tenta no apareceres em casa com mais animais de estimao. 
Vais enlouquecer a me.
       - Ningum te encarregou do sermo! - retorquiu e depois voltou a beij-lo. - Adeus, rapaz terrvel.
       - No sou um rapaz. Sou um homem, embora no saibas a diferena.
       - Saberia, se visse algum.
       Acenou-lhes da porta com uma expresso divertida e em seguida desapareceu, com toda a probabilidade para fazer uma visita  sua pequena bailarina.
       - Que jovem encantador, Konstantin. Recorda-me muito como tu eras - declarou, orgulhosa, a velha condessa, enquanto o filho sorria e Zoya se atirava para 
uma cadeira, com uma expresso contrariada.
       - Por mim, acho-o simplesmente um horror.
       - Ele fala de ti de uma forma muito mais carinhosa, Zoya Konstantinovna - replicou o pai sem erguer a voz. Orgulhava-se dos filhos e amava-os profundamente. 
Inclinou-se para a beijar na face e depois esboou um sorriso calmo  me. - Vai mesmo ficar com a cadelinha, mam? - perguntou  condessa Eugenia. - Temo que a 
Natalya nos corra a todos de casa, se insistir mais. - Abafou um suspiro. Havia alturas em que gostaria que a mulher fosse de trato um pouco mais fcil, sobretudo 
quando a me estava a olhar e julgando em silncio. Contudo, h muito que Eugenia Ossupov formara a sua opinio da nora e provavelmente nada que Natalya fizesse 
agora a mudaria.
       - Claro. Gostaria de ter uma amiguinha.
       - Virou-se para Zoya com um ar zombeteiro e inquiriu: - Qual dos ces deles  o progenitor? O Charles do jovem czar Alexis ou o buldogue francs da Tatiana?
       - Nenhum deles, av.  filha da Joy, a cocker spaniel da Marie.  to querida. E chama-se Sava. - Zoya parecia contentssima; assemelhava-se a uma criana 
quando se sentou junto aos joelhos da av, e a mulher idosa pousou uma mo anquilosada mas amiga nos seus ombros.
       - Pede-lhe apenas que no batize o meu tapete favorito, o Aubusson, e seremos grandes amigas, garanto. - Acariciou o cabelo ruivo e revolto que caa sobre 
os ombros de Zoya. Desde criana que a jovem sempre adorara o toque das mos da av. Soergueu-se e beijou-a.
       - Obrigada, av. Queria tanto ficar com ela.
       - E ficars, pequenina... ficars. - Levantou-se e dirigiu-se vagarosamente at junto do fogo, sentindo-se cansada mas em paz, enquanto Zoya ia buscar a cadelinha 
aos criados.
       A condessa virou-se para Konstantin e teve a sensao de que apenas haviam passado momentos desde que ele fora da idade de Nicolai e muito, muito mais novo. 
Os anos pareciam voar to rapidamente, mas haviam sido generosos. O marido levara uma vida em pleno. Morrera trs anos antes com oitenta e nove e sempre se sentira 
abenoada por t-lo amado. Agora, Konstantin parecia-se com ele e recordava-lhe momentos felizes passados, sobretudo ao v-lo junto de Zoya.
       - Ela  uma rapariguinha encantadora, Konstantin Nicolaevich... uma bela rapariguinha.
       - Parece-se muito consigo, mam.
       Eugenia abanou a cabea, mas o filho apercebeu-se pelo brilho dos olhos de que estava de acordo. Havia altura em que se identificava muito com a jovem e sentia-se 
sempre contente por Zoya ter to pouco a ver com, a me. Mesmo quando desobedecia  me, a condessa achava uma coisa fantstica e h muito sentira que era um sinal 
do seu prprio sangue a correr nas veias de Zoya, o que ainda mais aborrecia Natalya.
       - Ela  algo de novo...  ela prpria. No devemos sobrecarreg-la com os nossos erros e falhas.
       - Em que  que falhou? Sempre foi boa para mim, mam... para todos ns... - Era uma mulher respeitada e de quem se gostava.
       Uma mulher com objetivos e valores slidos. Conhecia-lhe a sabedoria e apoiava-se nas suas inmeras e sensatas opinies.
       - Aqui est ela, av! - Zoya reaparecera com a cadelinha nos braos, que era pouco maior do que as suas mos, e a condessa pegou-lhe. - No  um amor?
       -  maravilhosa... e continuar a ser at roer o meu melhor chapu ou os meus sapatos favoritos... Mas no, por favor, meu Deus, o meu tapete Aubusson favorito. 
E se o fizeres acrescentou, acariciando a cabea da cadelinha, como o fizera ao cabelo de Zoya, momentos antes -, transformo-te em sopa. Lembra-te disso. - A pequena 
Sava ladrou, como que a responder. - Alix foi muito simptica em dar-ta, mida. Espero que lhe tenhas agradecido devidamente.
       - Ela estava com bastante receio que a mam ficasse zangada confessou a neta com uma risada e tapando a boca num gesto gracioso.
       A av soltou uma risada e Konstantin esforou-se por conter um sorriso, em deferncia para com a mulher.
       - Ela conhece muito bem a tua me, verdade, Konstantin? Olhou-o bem no fundo, levando-o a entender cada palavra.
       - A fragilidade fsica da Natalya no lhe tem facilitado as coisas nos ltimos tempos. Talvez eventualmente... - Tentava defend-la.
       - Deixa l, Konstantin. - A condessa esboou um gesto impaciente, apertou mais a cadelinha de encontro ao peito e deu um beijo de boas-noites  neta. - Vem 
ver-nos amanh, Zoya. Ou tencionas voltar a Tsarskoie Selo? Irei contigo um destes dias fazer uma visita a Alix e s crianas.
       - Enquanto estiverem doentes, no, mam, por favor... e a viagem ser extenuante para si com este tempo.
       - No sejas pateta, Konstantin - replicou a me com uma sonora gargalhada. - Tive sarampo h quase cem anos e nunca me preocupei com o tempo. Sinto-me bastante 
bem, muito obrigada, e tenciono manter-me assim pelo menos mais uma dzia de anos, ou talvez mais. E sou suficientemente m para o conseguir.
       - timas notcias - retorquiu o filho a sorrir. - Vou acompanh-la ao pavilho.
       - No sejas pateta. - Recusou com um gesto e Zoya foi buscar-lhe a capa e tapou-lhe os ombros. - Ainda sou capaz de atravessar o jardim. Fao-o vrias vezes 
por dia.
       - Ento, no me retire o prazer de acompanh-la, madame.
       Eugenia sorriu-lhe, vendo-o de novo como criana, pelo menos no seu corao, onde permaneceria um rapazinho para sempre, enquanto ela vivesse.
       - Sendo assim, muito bem, Konstantin. Boa noite, Zoya.
       - Boa noite, av. E obrigada por ficar com a Sava. - A idosa senhora deu-lhe um beijo afetuoso e Zoya subiu as escadas at ao quarto cor de malva. Eles saram 
para o ar frio.
       Zoya bocejou e sorriu ao pensar na cadelinha que Marie e a me dela lhe tinham oferecido. Fora um dia fantstico. Fechou suavemente a porta do quarto e prometeu 
a si prpria que voltaria a Tsarskoie Selo dentro de um ou dois dias. Mas entretanto teria de pensar em algo de maravilhoso para levar a Mashka.
       
CAPTULO 3
       
       Dois dias mais tarde, Zoya estava a planear voltar a Tsarskoie Selo para fazer uma visita a Marie, mas em vez disso chegou uma carta nessa manh, antes do 
pequeno-almoo. Foi entregue pelo prprio Dr. Fedorov, o mdico de Alexis, que viera  cidade buscar mais remdios e trouxera a desagradvel notcia de que tambm 
Marie tinha cado  cama com sarampo.
       Zoya leu o bilhete com tristeza. No s significava que no podia visit-la, como tambm que talvez deixassem de se ver durante semanas, pois o Dr. Fedorov 
declarou que as visitas estavam proibidas por uns tempos, at se observar a evoluo da doena. Anastasia estava a sofrer de problemas de ouvidos como resultado 
do sarampo e o jovem Alexis apanhara uma pneumonia.
       - Oh, meu Deus... - gemeu Natalya. - E tu tambm estiveste exposta. Tinha-te proibido que fosses e expuseste-te... Como foste capaz de me fazer uma coisa 
destas? Como te atreveste!
       Estava quase histrica com o pensamento da doena que Zoya podia ter inadvertidamente trazido para casa, e Konstantin chegou a tempo de ver a mulher desmaiar, 
mandando rapidamente a criada ao andar de cima buscar os sais. Tinha-lhe encomendado, para os colocar, uma embalagem especial Faberg, em forma de um grande morango 
vermelho incrustado de diamantes, que ela conservava sempre por perto, na mesa-de-cabeceira.
       O Dr. Fedorov teve a gentileza de ficar o tempo suficiente para examinar Natalya no andar superior, enquanto Zoya escrevia um breve bilhete  amiga. Desejava-lhe 
uma rpida convalescena para poderem voltar a estar juntas e assinou-o em seu nome e no de Sava, que regara generosamente o tapete Aubusson na noite anterior. Contudo, 
a av ficara mesmo assim com a cadelinha, embora ameaando transform-la em sopa, se no se portasse melhor.
       "... Gosto muito de ti, minha queridssima amiga. Agora, pe-te boa depressa para que possa ir visitar-te." Mandou-lhe dois livros, um deles, Os Bebs de 
Helen, que lera com agrado h umas semanas e que de qualquer maneira tencionava oferecer-lhe.
       Acrescentou um post scriptum, avisando Mashka de que no se servisse disso como desculpa para fazer novamente batota no tnis, como ambas haviam feito no 
Vero passado, quando tinham jogado no Livadia com duas das irms de Marie. Era o jogo favorito de ambas e Marie superava as outras, embora Zoya ameaasse sempre 
venc-la.
       "... Irei ver-te, mal a tua me e o doutor me deixarem. De todo o corao, a tua querida Zoya ..."
       Nessa tarde, Zoya viu de novo o irmo, o que, pelo menos, a distraiu e, enquanto esperavam o regresso do pai a casa, ele levou-a a dar uma volta na trica 
da me. Esta no sara do quarto o dia inteiro, to transtornada se sentia com a notcia de que Marie apanhara sarampo e Zoya se expusera inadvertidamente. Zoya 
sabia que era bem possvel que no aparecesse durante dias e ficou contente ante o divertimento proporcionado pelo irmo.
       - Porque vieste ver outra vez o pap? Passa-se alguma coisa, Nicolai?
       - No sejas tonta. Porque havia de passar-se? s mesmo Pateta.
       "Contudo, esperta tambm." Ficou espantado ao ver como a irm sabia instintivamente que. ele viera falar com Konstantin, porque estava preocupado. No dia 
anterior, quando a Duma se reunira, Alexandre Kerenski fizera um discurso terrvel que inclua um incitamento a assassinar o czar e Nicolai comeava a temer que 
algo do que o embaixador Palologue dissera fosse verdade.
       Talvez a situao estivesse pior do que julgavam e o povo se sentisse mais revoltado com as faltas do que suspeitavam. Sir George Buchanan, o embaixador britnico, 
afirmara o mesmo antes de partir para a Finlndia numa licena de dez dias. Nicolai ouvira muitas coisas nesses ltimos dias, sentia-se preocupado, e estava ansioso 
por escutar a opinio do pai.
       - S apareces de visita quando algo vai mal, Nicolai pressionou Zoya. Seguiam a toda a velocidade pela bonita Avenida Nevski. Havia neve cada de fresco no 
cho e nunca parecera mais bonita, mas Nicolai continuava obstinadamente a insistir que estava tudo bem e, embora a invadisse uma estranha sensao de medo, resolveu 
acreditar no irmo.
       - Mas que comentrio encantador, Zoya. E, alm disso, no  verdade. E indo direto ao assunto,  verdade que voltaste a perturbar a mam? Ouvi dizer que est 
de cama por tua causa e teve de ser vista duas vezes pelo mdico.
       - Foi s porque o doutor Fedorov lhe disse que a Mashka est com sarampo - retorquiu Zoya, encolhendo os ombros e com um sorriso travesso.
       - E s tu a seguir? - Nicolai sorriu-lhe e ela correspondeu.
       - No sejas parvo. Nunca adoeo.
       - No tenhas tantas certezas. No tencionas voltar l, no  verdade? - Por um instante, pareceu preocupado, mas ela abanou a cabea com uma expresso de 
desapontamento infantil.
       - No me deixaro. Ningum pode visit-los, agora. E a pobre Anastasia tem uma horrvel dor de ouvidos.
       - Em breve todos estaro bons e poders voltar.
       Zoya esboou um aceno de cabea e depois sorriu.
       - A propsito, Nicolai, como est a tua bailarina?
       O irmo sobressaltou-se e puxou-lhe uma madeixa de cabelo ruivo que se escapara para fora do gorro de pele.
       - O que te leva a pensar que tenho uma "bailarina"?
       - Toda a gente sabe, idiota... como sabiam da do tio Nicolau antes de ele se casar com a tia Alix. - Podia falar abertamente com ele; era, afinal, seu irmo, 
mas Nicolai desviou os olhos, chocado. Embora a irm no tivesse papas na lngua, esperava um pouco de decoro da sua parte.
       - Zoya! Como podes falar dessas coisas!
       - Posso dizer-te o que me apetecer. Como  ela? Bonita?
       - No  nada! Simplesmente no existe.  isso que te ensinam no Smolny?
       - No me ensinam nada - replicou, jovial. "Salvo uma tima educao como ele recebera antes no Corpo Imperial dos Pajens, o colgio militar para os filhos 
de nobres e oficiais superiores." Alm disso, estou quase a acabar.
       - Imagino que ficaro contentssimos por te ver pelas costas, minha querida. - Zoya encolheu os ombros e ambos riram. Por instantes, Nicolai julgou que a 
irm desistira, mas ela era mais persistente do que julgara e dirigiu-se-lhe com um sorriso malicioso.
       - Continuas sem me falar da tua amiga, Nicolai...
       - s uma rapariga horrvel, Zoya Konstantinovna.
       A jovem soltou uma risada e ele conduziu-a devagar a casa, regressando ao palcio onde viviam em Fontanka, e nessa altura o pai j tinha chegado. Fecharam-se 
os dois  chave na biblioteca de Konstantin, que dava para o jardim. Estava cheia de belos livros encadernados a cabedal e objetos que o pai colecionara ao longo 
dos anos, sobretudo as peas de malaquite de que tanto gostava.
       Havia tambm uma coleo de preciosos ovos da Pscoa Faberg que Natalya lhe oferecia todos os anos, idnticos aos que o czar e a czarina trocavam em ocasies 
importantes. De p, encostado  janela e ouvindo o filho, Konstantin observava Zoya saltitando pela neve, a fim de ir visitar a av e Sava.
       - Ento o que acha, pai? - Quando Konstantin se virou novamente de frente para o filho, compreendeu que Nicolai estava preocupadssimo.
       - No me parece que isso signifique seja o que for. E mesmo que haja uma certa agitao nas ruas, o general Khabalov estar  altura, Nicolai. No h motivo 
para receios. - Sorriu, satisfeito por o filho se preocupar tanto com o bem-estar da cidade e do pas. - Est tudo em ordem. Mas no prejudica estar alerta.  o 
dever de um bom soldado. - E o filho era-o, tal como ele nos seus tempos de juventude e o pai antes dele. Se pudesse, o prprio Konstantin estaria na frente, mas 
era demasiado velho, por mais que amasse o seu primo, o czar, e o pas.
       - O discurso do Kerenski  Duma no o preocupa, pai? O que ele est a sugerir  traio!
       - Mas ningum pode tomar isso a srio, Nicolai. Ningum vai assassinar o czar. No se atreveriam. Alm disso, o Nicolau  experiente bastante para se manter 
bem protegido. Penso que corre muito mais perigo em casa neste momento, com um bando de filhos e criados carregados de sarampo... - Sorriu meigamente. - ... do que 
nas mos do seu povo. De qualquer maneira, vou telefonar ao embaixador Buchanan quando ele voltar e falar-lhe pessoalmente, se ele est assim to preocupado. Gostaria 
de ouvir a sua opinio sobre o assunto e tambm a do Palologue. Quando o Buchanan voltar de frias, combino um almoo com eles e sers obviamente bem-vindo. - Pretendia 
acima de tudo incentivar a carreira do filho.
       Nicolai era um rapaz inteligente e tinha um brilhante futuro pela frente.
       - Fiquei melhor depois de ter falado consigo, pai. - Todavia, desta vez os seus medos no foram assim to facilmente apaziguados e, quando saiu de casa, continuava 
com uma impresso de perigo iminente. Sentiu-se tentado a ir at Tsarskoie Selo e reunir-se em privado com o primo, mas, pelo que ouvira sobre o quanto o czar estava 
cansado e preocupado com o filho, sabia que a altura no era a mais apropriada.
       Uma semana mais tarde, a 8 de Maro, o czar Nicolau partiu de Sampetersburgo para regressar  frente, a oitocentos quilmetros, em Mogilev. E, nesse mesmo 
dia, verificou-se o primeiro sinal de revolta nas ruas, quando a fila para o po se transformou em gente raivosa que abriu caminho at s padarias, gritando: "Dem-nos 
po!" Ao pr do Sol, um esquadro de cossacos apareceu para impor a ordem. E, mesmo assim, ningum parecia preocupado. O embaixador Palologue foi mesmo a ponto 
de organizar uma enorme festa. Estavam presentes o prncipe e a princesa Gorchakov, o conde Tolstoi, Alexandre Benois e o embaixador espanhol, o marqus de Villasinda.
       Natalya continuava a sentir-se indisposta, insistira que no podia sair de casa e Konstantin no queria deix-la. Ficou satisfeito por no terem comparecido, 
quando no dia seguinte ouviu dizer que os revoltosos haviam virado um eltrico na orla da cidade. Na generalidade, ningum parecia, contudo, alarmado.
       E, como que para tranqilizar todos, o dia seguinte amanhecera luminoso e soalheiro. A Avenida Nevski abarrotava de gente, mas as pessoas pareciam bastante 
felizes e as lojas estavam abertas. Havia cossacos por perto, de olhar atento ao que se passava, mas pareciam de boas relaes com o povo. Porm, no sbado, 10 de 
Maro, verificou-se um saque inesperado e vrias pessoas morreram em motins.
       Nessa noite, os Radziwill preparavam-se, contudo, para dar uma faustosa recepo. Era como se todos desejassem fingir que no estava a acontecer nada. Tornava-se, 
porm, difcil ignorar os relatos de tumulto e desordem.
       Gibbes, o tutor ingls de Marie, trouxe a Zoya uma carta de Mashka e ela quase se lhe atirou de braos abertos, mas ficou desconsolada ao ler que Marie se 
sentia pessimamente e que Tatiana tambm estava com problemas de ouvidos. Mas pelo menos Baby sentia-se um pouco melhor.
       - A pobre tia Alix deve andar to cansada - disse Zoya  av nessa tarde, sentada na sua sala de estar e com a pequena Sava ao colo. - Sinto-me to ansiosa 
por voltar a ver a Marie, av. - H dias que estava inativa, pois a me tinha insistido em que no fosse s aulas de ballet por causa dos problemas na rua e, desta 
vez, o pai apoiara a ordem.
       - Tem um pouco de pacincia, minha querida - incitara a av.
       - Decerto no queres andar agora pelas ruas com toda essa gente infeliz e cheia de fome.
       -  assim to mau para elas, av? - Era uma situao difcil de imaginar no meio de todo o luxo de que usufruam. Sentia um peso no corao s de pensar em 
pessoas to desesperadamente esfomeadas. - Gostava que pudssemos dar-lhes algo do que temos. Levavam uma vida to confortvel e fcil que lhe parecia uma crueldade 
todas aquelas pessoas com frio e fome  sua volta.
       - Todos o desejamos por vezes, mida. - Os velhos olhos brilhantes afundaram-se nos seus. - A vida nem sempre  justa. H muitas, muitas pessoas que nunca 
tero o que para ns  uma garantia diria: roupas quentes, camas macias, comida em abundncia... para j nem falar de frivolidades como frias, festas e belos vestidos.
       - Tudo isso est mal? - Zoya parecia sobressaltada com a idia.
       - Claro que no. Trata-se, contudo, de um privilgio e nunca devemos esquec-lo.
       - A mam diz que eles so gente vulgar e no apreciariam o que temos.  verdade?
       Eugenia fitou-a com uma ironia irritada, surpreendida por a nora ser ainda to cega e idiota.
       - No sejas ridcula, Zoya. Achas que algum se oporia a uma cama quente, o estmago cheio, um belo vestido ou uma bela trica? S se fossem terrivelmente 
estpidos. - A neta no acrescentou que a me tambm o afirmara, pois compreendia que no era assim.
       - Sabe, av?  triste que no conheam o tio Nicolau, a tia Alix, o Baby e as meninas. So pessoas to boas, que ningum se irritaria com eles se os conhecesse. 
- Era uma afirmao sensata e, no entanto, incrivelmente simplista.
       - O problema no est neles, querida... mas apenas nas coisas que defendem.  extremamente difcil para as pessoas, que se encontram do outro lado das janelas 
do palcio, lembrarem-se de que as pessoas l dentro tm desgostos e dificuldades. Ningum saber quanto o Nicolau se importa com todos eles, quanto sofre com os 
seus males e como sentiu o corao partido ante a doena do Alexis. Nunca sabero, nem vero... tambm me faz sentir triste. O pobre carrega fardos to pesados. 
E agora est de volta  frente. Deve ser difcil para a Alix. Espero que as crianas melhorem depressa para que possa ir visit-las.
       - Tambm quero ir. Contudo, o pap no me deixa pr um p fora de casa. Vou levar meses a pr-me em dia com Madame Nastova.
       - Claro que no levars. - Eugenia observava-a e tinha a sensao de que ela ia ficando mais bonita  medida que se aproximava o dia em que faria dezoito 
anos. Era uma jovem graciosa com a cabeleira ruiva flamejante, os enormes olhos verdes, as pernas encantadoras e uma cintura que podia apertar-se com as duas mos. 
Tratava-se de uma beleza de cortar a respirao.
       - Isto  um tdio, av! - retorquiu, girando sobre um dos ps, e Eugenia riu-se.
       - No ests propriamente a elogiar-me, querida. Durante muito tempo, houve muitas pessoas que me acharam aborrecida, mas nunca ningum o disse de uma forma 
to direta.
       - Desculpe. - Zoya riu. - No me referia a si. Referia-me a estar presa aqui. E nem mesmo o estpido do Nicolai veio fazer uma visita hoje.
       Contudo, nessa mesma tarde, vieram a saber porqu. O general Khabalov tinha pendurado cartazes enormes por toda a cidade, avisando que as assemblias e encontros 
pblicos passavam a ser proibidos e os grevistas tinham de voltar aos seus empregos no dia seguinte. Qualquer oposio implicaria o imediato recrutamento e envio 
para a frente, mas ningum prestara ateno aos cartazes.
       Grandes quantidades de manifestantes atravessaram as pontes do Neva vindos de Vyborg at  cidade e, s quatro e meia dessa tarde, surgiram os soldados e 
comearam a disparar na Avenida Nevski em frente do Palcio Anitchkov. Cinqenta pessoas. foram abatidas e, horas depois, morreram mais duzentas e gerou-se uma sbita 
revolta entre os soldados. Uma companhia da Guarda Pavlovski recusou disparar e matou em vez disso o oficial no comando. Verificou-se o pandemnio e houve que chamar 
a Guarda Preobrajenski para os desarmar.
       Konstantin foi informado nessa noite e desapareceu durante horas, tentando inteirar-se do que estava a passar-se noutros locais e desejando certificar-se 
de que Nicolai tinha razo. Sentiu-se repentinamente envolto numa onda de pnico por saber que o filho corria perigo.
       Todavia, s conseguiu descobrir que os elementos da Guarda Pavlovski tinham sido desarmados com muito poucas baixas. "Muito poucas" pareceu-lhe de repente 
demasiadas e voltou a casa  espera de notcias. No regresso, avistou luzes nos Padziwill e questionou-se sobre a loucura de uma cidade que continuava a danar, 
enquanto pessoas eram assassinadas. Interrogou-se tambm sobre se Nicolai tivera razo ao mostrar-se to preocupado quanto ao futuro.
       Konstantin estava agora ansioso por falar com Palologue e resolveu fazer-lhe uma visita na manh seguinte. Foi s, porm, quando virou para Fontanka e avistou 
os cavalos no exterior da sua prpria casa que sentiu um peso no corao e o desejo de fugir. Um terror repentino apoderou-se de todo o seu corpo e incitou os cavalos.
       Havia, pelo menos, uma dzia de elementos da Guarda Preobrajenski c fora, gritos e correrias, e transportavam algo ao mesmo tempo que ouviu um grito escapar-lhe 
dos prprios lbios e abandonou Feodor e a trica quase antes de pararem.
       "Oh, meu Deus... oh meu Deus ...", exclamava intimamente e depois viu-o. Transportado por dois homens, o sangue espalhava-se pela neve. Era Nicolai.
       - Oh, meu Deus... - As lgrimas corriam pelas faces de Konstantin, quando se precipitou para diante e perguntou: Est vivo?
       Um dos homens mirou Konstantin e esboou um aceno de cabea.
       - Ainda - sussurrou. O jovem fora alvejado sete vezes por um dos elementos da Guarda Pavlovski, por um dos dele... um dos homens do czar... mas mostrara-se 
destemido e abatera o outro homem.
       - Tragam-no para dentro... depressa... - gritou a Feodor, que apareceu ao seu lado. - Vai buscar j o mdico da minha mulher - rugiu, enquanto os jovens guardas 
o observavam, impotentes. Sabiam que no havia nada a fazer e fora por esse motivo que o haviam trazido para casa.
       Nicolai fitou o pai com olhos vtreos, mas reconheceu-o e sorriu. Parecia novamente uma criana quando Konstantin o agarrou nos braos robustos e o levou 
para dentro de casa.
       Pousou-o no sof forrado do trio de entrada, e os criados acorreram, pressurosos.
       - Tragam ligaduras... lenis... depressa. Arranjem gua quente. - No tinha idia do que faria com tudo aquilo, mas tinha de se fazer algo. Algo... o que 
quer que fosse... tinham de o salvar. Era o seu filho, haviam-no trazido para morrer em casa e no permitiria que isso acontecesse. Tinha de agir antes que fosse 
tarde de mais e sentiu repentinamente uma mo firme a afast-lo e viu a sua prpria me tomando a cabea do rapaz e inclinando-se para lhe beijar a testa.
       - Tudo bem, Nicolai. A av est aqui contigo... e a tua me e o teu pai...
       As trs mulheres tinham comeado a jantar sem esperarem por Konstantin, e Eugenia pressentira logo o que acontecera ao ouvir os homens entrarem. O resto dos 
guardas conservavam-se pouco  vontade no trio e soou um grito horrvel quando Natalya avistou o filho e desmaiou na ombreira da porta.
       - Zoya! - chamou Eugenia e a jovem correu para o seu lado, enquanto Konstantin se mantinha a ver o sangue do filho correr pelo cho de mrmore e ensopar lentamente 
o tapete. Viu como Zoya tremia ao corresponder ao apelo da av, ajoelhando junto ao irmo. Tinha o rosto da cor da cal e agarrou-lhe suavemente na mo.
       - Nicolai... - sussurrou. - Amo-te... Sou eu, a Zoya...
       - O que ests a fazer aqui? - A voz dele mal se ouvia e Eugenia apercebeu-se, ao olh-lo, que ele j no as via.
       - Zoya - ordenou num tom de general que comanda os seus homens -, rasga o meu saiote... depressa... - De comeo com suavidade, a jovem puxou as saias da av, 
mas, ante a voz de comando, redobrou a fora e, quando a av se liberrou da roupa, Zoya rasgou-a em tiras e ficou a observ-la a ligar as feridas do irmo. A av 
tentava deter a hemorragia, mas era tarde de mais e Konstantin chorava e ajoelhou-se para o beijar.
       - Pap?... Ests a, pap? - Parecia novamente to jovem.
       - Pap... amo-te... Zoya... s boa rapariguinha...
       Sorriu-lhes e morreu nos braos do pai. Konstantin beijou-lhe os olhos e fechou-os com suavidade. Chorava desabaladamente, abraando o filho que tanto amara, 
com o colete ensopado pelo seu sangue. Zoya mantinha-se lavada em lgrimas ao seu lado, e as mos de Eugenia tremiam, sem, contudo, o desprender. Depois, virou-se 
devagar e fez sinal aos homens para que os deixassem a ss com o seu desgosto.
       Nesse momento chegou o mdico e tentava reanimar Natalya, que continuava inerte na ombreira da porta. Levaram-na at aos seus aposentos no andar superior 
e Feodor manteve-se ali, com as lgrimas correndo livremente, enquanto um grito de lamento percorreu o trio. Todos os criados haviam acorrido... tarde de mais para 
o socorrer.
       - Anda, Konstantin. Tens de deixar que o levem para cima Eugenia afastou meigamente o filho e conduziu-o at  biblioteca, onde o sentou numa cadeira e lhe 
serviu um brande.
       Nada podia dizer para minorar a dor e nem sequer tentou. Fez sinal a Zoya para que se mantivesse por perto e, ao dar-se conta da palidez da neta, forou-a 
a beber um gole do brande do seu prprio copo.
       - No, av... no... por favor... - Engasgou-se com os vapores, mas a av forou-a a beber e depois virou-se novamente para Konstantin.
       - Ele era to jovem... Meu Deus... meu Deus... mataram-no... - Abraou-o, enquanto ele se balouava na cadeira para trs e para a frente, chorando o seu filho 
nico.
       Zoya lanou-se subitamente nos seus braos, agarrando-o como se ele fosse o seu nico apoio no mundo e s conseguia pensar naquela tarde em que chamara "idiota" 
a Nicolai... e agora ele estava morto... o seu irmo estava morto... Fitou o pai, horrorizada.
       - O que est a acontecer, pap?
       - No sei, pequenina... Mataram o meu filho... - Agarrou-a com fora, enquanto ela chorava nos seus braos, e um pouco depois levantou-se e deixou-a aos cuidados 
da av. - Leve-a para casa consigo, mam. Tenho de ir ver como est a Natalya.
       - Est bem - respondeu Eugenia, muito mais preocupada com o filho do que com a idiota da mulher. Receava que a perda de Nicolai o destrusse. Estendeu a mo, 
tocou-lhe novamente e ele fitou-a bem nos olhos, uns olhos de grande sabedoria e que exibiam um incomensurvel desgosto.
       - Oh, mam! - exclamou e abraou-a longamente, ao mesmo tempo que Eugenia estendia a mo e inclua Zoya naquele abrao.
       Depois, Konstantin soltou-se devagar e subiu as escadas que levavam aos aposentos da mulher. Zoya deixou-se ficar no trio, seguindo-o com o olhar. O sangue 
de Nicolai tinha sido lavado do cho de mrmore, o tapete fora retirado e ele jazia, silencioso e frio, na sala onde vivera desde a juventude. Nascera e morrera 
ali no breve espao de vinte e trs anos e com ele desaparecia um mundo que todos conheciam e amavam.
       Era como se nenhum deles pudesse voltar a encontrar a tranqilidade. Eugenia sabia-o quando levou para o seu pavilho Zoya, que tremia violentamente sob a 
capa, com os olhos cheios de choque e horror.
       - Tens de ser forte, mida - retorquiu a av no momento em que Sava avanou a correr ao encontro delas e Zoya recomeou a chorar. - O teu pai vai precisar 
ainda mais de ti. E talvez... talvez nada volte a ser como dantes... para todos ns. Mas seja como for... - A voz tremeu-lhe ao pensar no neto moribundo nos seus 
braos, mas, embora a mo esguia lhe tremesse violentamente, abraou Zoya e beijou-lhe a face macia - Lembra-te, mida, quanto ele te amava...
       
CAPTULO 4
       
       O dia seguinte foi um pesadelo. Nicolai estava deitado, lavado e limpo, no seu quarto da adolescncia, vestido de uniforme e rodeado de velas. O Regimento 
Volinski amotinara-se, bem como o Semonovski, o Ismailovski, o Litovski, o Orarienbaum e, por fim, o mais orgulhoso de todos, o regimento do prprio Nicolai, a Guarda 
Preobrajenski. Todos eles se insurgiram. Viam-se por todo o lado bandeiras vermelhas erguidas bem alto e soldados com uniformes rasgados e bem longe dos homens que 
haviam sido outrora...
       Tambm Sampetersburgo no era a mesma cidade. Nada voltaria a ser o mesmo, a partir do momento em que os revolucionrios tinham incendiado os tribunais ao 
princpio da manh. O arsenal no Liteiny no tardou a pegar fogo, e depois o Ministrio do Interior, o edifcio do governo militar, o quartel-general de Okhrana, 
a polcia secreta e vrios postos de polcias foram destrudos. Todos os presos tinham sido libertos da priso e, ao meio-dia, a Fortaleza de Pedro e Paulo estava 
tambm nas mos dos rebeldes.
       Era bvio que se impunha algo de desesperado, e o czar tinha de voltar rapidamente para nomear um governo provisrio que assumisse de novo o controlo. Este 
parecia, contudo, um esquema improvvel e, quando o gro-duque Miguel falou com ele nessa tarde no quartel-general de Mogilev, prometeu regressar de imediato.
       No conseguia entender o que acontecera em Sampetersburgo durante os dias em que se ausentara e insistiu em voltar e ver tudo com os prprios olhos antes 
de nomear ministros que lidassem com a crise. S compreendeu o que se passava quando o presidente da Duma lhe mandou uma mensagem nessa noite, informando-o de que 
as vidas da sua famlia corriam perigo. A prpria imperatriz no compreendia. Mas nessa altura era demasiado tarde. Muito, muito tarde para todos.
       Lili Dehn s nessa tarde tinha ido visitar Alexandra a Tsarskoie Selo e encontrou-a totalmente ocupada a cuidar das crianas doentes. Lili falou das desordens 
nas ruas e ela continuava sem entender que se tratava realmente de uma revoluo e no de um mero motim.
       Na manh seguinte e no meio de uma tempestade de neve, o general Khabalov enviou uma mensagem  czarina. Insistia em que ela viajasse imediatamente com as 
crianas. Mantinha um cerco ao Palcio de Inverno em Sampetersburgo com quinze mil homens fiis, mas ao meio-dia todos o abandonaram. E, mesmo assim, a imperatriz 
no compreendeu. Recusou sair de Tsarskoie Selo antes que Nicolau voltasse. Sentia-se a salvo com os seus marinheiros mais leais, a Garde Equipage por perto, alm 
de que as crianas estavam demasiado doentes para viajar. Nessa altura, Marie tambm desenvolvera uma pneumonia.
       Nesse mesmo dia, as manses em redor da cidade foram saqueados e incendiadas, e Konstantin mandou todo o pessoal enterrar prata, ouro e cones no jardim. 
Zoya foi fechada no pavilho da av com todas as criadas e puseram-se a coser freneticamente jias nos forros da roupa de Inverno mais pesada.
       Natalya percorria a casa aos gritos. Entrava e saa do quarto de Nicolai, onde o corpo do filho permanecia. As tentativas para o enterrar eram impossveis 
com o eclodir da revoluo  volta deles.
       - Av - sussurrou Zoya, enfiando um pequeno brinco de diamantes num boto que ia coser num vestido. - Av... O que vamos fazer agora? - Enquanto tentava levar 
a tarefa a cabo embora os dedos lhe tremessem, tinha os olhos arregalados de medo, ouvindo os disparos ao longe.
       - No podemos fazer nada at acabarmos isto... Despacha-te, Zoya... Assim... Cose as prolas no meu casaco azul. - A idosa senhora trabalhava com frenesi, 
estranhamente calma, e Konstantin estava no Palcio de Inverno com Khabalov e o resto dos homens leais. Deixara-as de manh cedo para ir at l.
       - O que faremos com... - Era-lhe impossvel pronunciar o nome do irmo, mas parecia-lhe horrvel deix-lo ali, enquanto cosiam prolas nas bainhas dos vestidos 
da av.
       - Cuidaremos de tudo a devido tempo. Agora, fica calma, mida. Temos de esperar por notcias do teu pai.
       Sava conservava-se ganindo aos ps de Zoya, como se soubesse que a sua prpria vida estava em risco. No comeo dessa manh, a velha condessa tentara trazer 
Natalya at ao pavilho para junto dela, mas ela recusara abandonar a casa. Parecia meio louca e tentava falar com o filho morto, garantindo-lhe que tudo estava 
em ordem e o pai em breve regressaria a casa.
       Eugenia deixara-a na casa e levara a criadagem para casa dela a fim de fazerem o mximo, antes que os amotinados irrompessem e levassem tudo. Eugenia j tinha 
ouvido dizer que a manso de Kschessinska fora saqueada e ia tentar salvar o que pudesse antes que chegassem ali. Cosia e interrogava-se sobre se conseguiriam chegar 
a Tsarskoie Selo.
       Em Tsarskoie Selo, a imperatriz no tinha mos a medir. As crianas continuavam febris, Marie era o caso mais grave e Anna tambm estava doente. Os soldados 
rebeldes apareceram na aldeia ao fim dessa tarde; porm, receosos da guarda do palcio, contentaram-se em saquear a aldeia e disparar contra tudo e todos que lhes 
surgiam pela frente.
       As crianas ouviam os tiros dos seus quartos, e Alexandra reafirmava que eram apenas soldados em manobras. Contudo, nessa noite, mandou recado a Nicolau, 
implorando-lhe que regressasse a casa. Continuando sem entender quanto todos estavam desesperados, ele optou por voltar pelo caminho mais longo, sem querer interferir 
com as estradas usadas pelos comboios de tropas.
       Aos seus olhos, era inconcebvel que j no tivesse um exrcito leal. Tanto a Garde Equipage como a guarda imperial, na sua maioria constituda por amigos 
pessoais, cuja misso sempre havia sido proteger o czar, a czarina e os seus filhos, tinham abandonado os postos. Os prprios soldados da guarnio de Tsarskoie 
Selo haviam optado pela desero e traio. E Sampetersburgo cara. Era quarta-feira, 14 de Maro, e um mundo inteiro mudara de uma noite para outra. Tomava-se quase 
impossvel conceber as implicaes a nvel geral.
       Os ministros e generais incitavam Nicolau a que abdicasse a favor do filho, mantendo o gro-duque Miguei como regente.
       Contudo, os frenticos telegramas que eram mandados a Nicolau no seu regresso da frente, explicando-lhe a situao, no obtinham resposta.
       E no meio do seu silncio, Zoya e a av tambm no recebiam notcias. H dois dias que Konstantin no aparecia em casa e era impossvel saber dele. S quando, 
por fim. Feodor se atreveu a percorrer as ruas,  que lhes trouxe as terrveis notcias que Eugenia temia h dias. Konstantin estava morto. Morrera no Palcio de 
Inverno juntamente com as ltimas tropas leais, assassinado pelos seus prprios homens. Nem sequer havia um cadver para trazer. Fora levado como muitos outros.
       Feodor regressou com as lgrimas a correrem-lhe pelo rosto e soluava sem parar, contando a Eugenia o que acontecera a Konstantin. Zoya fitava-o, horrorizada, 
ouvindo o relato, e a av girou sobre os calcanhares e ordenou s criadas que cosessem mais depressa.
       Nessa altura, todas as suas jias e as de Natalya tinham sido escondidas e o resto teria de ficar para trs, pois tomara uma rpida deciso. Enterrariam Nicolai 
no jardim. Eugenia, Feodor e trs dos homens mais novos, regressaram  casa e entraram silenciosamente no quarto. H trs dias que ele estava morto e no podiam 
esperar mais. Eugenia mantinha-se com uma expresso solene e de olhos secos, fitando-o e pensando no seu prprio filho. Era demasiado tarde para lgrimas; queria 
chorar por todos eles, mas agora tinha de pensar em Zoya e tambm em Natalya, em prol de Konstantin.
       Quando se preparavam para transportar o corpo, Natalya apareceu como um fantasma, deslizando pelos corredores, vestida com um comprido roupo branco, despenteada 
e olhando-os com uma expresso desvairada.
       - Onde vo com o meu menino? - Fitou a sogra com um olhar imperioso e todos perceberam que enlouquecera. Nem sequer parecia reconhecer Zoya. - O que esto 
a fazer, idiotas? - Estendeu a mo semelhante a uma garra para impedir os homens de o levarem, mas a velha condessa agarrou-a.
       - Tens de vir conosco, Natalya.
       - Mas para onde levam o meu menino?
       Eugenia no lhe respondeu, pois apenas a confundiria ainda mais ou provocaria um ataque de histeria. Sempre tivera um esprito fraco e, sem Konstantin para 
a defender da verdade, deixara de conseguir agentar a situao. Estava completamente louca e Zoya percebeu, ao olh-la.
       - Veste-te, Natalya. Vamos embora.
       - Para onde?
       Zoya ficou pregada ao cho, ao ouvir a resposta.
       - Para Tsarskoie Selo.
       - Mas no podemos.  Vero, e esto todos em Livadia.
       - Tambm iremos at l. Contudo, primeiro temos de passar por Tsarskoie Selo. Agora, vamos vestir-nos, no vamos? - Agarrou-lhe num dos braos com firmeza 
e fez sinal a Zoya para que lhe agarrasse no outro.
       - Quem s tu? - Soltou o brao da jovenzinha assustada e s os olhos severos da av impediram Zoya de fugir, aterrorizada, da mulher que fora sua me. - Quem 
so vocs? - repetia sem cessar para ambas, e a idosa mulher respondia-lhe com calma.
       No espao de quatro dias perdera o filho e o neto em prol de uma revoluo que nenhum deles compreendia inteiramente. Contudo, agora no havia tempo para 
questionar. Sabia que tinham de abandonar Sampetersburgo, antes que fosse tarde de mais. E sabia que, pelo menos em Tsarskoie Selo, estariam a salvo. Todavia, Natalya 
recusava-se a colaborar. Insistia em querer ficar, em que o marido chegaria a qualquer momento e dariam uma festa.
       - O teu marido espera-te em Tsarskoie Selo - mentiu Eugenia e um arrepio percorreu o corpo de Zoya, ante tudo o que acontecia  volta dela. Com uma fora 
que nunca julgara possvel na av, ela envolveu Natalya numa capa e forou-a a descer as escadas e a sair pelas traseiras at ao jardim, quando ouviram um som retumbante.
       Os saqueadores tinham chegado e abriam caminho  fora at ao Palcio Fontanka. - Depressa - sussurrou Eugenia  jovem, que ainda no dia anterior era uma 
criana. - Procura o Feodor. Diz-lhe que apronte os cavalos... a velha trica do teu pai!
       Em seguida, a idosa senhora avanou rapidamente at ao pavilho, ofegante e agarrando no brao de Natalya. Gritava s criadas, ordenando-lhes que reunissem 
todas as roupas onde estavam cosidas as jias e as metessem em sacos. No tinham tempo para fazer malas. Tudo o que podiam levar... teria de ir na trica.
       Enquanto dava ordens, vigiava o palcio do outro lado do jardim.
       Sabia que era apenas uma questo de tempo at abandonarem o palcio e chegarem ao pavilho. Contudo, apercebeu-se subitamente de que Natalya j no estava 
ao seu lado e, ao dar meia volta, avistou uma figura de branco atravessando o jardim. Ps-se a correr atrs da nora, mas era tarde de mais. Natalya regressara ao 
palcio. Quase em simultneo, Eugenia avistou chamas saindo pelas janelas do andar superior e ouviu a respirao arquejante de Zoya nas suas costas.
       - Av! - E, ento, ambas viram a figura de branco a correr de janela em janela. Natalya movia-se por entre as chamas gritando e rindo e falando como que para 
os amigos. Era uma viso horrvel e Zoya dispunha-se a correr para a porta, mas a avo agarrou-a.
       - No! No podes ajud-la, agora! H homens l com ela. Matar-te-o, Zoya!
       - No posso deixar que a matem... No posso!... Av! Por favor! - Soluava e debatia-se com uma fora que a av mal conseguia controlar, mas nesse preciso 
momento apareceu Feodor.
       - A trica est pronta... por detrs das sebes... - Optara inteligentemente por fazer deslizar a trica at uma rua lateral, de forma a que os saqueadores 
no os vissem do palcio.
       - Av! - Zoya continuava a lutar e, de sbito, a av esbofeteou-a.
       - Pra! Ela j est morta!... Temos de partir agora! - No havia tempo a perder. J avistara vrios rostos perscrutando o jardim das janelas mais baixas do 
palcio.
       - No posso deix-la ali! - Implorava  av que a largasse, mas a idosa mulher no cedeu.
       - Tens de faz-lo! - Depois, a voz suavizou-se-lhe e apertou-a fortemente por instantes. Nesse momento, ouviu-se um som terrvel, semelhante a uma exploso. 
Todo o andar superior estava agora em chamas e, quando se viraram, viram Natalya saltar, com o roupo branco em chamas, da janela de cima. Seria impossvel sobreviver 
entre as chamas e a queda. A vida de Natalya chegara obviamente ao fim e era uma bno para ela. Jamais recuperaria da dupla perda do marido e do filho e todo o 
mundo se desfizera em pedaos  sua volta.
       - Venham depressa! - pressionou Feodor e, com um rpido movimento, a velha condessa ergueu Sava do cho, colocou-a nos braos de Zoya e empurrou-a pela porta 
at  trica que as aguardava.
       
CAPTULO 5
       
       Quando a trica se ps em movimento, Zoya virou-se e avistou as chamas erguendo-se acima das rvores, devorando o que outrora fora a sua casa e era agora 
somente o invlucro da sua antiga vida. Todavia, momentos depois, Feodor guiou-as com percia atravs das ruelas; as duas mulheres conservavam-se abraados, com 
os sacos aos ps, cheios das roupas que tinham levado, as jias ocultas nos forros e a pequena Sava tremendo de frio no colo de Zoya.
       Havia soldados nas ruas, mas nenhum tentou det-los enquanto prosseguiam na direo dos arredores da cidade. Era quinta-feira, 15 de Maro, e muito longe, 
em Pskov, o czar Nicolau lia os telegramas enviados pelos seus generais, dizendo-lhe que devia abdicar. O rosto denotava uma palidez de morte ao aperceber-se da 
traio que o rodeava, mas no estava mais plido do que Zoya, que observava Sampetersburgo perder-se  distncia.
       Passaram mais de duas horas antes de se verem nas estradas que levavam a Tsarskoie Selo e muito mais tempo antes de l chegarem. No tiveram notcias ao longo 
do percurso, nem um melhor entendimento do que acontecera. Zoya apenas conseguia pensar na imagem da me, com a roupa em chamas quando saltara para a morte das janelas 
do andar superior... e do irmo, como devia estar no momento em que as chamas o envolveram, morto no quarto onde tantas vezes o visitara em criana... Nicolai... 
"Idiota", chamara-lhe.
       Interrogou-se sobre se alguma vez se perdoaria... Ainda no dia anterior... quando tudo estava bem e a vida era normal.
       Tinha a cabea enrolada num velho xale, os ouvidos doam-lhe do frio, fazendo-a pensar em Olga e Tatiana e nas dores de ouvidos provocadas pelo sarampo. Esses 
simples acidentes haviam sido a sua vida h poucos dias atrs... Coisas insignificantes e estpidas como febres, dores de ouvidos e sarampo.
       Mal conseguia raciocinar, enquanto a av lhe agarrava firmemente a mo e ambas se interrogavam em silncio sobre o que encontrariam em Tsarskoie Selo. A aldeia 
recortou-se diante dos seus olhos,  tarde, e Feodor deu algumas voltas em redor.
       Soldados disperses mandaram-nos parar duas vezes e por um momento Feodor pensou em dar mais velocidade  trica. Contudo, sabia intuitivamente que todos podiam 
ser abatidos se o fizesse; portanto, abrandou e disse que transportava uma velha doente e a sua neta idiota.
       As duas mulheres fitaram os homens com um olhar vago, como se nada tivessem a esconder, e a idosa condessa sentiu-se grata por Feodor haver pensado em levar 
o tren mais velho com a pintura estragado, mas cavalos em bom estado. J no o usavam h anos e, embora tivesse sido bonito, deixara de o ser. Apenas os cavalos 
de extrema beleza sugeriam indcios de riqueza, e o segundo grupo de soldados aliviaram-nos de dois dos melhores cavalos pretos de Konstantin. Chegaram aos portes 
de Tsarskoie Selo com um nico cavalo que se empinava, nervoso, puxando a velha trica. A Guarda Cossaca no se via em parte alguma, no havia guardas, apenas uns 
soldados com ar de poucos amigos.
       - Identifiquem-se - gritou-lhes rudemente um homem, e Zoya ficou aterrorizada; porm, quando Feodor iniciou o costumado relato, Eugenia ps-se de p na parte 
de trs da trica. Estava vestida com simplicidade, como Zoya, apenas com um velho xale a tapar-lhe o cabelo, mas emanava um ar imperial quando o fitou do alto e 
puxou Zoya para trs de si.
       - Eugenia Peterovna Ossupov. Sou uma velha mulher e prima do czar. Querem alvejar-me?
       Tinham-lhe morto o neto e o filho e, se quisessem mat-la agora, seriam bem-vindos. Estava, contudo, preparada para os matar antes, se pusessem um dedo em 
Zoya. A jovem no sabia, mas a av tinha um pequeno revlver de cano de madreprola escondido na manga e estava disposta e preparada para o usar.
       - No h czar - retorquiu irado o homem, com uma faixa vermelha no brao, parecendo, de sbito, mais ameaadora do que dantes. O corao da velha condessa 
batia acelerado, e Zoya estava aterrorizada. "O que pretendia dizer? Tinham-no morto?... Eram quatro da tarde... quatro da tarde e todo o mundo rura... mas Nicolau... 
tambm o teriam morto?... Como a Konstantin e Nicolai?"
       - Preciso de ver a minha prima Alexandra. - Eugenia expressava-se num tom imperial da cabea aos ps, sem desviar os olhos do soldado. - E os filhos. - "Ou 
tambm os teriam morto?" O corao de Zoya batia desenfreadamente e sentava-se, gelada, por detrs das saias da av, assustadssima, enquanto Feodor se conservava 
de p, tenso e observando em silncio. Seguiu-se uma enorme pausa correspondente  avaliao do soldado, que recuou subitamente, falando aos compatriotas por cima 
do ombro.
       - Deixem-nas passar. Mas lembra-te, velha - acrescentou, virando-se para ela com uma expresso dura -, que j no existe czar. Abdicou h uma hora, em Pskov. 
Esta  uma nova Rssia.
       Com estas palavras, afastou-se para lhes dar passagem e, esperando cortar-lhe os dedos dos ps, Feodor fustigou o cavalo da trica. Uma nova Rssia... um 
final a uma antiga vida... o velho e o novo fundindo-se numa horrvel confuso, enquanto Eugenia se sentava, muito plida, ao lado da neta. Zoya sussurrou-lhe ao 
passarem junto  Igreja Fedorovski, incapaz de acreditar no que tinha ouvido. O tio Nicolau no o faria...
       - Acha que  verdade, av?
       - Talvez. A Alix vai contar-nos o que aconteceu.
       Contudo, reinava um estranho silncio nas portas da frente do Palcio Alexandre. No havia guardas, nenhuma proteo, no se via ningum e, quando Feodor 
bateu com fora  enorme porta do palcio, apareceram duas criadas nervosas e deixaram-nos entrar.
       O trio parecia terrivelmente vazio.
       - Onde est toda a gente? - perguntou a velha condessa, e uma das criadas apontou para a ombreira da porta que Zoya conhecia to bem e levava aos aposentos 
privados do andar superior. A mulher limpou com a ponta do avental as lgrimas que lhe corriam pela face e, por fim, respondeu:
       - A imperatriz est l em cima com as crianas.
       - E o czar? - Os olhos verdes de Eugenia fixaram-se com intensidade na mulher que chorava desesperada.
       - No ouviram?
       "Oh, meu Deus, no...", rezou Zoya.
       - Consta que abdicou a favor do irmo. Foi o que os soldados nos disseram h uma hora. Sua Alteza no acredita.
       - Mas ento est vivo? - replicou Eugenia, sentindo uma onda de alvio a percorrer-lhe o corpo.
       - Pensamos que sim.
       - Graas a Deus. - Enrolou as saias  sua volta e deitou um olhar severo a Zoya. - Diz ao Feodor que traga tudo para dentro. No queria que os soldados tocassem 
nas roupas, que tinham as jias cosidas nos forros.
       Quando Zoya regressou, momentos depois, acompanhada por Feodor, a av ordenou  criada que as conduzisse l acima, at junto da czarina.
       - Sei o caminho, av. Eu levo-a. - E atravessou sem rudo os corredores que to bem conhecia, os corredores que ainda h dias percorrera com a amiga.
       O Palcio Alexandre apresentava-se misteriosamente calmo quando conduziu a av ao andar superior e bateu ao de leve  porta de Marie; porm, no obteve resposta. 
Tinham-na mudado para uma das salas de estar da me, a fim de ser tratada com Anna Virubova e as irms.
       Foram avanando pelo corredor, batendo s portas, at que, por fim, ouviram vozes. Zoya esperou at as mandarem entrar e a porta abriu-se devagar, revelando 
Alexandra de p, alta e magra, estendendo uma xcara de ch a uma das filhas mais novas.
       Anastasia tinha lgrimas nos olhos quando se virou para a porta e Marie sentou-se na cama e ps-se a chorar ao ver Zoya.
       Zoya estava demasiado comovida para falar; atravessou a sala a correr e lanou-se nos braos da amiga, ao mesmo tempo que Eugenia beijava a prima, morta de 
cansao.
       - Meu Deus, prima Eugenia! Como chegaram aqui? Ests bem?
       At mesmo a idosa condessa sentiu dificuldade em falar quando beijou a alta e elegante mulher, que tinha um ar to desesperadamente cansado. Os olhos cinzento-claros 
pareciam transbordar de uma vida de tristeza.
       - Viemos ajudar-te, Alix. E no podamos ficar mais tempo em Sampetersburgo. Incendiaram a casa esta manh, quando nos viemos embora. Partimos muito  pressa.
       - No consigo acreditar... - Alexandra deixou-se afundar numa cadeira. - E o Konstantin?
       O rosto da idosa mulher empalideceu e o corao bateu acelerado sob o pesado vestido. Sentiu repentinamente o peso de tudo o que perdera e receou desmaiar 
aos ps da mulher mais jovem, mas no se podia permiti-lo ante tudo o que Alix tinha de suportar.
       - Morreu, Alix... - A voz falhou-lhe, mas no chorou. - E o Nicolai tambm... no domingo... A Natalya morreu quando a casa pegou fogo esta manh. - No lhe 
disse que a nora enlouquecera antes de saltar da janela, envolta em chamas. -  verdade o que dizem... sobre o Nicolau? - Receava perguntar, mas era necessrio.
       Tinham de saber. Era to difcil perguntar o que acontecera.
       - Quanto  abdicao?  impossvel. Falam disso para nos assustar... mas hoje ainda no tive notcias dele. - Fitou as duas filhas que abraavam Zoya, e as 
trs jovens choravam. Zoya, acabara de lhes contar o sucedido com Nicolai e soluava nos braos de Marie. Mesmo doente como estava, Marie consolava a amiga e nenhuma 
delas parecia reparar nas duas mulheres mais velhas. Todos os nossos soldados nos abandonaram... at mesmo... - A imperatriz quase parecia incapaz de pronunciar 
as palavras. - At mesmo o Derevenko abandonou o Baby. - Era um dos dois soldados que estivera com o filho desde que ele nascera. Deixara-os ao romper dessa manh 
sem uma palavra, ou um olhar por cima do ombro. O outro, Nagomy, tinha jurado ficar ao lado de Alexis at que o matassem e estava agora junto dele no quarto ao lado, 
com o Dr. Fedorov. O Dr. Botkin sara para tentar encontrar mais medicamentos para as raparigas com Gibbes, um dos seus dois tutores. -  impossvel compreender... 
os nossos marinheiros... No consigo acreditar. Se, ao menos, o Nicolau estivesse aqui...
       - Ele vir, Alix. Temos de manter a calma. Como esto as crianas?
       - Esto todas doentes... De incio, no consegui dizer-lhes. Mas agora sabem... Era impossvel ocultar-lhes a verdade por mais tempo. - Suspirou e em seguida 
acrescentou: - O conde Benckendorff est aqui, jurou proteger-nos, e a baronesa Buxhoeveden chegou ontem, de manh. Ficam, Eugenia Peterovna?
       - Se possvel. No temos hiptese de voltar a Sampetersburgo, agora... - Omitiu "se  que teremos". O mundo decerto voltaria a reerguer-se. Quando Nicolau 
voltasse... As notcias da sua abdicao eram sem dvida uma mentira espalhada por revolucionrios e traidores para os assustar e controlar.
       - Podes ficar no quarto da Mashka, se quiseres. E a Zoya...
       - Dormiremos juntas. O que posso fazer para te ajudar, Alix? Onde esto as outras? - A imperatriz esboou um sorriso agradecido quando a idosa prima do marido 
despiu a capa e enrolou com cuidado as mangas do vestido simples que pusera.
       - Vai descansar. A Zoya far companhia s raparigas, enquanto me ocupo dos outros.
       - Irei contigo. - E a velha senhora acompanhou-a firmemente durante todo o dia, servindo ch, refrescando testas febris e ajudando mesmo Alix a mudar os lenis 
de Alexis, sem que Nagorny sasse lealmente do lado dele. Tal como Alix, tambm Eugenia tinha dificuldade em acreditar que Derevenko realmente o abandonara.
       Era quase meia-noite quando Zoya e a av se enfiaram na cama, no quarto de Marie e Anastasia, e Zoya manteve-se acordada durante horas, ouvindo a av que 
ressonava um pouco. Parecia-lhe impossvel que ainda h menos de trs semanas tivesse visitado Marie naquele mesmo quarto e Marie lhe oferecesse um frasco do seu 
perfume favorito, agora desaparecido, quando tudo se despedaara  volta delas.
       Apercebera-se tambm de que nenhuma das raparigas tinha perfeita conscincia do que acontecera. Nem ela prpria estava muito segura de o compreender, mesmo 
depois de tudo o que vira em Sampetersburgo. Contudo, haviam estado to doentes e encontravam-se to afastadas da desordem das ruas, das revoltas, dos assassnios, 
dos saques. A viso da sua casa em chamas ameaava ficar... bem como a viso do irmo a esvair-se em sangue no cho de mrmore do Palcio Fontanka, h quatro dias. 
Era de manh quando Zoya adormeceu. Uma nova tempestade de neve rugia l fora e interrogou-se sobre quando o czar regressaria a casa e se a vida alguma vez voltaria 
 normalidade. 
       Contudo, s cinco dessa tarde, a hiptese parecia invivel. O gro-duque Paul, o tio de Nicolau, apareceu em Tsarskoie Selo e trouxe notcias a Alexandra. 
Nicolau abdicara no dia anterior, transmitindo o poder ao seu irmo, o gro-duque Miguel, que tinha sido completamente apanhado de surpresa e no estava preparado 
para ocupar o trono.
       Apenas Alix e o Dr. Fedorov compreendiam de fato por que razo Nicolau no abdicara a favor do filho, mas do irmo. A gravidade da doena de Alexis era um 
segredo bem guardado. Estava a formar-se um governo provisrio e Alexandra ouviu as notcias em silncio e desejou de todo o corao poder falar com o marido.
       Nicolau chegou ao quartel-general em Mogilev na manh seguinte para se despedir das suas tropas e foi da que conseguiu, por fim, telefonar  mulher. O telefonema 
chegou quando Alexandra estava a ajudar o Dr. Botkin a cuidar de Anastasia e voou do quarto para lhe falar, rezando para que ele lhe dissesse que nada daquilo era 
verdade, mas o som da voz dele deitou-lhe todas as esperanas por terra.
       A vida deles, todos os sonhos e a dinastia estavam destrudos. Prometeu voltar assim que possvel e, como sempre, inteirou-se com afeto sobre os filhos. E 
na noite seguinte, domingo, o general Kornilov deslocou-se de Sampetersburgo para saber se eram necessrios medicamentos ou comida, e o primeiro pensamento dela 
foi para os soldados. Implorou-lhe que ajudasse a providenciar remdios e comida para os hospitais. Depois de os tratar durante tanto tempo, no conseguia esquec-los, 
mesmo quando j no eram os "seus" soldados. O general garantiu-lhe que o faria e algo na visita lhe sugeriu que o pior estava para vir.
       Nessa noite, avisou Nagorny que no abandonasse a cabeceira de Baby e ficou sentada com as filhas at altas horas. Passava da meia-noite quando, por fim, 
recolheu ao quarto e a velha condessa bateu-lhe ao de leve na porta e levou-lhe uma xcara de ch. Ao detectar as lgrimas nos olhos da mulher mais nova, ps-lhe 
suavemente as mos nos ombros.
       - H algo que possa fazer por ti, Alix?
       Ela abanou a cabea, ainda orgulhosa, ainda austera, e agradeceu-lhe com os olhos.
       - S queria que ele voltasse para casa. Subitamente... temo pelas crianas aqui. - Tambm Eugenia partilhava esse sentimento, mas no queria admiti-lo frente 
 sua jovem prima.
       - Estamos todos junto de ti. - Mas "todos" eram to poucos, um punhado de mulheres idosas e amigos leais que podiam contar-se pelos dedos de uma mo. Tinham 
sido abandonados por todos, e o golpe tornava-se quase insuportvel. Sabia, porm, que no podia ir abaixo agora. Tinha de manter-se forte pelo marido. - Agora, 
precisas de dormir um pouco, Alix.
       Alexandra passeou o olhar nervoso pelo famoso quarto em tons de malva e depois fixou, tristemente, a idosa mulher.
       - H umas coisas que quero fazer... Tenho de... - As palavras saam-lhe com dificuldade. - Quero queimar os meus dirios esta noite... e as minhas cartas... 
Quem sabe se encontraro qualquer maneira de us-los contra ele.
       -  claro que no podem... - Mas, ao pensar na hiptese, Eugenia achou que concordava com Alexandra. - Queres que te faa companhia? - No queria intrometer-se, 
mas a imperatriz parecia to desesperada e s.
       - Gostaria de ficar s, se no te importas.
       - Compreendo - redargiu e abandonou Alexandra  sua desafortunada tarefa.
       A imperatriz ficou sentada junto  lareira at de manh, a ler cartas e dirios, e queimando at mesmo as cartas da sua av, a rainha Vitria. Queimou tudo 
 exceo da correspondncia com o seu querido Nicolau e, durante dois dias, O desgosto foi criando razes at quarta-feira, quando o general Kornilov regressou 
e pediu para lhe falar a ss.
       Encontraram-se, l em baixo, numa das salas freqentemente usadas por Nicolau. Tentou dissimular orgulhosamente a surpresa e a dor ao ouvir as palavras. Colocavam-na 
sob deteno domiciliria juntamente com a famlia, a criadagem e as crianas.
       No queria acreditar, mas agora era inevitvel. O fim chegara e todos tinham de enfrent-lo. O general explicou que todos os que quisessem poderiam ficar, 
mas que, se optassem por ir embora, jamais regressariam a Tsarskoie Selo. Eram notcias horrveis e fez apelo a todas as suas foras para no desfalecer.
       - E o meu marido, general?
       - Pensamos que estar aqui de manh.
       - E vo prend-lo? - Sentiu um mal-estar fsico ao formular a pergunta, mas agora tinha de saber. Precisava de saber tudo, o que poderiam esperar e o que 
enfrentavam. E depois de todos os relatos que ouvira nos ltimos dias, supunha que deveria estar agradecida por no os terem morto a todos, mas, diante dos acontecimentos, 
a gratido tornava-se difcil.
       - O seu marido ficar sob deteno domiciliria, aqui em Tsarskoie Selo.
       - E depois? - inquiriu com uma palidez de morte, mas a resposta no foi to terrvel quanto receara. Nesse momento apenas conseguia pensar no marido e nos 
filhos, na segurana e na vida deles. De bom grado se teria sacrificado por eles. Faria tudo, e o general Kornilov observava-a com uma admirao silenciosa.
       - O Governo Provisrio deseja acompanh-la, ao seu marido e  sua famlia a Murmansk. Poder partir daqui. Envi-la-emos de barco para Inglaterra, para o 
rei Jorge.
       - Percebo. E quando? - Denotava uma expresso gelada.
       - Mal possam tomar-se disposies, madame.
       - Muito bem. Esperarei a chegada do meu marido para comunicar s crianas.
       - E os outros?
       - Direi hoje a todos que se quiserem tm liberdade para ir embora, mas no podem voltar. Est bem assim, general?
       - Certamente.
       - E no far mal a nenhum dos nossos familiares e fiis amigos quando partirem, os poucos que restam?
       - Dou-lhe a minha palavra de honra, madame. - A palavra de um traidor em que lhe apetecia cuspir, mas manteve-se calma e senhoril, vendo-o afastar-se, e foi 
em seguida comunicar aos outros. Disse-lhes que eram livres de partir e incitou-os a faz-lo, se o desejassem.
       - No podemos esperar que fiquem, se no o desejarem. Partiremos para Inglaterra dentro de semanas e talvez seja mais seguro para vocs deixarem-nos agora... 
- Talvez mesmo antes do regresso de Nicolau. No acreditava na totalidade que estivessem a coloc-los sob priso domiciliria para os proteger.
       Contudo, os outros recusaram partir e, no dia seguinte, Nicolau regressou finalmente, com um ar extenuado e plido, naquela manh gelada e horrvel. Entrou 
silenciosamente no trio e por um longo momento limitou-se a ficar ali de p. O pessoal comunicou de imediato a sua presena a Alix que desceu ao seu encontro e 
o fitou do outro lado da enorme entrada, os olhos cheios das palavras impossveis de pronunciar, o corao pleno de compaixo pelo homem que amava. Nicolau avanou 
e tomou-a nos braos com fora. Nada havia que pudessem dizer quando subiram devagar as escadas at junto dos filhos.
       
CAPTULO 6
       
       Os dias seguintes ao regresso de Nicolau revelaram-se plenos de receio e de uma tenso silenciosa e ao mesmo tempo de alvio por ele estar em casa a salvo. 
Perdera tudo, mas, pelo menos, no o tinham morto. Sentou-se calmamente durante horas com o filho e Alexandra dedicou ateno s filhas. Era agora Marie quem estava 
mais doente, com uma pneumonia causada pelo sarampo. Tinha uma tosse horrvel que lhe sacudia repetidamente todo o corpo e uma febre que parecia no baixar. Zoya 
nunca sala do lado dela.
       - Mashka... Bebe s um bocadinho... por mim...
       - No posso... Di-me muito a garganta. - Mal conseguia falar, e Zoya sentia-lhe a pele quente e seca ao tocar-lhe.
       Banhava-lhe a testa com gua de rosas e falava-lhe em voz baixa sobre as partidas de tnis no Vero anterior, em Livadia.
       - Lembras-te daquela fotografia idiota que o teu pai tirou a todas, de cabea para baixo? Trouxe-a comigo... Queres v-Ia, Mashka?
       - Mais tarde... Doem-me muito os olhos, Zoya... Sinto-me pessimamente.
       - Chiu... Tenta dormir... Mostro-te a fotografia quando acordares. - Chegou mesmo a trazer a pequena Sava para a alegrar, mas Marie no se interessava por 
nada. Zoya s esperava que ela estivesse suficientemente bem para viajar at Murmansk e seguir de barco para Inglaterra.
       Partiriam dentro de trs semanas e Nicolau disse que todos teriam de estar bem nessa altura. Chamava-lhe a sua ltima ordem imperial, o que provocou lgrimas 
em todos. Esforava-se imenso por conseguir que todos se sentissem melhor e por manter as crianas felizes. Ele e Alix pareciam mais extenuados a cada dia que passava. 
Trs dias mais tarde, Zoya avistou Nicolau de relance no corredor, e o rosto denotava uma palidez de cal. Uma hora depois soube o motivo. O seu primo ingls negara-se 
a receb-lo por razes ainda no esclarecidos. Assim, a famlia imperial no partiria para Inglaterra. De incio, pedira a Zoya e  velha condessa que os acompanhassem, 
mas agora ningum sabia o que ia suceder.
       - O que vai acontecer, av? - perguntou-lhe Zoya nessa noite, com um olhar aterrorizado. E se estivessem apenas a det-los ali em Tsarskoie Selo para por 
fim os matarem?
       - Ignoro, mida. O Nicolau dir-nos- quando estiver decidido. Iro provavelmente para Livadia.
       - Acha que nos mataro?
       - No sejas pateta. - Contudo, receava o mesmo. Deixara de haver respostas fceis. At os Ingleses lhe tinham retirado o tapete. No havia outro lugar para 
onde irem, um lugar seguro.
       Achava que a estrada para Livadia era perigosa. Estavam encurralados em Tsarskoie Selo. E Nicolau parecia sempre to calmo e incitava todos a que no se preocupassem, 
mas... como?
       Na manh seguinte, quando Zoya saiu do quarto nos bicos dos ps e olhou atravs da janela, avistou Nicolau e a av percorrendo devagar o jardim coberto de 
neve. Parecia no haver mais ningum por perto e, ao observ-los, ele de ombros direitos e orgulhosos e a av to pequena, uma figura envolta numa capa preta sob 
a neve, julgou ver a av a chorar. Em seguida, ele abraou-a ternamente e desapareceram ambos atrs de uma esquina do palcio.
       Zoya dirigiu-se ao quarto que partilhavam e, pouco depois, a av regressou, deixou-se cair numa cadeira com uma expresso triste e fitou a bonita neta. H 
umas semanas atrs parecia ainda uma criana e agora, de sbito, ficara to perspicaz e triste.
       Estava mais magra e parecia mais frgil, mas a av sabia que os horrores das ltimas semanas s a ajudariam a tomar-se mais forte.
       Precisaria da fora dela. Todos precisariam.
       - Zoya... - Ignorava como lhe dizer, mas sabia que Nicolau estava certo. E tinha de pensar na segurana de Zoya. A jovem possua uma longa vida pela frente 
e a av de bom grado daria a sua para a proteger.
       - Passa-se alguma coisa, av? -  luz do que acontecera nas duas ltimas semanas, parecia uma pergunta ridcula, mas sentia que mais desgraas estavam iminentes.
       - Acabei de falar com o Nicolau, Zoya Konstantinovna... Ele quer que partamos j... enquanto ainda podemos...
       Os olhos encheram-se-lhe de lgrimas e levantou-se de um salto.
       - Porqu? - replicou. - Dissemos que ficaramos com eles e eles vo partir em breve, no , av?... No vo? - A idosa senhora no lhe respondeu. Pesava os 
pratos da balana da verdade e da mentira e a verdade ganhou como sempre.
       - No sei. Dada a recusa dos Ingleses em receb-los, o Nicolau. teme que as coisas no corram bem para eles. Sente que ficaro aqui prisioneiros, talvez por 
muito tempo, ou que os levaro para qualquer outro lado. Podemos ser eventualmente separados... e no pode oferecer-nos proteo, no a tem. E  impossvel manter-te 
a salvo desses selvagens. Ele tem razo...
       Precisamos de ir... agora... enquanto ainda podemos. - Fitou tristemente a jovem que ainda h momentos fora uma criana; porm, no estava de forma alguma 
preparada para a dimenso da raiva de Zoya.
       - No irei consigo! No irei! No os deixarei!
       - Tens de ir! Podes acabar na Sibria, pequena idiota... sem eles! Temos de partir nos prximos dois dias. O Nicolau receia que a situao piore. Os revolucionrios 
no o querem por aqui e, se os Ingleses no o aceitam, quem aceitar?  uma situao muito grave!
       - Ento, morrerei com eles! No pode obrigar-me a ir!
       - Posso fazer o que quiser e tens de obedecer-me, Zoya!  tambm essa a vontade do Nicolau! E no deves desobedecer s suas ordens! - Sentia-se quase demasiado 
cansada para enfrentar a jovem, mas sabia que tinha de apelar s suas ltimas foras para a convencer.
       - No deixarei a Marie aqui, av. Ela est to doente... e  tudo o que me resta... - Zoya ps-se a soluar e, qual rapariguinha, pousou a cabea nos braos 
em cima da mesa. Era a mesma mesa onde ainda h um ms se sentara com Marie, quando ela lhe entranara o cabelo e as duas haviam rido e conversado. Para onde fora 
esse mundo? O que acontecera a todos eles?... E Nicolai... a sua me e o pai...
       - Ainda me tens, pequenina... - A av acariciou-lhe o cabelo, como Marie dantes o fizera. - Precisas de ser forte.  o que esperam de ti. Temos de fazer o 
que h a ser feito, Zoya.
       - Para onde iremos, ento?
       - Ainda no sei. O Nicolau diz que toma as disposies necessrias. Talvez possamos ir para a Finlndia. E da para Frana ou Sua.
       - Mas l no conhecemos ningum! - exclamou com um ar aterrorizado e virando para Eugenia o rosto manchado de lgrimas.
       - s vezes a vida  assim, minha querida. Temos de confiar em Deus e ir para onde o Nicolau nos manda.
       - Av, no posso... - retorquiu, mas a av mostrou-se firme.
       Era to forte quanto o ao e duplamente resoluta. E Zoya no conseguia fazer-lhe frente, pelo menos por enquanto, e as duas sabiam-no.
       - Podes e irs e no deves dizer nada s crianas. J tm problemas que cheguem. No devemos sobrecarreg-las, nem seria justo.
       - O que direi  Mashka?
       Os olhos da velha senhora encheram-se de lgrimas ao fitar a neta que tanto amava e ao responder-lhe num sussurro pleno da sua prpria tristeza pelos que 
haviam perdido e os que agora perderiam.
       - Diz-lhe apenas quanto gostas dela.
       
CAPTULO 7
       
       Zoya entrou nos bicos dos ps no quarto onde Marie dormia e deteve-se um longo momento a observ-la. Detestava acord-la, mas no conseguia ir-se embora sem 
se despedir. No suportava a idia de a deixar, mas agora era impossvel voltar atrs. A av esperavas l em baixo e Nicolau planeara tudo para elas.
       Deveriam seguir pela longa estrada escandinava, atravs da Finlndia e Sucia, e em seguida Dinamarca. Dera a Eugenia os nomes de amigos da sua tia dinamarquesa 
e Feodor acompanh-las-ia para as proteger. Tudo fora decidido. Apenas restava um ltimo adeus  amiga. Observou-a a mexer-se, febril, sob os lenis e depois Marie 
abriu os olhos e Zoya esforou-se corajosamente por conter as lgrimas.
       - Como te sente? - sussurrou no quarto silencioso. Embora Anastasia estivesse a dormir noutro quarto com as suas duas irms, todas melhoravam lentamente. 
S Marie continuava muito doente, mas Zoya tentou no pensar nisso naquele momento. No podia pensar em nada, no podia permitir-se olhar para trs nem para a frente, 
no havia nada por que ansiar. Havia apenas... um curtssimo momento com a sua mais querida amiga... e estendeu a mo, tocando-lhe na face. - Mashka... - Marie tentou 
sentar-se na cama e fitou a amiga com um olhar estranho.
       - Passa-se alguma coisa?
       - No... Vou... vou regressar a Sampetersburgo com a minha av. - Prometera a Alix que no lhe diria a verdade, pois seria demasiado duro para ela nessa altura. 
Contudo, Marie parecia preocupada. Sempre tivera um sexto sentido em relao  amiga, como era agora o caso. Estendeu o brao e agarrou na mo de Zoya, prendendo-a 
com fora na sua mo febril.
       -  seguro?
       - Claro - mentiu Zoya, atirando o cabelo ruivo para trs. O teu pai no nos deixaria ir se no fosse seguro... - "Por favor, meu Deus, no permitas que chore 
agora, por favor..." Estendeu-lhe o copo de gua e Marie afastou-o, fixando a amiga bem no fundo dos olhos.
       - Passa-se alguma coisa, no  verdade? Vais para qualquer lado?
       - Apenas para casa durante uns dias... Voltarei em breve. Inclinou-se para diante e abraou Marie com fora e os olhos cheios de lgrimas. - Agora tens de 
melhorar. Estiveste doente demasiado tempo. - Abraaram-se com mais fora e Zoya exibia um sorriso radioso quando se afastou, sabendo que a esperavam.
       - Escreves-me?
       - Claro. - No conseguia ir-se embora e mantinha-se ali de p, fitando-a, desejando absorver tudo, fixar tudo, a sensao da mo da amiga, a suavidade dos 
lenis, o olhar dos seus belos olhos azuis. - Amo-te, Mashka. - As palavras tornaram-se um sussurro. - ... Amo-te tanto...
       - Tambm eu. - Marie deixou-se cair na almofada com um suspiro. Era fatigante sentar-se na cama e falar e depois teve um horrvel ataque de tosse e Zoya amparou-a 
- Melhora, por favor. - Inclinou-se uma ltima vez para lhe beijar a face, sentiu os caracis macios sob a mo e depois virou-se rapidamente e avanou at  porta, 
voltando-se para esboar um derradeiro aceno. Contudo, Marie fechara novamente os olhos e Zoya encerrou a porta devagar, com o corao despedaado e as lgrimas 
correndo, silenciosas. Despedira-se das outras h meia hora e parara agora do lado de fora do quarto do jovem Alexis. Nagorny mantinha-se ao seu lado e Pierre Gilliard 
tambm. O Dr. Fedorov ia a sair.
       - Posso entrar? - perguntou, limpando as lgrimas e ele tocou-lhe no brao num gesto de muda compreenso.
       - Est a dormir. - Zoya limitou-se a acenar com a cabea e desceu apressadamente as escadas ao encontro da av e do czar e da czarina que a aguardavam no 
trio principal. Feodor j estava l fora com dois dos melhores cavalos do czar atrelados  velha trica em que tinham vindo. Quando avanou na direo deles com 
um andar de chumbo, sentia-se esgotada. Queria que tudo parasse, queria fazer recuar O relgio... voltar a subir as escadas at junto da amiga... Sentia-se como 
se estivesse a abandon-los a todos, mas afastavam-na, na verdade, contra sua vontade.
       - Ela est bem? - Alexandra lanou um olhar preocupado a Zoya, esperando que Marie no se tivesse apercebido de toda aquela crua agonia.
       - Disse-lhe que amos voltar a Sampetersburgo. - Zoya chorava agora copiosamente e a prpria av teve de lutar contra as lgrimas, quando Nicolau a beijou 
nas duas faces e lhe agarrou fortemente as mos, com uma enorme tristeza no olhar mas um sorriso digno nos lbios. Embora Eugenia o tivesse ouvido soluar nos aposentos 
da mulher na noite em que voltara, nunca demonstrou o seu desgosto aos outros. Encorajava todos com bravura e mostrou-se sempre encantador e calmo, como agora ao 
beij-la  despedida.
       - Boa viagem, Eugenia Peterovna. Ansiamos por vos ver em breve.
       - Rezaremos por vocs todas as horas, Nicolau. - A velha senhora beijou-o na face. - Boa sorte para todos. - Virou-se depois para Alix, enquanto Zoya se mantinha 
ao lado com as lgrimas correndo-lhe pela face. - Toma conta de ti e no te canses de mais, minha querida. Espero que as crianas recuperem depressa.
       - Escreve-nos - pediu Alix num tom triste, como Marie dissera a Zoya h uns momentos. - Ficaremos ansiosamente  espera de notcias. - Depois virou-se para 
Zoya. Conhecera-a desde o nascimento, pois a sua filha e a de Natalya haviam nascido com uns meros dias de diferena e tinham sido amigas ntimas durante aqueles 
dezoito anos. - S boa rapariguinha, escuta a tua av e toma conta de ti. - E sem uma palavra mais, abraou-a, sentindo por instantes como se estivesse a perder 
a sua prpria filha.
       - Amo-a, tia Alix... Amo-a tanto... No quero ir... - Mal conseguia falar no meio dos soluos e depois virou-se para Nicolau, e ele abraou-a como o teria 
feito o seu prprio pai, se ainda estivesse vivo.
       - Tambm te amamos e sempre te amaremos. Voltaremos a estar juntos um dia, garanto-te. E Deus vos proteja a ambas at ento, minha pequenina. - Depois afastou-a 
suavemente com um pequeno sorriso. - Agora, tm de ir.
       Conduziu-as solenemente at ao exterior. A mulher agarrou no brao da av e ajudaram-nas a subir para a trica. Zoya chorava.
       A criadagem que restava viera despedir-se e tambm chorava.
       Conheciam Zoya desde criana e agora ela deixava-os e em breve os outros lhes seguiriam o exemplo. E o pensamento de nunca mais voltarem era aterrador. Era 
tudo em que Zoya conseguia pensar quando Feodor ergueu devagar o chicote e tocou pela primeira vez nos cavalos do czar.
       A trica ganhou vida e sob aquela luz cinzenta afastaram-se subitamente de Alexandra e Nicolau que ficaram a acenar-lhes.
       Zoya virou-se, apertando a pequena Sava de encontro ao corpo. A cadelinha ganiu como se tambm soubesse que estava a deixar a casa para nunca mais regressar, 
e a jovem enterrou o rosto nos braos da av. No conseguia continuar a olhar para aquelas duas figuras que lhes acenavam, o Palcio Alexandre e, de sbito, a prpria 
Tsarskoie Selo desaparecendo numa nuvem distante de neve... Zoya chorava de tristeza, pensando em Mashka... Mashka... a sua melhor e a mais querida amiga... o irmo... 
os pais... todos desaparecidos...
       Agarrou-se  av e chorou. A velha senhora sentava-se estoicamente no tren, de olhos fechados, com as lgrimas, rolando pelas faces, deixando para trs uma 
vida, tudo o quer alguma vez conhecera, um mundo que todos haviam amado... desaparecido como as neves, enquanto Feodor continuava a gui-las e os cavalos de Nicolau 
as transportavam para longe de casa, de tudo e de todos os que tinham conhecido e amado.
       - Adieu, chers amis... - sussurrou Eugenia para a neve que caa... Adeus, queridos amigos...
       S se tinham uma  outra agora, uma mulher muito ve1ha e uma rapariga muito jovem, fugindo de um mundo perdido e das pessoas que haviam amado. Nicolau e a 
sua famlia faziam agora parte da Histria. Nunca seriam esquecidos, sempre amados e jamais vistos por qualquer delas.
       
PARIS
      CAPTULO 8
       
       A viagem de Tsarskoie Selo at Beloostrov na fronteira finlandesa demorou sete horas, embora no ficasse distante de Sampetersburgo, mas Feodor tomou o cuidado 
de viajar por todas as estradas secundrias. Nicolau avisara-os de que era mais seguro, mesmo que lhes levasse mais tempo.
       E, para surpresa de Eugenia, atravessaram a fronteira sem dificuldade. Verificaram-se algumas perguntas, mas Eugenia deu repentinamente a sensao de se recolher 
mais sobre si prpria e parecia uma velha, encolhida e fria, enquanto Zoya parecia mais criana do que nunca.
       Foi Sava que acabou por salv-las. Os soldados da fronteira ficaram encantados com ela e depois de um momento de ansiedade fizeram-lhes sinal para que avanassem, 
e os trs refugiados soltaram um suspiro de alvio quando a trica avanou atrs dos cavalos de Nicolau. Feodor tivera o cuidado de usar os velhos arreios que trouxera 
de Sampetersburgo, abstendo-se de se servir de qualquer equipamento do estbulo do czar com a facilmente identificvel guia dupla.
       A viagem de Beloostrov atravs da Finlndia em direo a Turku levou dois dias inteiros e, quando chegaram a altas horas da noite, Zoya sentia-se como se 
fosse ficar insensvel para o resto da vida. Todo o corpo parecia congelado na posio em que viera, na trica. A av mal conseguia andar quando a ajudaram a sair, 
e o prprio Feodor parecia exausto.
       Descobriram uma pequena estalagem onde alugaram dois quartos e, de manh, Feodor vendeu os cavalos por uma quantia ridiculamente baixa antes de os trs se 
meterem num navio quebra-gelo, rumo a Estocolmo. Foi outro dia infindvel no navio, que avanava devagar pelo meio do gelo entre a Finlndia e a Sucia, e os trs 
companheiros mal falavam, imersos nos seus prprios pensamentos.
       Chegaram a Estocolmo ao fim da tarde e mesmo a tempo de apanhar o comboio da noite para Malm. Uma vez em Malm, seguiram de barco na manh seguinte at Copenhaga 
e ali se instalaram num pequeno hotel. Eugenia tentou contatar os amigos da tia do czar, mas estavam ausentes e na manh seguinte deixaram Copenhaga rumo a Frana 
num navio ingls.
       Nessa altura, Zoya sentia-se aturdida e enjoou horrivelmente no primeiro dia em que embarcaram. A av achou-a febril, mas era impossvel dizer se estava doente 
ou apenas exausta. Estavam todos esgotados depois da viagem de seis dias. Fora um tormento viajarem dia aps dia de barco, de comboio e de trica. O prprio Feodor 
dava a sensao de ter envelhecido dez anos numa semana, mas o problema residia tambm na tristeza de abandonarem a ptria.
       Falavam pouco, raramente dormiam e nenhum deles parecia ter fome. Era como se os corpos transbordassem de tristeza e no conseguissem suportar mais. Haviam 
deixado tudo para trs, um estilo de vida, mil anos de Histria, as pessoas que tinham amado e perdido. Tornava-se quase insuportveis e Zoya viu-se a desejar que 
o navio fosse afundado pelos submarinos alemes a caminho de Frana. Longe da Rssia, era da grande guerra que as pessoas tinham medo e no da revoluo. A jovem 
foi ao ponto de pensar que morrer s mos de outrem teria sido mais fcil do que enfrentar um novo mundo que no desejava conhecer.
       Zoya recordava os milhares de vezes que ela e Marie tinham falado no sonho de viajar at Paris. Nessa altura, tudo soava to romntico, to excitante com 
todas as mulheres elegantes e os belos vestidos que comprariam. Agora, no haveria nada disso. Tinham apenas o pouco dinheiro que a av pedira emprestado ao czar 
antes de partirem e as jias cosido na roupa. Eugenia j tinha decidido vender muitas delas, depois de chegarem a Paris.
       Tinham igualmente de pensar em Feodor. Ele prometera procurar trabalho mal chegassem, jurara fazer tudo o que pudesse para as ajudar, mas recusara deixar 
que enfrentassem a viagem sozinhas.
       Nada tinha na Rssia e no conseguia imaginar uma vida sem servir os Ossupov. Morreria se o deixassem. Esteve to mal quanto Zoya na viagem para Frana; nunca 
pusera os ps num barco e sentia-se cheio de medo, enquanto se agarrava, infelicssimo, ao varandim.
       - O que vamos fazer, av? - inquiriu Zoya, sentada e olhando desgostosa para a av no pequeno camarote.
       Fora-se a grandeza dos iates imperiais, os palcios, os prncipes, as festas. Desaparecera o calor e o amor familiar, bem como as pessoas que tinham conhecido, 
o seu estilo de vida, at mesmo a segurana de saberem que tinham o suficiente que comer no dia seguinte. Restava-lhes apenas as suas vidas, e Zoya nem mesmo estava 
segura de a desejar. S quena regressar a casa, a Mashka,  Rssia, fazer recuar o tempo e voltar a um mundo perdido, cheio de pessoas que j no existiam. O pai, 
o irmo, a me. E,  medida que seguiam viagem, Zoya interrogava-se sobre se Marie estaria melhor.
       - Temos de encontrar um apartamento pequeno - respondeu-lhe a av. H anos que no ia a Paris. Viajara muito pouco desde a morte do marido. Contudo, agora 
tinha de pensar em Zoya.
       Precisava de mostrar-se forte diante da jovem. Rezou para viver o suficiente para cuidar dela, mas no era Eugenia quem agora estava em perigo, mas a neta.
       A rapariga parecia muito doente e os olhos maiores do que nunca e encovados no rosto plido. Quando a velha condessa lhe tocou, soube desde logo que ela estava 
a arder em febre. Nessa noite, comeou com uma tosse horrvel e a condessa receava que fosse pneumonia. Na manh seguinte, a tosse piorou e, quando apanharam o comboio 
para Paris, em Bolonha, tornou-se bvio que a doena a atacara. Comearam a aparecer-lhe manchas no rosto e nas mos. A av obrigou-a a levantar a saia de l e verificaram 
que Zoya tinha sarampo.
       Eugenia estava preocupadssima e mais ansiosa do que nunca para fazer chegar a neta a Paris. Era uma viagem de dez horas de comboio e chegaram pouco antes 
da meia-noite. Havia meia dzia de txis  porta da Gare du Nord e Eugenia mandou Feodor buscar um deles, enquanto ajudava Zoya a descer do comboio. Esta mal conseguia 
andar e apoiava-se com fora  av, de rosto to afogueado como a brilhante cabeleira ruiva. Tossia horrivelmente e no dizia coisa com coisa devido  febre.
       - Quero ir para casa - choramingou, agarrada  cadelinha.
       Sava estava agora mais crescida e Zoya mal podia com ela quando seguiu a av at fora da estao.
       - Vamos para casa, meu amor. O Feodor anda  procura de um txi.
       Contudo, Zoya ps-se a chorar, desfazendo a imagem da mulher em que se tornara ao fitar a av com uma expresso de criana perdida.
       - Quero voltar para Tsarskoie Selo.
       - Sossega, Zoya... sossega...
       Feodor acenava freneticamente e tratava da bagagem. Eugenia guiou a neta com meiguice e ajudou-a a entrar no txi antigo.
       Tudo o que ainda possuam estava empilhado ao lado de Feodor e do motorista, e as duas entraram para o banco de trs com suspiros cansados. No tinham reserva 
em parte alguma, no sabiam para onde ir e o motorista ouvia mal e era velho. H muito que todos os homens novos tinham abandonado Paris, onde s haviam ficado os 
velhos e enfermos.
       - Alors?... On y va, mesdames? - Sorriu para o banco de trs e fez uma expresso surpreendida ao ver que Zoya chorava. - Elle est malade? Ela est doente? 
- Eugenia apressou-se a garantir-lhe que estava apenas muito cansada, como todos eles. - De onde vm? prosseguiu o homem num tom amistoso e Eugenia tentou recordar-se 
do hotel onde ficara com o marido h anos, mas subitamente esqueceu tudo. Tinha oitenta e dois anos e estava esgotada. E precisavam de levar Zoya para um hotel e 
chamar um mdico.
       - Pode recomendar-nos um hotel? Algo pequeno, limpo e no muito caro. - Ele premiu os lbios por momentos enquanto pensava, e Eugenia apertou instintivamente 
a mala de encontro ao corpo. L dentro levava o ltimo e o mais importante presente da imperatriz. Alix dera-lhe um dos seus ovos de Pscoa imperiais, fabricados 
especialmente para ela h trs anos por Carl Faberg. Era uma pea maravilhosa de esmalte malva com fitas de diamantes e Eugenia sabia que era o seu mais importante 
tesouro. Quando tudo o mais falhasse, podiam vend-lo e viver do que ele rendesse.
       - Importa-lhe onde fique, madame?... O hotel...
       - Desde que seja num bairro decente. - Podiam procurar outra coisa melhor depois e nessa noite s precisavam de quartos onde pudessem dormir. As comodidades, 
se ainda , fossem possveis, viriam mais tarde.
       - H um pequeno hotel  sada dos Campos Elsios, madame.
       O porteiro da noite  meu primo.
       -  caro? - inquiriu num tom rspido, e ele encolheu os ombros. Via que no eram gente abastada, vestidas com aquelas roupas simples e o velho tinha ar de 
campons. Pelo menos a mulher falava francs e achava que a rapariguinha tambm, embora chorasse a maior parte do tempo e tivesse aquela tosse horrvel. S esperava 
que no fosse tuberculose, que nessa altura varria Paris.
       - No  mau. Peo ao meu primo que fale com o recepcionista.
       - Muito bem. Servir - decidiu num tom imperial e recostou-se no txi antigo. Era uma mulher muito enrgica, o que agradou ao motorista.
       O hotel ficava na Rue Marbeuf e era, de fato, muito pequeno, mas pareceu-lhes decente e limpo quando entraram no trio. Havia apenas uma dzia de quartos, 
mas o recepcionista garantiu que dois deles estavam vazios.
       Tinham de usar uma casa de banho comum no corredor o que era um choque para Eugenia, mas nem isso interessava agora. Puxou para trs os lenis da cama que 
ela e Zoya iriam partilhar e verificou que estavam limpos. Despiu a neta depois de esconder a mala debaixo do colcho, e Feodor trouxe o resto das coisas.
       Concordara em ser ele a ficar com Sava. A condessa desceu mal deitou Zoya na cama e pediu ao recepcionista que mandasse chamar o mdico.
       - Para si, madame? - inquiriu sem surpresa, pois estavam todos com um ar plido e cansado e ela era, obviamente, muito velha.
       - Para a minha neta. - No lhe disse que Zoya estava com sarampo, mas, duas horas mais tarde, quando o mdico finalmente chegou, confirmou de imediato.
       - Ela est muito doente, madame. Tem de trat-la com muito cuidado. Faz alguma idia de como o apanhou?
       Seria ridculo responder que fora contagiada pelos filhos do czar da Rssia.
       - Atravs de amigas, penso. Fizemos uma viagem muito longa. O mdico examinou o olhar perspicaz e triste e pressentiu que deviam ter sofrido muito. Contudo, 
nem mesmo ele podia sonhar a misria que elas haviam presenciado naquelas ltimas trs semanas, quo pouco tinham ou o medo que as invadia quanto ao futuro. Viemos 
da Rssia... atravs da Finlndia, Sucia e Dinamarca.
       O mdico fitou-a, surpreendido, e depois compreendeu subitamente. Outros tinham feito viagens idnticas nas ltimas semanas, fugindo da revoluo. E era fcil 
supor que mais viriam nos meses seguintes, se conseguissem escapar. A aristocracia russa, ou o que dela restava, fugia em bandos e muitos deles tomavam o rumo de 
Paris.
       - Lamento... lamento muito, madame.
       - Tambm ns. - Sorriu tristemente. - No tem pneumonia, pois no?
       - Ainda no.
       - H algumas semanas que a prima est com uma e tm contatado muito.
       - Farei o que puder, madame. Virei v-Ia novamente de manh.
       - Porm, quando ele voltou, Zoya piorara e, ao cair da noite, delirava de febre. O mdico receitou-lhe um medicamento e disse que era a nica esperana. E, 
na manh seguinte, quando o recepcionista informou Eugenia que os Estados Unidos tinham acabado de entrar na guerra, quase lhe pareceu irrelevante. A guerra assumia 
contornos de insignificncia agora, depois de tudo o que acontecera.
       Comeu as refeies no quarto e Feodor saiu para comprar remdios e fruta. Estavam a racionar o po e tornava-se difcil obter algo, mas ele era engenhoso 
e conseguiu encontrar o que a condessa desejava. Sentia-se especialmente satisfeito consigo prprio por ter descoberto um motorista de txi que falava russo.
       Tal como eles, h apenas uns dias que estava em Paris, era um prncipe de Sampetersburgo e Feodor achava que ele fora amigo de Konstantin, mas Eugenia no 
tinha tempo para o ouvir. Estava profundamente preocupada com Zoya.
       Passaram vrios dias antes de a jovem dar sinal de saber onde se encontrava. Passeou os olhos pelo pequeno e simples quarto, fitou a av e depois recordou-se 
que estavam em Paris.
       - Quanto tempo estive doente, av? - Tentou sentar-se, mas ainda estava demasiado fraca, embora a tosse tivesse finalmente melhorado um pouco.
       - Desde que chegamos, meu amor, h cerca de uma semana. Preocupaste-nos muito a todos. O Feodor tem percorrido Paris inteira tentando encontrar fruta para 
ti. As faltas aqui so quase to graves como na Rssia.
       Zoya esboou um aceno de cabea e pareceu viajar em pensamento para muito longe dali, enquanto olhava atravs da nica janela do quarto.
       - Agora sei como a Mashka se sentia... e ela ainda estava muito mais doente do que eu. Interrogo-me sobre como estar agora.
       - No conseguia refletir no presente.
       - No deves pensar nisso - censurou meigamente a av ao detectar-lhe o olhar de tristeza. - Tenho a certeza de que j se encontra bem. H duas semanas que 
partimos.
       - S duas semanas? - suspirou, fitando a av. - Parece-me uma vida inteira. - Todos tinham essa sensao e a av mal dormira desde que haviam sado da Rssia. 
H dias que dormia sentada numa cadeira, receosa de perturbar o sono de Zoya partilhando a cama com ela e temendo no estar acordada se a neta precisasse dela, mas 
agora podia relaxar um pouco a viglia. Nessa noite, dormiria aos ps da cama e precisava quase tanto de descansar como Zoya.
       - Amanh, tiramos-te da cama, mas primeiro tens de repousar, comer e pores-te forte novamente. - Deu uma palmadinha na mo de Zoya, que lhe esboou um ligeiro 
sorriso.
       - Obrigada, av. - Os olhos encheram-se-lhe de lgrimas e levou a mo da velha senhora at junto do rosto. At esse gesto lhe trazia dolorosas memrias de 
infncia.
       - Pelo qu, mida tonta? O que tens a agradecer-me?
       - Ter-me trazido para aqui... ser to corajosa... e fazer tanto para nos salvar. - Acabara de tomar plena conscincia da enorme distncia que tinham percorrido 
e de como a av fora extraordinria. A me decerto jamais seria capaz. Zoya teria tido de zelar pela me durante todo o caminho.
       - Construiremos uma nova vida aqui, Zoya. Vers. Um dia, seremos capazes de olhar para trs e tudo parecer menos doloroso.
       - No consigo imaginar... no consigo imaginar uma poca em que as memrias deixem de magoar. - Sentia-se como se estivesse a morrer.
       - O tempo  muito generoso, minha querida. E s-lo- para ns, garanto-te. Teremos uma boa vida aqui. - "Mas no a vida que haviam tido na Rssia." Zoya tentava 
no pensar nisso, mas muito mais tarde nessa noite, quando a av estava a dormir, saiu sem rudo da cama, pegou no seu pequeno saco e encontrou a fotografia que 
Nicolau lhes tirara em Livadia, quando se divertiam no Vero anterior. Ela, Anastasia, Marie, Olga e Tatiana inclinavam-se para trs at estarem quase de cabea 
para baixo, sorrindo depois das brincadeiras. Agora parecia-lhe idiota... idiota... e to terno... mesmo naquele ngulo estranho, achava todas to bonitas, ainda 
mais agora... as raparigas junto de quem crescera e tanto amava...
       Tatiana, Anastasia... Olga... e, obviamente, Mashka.
       
CAPTULO 9
       
       O sarampo deixou Zoya muito enfraquecido, mas, para grande alvio da av, pareceu recuperar no meio da beleza de Paris em Abril. Denotava agora uma seriedade 
que no possua antes e a tosse no a abandonara por completo. Contudo, de vez em quanto havia um brilho de alegria no olhar, quase como dantes, e Eugenia sentia 
o corao mais leve.
       O hotel na Rue Marbeuf estava a custar-lhes caro, embora fosse simples, e Eugenia sabia que em breve teriam de encontrar um apartamento. J tinham gasto uma 
boa parte do dinheiro que Nicolau lhes dera, e ela estava ansiosa por salvaguardar os seus magros recursos. No incio de Maio verificou que seria obrigada a vender 
algumas jias.
       Numa tarde soalheira, deixou Zoya com Feodor e foi visitar um ourives que o hotel lhe indicara na Rue Cambon, depois de descoser cuidadosamente um colar de 
rubis da bainha de um dos seus vestidos pretos. Meteu o colar na mala de mo e retirou uns brincos a condizer do seu esconderijo em dois botes forrados e bastante 
grandes. Os esconderijos haviam sido realmente teis.
       Chamou um txi antes de sair do hotel e, quando indicou a morada ao motorista, ele virou-se devagar e fitou-a. Era um homem alto, de aparncia distinta e 
um bigode branco cuidadosamente aparado.
       - No  possvel... Condessa,  a senhora? - Ela fitou-o com mais ateno e depois sentiu que o corao lhe batia mais depressa. Era o prncipe Vladimir Markovski. 
Reconheceu-o, surpreendida; fora um dos amigos de Konstantin, e o filho mais velho dele chegara mesmo a propor casamento  gr-duquesa Tatiana e havia sido recusado. 
Tatiana achava-o demasiado frvolo. Tratava-se, contudo, de um rapaz encantador, como o era o pai. Como chegou aqui?
       Eugenia riu e abanou a cabea ante a estranheza da vida naqueles tempos. Vira mesmo rostos familiares em Paris desde que ali estavam e, em duas ocasies, 
chamara txis e descobrira que conhecia os motoristas. Parecia que os nobres russos no tinham outra forma de ganhar a vida, todos sem habilidade para nada, elegantes, 
bem-nascidos e encantadores, pouco lhes restando fazer exceto conduzir um automvel, como o prncipe Vladimir que a fitava cheio de contentamento. Ocorreram-lhe 
memrias agridoces de melhores dias e suspirou ao comear a explicar-lhe como tinham deixado a Rssia. O relato dele era muito semelhante, embora muito mais perigoso 
quando atravessara a fronteira.
       - Est alojada aqui? - Olhou para o hotel ao mesmo tempo que punha o carro em andamento e se dirigia  morada que ela lhe dera na Rue Cambon.
       - Sim, de momento. Contudo, a Zoya e eu temos de procurar um apartamento.
       - Ela est, ento, consigo. Deve ser ainda uma rapariguinha. E a Natalya? - Sempre tinha achado a mulher de Konstantin extremamente bonita, embora muito nervosa, 
e no ouvira obviamente falar da morte dela quando os revolucionrios assaltaram o Palcio Fontanka.
       - Foi morta... apenas uns dias depois do Konstantin... e do Nicolai. - Expressava-se quase num sussurro. Ainda lhe era difcil pronunciar os nomes, sobretudo 
a ele, porque os conhecera. O nobre esboou um triste aceno de cabea no banco da frente. Tambm ele perdera os dois filhos e viera para Paris com a filha solteira.
       - Lamento.
       - Lamentamos todos, Vladimir. E mais ainda o Nicolau e a Alexandra. Teve algumas notcias deles?
       - Nada. Apenas que ainda se encontram sob priso domiciliria em Tsarskoie Selo. S Deus sabe quanto tempo os vo manter l. Pelo menos esto confortveis, 
se no seguros. - J ningum estava seguro em nenhum lugar da Rssia. Pelo menos, as pessoas que conheciam. - Vai ficar em Paris? - Nenhum deles tinha qualquer outro 
lugar para onde ir e outros russos infiltravam-se diariamente, com surpreendentes relatos de fugas e perdas terrveis. Acorriam em quantidades crescentes a uma cidade 
j sobrecarregada.
       - Acho que sim. Pareceu-me melhor vir para aqui do que para qualquer outro stio. Pelo menos, estamos seguras e  um lugar decente para a Zoya.
       Ele esboou um aceno de concordncia e conduziu o txi velozmente pelo meio do trnsito.
       - Devo esperar, Eugenia Peterovna? - Doa-lhe o corao s de falar novamente russo e com algum que sabia o seu nome. Ele estacionara diante do ourives.
       - Importava-se muito? - Seria confortvel saber que ele estava ali e regressar ao hotel com ele, sobretudo se o ourives lhe desse uma elevada quantia em dinheiro.
       - Claro que no. Esperarei aqui. - Ajudou-a cuidadosamente a sair do carro e acompanhou-a at  porta da loja. Era fcil imaginar o que a levava ali. Era 
o mesmo que todos eles faziam, vendendo tudo o que podiam, os mesmos tesouros que haviam contrabandeado e que h semanas antes no passavam de bugigangas a que no 
ligavam.
       A condessa apareceu meia hora mais tarde com um ar digno e o prncipe Markovski no lhe fez perguntas, enquanto a transportava de volta ao hotel. Ela parecia, 
contudo, mais abatida quando a ajudou a sair do carro na Rue Marbeuf e esperou que tivesse conseguido o que precisava. Era muito velha para ser obrigada a sobreviver 
de expedientes e a vender as suas jias num pas estranho, sem ningum que cuidasse dela e com uma jovem para cuidar. No estava bem certo da idade de Zoya, mas 
sabia que era muito mais nova do que a sua filha, que tinha quase trinta anos.
       - Est tudo bem? - inquiriu, preocupado, quando a acompanhou at  porta e ela o fitou com um olhar magoado.
       - Acho que sim. No so tempos fceis. - Fixou o txi  espera e depois o prncipe. Este fora um homem interessante na juventude e ainda era, mas, tal como 
nela, havia uma sbita diferena. Afetara a todos. A prpria face do mundo no era a mesma desde a revoluo. - No  fcil para nenhum de ns, pois no, Vladimir?
       "E quando no houver mais jias para vender, o que faremos?", interrogava-se. Nem ela nem Zoya eram capazes de conduzir um txi e Feodor no falava uma palavra 
de francs nem era provvel que aprendesse. Era quase mais um fardo do que uma ajuda, mas mostrara-se to fiel e leal ao ajud-las a escapar, que no podia abandon-lo. 
Tinha de ser to responsvel por ele, como por Zoya.
       Todavia, dois quartos de hotel custavam o dobro de um e, com a insignificante quantia em dinheiro que recebera pelo colar de rubis e os brincos, pouca esperana 
tinha de que os fundos agentassem muito mais tempo. Precisavam de pensar em algo muito criativo. "Talvez pudesse costurar", pensou, ao despedir-se de Vladimir com 
um ar distrado.
       E, de sbito, parecia mais velha do que h uma hora atrs, quando se dirigira ao ourives. O prncipe Markovski beijou-lhe a mo e negou-se a receber qualquer 
pagamento. Eugenia interrogou-se sobre se voltaria a v-lo. Sentia agora o mesmo em relao a todos, mas dois dias depois, ao descer as escadas com Zoya e Feodor, 
encontrou-o  espera dela no trio.
       Ao avist-la, esboou uma ligeira vnia e beijou-lhe a mo, fitando Zoya com um olhar bondoso e depois com evidente surpresa ante a beleza da jovem e quanto 
se desenvolvera.
       - Peo desculpa por me intrometer, Eugenia Peterovna, mas acabei de saber de um apartamento...  bastante pequeno, mas prximo do Palais Royal. No ... a 
vizinhana ideal para uma jovem rapariguinha, mas... talvez... talvez possa servir. Falou no outro dia de como estava ansiosa por encontrar um stio onde viver. 
Tem dois quartos. - Deitou um olhar de sbita preocupao para o velho Feodor, atrs delas. - Talvez no seja suficientemente grande para todos...
       - Claro que . - Sorriu-lhe como se ele sempre tivesse sido o seu melhor amigo. Era repentinamente to importante ver um rosto familiar, mesmo algum que 
dantes no vira com freqncia. Era, pelo menos, um rosto de um passado no muito distante, uma relquia da ptria e logo o apresentou a Zoya. - A Zoya e eu podemos 
partilhar um quarto. Fazemo-lo aqui no hotel e ela no parece importar-se.
       - E no me importo, av. - Sorriu-lhe, amistosa, e mirou com curiosidade o alto e distinto russo.
       - Tomo, ento, disposies para irem v-lo? - Parecia muito interessado em Zoya, mas a av no deu mostras de reparar.
       - Podemos v-lo agora? amos sair para um passeio. - Estava uma bela tarde de Maio e tornava-se difcil acreditar que havia discrdias no mundo, e ainda mais 
difcil que toda a Europa estava em guerra e os Estados Unidos haviam finalmente aderido.
       - Vou mostrar-lhes onde fica e talvez vos deixem v-lo agora.
       - Levou-as o mais rapidamente possvel. Feodor ia sentado no banco da frente ao seu lado e Vladimir ps as duas senhoras ao corrente dos ltimos mexericos. 
Mais alguns conhecidos tinham chegado h uns dias, embora nenhum trouxesse aparentemente notcias de Tsarskoie Selo.
       Zoya escutou interessada os nomes que ele enumerava.
       Reconheceu a maioria, embora nenhum deles correspondesse a amigos ntimos. Mencionou tambm que Diaghilev estava em Paris e planeava uma exibio dos Ballets 
Russes. Atuariam no Chtelet e comeariam a ensaiar na semana seguinte. Zoya sentiu o corao bater com mais fora ante as palavras e mal reparou nas ruas que atravessavam 
para chegar ao apartamento.
       O apartamento em si era muito pequeno, mas dava para um jardim muito agradvel de outra pessoa. Tinha dois quartos pequenos, uma reduzida sala de estar e 
no corredor havia uma casa de banho que teriam de partilhar com mais quatro apartamentos.
       Os outros eram obrigados a descer de outros andares; portanto tinham mais sorte do que a maioria. Situava-se, indubitavelmente, a uma enorme distncia do 
palcio em Fontanka ou mesmo do hotel na Rue Marbeuf, mas no lhes restavam opes. A av de Zoya tinha-a inteirado da escassa quantia recebida pelo colar de rubis.
       Haviam trazido outras jias para vender, mas no lhes garantiam o futuro.
       - Talvez seja afinal pequeno de mais... - O principie Vladimir parecia subitamente embaraado, mas no era mais embaraoso do que a sua condio de ter de 
guiar um txi.
       - Acho que servir muito bem - pronunciou-se a condessa num tom despreocupado, mas j detectara o olhar de tristeza em Zoya.
       Do corredor emanava um cheiro horrvel a urina  mistura com uma comida ranosa. Talvez um pouco de perfume... o cheiro a lilases de que Zoya tanto gostava... 
e as janelas abertas para o bonito jardim. Tudo podia ajudar, e a renda correspondia exatamente ao que podiam dispor. A condessa virou-se para Vladimir com um caloroso 
sorriso e agradeceu-lhe profusamente.
       - Temos de nos ocupar dos nossos - redarguiu-lhe num tom afetuoso, mas de olhos fixos em Zoya. - Vou lev-los de volta ao hotel. - Tinham decidido mudar na 
semana seguinte e, no caminho de regresso, Eugenia comeou a elaborar uma lista dos mveis de que precisariam. Ia comprar o mnimo possvel e, juntamente com Zoya, 
faria os reposteiros e as colchas. Planeava adquirir somente o essencial.
       - Um tapete pequeno no cho podia fazer com que a sala parecesse um pouco maior. - Falava alegremente e esforava-se por no pensar nos preciosos Aubussons 
do pavilho atrs do Palcio Fontanka. - No achas, minha querida?
       - Uum?... Desculpe, av. - Mantivera-se de cenho franzido a olhar pela janela enquanto desciam os Campos Elsios no carro de volta  Rue Marbeuf. Pensava 
em algo bem mais importante.
       Algo de que precisavam desesperadamente. Algo que lhes permitiria voltar a viver de forma decente, talvez no num palcio, mas num apartamento maior e mais 
confortvel do que uma malcheirosa caixinha de fsforos. Agora, sentia-se ansiosa por regressar ao hotel e deixar a av com as suas listas, planos e ordens de mandar 
Feodor  procura de mobilirio e de um bonito tapete.
       Agradeceram novamente ao prncipe Markovski quando as deixou no hotel, e Eugenia surpreendeu-se quando Zoya disse que ia dar um passeio, mas recusou, determinada, 
a companhia de Feodor.
       - Estarei perfeitamente sozinha, av. No me afasto. Vou s at aos Campos Elsios e volto.
       - Queres que te acompanhe, minha querida?
       - No. - Sorriu  av que tanto amava, pensando enquanto lhe devia. - Descanse um pouco. Tomaremos um ch quando eu voltar.
       - Tens a certeza de que irs bem sozinha?
       - Absoluta.
       A condessa deixou-a ir com relutncia e subiu as escadas devagar, agarrada ao brao de Feodor. Era um bom exerccio para comear a habituar-se s compridas 
escadas do apartamento.
       Mal saiu do hotel, Zoya dobrou a esquina e fez sinal a um txi, rezando para que o motorista soubesse onde era e, quando chegasse l, algum percebesse do 
que iria falar. Era uma louca, louca esperana, mas sabia que tinha de tentar.
       - Para o Chtelet, por favor - indicou num tom imperial como se soubesse do que estava a falar e rezou em silncio para que o homem a levasse l.
       Depois de um instante de hesitao, verificou que as suas preces eram atendidas. Mal se atrevia a respirar enquanto o txi seguia a toda a velocidade e deu 
uma choruda gorjeta ao motorista por ter descoberto o lugar e porque se sentia um pouco aliviada pelo fato de ele no ser russo. Era um pouco depressivo ver os membros 
de famlias que conhecera ao volante de txis e falando tristemente sobre a famlia de Tsarskoie Selo.
       Entrou apressadamente e olhou em volta, voltando a pensar nas suas ameaas passadas de fugir para o Teatro Marinski. Viu-se a pensar em Marie e em como ela 
ficaria boquiaberta ante tudo aquilo. Zoya sorriu e ps-se a procurar algum, qualquer pessoa capaz de responder s suas perguntas. Descobriu, por fim, uma mulher, 
com fato de bailarina e praticando tranqilamente na barra. Zoya pressups corretamente tratar-se de uma professora.
       - Ando  procura de Monsieur Diaghilev - anunciou e a mulher sorriu.
       - Ah, sim? Posso perguntar porqu?
       - Sou bailarina e gostaria de fazer uma audio. - Ps de imediato todas as cartas na mesa e nunca parecera mais jovem, mais bonita, nem mais assustada.
       - Entendo. E ele j ouviu falar de si? - Parecia uma pergunta bastante cruel, e a mulher nem se deu ao trabalho de esperar resposta. - Vi que no trouxe nada 
para danar, mademoiselle. Esse traje no  muito adequado para uma audio.
       Zoya baixou os olhos para a estreita saia de sarja azul, a camisa branca de marinheiro e os sapatos pretos de cabedal que usara diariamente durante as suas 
ltimas semanas em Tsarskoie Selo. Corou at  raiz do cabelo, e a mulher sorriu-lhe. Era uma rapariga to bonita, jovem e inocente. Tornava-se difcil acreditar 
que tivesse dotes de bailarina.
       - Desculpe. Talvez pudesse vir v-lo, amanh. - E acrescentou num sussurro: - Ele est aqui?
       - No - sorriu a mulher mais velha. - Mas no tardar. Far o ensaio geral aqui no dia onze.
       - Eu sei. Queria fazer uma audio para ele. Quero entrar no espetculo e juntar-me ao corpo de bailado. - As palavras saram-lhe de um jorro, e a mulher 
soltou uma galhada. - A srio? E onde tem praticado?
       - Na escola de Madame Nastova, em Sampetersburgo.. at h dois meses. - Desejou ter mentido e acrescentar "no Marinski", mas ele certamente descobriria a 
verdade. E a escola de ballet de Madame Nastova era tambm uma das mais prestigiadas da Rssia.
       - Se lhe arranjar um maillot e umas sapatilhas, dana para mim, agora? - A mulher parecia divertida, e Zoya hesitou apenas uma frao de segundo.
       - Sim, se quiser. - O corao batia-lhe como uma orquestra inteira, mas tinha de arranjar emprego e isso era tudo o que podia fazer e tudo o que desejava 
realizar. Parecia o mnimo que podia fazer por Eugenia.
       As sapatilhas que a mulher lhe deu magoavam-na terrivelmente e, ao dirigir-se ao piano, Zoya sentiu-se estpida pela tentativa. Iria parecer idiota sozinha 
no palco e talvez Madame Nastova estivesse apenas a ser generosa quando afirmara que ela era muito boa.
       Porm, ante os primeiros acordes da msica, esqueceu gradualmente o medo e comeou a danar e a fazer tudo o que Madame Nastova lhe ensinara. Danou, incansvel, 
durante quase uma hora sob os olhos crticos e semicerrados da mulher, mas nenhum dos traos do rosto denotava desprezo ou divertimento.
       Zoya estava esgotada quando a msica parou finalmente e executou uma graciosa vnia na direo do piano. E, no silncio da sala, os olhos das duas mulheres 
cruzaram-se e a mulher que se encontrava ao piano esboou um ligeiro aceno de cabea.
       - Pode voltar daqui a dois dias, mademoiselle? - Os olhos verdes de Zoya arregalaram-se e correu at junto piano.
       - Consegui emprego?
       A mulher mais velha abanou a cabea e riu.
       - No, no... mas ele nessa altura estar aqui. Veremos o que diz e os outros professores tambm.
       - De acordo. Arranjarei sapatilhas.
       - No tem? - replicou a mulher, surpreendida, e Zoya fitou-a com uma expresso grave.
       - Deixamos tudo o que tnhamos na Rssia. Os meus pais e o meu irmo foram mortos na revoluo e fugi com a minha av, h um ms. Preciso de encontrar emprego. 
Ela  demasiado velha para trabalhar e no temos dinheiro. - Era uma afirmao simples mas que emocionou profundamente a outra mulher, embora no o demonstrasse.
       - Que idade tens?
       - Dezoito anos. E pratiquei doze.
       - s muito boa... Independentemente do que ele disser... ou os outros... no deixes que ningum te assuste. s muito boa. Zoya soltou uma risada, pois era 
exatamente o que dissera a Marie naquela tarde em Tsarskoie Selo.
       - Obrigada! Muito obrigada! - Apetecia-lhe abra-la e beij-la, mas dominou-se. Tinha receio de perder a oportunidade que lhe fora dada. Faria tudo para 
danar para Diaghilev, e aquela mulher permitiria que concretizasse o desejo. Situava-se para alm de tudo o que alguma vez sonhara. Talvez Paris no fosse afinal 
to mau assim... no, se conseguisse tornar-se bailarina. - Melhorarei depois de voltar a danar. H dois meses que no pratico. Estou um pouco enferrujada.
       - Ento, ainda s melhor do que penso. - Sorriu  bonita e jovem ruiva que se mantinha to graciosa e elegante ao lado do piano e depois Zoya soltou um sbito 
suspiro. Prometera  avo que no demoraria e j sara h quase duas horas.
       - Tenho de ir! A minha av... Oh... Desculpe... - Saiu apressadamente para mudar de roupa e reapareceu com a saia azul e a blusa de marinheiro, um cisne de 
volta ao patinho. Voltarei daqui a dois dias... e obrigada pelas sapatilhas!... - Precipitou-se para a sada, mas voltou-se subitamente e gritou  mulher, que ficara 
a observ-la: - Oh... A que horas?
       - Duas! - respondeu a mulher e depois lembrou-se de mais uma coisa: - Como te chamas?
       - Zoya Ossupov! - replicou e desapareceu.
       A mulher ao piano sentou-se com um sorriso, lembrando-se da primeira vez que tinha danado para Diaghilev h vinte anos... a jovem era indubitavelmente dotada... 
Zoya... pobre criana, passara bastante segundo o que dissera nas suas simples palavras... Era difcil imaginar-se novamente com dezoito anos e a exuberncia de 
Zoya.
       
CAPTULO 10
       
       s duas horas de uma sexta-feira  tarde, Zoya chegou ao Chtelet com um pequeno saco, um maillot e um par de sapatilhas novas em folha. Tinha vendido o relgio 
para as comprar e no contara  av onde ia. Nos ltimos dois dias, Zoya s conseguira pensar na fantstica oportunidade que teria e rezara a todos os anjos-da-guarda 
e santos favoritos para no a estragar. E se fosse desajeitada... se casse... se ele odiasse o seu estilo... se Madame Nastova lhe tivesse mentido durante todos 
aqueles anos? O medo levara a melhor e, ao chegar mais uma vez ao Chelet, s lhe apetecia fugir, mas avistou a mulher para quem danara h dois dias e subitamente 
era tarde de mais.
       O prprio Diaghilev apareceu e Zoya foi-lhe apresentada. E, num abrir e fechar de olhos, viu-se no palco, danando para todos os que se encontravam a assistir, 
e esqueceu-se da presena deles.
       Verificou, surpreendida, que estava mais  vontade do que dois dias antes e a msica parecia arrebat-la e lev-la para longe.
       Quando acabou, pediram-lhe que voltasse a danar, desta vez com um homem, e ele era muito bom, fazendo com que Zoya tivesse a sensao de voar pelos ares 
nas asas de anjos. Ao todo, danou durante uma hora e meia e mais uma vez estava esgotada ao parar e as sapatilhas novas magoavam-na. Porm, ao virar-se para a audincia, 
sentia-se como se tivesse voado at  Lua. Todos esboavam acenos de cabea e pronunciavam palavras incompreensveis. Pareceram conferenciar durante horas e, depois, 
um dos professores virou-se na sua direo e pronunciou atravs do palco, como se no fosse nada de importante:
       - Na prxima sexta-feira, quatro horas, rptition gnrale, aqui mesmo. Muito obrigado.
       Depois, viraram-lhe as costas e ela manteve-se pregada ao cho, com as lgrimas correndo-lhe pelas faces. Madame Nastova no tinha mentido e os deuses haviam 
sido generosos. Ignorava se aquilo significava que conseguira emprego e no se atrevia a perguntar-lhes. Apenas sabia que danaria no ensaio na prxima sexta-feira 
 tarde.
       E talvez... talvez... se fosse muito, muito boa... Nem se atrevia a pensar enquanto mudava de roupa e voava atravs das portas. Desejava contar  av, mas 
sabia que no podia. A idia de Zoya vir a ser bailarina iria enlouquec-la. Era prefervel nada dizer, pelo menos de momento. Talvez que se, de fato, a deixassem 
danar com os Ballets Russes... talvez, nessa altura...
       Contudo, na semana seguinte, vitoriosa, tendo arranjado emprego, pelo menos de momento, viu-se forada a partilhar as boas novas.
       - Fizeste o qu? - A av parecia chocada e extremamente surpreendida.
       - Uma audio para o Sergei Diaghilev e ele vai deixar-me danar com os Ballets Russes. O primeiro espetculo  na prxima semana. - Sentia o corao a bater 
acelerado, e a av no parecia satisfeita.
       - Ests doida? Uma vulgar bailarina em palco? Imaginas o que diria o teu pai a uma coisa dessas? - Foi um golpe que lhe doeu demasiado e voltou-se para a 
av que amava com um olhar magoado.
       - No fale nele assim. Morreu. No lhe agradaria nenhuma das coisas que nos aconteceram, av. Mas aconteceram e temos de fazer alguma coisa. No podemos ficar 
de braos cruzados e morrer  fome.
       -  isso, ento? Tens medo que possamos morrer  fome? Vou encomendar-te um jantar duplo para esta noite, mas podes estar certa de que no subirs ao palco.
       - Subo, sim. - Fitou-a pela primeira vez com um olhar de desafio. No passado, apenas se atrevera a lutar assim com a me, mas no podia deixar que a av a 
detivesse. Significava demasiado para ela, e era a nica sada que tinham, de qualquer forma a nica que conseguia divisar.
       No queria trabalhar numa loja, nem esfregar soalhos, nem coser botes em camisas de homens, nem trabalhar para uma costureira ou pregar plumas num chapu! 
E que mais havia para fazer? Nada. E, mais tarde ou mais cedo, seria esse o rumo que a vida tomaria. E a av tambm o sabia.
       - Seja razovel, av. No recebeu praticamente nada pela venda do colar de rubis. E quantas jias poderemos vender? Toda a gente aqui est a fazer o mesmo. 
Uma de ns tem de acabar por ir trabalhar e esta  a nica coisa que sei fazer.
       -  ridculo. Antes do mais, o nosso dinheiro ainda no se esgotou e, quando isso acontecer, ambas poderemos conseguir empregos respeitveis. As duas sabemos 
coser. Sei tricotar, e tu podes ensinar russo, francs ou alemo, ou mesmo ingls se te esforares um pouco. - Tinham-lhe ensinado tudo isto no Instituto Smolny 
juntamente com outras coisas mais que, agora, de nada serviam. - No existe motivo nenhum para te tornares uma bailarina como... como... - Estava to furiosa que 
quase mencionou a mulher com quem Nicolau se envolvera alguns anos atrs. - Esquece. De qualquer maneira, no vou permitir-to, Zoya.
       - No tem escolha, av. - Expressava-se com um calmo desespero e foi a primeira vez que a av a viu assim.
       - Tens de obedecer-me, Zoya.
       - No o farei.  a nica coisa que quero. E quero ajud-la. Os olhos da velha senhora encheram-se de lgrimas ao fitar a neta.
       - As coisas chegaram a este ponto? - Aos seus olhos, era um pouco melhor do que a prostituio, mas no muito.
       - O que h assim de to terrvel em ser bailarina? No a choca que o prncipe Vladimir conduza um txi.  algo de to respeitvel?  muito melhor do que o 
que quero fazer?
       -  pattico. - Eugenia fixou-a de corao destroado. Ainda h trs meses ele era um homem importante e h muito tempo o pai tinha peso. Agora tornou-se 
quase um mendigo... mas nada mais lhe resta, Zoya...  tudo o que pode fazer. Tudo acabou para ele e, pelo menos, est vivo. A tua vida ainda agora comeou e no 
posso permitir que comece dessa maneira. Ficars destroada... Ocultou o rosto entre as mos e ps-se a soluar. - E h to pouco que possa fazer para te ajudar.
       Zoya ficou paralisada ao ver a av chorar. Era a primeira vez que a via vacilar e tocou-lhe at ao mais fundo do seu ser, mas sabia que tinha de danar com 
os Ballets Russes, independentemente do que pudesse acontecer. No iria coser, tricotar, nem ensinar russo.
       Abraou a av e apertou-a com fora.
       - Por favor, no chore, av... Amo-a tanto...
       - Ento, promete-me que no danars com eles... Por favor, Zoya... Suplico-te... no deves faz-lo.
       Fixou a av com um olhar triste e uma sapincia superior  sua idade. Crescera demasiado rapidamente naqueles ltimos anos e no havia retorno possvel. Ambas 
o sabiam, por mais que Eugenia tentasse evit-lo.
       - A minha vida nunca mais voltar a ser igual, nem a sua, av, nunca mais. Trata-se de algo que no podemos mudar, mas de que devemos simplesmente tirar o 
mximo partido. No h retorno. Tal como o tio Nicolau e a tia Alix... Tm de fazer o que h a ser feito. Como eu... Por favor, no fique zangada...
       A velha condessa sentou-se na cadeira com uma expresso de derrota e fitou Zoya com um semblante infeliz.
       - No estou zangada, estou triste. E sinto-me muito indefesa.
       - Salvou-me a vida. Tirou-me de Sampetersburgo... e da Rssia. Se no fosse a av, tinham-me morto quando incendiaram a casa, ou talvez ainda pior... no 
pode mudar a Histria, av. Apenas podemos dar o nosso melhor... e o meu melhor  danar... Deixe-me faz-lo... por favor... Por favor, d-me a sua bno.
       A idosa senhora fechou os olhos, pensou no filho nico e abanou a cabea devagar, fitando Zoya, mas Zoya tinha razo.
       Konstantin morrera. Todos tinham desaparecido. O que interessava isso agora? Mas, acontecesse o que acontecesse, Eugenia sabia que a neta faria o que desejava 
e, pela primeira vez desde que se lembrava, sentia-se demasiado cansada e velha para a enfrentar.
       - Tens a minha bno. Mas s uma rapariguinha endiabrada, mesmo endiabrada! - Apontou-lhe o dedo e tentou sorrir atravs das lgrimas e depois interrogou-se 
sobre o modo como ela teria conseguido a audio. - Onde foste arranjar as sapatilhas? - Desde a chegada a Paris que Zoya no lhe pedira dinheiro.
       - Comprei-as. - Esboou um sorriso malicioso. Pelo menos, era inventiva, algo que teria agradado ao pai.
       - Com o qu?
       - Vendi o relgio. De qualquer maneira, era feio. Foi uma das minhas colegas que mo deu. - E Eugenia apenas conseguiu rir. A neta era uma jovem fantstica, 
e a velha senhora amava-a muito por mais furiosa que estivesse.
       - Suponho que devo estar grata por no me teres vendido o meu.
       - Av! Mas que idia! Seria incapaz de faz-lo! - Tentou parecer ofendida, mas ambas sabiam que no o estava.
       - S Deus sabe do que s capaz!... Tremo s de pensar!
       - Parece o Nicolai... - Zoya sorriu tristemente ao pronunciar a frase, e os olhos cruzaram-se e no se desviaram. Era todo um mundo novo o que tinham pela 
frente, cheio de novos princpios, novas idias, nova gente... e uma nova vida para Zoya.
       
CAPTULO 11
       
       O seu primeiro ensaio com os Ballets Russes, a 11 de Maio, foi de arrasar. Acabou s dez dessa noite e Zoya regressou ao apartamento doida de alegria, mas 
to cansada que mal conseguia mexer-se. Os ps tinham-lhe sangrado quando executara os pas de deux e os tours jets uma, duas, vezes sem conta. Fazia com que os 
anos com Madame Nastova lhe parecessem uma brincadeira de criana.
       A av esperavas na pequena sala de estar. Tinham-se mudado para o apartamento dois dias antes e comprado um pequeno div e vrias mesinhas. Havia candeeiros 
com horrveis abat-jours de franjas e um tapete verde enfeitado de tristes flores em tom prpura. Muito longe dos Aubussons, das antiguidades e dos bonitos objetos 
que tinham amado. Era, porm, confortvel, e Feodor mantinha-o limpo. No dia anterior, fora at ao campo com o prncipe Markovski e regressara a casa com o txi 
cheio de lenha.
       Ardia um fogo acolhedor e a av esperavas com uma chaleira de ch fumegante.
       - Ento, pequenina? Que tal correu? - Continuava a esperar que Zoya recuperasse o bom senso e abandonasse a idia de danar com os Ballets Russes, mas detectou 
nos olhos da jovem que a esperana estava perdida. No a via to feliz desde que todo o pesadelo comeara, exatamente h dois meses, com os motins na rua e a morte 
de Nicolai. Nada disso fora esquecido, mas a recordao parecia menos vincada quando ela se deixou cair nas desconfortveis cadeiras e esboou um sorriso de orelha 
a orelha.
       - Foi maravilhoso, av... simplesmente maravilhoso... mas estou to cansada que mal consigo mexer-me. - As longas horas de ensaio haviam sido terrveis, mas 
eram estranhamente um sonho tornado realidade e agora s conseguia pensar no espetculo dali a duas semanas. A av prometera ir e o prncipe Markovski apareceria 
na companhia da filha.
       - No mudaste de idias, pequenina?
       Abanou a cabea com um sorriso cansado e serviu-se de uma xcara da chaleira a escaldar. Tinham-lhe dito nessa noite que danaria nas duas partes do espetculo 
e sentia-se muito orgulhosa do dinheiro que lhe haviam dado. F-lo deslizar para a mo da av com um tmido ar de orgulho ante as lgrimas que encheram os olhos 
de Eugenia. As coisas haviam chegado, ento, quele ponto. Iria ser sustentada pelo ballet da neta. Era quase insuportvel.
       - Para que  isso?
       -  para si, av.
       - Ainda no precisamos. - Todavia, as paredes nuas que as rodeavam e o horroroso tapete verde contrariavam a afirmao. Tudo o que tinham estava no fio e 
usado e ambas sabiam que o dinheiro do colar de rubis no tardaria a desaparecer. Havia, obviamente, mais jias, mas no as bastantes para as sustentar eternamente. 
- , de fato, isto o que queres fazer? - perguntou Eugenia num tom triste, e Zoya acariciou-lhe a face ao de leve e depois beijou-a.
       - Sim, av... Hoje foi maravilhoso. - Assemelhava-se ao sonho de danar com os estudantes do Marinski e nessa noite escreveu a Marie uma comprida e corajosa 
carta em que lhe contava tudo, omitindo apenas o pequeno e horrvel apartamento.
       Manteve-se sentada na minscula sala de estar muito depois de a av se ter ido deitar e escreveu-lhe sobre as pessoas que tinham visto, como era Paris e a 
excitao de danar com os Ballets Russes. Quase conseguia divisar o sorriso de Marie.
       Endereou a carta ao Dr. Botkin em Tsarskoie Selo e esperava que Marie a recebesse decorrido pouco tempo. Escrever-lhe fazia com que se sentisse mais prximo 
dela.
       No dia seguinte voltou ao ensaio e nessa noite verificou-se um raid areo. Os trs refugiaram-se na adega sob o edifcio e depois regressaram devagar ao andar 
superior quando tudo acabou.
       Era um sinal da guerra que rugia nas proximidades, mas Zoya no sentia medo. Apenas conseguia pensar na dana.
       O prncipe Markovski estava muitas vezes presente quando Zoya regressava a casa. Tinha sempre histrias para contar e aparecia freqentemente com bolinhos 
e fruta, quando conseguia arranj-los.
       Trouxe-lhes mesmo um dos poucos tesouros que ainda conservava, um valioso cone que a av no queria aceitar, mas ele insistiu.
       Eugenia estava consciente de como todos precisavam desesperadamente das coisas que podiam vender, mas Markovski limitou-se a acenar com a mo elegante de 
dedos compridos e afirmou que, de momento, tinha mais do que o necessrio. A filha arranjara um emprego a ensinar ingls.
       E na noite do primeiro espetculo, estavam todos l, na terceira fila. Zoya comprara-lhes os bilhetes com o seu salrio.
       S Feodor no apareceu. Sentia-se igualmente orgulhoso dela, mas o ballet era algo fora do seu alcance, e Zoya trouxe-lhe um programa com o nome dela escrito 
a letras pequenas prximo do final. At mesmo a av ficara orgulhosa, embora tivesse chorado de tristeza ao assistir. Teria preferido o que quer que fosse a v-Ia 
no palco como uma vulgar bailarina.
       - Foste maravilhosa, Zoya Konstantinovna! - O prncipe fez-lhe um brinde com champanhe, que comprara, quando regressaram ao apartamento. - Estamos todos muito 
orgulhosos de ti! - Sorriu feliz  jovem ruiva, mau grado um olhar austero e um fungar da filha. Esta sentia-se chocada pelo fato de Zoya se ter tornado bailarina. 
As duas nunca se tinham conhecido, e ela era uma rapariga alta e magra com todos os sinais exteriores de uma solteirona. A vida em Paris era-lhe insuportvel. Detestava 
as crianas a quem ensinava ingls e custava-lhe ver o pai a conduzir um txi.
       Contudo, Zoya no partilhava nem uma das suas arrogantes perspectivas. Os olhos pareciam brilhar-lhe de excitao. Tinha o rosto afogueado quando a farta 
cabeleira se soltou, depois de a ter apanhado, como um mar de chamas sobre os ombros. Era uma bonita rapariga e a excitao da noite contribura para lhe ressaltar 
a beleza.
       - Deves estar muito cansada, pequenina - disse o prncipe num tom bondoso ao servir a ltima taa de champanhe.
       - Nada mesmo - protestou Zoya, comeando a danar pela sala. Era muito mais fcil do que tinha sido o ensaio. Fora tudo o que sempre sonhara e mais. - No 
estou cansada. - Sorriu e depois soltou uma pequena risada ao beber mais um gole do champanhe, enquanto Yelena, a filha dele, a brindava com um olhar de censura. 
Zoya queria ficar a p toda a noite a contar-lhes histrias dos bastidores. Precisava de conversar sobre o assunto com pessoas que se interessavam.
       - Foste fantstica! - repetiu ele, e Zoya esboou um sorriso.
       Era to srio e to velho, mas parecia preocupar-se com ela. De certa forma, desejava que o pai pudesse ter estado ali, embora sabendo que v-Ia em palco 
lhe partiria o corao. No entanto, talvez, secretamente, se tivesse orgulhado dela... E Nicolai... Os olhos encheram-se-lhe de lgrimas ante o pensamento. Pousou 
o copo, virou costas e dirigiu-se  janela, detendo-se a fixar o jardim.
       - Ests encantadora esta noite! - sussurrou Vladimir ao seu lado, e ela ergueu o rosto com um brilho de lgrimas no olhar. O corpo elegante de Zoya era to 
jovem e apetecvel.
       Ardia de desejo, o que se tornava a tal ponto visvel que ela recuou, com a sbita conscincia do que no notara antes. O prncipe era ainda mais velho do 
que o pai e sentia-se chocada ante o que lhe detectou no olhar.
       - Obrigada, prncipe Vladimir - agradeceu calmamente e com uma repentina tristeza ante o desespero em que todos se encontravam, sedentos de amor e presos 
a um passado que ainda podiam partilhar. Em Sampetersburgo, ele nem a olharia duas vezes, apenas seria uma bonita rapariga, mas agora... agora, agarravam-se com 
todas as foras a um mundo perdido e s pessoas que ali haviam deixado. Ela era apenas uma forma de prolongar o passado. Gostaria de o ter dito a Yelena, quando 
ela se despediu de forma rspida.
       Zoya voltou a pensar no prncipe Vladimir enquanto se despia e esperava que a av regressasse da casa de banho do corredor.
       - Foi simptico em trazer-nos champanhe - comentou a av, escovando o cabelo, de rosto emoldurado pela camisa de noite enfeitada que fazia com que parecesse 
mais nova sob a escassa luz.
       Outrora fora bonita, e os olhos das duas mulheres cruzaram-se e no se desviaram. Zoya interrogou-se sobre se ela saberia da atrao de Vladimir. A mo dele 
tocara-lhe ao despedirem-se e agarrara-a com demasiada fora ao beij-la na face.
       - A Yelena parece to triste, no acha? - perguntou Zoya, depois de um longo momento e sem responder ao comentrio.
       Eugenia esboou um aceno de concordncia e pousou a escova com um ar solene.
       - Nunca foi uma criana feliz, tanto quanto me recordo. Os irmos eram muito mais interessantes, mais parecidos com o Vladimir - redargiu. Recordava o elegante 
filho do prncipe que pedira a mo de Tatiana. -  um homem atraente, no achas?
       Zoya virou costas por um momento e depois rodou sobre os calcanhares e declarou com franqueza:
       - Acho que ele gosta de mim, av... Demasiado... - Hesitou e Eugenia franziu o sobrolho.
       - O que pretendes dizer?
       - Que ele... - Corou violentamente sob a luz fraca, exibindo de novo o ar de uma criana - Que ele... tocou-me na mo esta noite... - Parecia estpido estar 
com aquelas explicaes... Talvez o gesto nada significasse.
       - s uma rapariga bonita e talvez lhe despertes memrias. Acho que ele era muito amigo da tua me e sei que se dava muito com o Konstantin na juventude de 
ambos. Caaram mais do que uma vez na companhia do Nicolau... No sejas to sensvel, Zoya.  um homem bem-intencionado. E foi simptico em vir ver-te esta noite. 
Est apenas a ser bondoso, mida.
       - Talvez - anuiu Zoya, despreocupada. Em seguida, apagaram a luz e meteram-se na estreita cama que partilhavam. No escuro, a jovem ouvia Feodor a ressonar 
no quarto ao lado e mergulhou no sono, pensando na magia do espetculo.
       Contudo, na manh seguinte, teve a certeza de que Vladimir no estava somente a ser bondoso. Esperava-a l em baixo, quando saiu para o ensaio.
       - Queres uma bolia? - Ficou surpreendida ao v-lo ali e ele trazia-lhe flores.
       - No quero dar-lhe trabalho... Tudo bem. - Teria preferido percorrer a p a distncia que a separava do Chtelet. Ele fazia com que se sentisse subitamente 
desconfortvel ante a forma como a olhava. - Gosto de andar a p.
       Estava um dia bonito e sentia-se excitada por ir ensaiar novamente. Os Ballets Russes, eram o seu maior prazer daquele dias e no queria partilh-lo com ningum, 
nem mesmo com o elegante prncipe de cabelos brancos que lhe estendia rosas brancas com um gesto galante.
       As flores apenas contribuam para que ficasse triste.
       Marie sempre lhe dera rosas brancas na Primavera, mas ele no poderia saber. Nada sabia sobre ela, era amigo dos seus pais, no dela, e sentiu-se repentinamente 
deprimida ao v-lo ali de p, de casaco gasto e colarinho enrugado. Como todos os restantes, deixara tudo para trs  exceo da vida, algumas jias e o cone que 
lhe oferecera h uns dias.
       - Talvez a av gostasse que lhe fizesse uma visita sugeriu com um sorriso delicado, e ele pareceu magoado.
       -  assim que me vs? Como um amigo da tua av? - No queria responder-lhe afirmativamente, mas era essa a verdade. Parecia-lhe mil anos mais velho, ali de 
p, olhando-a. - Consideras-me assim to velho?
       - De forma alguma... Lamento... Tenho de ir... Vou chegar atrasada e zangam-se comigo.
       - Nesse caso, deixa-me levar-te. Podemos falar no caminho.
       Hesitou, mas iria chegar atrasada. Permitiu, relutante, que ele lhe abrisse a porta do txi e entrou, deixando que as rosas brancas os se arassem, no assento. 
Era simptico da parte dele trazer-lhe presentes, mas sabia que dificilmente podia dar-se a esse luxo. No era de admirar que Yelena se mostrasse aborrecida.
       - Como est a Yelena? - perguntou para passar o tempo e evitou-lhe os olhos, fixando os outros carros e s depois voltando a encar-lo. - Pareceu-me muito 
quieta na noite passada.
       - No se sente feliz aqui - suspirou. - No acho que muitos de ns se sintam.  uma mudana to repentina e ningum estava preparado... - Pronunciou as palavras 
e depois estendeu o brao e tocou-lhe na mo, sobressaltando-a com o seguimento da conversa:
       - Achas que sou velho demais para ti, minha querida Zoya?
       A voz prendeu-se-lhe na garganta e soltou delicadamente a mo.
       -  o amigo do meu pai - respondeu com uma expresso triste.
       - Torna-se difcil para todos ns, todos nos agarramos ao que j no temos. Talvez eu represente isso para si.
       -  o que pensas? - Sorriu. - Sabes que s muito bonita?
       Zoya sentiu-se corar e amaldioou no ntimo a suave tez que condizia com a farta cabeleira.
       - Muito obrigada. Mas sou mais nova do que a Yelena... Tenho a certeza de que ela ficaria muito perturbada... - Foi tudo o que conseguiu proferir, ansiando 
por que chegassem ao Chtelet e pudesse esquivar-se.
       - Ela tem a vida dela, Zoya. E eu tenho a minha. Gostaria de levar-te a jantar. Talvez ao Maxim's. - Era uma loucura: o champanhe... as rosas... a idia de 
jantar no Maxim's. Estavam todos a morrer de fome, ele conduzia um txi, ela danava nos Ballets Russes e no fazia sentido que gastasse o pouco que tinha com ela. 
O prncipe era velho de mais, mas no queria ser indelicada.
       - No me parece que a av... - Virou uns olhos tristes na sua direo e ele pareceu descontente.
       - Ficarias melhor com um de ns, Zoya Konstantinovna, algum que conhea o teu mundo, do que um jovem idiota.
       - No tenho tempo para nada disso, Vladimir. Se me mantiverem nos Ballets, terei de trabalhar noite e dia para no perder o lugar.
       - Podemos descobrir tempo. Irei buscar-te  noite... - A voz tornou-se um sussurro e fitou-a com expectativa, mas ela abanou a cabea com uma expresso infeliz.
       - No posso... a srio que no. - Verificou, aliviada, que tinham chegado e virou-se para o fitar uma ltima vez. - Por favor, no espere por mim. Apenas 
quero esquecer... O que foi...  impossvel recuperar. No estaria certo para ns... por favor...
       Vladimir no pronunciou uma s palavra quando ela deslizou para fora do carro e se afastou a toda a pressa, deixando as rosas brancas no assento ao lado dele.
       
CAPTULO 12
       
       - O Vladimir trouxe-te a casa? - A av sorriu ao v-la entrar e Zoya reparou com um aperto no corao que as rosas brancas se encontravam numa jarra ao seu 
lado.
       - No. Um dos outros deu-me boleia. - Sentou-se com um sorriso e esfregou as pernas. - Hoje, foi difcil. - Contudo, no se importava, pois danar com os 
Ballets Russes fazia com que se sentisse outra vez viva.
       - Ele disse que te trazia a casa - replicou Eugenia, franzindo o sobrolho. Trouxera-lhe po fresco e um frasco de compota. Era um homem to generoso e tratava-as 
to bem. E, estranhamente, Eugenia sentia-se confortada ao pensar nele a tomar conta de Zoya.
       - Av... - Zoya fitou-a, tentando encontrar as palavras. No quero.
       - Porque no? Ests muito mais segura com ele do que com algum que no conheas. - Ele prprio lho dissera nessa tarde quando fora ao apartamento deixar 
as rosas de Zoya, e o desgosto por ver a neta a danar com os Ballets Russes atingiu-a, de novo, como uma faca no corao, mas sabia que nada poderia det-la agora. 
E tinha de admitir que uma delas precisava de trabalhar, e Zoya era a nica em condies de o fazer. Apenas desejava que tivesse encontrado outra ocupao, como 
as aulas de Yelena. E se Vladimir a tomasse sob a sua proteo, talvez a neta deixasse de danar. O prncipe apenas o sugerira nessa tarde, o que fizera com que 
o visse sob uma perspectiva diferente. A de heri e salvador.
       - Av... Acho que o prncipe Vladimir... Acho que tem algo mais em mente.
       -  um homem decente. Com boas maneiras e bem-nascido. Era um amigo do Konstantin. - Eugenia no queria abrir o jogo cedo de mais, embora Vladimir a tivesse 
convencido.
       - Mas era a isso mesmo que me referia. Era amigo do pap. E no meu. Deve ter sessenta anos.
       -  um prncipe russo e primo do czar.
       - O que justifica tudo? - retorquiu Zoya, irritada e levantando-se de um salto. - No se importa que tenha idade bastante para ser meu av?
       - Ele no quer o teu mal, Zoya... Algum tem de tomar conta de ti. Estou com oitenta e dois anos... No estarei eternamente ao teu lado... Tens de pensar 
nisso. - E, no ntimo, ficaria aliviada por saber que deixava Zoya nas mos de Vladimir. Pelo menos, era algum que conhecia, algum que compreendia a vida que haviam 
levado antes. Ningum em Paris o compreenderia  exceo dos seus e deitou um olhar implorativo a Zoya, suplicando-lhe em silncio que pensasse no assunto, mas a 
jovem estava horrorizada.
       - Queria que casasse com ele?  esse o seu desejo? - Os olhos encheram-se-lhe de lgrimas ante a idia. -  um velho.
       - Tomaria conta de ti. Pensa em como tem sido bom para ns, desde que chegamos.
       - No quero ouvir falar mais disto! - Correu para o quarto, bateu a porta e atirou-se para cima da cama, chorando desesperadamente. Era o que lhe restava? 
A perspectiva de casamento com um homem do triplo da sua idade, s porque era um prncipe russo? A idia repugnava-a e fazia com que tivesse ainda mais saudades 
da vida e dos amigos perdidos.
       - Zoya... No... querida, por favor... - A av veio sentar-se na beira da cama e acariciou-lhe suavemente o cabelo. - No estou a forar-te a fazer algo que 
no queiras. Contudo, preocupo-me demasiado contigo. O Feodor e eu somos to velhos... Tens de encontrar algum que possa tomar conta de ti.
       - Tenho dezoito anos - soluou. - No quero casar com ningum... E muito menos ele... - O prncipe em nada a atraa e odiava Yelena. A idia de se ver condenada 
a viver com eles, punha-a histrica. Apenas desejava danar, ganharia dinheiro bastante para se sustentar, a Feodor e  av. Jurou para si prpria que faria tudo 
de preferncia a casar com um homem que no amava. Trabalharia noite e dia... Faria qualquer coisa...
       - Est bem... est bem... Por favor, no chores assim... por favor... - Os olhos encheram-se-lhe de lgrimas ao pensar na crueldade do seu destino. Talvez 
a neta tivesse razo. Fora apenas uma idia. Vladimir era obviamente velho de mais, mas era um deles, o que se tornava muito importante aos seus olhos.
       Contudo, havia outros que tinham sobrevivido, havia igualmente homens mais novos. Talvez Zoya viesse a conhecer um deles e se apaixonasse. Era a sua maior 
esperana agora. Era a nica esperana que lhe restava... essa e as poucas jias escondidas na cama onde dormiam. Nada mais restava...  exceo de alguns diamantes 
e esmeraldas, uma fieira de prolas requintadas e o ovo Faberg que Nicolau lhe dera... e uma vida de sonhos quebrados.
       - V l, Zoya... Seca as lgrimas. Vamos dar um passeio.
       - No - recusou a neta num tom de voz infeliz, enterrando novamente o rosto na cama. - Ele estar  nossa espera, l em baixo.
       - No sejas ridcula - contraps Eugenia a sorrir, pensando como ela era ainda uma criana, embora tivesse crescido rapidamente nos ltimos dois meses. - 
Tem uns modos impecveis. No  um desordeiro  solta pelas ruas. Deixa de ser idiota.
       Zoya rolou devagar e ficou de costas, parecendo de uma beleza incrvel.
       - Desculpe, av. No quero torn-la infeliz. Prometo que tomarei conta de ns.
       - No  o que quero para ti, pequenina. Quero que algum tome conta de ti.  assim que deveria ter sido.
       - Todavia, tudo  diferente agora. Nada  como era. - Sentou-se, esboando um sorriso tmido. - Talvez um dia venha a ser uma bailarina famosa. - Parecia 
entusiasmada com a idia, e Eugenia soltou uma gargalhada.
       - Deus me ajude, mas quase acho que ests a gostar de tudo isto.
       - Adoro os Ballets Russes, av - replicou Zoya com um sorriso franco.
       - Eu sei. E s muito boa. Contudo, no deves pensar nisso como algo que fars para toda a vida. F-lo agora, se tem de ser. Mas, um dia, as coisas voltaro 
a mudar. - No era uma promessa, e sim uma orao.
       No entanto, quando Zoya ps as pernas fora da cama e foi buscar o casaco, apercebeu-se de que no estava certa de querer a mudana. Adorava danar com os 
Ballets Russes... muito mais do que a av conseguia entender.
       Ao caminharem devagar rumo ao Palais Royal, observando as arcadas e os objetos expostos, Zoya sentiu um estremecimento de alegria que lhe invadia a alma. 
Paris era bonita e gostava das pessoas dali. A vida no era assim to m. Sentiu-se repentinamente feliz e jovem. Demasiado jovem para desperdiar a vida com o prncipe 
Vladimir.
       
CAPTULO 13
       
       Zoya danou com os Ballets Russes durante todo o ms de Junho e estava to absorta no seu trabalho que mal se apercebia do que se passava no mundo. Ficou 
extraordinariamente surpreendida com a chegada do general Pershing e das suas tropas a 13 de junho.
       A cidade fervilhou, quando marcharam at  Praa da Concrdia e desfilaram junto ao Hotel Crillon. O povo gritava e acenava e as mulheres atiravam flores 
aos homens, gritando: "Vve l'Amrique!"
       Zoya mal conseguiu regressar ao Palais Royal, a fim de contar  av o que tinha visto.
       - So aos milhares, av!
       - Nesse caso, talvez a guerra acabe em breve para ns.
       Sentia-se exausta com os raids areos noturnos e uma parte secreta dela pensava que, se a guerra terminasse, talvez a situao mudasse novamente na Rssia 
e pudessem voltar. Contudo, a maioria das pessoas sabia que no havia esperana.
       - Quer ir dar um passeio e ver? - Os olhos de Zoya brilhavam.
       Havia algo de maravilhoso nos rostos esperanados dos franceses e nos homens vigorosos com uniformes de caqui, to fortes e cheios de vida. Por todo o lado, 
parecia renascer a esperana, mas a av limitou-se a abanar a cabea.
       - No tenho qualquer desejo de ver soldados nas ruas, mida.
       - Nutria terrveis recordaes, sentia-se a salvo em casa e incitou Zoya a que ficasse tambm. - Afasta-te deles. As multides podem tornar-se rapidamente 
perigosas.
       No havia, porm, qualquer indcio de que assim fosse. Era um dia feliz para todos, e os ensaios haviam sido suspensos durante o resto da semana. Pela primeira 
vez num ms, Zoya dispunha de algum tempo para si, para ficar na cama, ir passear, sentar-se junto  lareira e ler. Sentia-se despreocupada e jovem e usufrua daquele 
momento.
       Nessa noite, sentou-se na sala de estar e escreveu uma longa carta a Marie, falando-lhe da marcha de Pershing e do seu trabalho no ballet. Parecia haver mais 
para lhe relatar agora, embora no mencionasse o prncipe Vladimir. Sabia que a amiga ficaria chocada se soubesse que a av encorajava a conquista, mas tornara-se 
uma questo insignificante. Ele compreendera e, embora continuasse a trazer po fresco  condessa enquanto Zoya trabalhava, h semanas que no se cruzavam.
       Enquanto escrevia a Marie nessa noite, a pequena Sava aninhava-se confortavelmente no seu colo, ressonando, feliz. "... Parece-se tanto com a Joy que me faz 
pensar em ti, mal entra aos saltos no quarto. Embora no precise deste tipo de coisas para te recordar. Parece-me incrvel que estejamos em Paris e tu a... e que 
no nos encontremos em Livadia neste Vero. Aquela fotografia idiota de todas ns est junto  minha cama... "
       Zoya olhava-a todas as noites, antes de adormecer. Trouxera igualmente uma fotografia de Olga com Alexis ao colo quando ele tinha trs ou quatro anos... e 
uma muito bonita de Nicolau e Alexandra. Meras recordaes agora, mas o fato de escrever  amiga conservava-as vivas no seu corao.
       H uma semana, o Dr. Botkin enviara-lhe uma carta de Marie em que ela comunicava a Zoya que estava tudo bem, embora se mantivessem sob priso domiciliria. 
Contudo, haviam-nos informado que iriam at Livadia, em Setembro. E estava recuperada.
       Desculpava-se por ter pegado o sarampo a Zoya e dizia que gostava de a ter visto coberta de manchas. A leitura das cartas provocava-lhe um sorriso por entre 
as lgrimas.
       Estava a reler a carta, quando chegou uma mensagem. Iria danar Petruchka na Opra para o general Pershing e as suas tropas. Como sempre, a av no ficou 
nada feliz com as notcias.
       Danar para os soldados ainda parecia pior do que o espetculo no Chtelet, mas desta vez nem sequer tentou dissuadir Zoya, sabendo perfeitamente que no 
tinha qualquer hiptese de ser bem sucedida.
       Nessa altura, Pershing e os soldados estavam instalados no quartel-general da Rue Constantine, do outro lado dos Invalides, e ele vivia na margem esquerda, 
prximo da Rue de Varennes, num belo htel particulier que lhe fora cedido por Ogden Mills, um colega americano que estava em servio algures na infantaria.
       - Esta noite, quero que o Feodor te acompanhe - decidiu a av num tom sombrio, quando a neta se dispunha a sair para a Opra.
       - Deixe-se disso, av. No podem ser diferentes dos generais russos. Tenho a certeza de que se comportaro devidaMente. No vo tomar o palco de assalto para 
nos levarem com eles. - Nessa noite, Nijinski danava com eles, e Zoya estava hilariante. Pisar o mesmo palco era algo que a ultrapassava. - Tudo correr bem, garanto.
       - No irs s. Ou com o Feodor ou com o prncipe Vladimir. Escolhe. - Sabia perfeitamente qual seria a opo, embora intimamente o lamentasse, mas no voltara 
a pressionar Zoya quanto ao prncipe. De certa forma, a neta tinha razo. Havia uma grande diferena de idades.
       - Muito bem - retorquiu Zoya a rir. - Levo o Feodor. Mas ele vai ficar infelicssimo  espera nos bastidores.
       - No, se estiver  tua espera, minha querida. - O velho criado servia-as com uma devoo que roava o fanatismo, e Eugenia sabia que Zoya estaria a salvo 
com ele ao seu lado. E Zoya apenas concordou para sossegar a av.
       - Diz-lhe pelo menos que no deve pr-se no meio do caminho.
       - Nunca o faria.
       Meteram-se juntos num txi para a Opra e, momentos depois, Zoya desapareceu no meio dos preparativos do espetculo para Pershing e os seus homens. Sabia 
que havia outros festejos planeados para eles na Opra Comique, na Comdie-Franaise e noutros teatros espalhados pela cidade. Paris recebia-os de braos abertos.
       E nessa noite, quando a cortina subiu, danou como nunca. O fato de saber que Nijinski estava ali incitou-a, e Diaghilev falou-lhe pessoalmente no final do 
primeiro ato. Sentia-se como se fosse capaz de voar depois das suas generosas palavras, entregou-se de alma e corao e, quando a cortina desceu, ficou surpreendida 
por o espetculo ter passado num pice. Queria que aquela noite nunca mais acabasse.
       Esboou as vnias com o resto do corpo de bailado e retirou-se com eles para o camarim comum. As primeiras bailarinas tinham obviamente os seus prprios camarins, 
mas decorreriam anos antes que pudesse formular esse desejo, s que no lhe importava.
       Apenas queria danar e era o que acontecia. Danara bem e sentia-se orgulhosa quando descalou as sapatilhas. Doam-lhe os dedos dos ps dos tacos de madeira, 
mas nem isso tinha qualquer significado. Era um pequeno preo a pagar por tamanha alegria.
       At esquecera o general e os seus acompanhantes. Nessa noite, s conseguia pensar no ballet enquanto danava, danava, danava... e ergueu os olhos, surpreendida, 
quando uma das professoras entrou.
       - Esto todos convidados para uma recepo na casa do general - anunciou. - Dois caminhes militares iro lev-los l. - Deitou-lhes um olhar orgulhoso. Todos 
haviam feito boa figura a nvel individual e generalizado. - Champanhe para todos! - acrescentou com um sorriso e todos se puseram a rir e a falar.
       Paris parecia ter recuperado vida com os americanos por perto. Havia festas e espetculos por todo o lado e, de sbito, Zoya pensou em Feodor, que a esperava 
l fora. Queria absolutamente ir com eles, ser como o resto das pessoas, mau grado os receios da av.
       Deslizou sem rudo at ao exterior, foi  procura de Feodor e descobriu-o de p junto  porta do palco, com um ar to triste como ela dissera  av que seria 
o caso. Sentia-se ridculo, rodeado por mulheres envoltas em tule e homens que passavam por ele seminus. A bvia imoralidade do ambiente horrorizava-o.
       - Sim, mademoiselle?
       - Tenho de ir a uma recepo com o resto do corpo de bailado e no posso levar-te, Feodor - explicou. - Vai para casa ter com a av e diz-lhe que irei assim 
que puder.
       - No - recusou, abanando solenemente a cabea. - Prometi  condessa Eugenia Peterovna que a levaria a casa.
       - Mas no podes acompanhar-nos. Garanto-te que estarei a salvo.
       - Ela ficar muito zangada comigo.
       - No, no ficar. Eu prpria lhe explicarei quando chegar a casa.
       - Esperarei. - Fitou-a sem se deixar demover, e Zoya sentiu vontade de gritar. No queria uma dama de companhia. Queria ser como todos os outros. Afinal, 
j no era um beb. Era uma jovem adulta, de dezoito anos. E talvez, se tivesse muita, muita sorte, Nijinski lhe dirigisse a palavra... ou novamente Mr. Diaghilev.
       Estava muito mais interessada neles do que em qualquer dos homens de Pershing. Contudo, primeiro tinha de convencer Feodor a ir para casa e, por fim, depois 
do que lhe pareceu uma discusso infindvel, ele acedeu, embora sem deixar de vincar que a condessa decerto ficaria furiosa com ele.
       - Prometo-te que lhe explico tudo.
       - Muito bem, mademoiselle. - Levou a mo  testa, esboou uma vnia e saiu pela porta do palco. Zoya soltou um suspiro de alvio.
       - O que era? - inquiriu uma das outras bailarinas, quando passou junto dela.
       - Apenas um amigo de famlia. - Sorriu.
       Ningum conhecia a sua vida e ningum queria saber. Apenas lhes interessava o ballet e no os relatos piegas de como conseguira juntar-se ao corpo de bailado 
e a presena do velho criado, qual guarda cossaco, embaraava-a. Ficou aliviada ao v-lo afastar-se e pde voltar ao camarim e mudar-se para a recepo na casa do 
general Pershing. Estava toda a gente muito animada e algum j lhes comeara a servir champanhe.
       Amontoaram-se alegremente nos caminhes militares e atravessaram a Ponte Alexandre III entoando velhas canes russas e tiveram de lhes recordar mais do que 
uma vez que se portassem bem durante o percurso at  casa do general Pershing. Contudo, ele tinha um ar bondoso e recebeu-os agradavelmente, um homem alto e magro 
de uniforme, que circulava pelo elegante trio de mrmore.
       Por momentos, Zoya sentiu um baque no corao ao olhar em volta. O ambiente recordava-lhe os palcios de Sampetersburgo, embora obviamente em ponto pequeno. 
Todavia, o cho de mrmore e a escadaria em caracol eram-lhe demasiado familiares e uma recordao demasiado viva do mundo que ainda h to pouco tempo abandonara.
       Foram encaminhados at um enorme salo de baile com paredes forradas de espelhos e lareiras de mrmore, tudo em autntico estilo Lus XV. De sbito, Zoya 
voltou a sentir-se muito jovem enquanto os pares rodopiavam e riam e uma banda militar ps-se a tocar uma valsa lenta. Outros bebiam champanhe. Invadiu-a um desejo 
imperioso de chorar ao ouvir a msica e, ao faltar-lhe o ar, saiu para o jardim.
       Ficou silenciosamente de p a observar uma esttua de Rodin, desejando no ter vindo, e nesse momento uma voz mesmo nas suas costas expressou-se suavemente 
na noite quente.
       - Posso ir buscar-lhe alguma coisa, mademoiselle? - A voz masculina era nitidamente americana, mas falava um francs impecvel. Virou-se e deparou com um 
homem alto e atraente, de cabelo grisalho e uns olhos azul-claros. A primeira coisa que lhe prendeu a ateno foi que ele parecia bondoso. Dava a sensao de saber 
que algo estava mal e observou-a delicadamente, mas ela abanou a cabea com as lgrimas ainda visveis nas faces. - Est bem?
       Zoya esboou um aceno de cabea silencioso e depois virou-se, embaraada, para limpar as lgrimas. Pusera um simples vestido branco que Alix lhe tinha dado 
no ano anterior. Era um dos poucos bonitos que conseguira trazer de Sampetersburgo, e estava encantadora.
       - Desculpe... eu... - Como podia expressar-lhe o que sentia? S desejava que ele a deixasse entregue s suas recordaes, mas o americano no fez meno de 
se afastar. - Tudo isto  to bonito. - Foi tudo o que conseguiu dizer, mas logo lhe ocorreu o miservel apartamento perto do Palais Royal e voltou a lembrar-se 
de quanto as suas vidas haviam mudado num marcante contraste com o elegante jardim onde agora se encontrava.
       - Est com os Ballets Russes?
       - Sim. - Sorriu, esperando que ele esquecesse as lgrimas e ouvisse os acordes distantes de uma outra valsa. Pronunciou as palavras num tom orgulhoso, pensando 
novamente em como tinha sorte: - O Nijinski no esteve maravilhoso esta noite?
       O homem riu, embaraado, aproximou-se um pouco mais e Zoya voltou a reparar em como era alto e atraente.
       - Receio no ser um grande apreciador de ballet. Foi um espetculo oferecido a alguns de ns esta noite.
       - Ah! - exclamou, sorrindo. - E sofreu muito?
       - Sim - anuiu com uma gargalhada no olhar. - At este momento. Quer uma taa de champanhe?
       - Talvez dentro de minutos. Isto  to bonito. - O jardim irradiava uma paz imensa naquele momento em que todos danavam, riam e rodopiavam no interior da 
casa. - Tambm vive aqui?
       - Alojaram-nos numa casa na Rue du Bac - respondeu com um sorriso. - No  to imponente como esta, mas  muito agradvel e bastante prxima.
       Observava-lhe os movimentos. Era uma jovem calma e elegante e transmitia algo mais do que a graciosidade de uma bailarina ao aproximar-se dele. Notava-se 
uma aura de um porte quase real quando movia a cabea e um olhar de uma incomensurvel tristeza que lhe ensombrava o sorriso.
       - Faz parte do pessoal do general?
       - Sim. - Era um dos ajudantes-de-campo, mas poupou-a a pormenores. - H muito que est com os Ballets Russes? - Era impossvel que assim fosse, pois suspeitava 
tratar-se de uma rapariguinha, embora denotasse um porte vincado quando finalmente mudaram do francs para o ingls. Falava muito bem, depois de todos os seus estudos 
no Instituto Smolny.
       - Estou com eles h um ms - Sorriu. - Com grande desgosto da minha av. - Riu e pareceu subitamente muito mais nova.
       - Os seus pais devem orgulhar-se muito de si. - Contudo, lamentou de imediato o comentrio ao detectar-lhe a tristeza no olhar.
       - Os meus pais foram mortos em Sampetersburgo... em Maro... - Quase sussurrou as palavras, e subitamente ele compreendeu. Vivo com a minha av.
       - Lamento... pelos seus pais, quero dizer... - O brilho dos olhos azuis quase a fez chorar novamente. Era a primeira vez que falava assim com algum. Os companheiros 
do ballet pouco sabiam a seu respeito, mas por qualquer motivo achava que podia contar-lhe tudo. Ele recordava-lhe estranhamente Konstantin, com a mesma elegncia, 
a graciosidade com que se movia, o cabelo de madeixas grisalhas e os olhos brilhantes. - Veio para c com a sua av? Ignorava porqu, mas ela fascinava-o. Era to 
jovem e bonita, com aqueles enormes e tristes olhos verdes.
       - Sim, viemos h dois meses... de... depois... - Todavia, foi incapaz de completar a frase, e ele aproximou-se, colocando-lhe suavemente a mo no brao.
       - Vamos dar um passeio, mademoiselle? - Zoya sentia-se segura com a mo no brao dele. - E depois talvez uma taa de champanhe.
       - Caminharam at  esttua de Rodin e voltaram, falando de Paris, da guerra, de temas que lhe eram menos dolorosos, e a jovem ergueu o rosto na sua direo, 
sorrindo.
       - E de onde ?
       - Nova Iorque. - Nunca pensara muito nos Estados Unidos. Parecia-lhe a uma enorme distncia.
       - Como ?
       - Grande e agitada - respondeu com uma gargalhada e fitando-a. - No to bonito como aqui, receio, mas agrada-me. - Queria interrog-la sobre Sampetersburgo, 
mas pressentiu que no era a altura nem o lugar. - Dana todos os dias?
       - Quase. At ao espetculo desta noite, tive uma semana de terias - replicou.
       - E o que faz... nos tempos livres?
       - Vou passear com a minha av, escrevo aos amigos, leio... durmo... brinco com a minha cadela.
       - Parece uma vida agradvel. De que raa  a cadela? - Eram perguntas disparatadas, mas queria conserv-la perto dele e ignorava porqu. A jovem tinha visivelmente 
metade da sua idade, mas era de uma beleza que lhe dilacerava o corao.
       - Uma cocker spaniel. - Sorriu. - Foi um presente de uma amizade muito grande.
       - Um cavalheiro? - Parecia intrigado e ela riu.
       - No, no! Uma amiga! Na verdade, a minha prima.
       - Trouxe a cadela da Rssia consigo? - Sentiu se fascinado por ela, quando inclinou a cabea e a cascata de cabelo ruivo lhe encobriu os olhos.
       - Sim, trouxe. E acho que para ela a viagem foi muito mais fcil. Cheguei a Paris com sarampo. - Voltou a erguer o rosto na sua direo e esboou um sorriso, 
parecendo novamente uma mida. - Uma estupidez, no foi? - Contudo, ele em nada a achava estpida e tomou a sbita conscincia de que nem sabia como ela se chamava.
       - De forma alguma. Acha que devemos apresentar-nos?
       - Zoya Ossupov. - Esboou uma ligeira vnia e fitou-o.
       - Clayton Andrews. Capito Clayton Andrews, suponho que devia ter dito.
       - O meu irmo tambm era capito... na Guarda Preobrajenski. Julgo que nunca tenha ouvido falar. - Observou-o na expectativa e ele apercebeu-se novamente 
da tristeza espalhada no olhar.
       Aparentemente, mudava de humor  velocidade de um raio e, ao examin-la pela primeira vez, compreendeu o que levava as pessoas a afirmar que os olhos so 
o espelho da alma. Os dela pareciam dar para um mundo mgico de diamantes, esmeraldas, lgrimas contidas, e desejou torn-la de novo feliz, faz-la danar, rir e 
sorrir.
       - Receio no saber muita coisa sobre a Rssia, Miss Ossupov.
       - Nesse caso estamos quites - retorquiu, sorrindo. - Nada sei sobre Nova Iorque.
       Ele acompanhou-a at ao salo de baile e trouxe-lhe uma taa de champanhe, enquanto os outros danavam a valsa.
       - Apetece-lhe danar?
       Zoya pareceu hesitar e, em seguida, esboou um aceno de concordncia. Ele pousou a taa dela numa mesa prxima e guiou-a pelo cho numa lenta e digna valsa, 
fazendo-a uma vez mais sentir-se como se danasse nos braos do pai. Se fechasse os olhos, estaria de volta a Sampetersburgo... mas a voz dele interrompeu-lhe os 
pensamentos.
       - Dana sempre com os olhos fechados, mademoiselle? Troava dela, e Zoya sorriu. Era bom estar nos seus braos, era bom danar com um homem alto e robusto... 
numa noite mgica... numa bela casa...
       - Tudo isto  to encantador... no ?
       - Agora, . - Contudo, gostara de ter estado no jardim com ela. Era mais fcil falar-lhe ali do que no meio da msica e daquela multido. E, no final da dana, 
o general Pershing fez-lhe sinal; ele deixou-a e, quando voltou a procur-la, a jovem desaparecera.
       Procurou-a por todo o lado e saiu novamente para o jardim, mas ela no se via em parte alguma e, quando se inteirou, responderam-lhe que o grupo do primeiro 
caminho dos Ballets Russes deixara a festa. Regressou pensativamente ao seu alojamento, vagueando pela Rue du Bac, recordando o nome dela e os enormes olhos verdes 
e interrogando-se sobre quem seria. Havia algo de profundamente intrigante naquela jovem.
       
CAPTULO 14
       
       - Da prxima vez que mandar o Feodor acompanhar-te a qualquer lado, Zoya Konstantinovna, queres, por favor, ter a bondade de no o mandares para casa?
       A velha condessa mostrava-se furiosa quando tomaram o pequeno-almoo juntas no dia seguinte. Feodor regressara com ar tmido e explicara que os soldados tinham 
convidado o corpo de bailado a ir algures e ele no estava includo. A av esperava-a quando ela voltou, quase demasiado furiosa para lhe dirigir a palavra, e, de 
manh, a fria no se apagara ao fitar Zoya.
       - Desculpe, av. No podia levar o Feodor comigo. Era uma bela recepo na casa do general Pershing. - Lembrou-se imediatamente dos jardins e do capito que 
havia conhecido, mas no divulgou pormenores  av.
       - Ah! J chegamos a esse ponto, ento? Entreter as tropas? E o que se segue?  precisamente esse o motivo por que as jovens no fogem para fazer parte do 
ballet. No  digno. E no vou toler-lo. Quero que saias imediatamente do ballet!
       - Av... por favor... sabe que no posso!
       - Podes, se te ordenar.
       - Av... por favor, no faa isso... - No lhe apetecia discutir. Passara uns momentos to agradveis na noite anterior... e o atraente capito tinha sido 
to simptico ou assim lhe parecera. Mesmo assim, no o referiu  av. No achou apropriado e, de qualquer maneira, sabia que os caminhos de ambos jamais se cruzariam 
de novo. - Desculpe. No voltarei a faz-lo. - No que tivesse oportunidade. Era pouco provvel que o general Pershing oferecesse festas aos Ballets Russes depois 
de todos os espetculos.
       Levantou-se e a av fixou-a.
       - Onde vais, agora?
       - Hoje, tenho um ensaio.
       - Estou to cansada disto! - Ps-se de p e comeou a andar  roda do quarto num passo ainda muito gil. - Ballet, ballet, ballet! Chega!
       - Sim, av.
       Eugenia ia vender outro colar, desta vez um de esmeraldas. Talvez, ento, Zoya desistisse desses disparates por uns tempos. Tinha a sua conta. A jovem no 
era uma bailarina. Era uma criana.
       - A que horas chegars a casa esta noite?
       - Devo estar de volta s quatro da tarde. O ensaio comea s nove da manh e no tenho espetculo.
       - Quero que penses em deix-los. - Contudo, ambas sabiam que Zoya gostava demasiado do que fazia e o dinheiro ajudava, por mais que a idia desagradasse  
condessa. Na semana anterior, a neta comprara-lhe um belo vestido e um xale quente. E o salrio tambm ajudava a pagar a comida, embora no houvesse extras, salvo 
os que Vladimir ainda trazia com a esperana de conseguir ver Zoya de relance.
       - Iremos dar um passeio esta tarde, quando eu regressa a casa.
       - O que te leva a pensar que me apetece passear contigo? resmungou a av e Zoya riu.
       - Porque me ama muito. E eu a si. - Beijou-lhe a face e correu para a porta, como uma rapariguinha atrasada para as aulas.
       A velha senhora suspirou e levantou da mesa os pratos do pequeno-almoo. Era to difcil t-la ali. As coisas eram muito diferentes e a parte pior residia 
em que a idosa senhora detestava admitir para si prpria que Zoya j no era uma criana e no era fcil control-la.
       Nesse dia, o ensaio de Zoya voltou a ser na Opra como preparao de outro espetculo no dia seguinte e ela danou e praticou na barra durante horas seguidas. 
Quando acabou, antes das quatro, sentia-se cansada depois da recepo at tarde na casa do general Pershing. Era uma tarde soalheira da ltima semana de Junho e 
ps-se a caminhar com um suspiro de satisfao.
       - Parece cansada, Miss Ossupov. - Virou-se, surpreendida, ao ouvir o seu nome e deparou com Clayton Andrews, de p junto a um dos carros da comitiva do general 
Pershing.
       - Ol... Assustou-me.
       - Estou aqui  espera h duas horas - Riu e ela fitou-o de olhos muito abertos.
       - Esperou-me todo este tempo?
       - No tive oportunidade de me despedir de si na noite passada.
       - Julgo que estava ocupado quando sa.
       - Eu sei. Deve ter regressado no primeiro caminho. - Zoya esboou um aceno de concordncia, surpreendida por ele se ter dado ao trabalho de investigar. No 
pensara que voltaria a v-lo, mas sentia-se feliz que assim fosse. Clayton era to atraente como o achara na noite anterior, to alto, elegante e gracioso como parecera, 
quando haviam danado a valsa. - Julguei que pudesse almoar comigo. Mas  um tanto tarde, agora.
       - De qualquer maneira, tenho de ir para casa. - Sorriu-lhe com um ar de rapariguinha que acaba de sair das aulas. - A minha av ficou terrivelmente zangada 
comigo.
       - Voltou a casa muito tarde? - perguntou, admirado ante o comentrio. - No reparei na hora a que saiu. - Ela era, ento, to jovem quanto julgara. Tinha 
um aspecto de rapariguinha, a inocncia... e, contudo, uma expresso sbia no olhar.
       Contudo, Zoya riu ao recordar-se de ter afastado Feodor.
       - A minha av mandou algum para me acompanhar e mandei-o embora. Embora desconfie que ele tenha ficado to satisfeito quanto eu. - Corou um pouco e ele riu.
       - Nesse caso, mademoiselle, posso oferecer-me para a escoltar? Lev-la-ei a casa. - Zoya hesitou, mas ele era to obviamente um cavalheiro que no haveria 
mal nenhum. E quem iria saber? Podia deix-lo um ou dois quarteires antes do Palais Royal.
       - Muito obrigada. - Abriu-lhe a porta e ela deslizou para o interior do carro. Indicou-lhe onde vivia e o capito pareceu totalmente  vontade durante todo 
o percurso at  casa. Mandou-o parar a um quarteiro de distncia e ele olhou em volta.
       -  aqui que vive?
       - No propriamente. - Sorriu e voltou a corar. - Achei por bem poupar  minha av o desgosto de se irritar to depressa comigo depois da noite passada.
       Clayton riu e o rosto tinha um ar muito jovem, apesar do cabelo grisalho.
       - Mas que rapariguinha sem vergonha! E posso pedir-lhe que jante comigo esta noite, mademoiselle?
       Zoya franziu o sobrolho e depois fitou-o.
       - No sei bem. A minha av sabe que esta noite no h espetculo. - Seria a primeira vez que se comportaria de forma desleal para com ela e no estava muito 
segura do motivo que a levava a sentir que tinha de ser assim. Conhecia, porm, a opinio de Eugenia sobre os soldados.
       - A sua av no a deixa sair acompanhada? - inquiriu, divertido e surpreendido.
       - No sei bem - confessou Zoya. - Nunca o fiz, - Oh, cus... Posso perguntar-lhe que idade tem? - Talvez ela fosse ainda mais jovem do que pensava, mas esperava 
que no.
       - Dezoito - respondeu quase num tom de desafio, e ele riu uma vez mais.
       - Parece-lhe muito?
       - O suficiente. - Ele no se atreveu a perguntar para qu.
       - Ainda h bem pouco tempo, incitou-me a corresponder a um amigo da famlia. - E, no prprio momento em que pronunciou as palavras, corou. Achava uma estupidez 
falar-lhe de Vladimir, mas aparentemente ele no se importava.
       - E que idade tem esse? Vinte e um?
       - Oh, no! - Era Zoya quem ria agora. -  muito, muito mais velho do que isso. Tem, pelo menos, sessenta! - Desta vez, Clayton pareceu em simultneo divertido 
e admirado.
       - Ah, sim? E o que acha a sua av?
       -  complicado de mais para explicar. Alm de que no gosto dele...  um velho.
       O capito fitou-a com uma expresso grave por um momento, enquanto se conservavam sentados no carro.
       - Tambm eu. Tenho quarenta e cinco anos. - Desejava ser honesto para com ela logo de incio.
       - E no  casado? - Parecia surpreendida e depois tomou conscincia de que talvez fosse esse o caso.
       - Sou divorciado. - Fora casado com uma das Vanderbilt, mas tudo acabara h dez anos. Em Nova Iorque, era considerado um bom partido, mas, nos dez anos seguintes 
ao divrcio e por entre todas as mulheres com quem sara, nenhuma o conquistara.
       - Est chocada?
       - No. - Pensou no assunto e voltou a encar-lo, mais do que nunca convencida de que ele era um homem decente. - Por que razo se divorciou?
       - Julgo que a paixo morreu... Fomos sempre muito diferentes. Contudo, ela voltou a casar e somos bons amigos, embora no a veja freqentemente. Est a viver 
em Washington.
       - Onde  isso? - Parecia-lhe um lugar muito distante e misterioso.
       -  prximo de Nova Iorque, mas no muito. Um pouco como Paris e Bordus. Ou talvez Paris e Londres. - A jovem esboou um aceno de cabea. Fazia sentido. 
Ele consultou o relgio. Passara horas  espera dela e agora tinha de regressar. - E quanto ao jantar esta noite?
       - No me parece que seja possvel. - Deitou-lhe um olhar triste e ele sorriu.
       - Amanh, ento?
       - Tenho de danar, amanh  noite.
       - E que tal depois? - Mostrava-se persistente e, agora que a encontrara de novo, no tencionava deix-la escapar.
       - Tentarei.
       - Chega. At amanh  noite, nesse caso. - Saltou do carro e ajudou-a a descer.
       Zoya agradeceu delicadamente a boleia e ele acenou-lhe e seguiu rumo  Rue Constantine com uma cano no corao.
       
CAPTULO 15
       
       Pela primeira vez na vida, mentiu  av. Foi no dia seguinte, quando saiu de novo para a Opra. Sentiu-se culpada, mas, quando saiu de casa, j se perdoara 
a si prpria pelo que parecia uma mentira inofensiva. "Perderia tempo a preocupar-se com uma ninharia", pensou. "No fundo, que mal tem jantar com um homem simptico?" 
Dissera-lhe que Diaghilev lhes oferecia uma ceia e todo o corpo de bailado tinha de ir.
       - No espere a p por mim! - gritara por cima do ombro, a fim de que Eugenia no lhe visse os olhos.
       - Tens mesmo de ir?
       - Tenho, av! - Em seguida, sara precipitadamente e dirigira-se ao ensaio.
       Depois do espetculo, Clayton esperava-a com outro dos carros do general Pershing.
       - Tudo em ordem? - Sorriu-lhe e deslizou para trs do volante, fitando-a bem nos olhos. Estes diziam muito mais do que as palavras e eram da cor de esmeraldas 
em fogo. - Que tal esta noite?
       - Correu bem. Contudo, o Nijinski no danou. Ele  fantstico, no acha? - Soltou uma gargalhada, ao lembrar-se de que ele no gostava de ballet. - Deixe 
l. Esqueci-me que no gosta de ballet.
       - Talvez possa ser ensinado.
       Dirigiram-se ao Maxim's e Zoya arregalou os olhos quando transpuseram a porta. A luxuosa decorao de veludos, a gente elegante e os homens fardados presentes 
que ali jantavam, cortaram-lhe o flego. Parecia-lhe tudo to adulto; pensou de imediato em como descreveria o que a rodeava na sua prxima carta a Marie.
       Todavia, Clayton Andrews seria algo difcil de explicar, at mesmo  sua maior amiga. No sabia muito bem porque  que estava a jantar com ele, salvo que 
se mostrara muito bondoso e parecia muito feliz e  vontade. Viu-se a desejar abrir o corao apenas desta vez... ou talvez mais outra depois. Nada havia de mal. 
Era um homem respeitvel e sentia uma certa excitao. Tentou no se portar como uma criana deslumbrada, quando se sentaram  mesa.
       - Com fome? - inquiriu feliz, fitando-a e mandando vir champanhe, mas ela apenas queria olhar em volta. - J aqui tinha estado?
       Zoya abanou a cabea, pensando no apartamento onde viviam e no hotel onde se haviam alojado antes. Ainda no tinham ido a restaurantes, desde a chegada. Ela 
e a av cozinhavam refeies simples em casa e Feodor sentava-se  mesa com ambas todas as noites.
       - No - respondeu, sem mais explicaes. Teria sido difcil explicar-lho.
       -  bonito, no ? Costumava vir aqui, antes da guerra.
       - Viaja muito? Por regra, quero dizer.
       - Bastante. J tinha vindo a Paris... antes de chegar aqui h trs meses? - Lembrara-se e ela sentiu-se tocada.
       - No. Mas os meus pais vinham muito aqui. Na verdade, a minha me era alem, mas viveu quase sempre em Sampetersburgo.
       Clayton sentiu um desejo sbito de indagar como fora a revoluo, mas pressentia o quanto lhe seria doloroso e conteve-se. E depois, apenas para fazer conversa, 
fez-lhe uma pergunta que lhe provocou uma gargalhada.
       - Alguma vez viu o czar, Zoya? - E, ante o olhar divertido que lhe detectou no rosto, riu tambm. - Disse alguma graa?
       - Talvez. - Sentia-se to  vontade com ele que decidiu abrir-se um pouco. - Somos primos. - No entanto, ficou muito sria, ao recordar-se da sua ltima manh 
em Tsarskoie Selo.
       Clayton deu-lhe uma pancadinha na mo e serviu mais champanhe.
       - Deixe l... Podemos falar de qualquer outra coisa. Todavia, a jovem fitou-o no mais fundo da alma.
       - No, no tem importncia... S que... - Engoliu as lgrimas, sem deixar de o olhar. - Sinto tantas saudades deles. Por vezes, interrogo-me sobre se voltarei 
a v-los. Ainda esto sob priso domiciliria, em Tsarskoie Selo.
       - Tem tido notcias? - inquiriu, surpreendido.
       - Recebo por vezes cartas da gr-duquesa Marie... Ela  a minha maior amiga. Estava muito doente quando nos viemos embora. Pegou-me o sarampo. Tinham todos 
sarampo quando partimos. - O capito sentia-se no stimo cu ao ouvi-Ia. O czar da Rssia era uma figura histrica e no apenas um primo daquela bonita jovem.
       - E cresceu junto deles?
       Zoya esboou um aceno de cabea e ele sorriu. Estivera certo, afinal. Havia muito mais naquela jovem do que pensara  primeira vista. No era somente uma 
pequena bailarina. Era uma rapariga de famlia, com um passado notvel. E ela comeou a falar-lhe na casa onde crescera, sobre Nicolai... e a noite em que fora abatido 
a tiro e ela ficara em Tsarskoie Selo, antes de deixarem a Rssia.
       - Tenho fotografias maravilhosas de todos eles. Um dia mostro-lhas. amos juntos todos os anos para Livadia, em Agosto. Tambm vo este ano, pelo menos foi 
o que a Marie me escreveu na ltima carta. Festejamos sempre l os anos do Alexis, ou no iate.
       Clayton Andrews observava-a, fascinado, enquanto falavam. Ela referia um mundo mgico, uma poca invulgar da Histria, aos seus olhos um lugar-comum, primos 
e amigos, crianas, tnis e diverses. E agora danava com o Ballets Russes. No era de admirar que a av a mandasse acompanhar. A jovem foi mesmo ao ponto de lhe 
falar de Feodor. E, no fim da noite, Clayton sentia-se como se os conhecesse a todos e tinha um peso no corao pela vida que ela perdera na Rssia.
       - O que vai fazer, agora?
       - No sei - respondeu, com honestidade. - Quando no houver mais jias para vender, acho que continuarei a danar e viveremos disso. A av est velha de mais 
para trabalhar e o Feodor no fala francs que chegue para arranjar um emprego, alm de que tambm  velho. - "E quando eles morrerem?" Nem se atrevia a pensar. 
Ela era to franca, inocente e jovem e contudo tinha visto tanta coisa.
       - Fiquei com a impresso de que o seu pai devia ter sido muito bom, Zoya.
       - E era.
       - Torna-se difcil imaginar perder tudo isso. E mais difcil ainda o pensamento de nunca mais voltar.
       - A av acha que as coisas podem mudar depois da guerra. O tio Nicolau disse isso mesmo, antes de nos virmos embora. - "O tio Nicolau... o czar Nicolau..." 
A surpresa no desaparecera, enquanto continuava a ouvi-la. - Pelo menos, de momento, posso danar. Dantes, desejava fugir para o Marinski, quando era uma mida... 
- Riu ante a recordao. - No  to mau assim. Prefiro danar a ensinar ingls, a coser ou a fazer chapus. - Clayton sorriu  medida que ela enumerava as alternativas.
       - Tenho de confessar que no consigo imagin-la a fazer chapus.
       - Preferia morrer de fome. Mas no ser esse o caso. A companhia dos Ballets Russes tem sido muito boa para mim. Contou-lhe a primeira audio e ele ficou 
intimamente maravilhado perante a sua coragem e ingenuidade. O prprio fato de jantar com ele era um ato de coragem. E ele no tinha inteno de se aproveitar. Gostava 
da jovem, embora ela pouco mais fosse do que uma criana. Via-a, porm, de uma forma diferente da da outra noite. No se tratava apenas de um rosto bonito ou de 
um elemento do corpo de bailado. Era uma jovem de uma famlia ainda mais ilustre do que a sua e, embora nada lhe tivesse restado, mantinha a raa e a dignidade, 
algo que ele no queria violar. - Gostava que pudesse conhecer a av - rematou, como se lhe lesse o pensamento.
       - Talvez um dia.
       - Ficar chocada por no termos sido devidamente apresentados. Ignoro se conseguirei explicar-lhe.
       - Podemos dizer que sou um amigo de Diaghilev - sugeriu, e Zoya soltou uma gargalhada.
       - Seria ainda pior. A av odeia o meio! Preferia que me casasse com o prncipe Markovski, que agora conduz o txi, do que fizesse parte do ballet. - Contudo, 
ao observ-la, percebeu porqu. Era assustador imagin-la solta no mundo, desprotegida, desconhecida, uma presa fcil para todos, at mesmo para ele.
       Pagou a ceia e parecia triste quando a levou a casa.
       - Gostava de voltar a v-la, Zoya. - Dava a sensao de que estava a dizer-lhe uma coisa banal, mas sentiu um repentino desconforto ante a clandestinidade 
das sadas. Ela era to jovem e no queria de forma alguma mago-la. - E se um dia aparecer para tomar ch com a sua av?
       Zoya ficou horrorizada com a idia.
       - O que lhe direi?
       - Pensarei em alguma coisa. Que tal no domingo  tarde?
       - Costumamos ir passear pelo Bosque de Bolonha.
       - Talvez pudssemos ir de carro. Digamos s quatro?
       Zoya esboou um aceno de cabea, interrogando-se sobre o que diria  av, mas a sugesto dele era mais simples do que todos os esquemas que pudesse engendrar.
       - Pode dizer-lhe muito simplesmente que sou ajudante-de-campo do general Pershing e nos conhecemos na recepo da noite anterior. Por regra,  mais fcil 
contar a verdade do que mentir.
       - Pareceu-lhe de novo Konstantin, como acontecera por vrias vezes nessa noite e sorriu-lhe com uma expresso feliz.
       - O meu pai diria algo do gnero. - E, quando pararam em frente da morada dela, Zoya fitou-o, achando que ele estava muito elegante e digno na sua farda. 
Era um homem muito bem-parecido. Passei uma noite encantadora.
       - Tambm eu, Zoya... tambm eu. - Tocou-lhe ao de leve nos cabelos ruivos e desejou atra-la de encontro ao corpo, mas no se atreveu.
       Acompanhou-a at  porta e ficou a v-la desaparecer em segurana no interior. A jovem acenou uma ltima vez e subiu velozmente as escadas at ao apartamento.
       
CAPTULO 16
       
       A apresentao de Clayton  av correu muito mais facilmente do que qualquer deles ousara esperar. Zoya explicou, despreocupada, que o conhecera na recepo 
oferecida aos Ballets Russes pelo general Pershing e o convidara para tomar ch.
       De incio, Eugenia mostrou-se hesitante, pois uma coisa era receber o prncipe Vladimir, que se encontrava numa situao idntica, e outra algum que mal 
conheciam.
       Zoya comprou meia dzia de bolos, uma qualidade de po muito procurada e a av preparou uma chaleira de ch fumegante. Nada mais tinham que lhe oferecer, 
nem servio de prata, guardanapos ou toalha bordados, ou bule, mas Eugenia estava muito mais preocupada com o motivo que o levava a visit-las do que com os atavios 
do que podiam proporcionar-lhe.
       Todavia, quando Feodor lhe abriu a porta pontualmente s quatro da tarde, Clayton Andrews dissipou-lhe quase todos os receios. Trouxe flores para as duas 
e uma bela tarte de ma e mostrou-se um cavalheiro da cabea aos ps ao cumprimentar Zoya de uma forma bastante formal e a av com um entusiasmo respeitoso.
       Nesse dia, mal pareceu notar a presena de Zoya, enquanto falava das suas viagens, do pouco conhecimento da Histria da Rssia e da sua juventude passada 
em Nova Iorque. Eugenia viu-se a recordar freqentemente Konstantin, todo o seu calor, encanto e perspiccia. E quando, por fim, mandou Zoya para fora da sala a 
fim de preparar mais ch, deteve-se a observ-lo, sabendo perfeitamente porque  que ele viera visit-la. Era demasiado velho para namoricar a jovem, mas, de fato, 
no conseguia antipatizar com ele. Era um homem delicado e interessante.
       - O que quer dela? - perguntou a velha senhora inesperadamente num tom suave enquanto Zoya ainda estava ausente da sala, e ele fitou-a com bondade e franqueza.
       - No sei bem. Nunca tinha falado com uma rapariga da idade dela, mas acho-a fantstica em muitos aspectos. Talvez possa ser um amigo... de ambas?
       - No brinque com ela, capito Andrews. A minha neta tem toda uma vida pela frente e que pode ser mudada pelo que fizer agora. Ela parece gostar muito de 
si. Talvez seja suficiente. - Eugenia sabia melhor do que ele que a intimidade entre ambos faria com que a vida de Zoya no voltasse a ser a mesma. - Ela  ainda 
muito, muito jovem. - O capito esboou um aceno de cabea, pensando na sabedoria daquelas palavras. Na semana anterior, pensara mais do que uma vez em como era 
idiota andar atrs de uma rapariga to jovem. E quando deixasse Paris? No seria digno aproveitar-se dela e depois seguir o seu caminho. - Num outro mundo, numa 
outra vida, isto nunca pareceria possvel.
       - Tenho perfeita conscincia de que assim , condessa. Mas por outro lado... os tempos mudaram, no  verdade?
       - De fato, mudaram.
       Zoya voltou a entrar na sala e serviu uma xcara de ch a cada um. Mostrou em seguida a Clayton as suas fotografias do Vero anterior em Livadia, com Joy 
a brincar-lhe aos ps, o filho do czar sentado ao lado dela no iate e outras mais com Olga, Marie, Tatiana, Anastasia, a tia Alix e o prprio czar.
       Era quase uma lio de histria moderna e Zoya ergueu os olhos mais do que uma vez na sua direo com um sorriso feliz, recordando e explicando, e ele soube, 
nesse momento, a resposta s perguntas de Eugenia. Sentia mais do que amizade por aquela jovem. Embora ela fosse quase uma criana, tinha algo de espantoso na alma, 
irradiava algo que lhe tocava no mais ntimo de si, algo que nunca sentira por ningum. 
       No entanto, como poderia oferecer-lhe o que quer que fosse? Tinha quarenta e cinco anos, era divorciado e viera combater em Frana. Nada podia oferecer-lhe 
nesse momento, se  que alguma vez poderia. Zoya merecia um homem mais novo, algum que crescesse e risse com ela, algum com quem partilhasse as recordaes. Todavia, 
desejava abra-la e prometer-lhe que nada voltaria a mago-la.
       Levou-as a passear de carro quando a jovem ps as fotografias de lado e, ao pararem no parque, deteve-se a v-Ia brincar com Sava na relva. A cadelinha saltava 
e ladrava, e Zoya corria de um lado para o outro, rindo  gargalhada, quase chocando com ela.
       Sem pensar, envolveu-a e abraou-a e ela ergueu o rosto para ele com um riso semelhante ao que vira nas fotografias. Eugenia ficou a observ-los e temeu pelo 
futuro.
       Ao lev-las de regresso a casa, Eugenia agradeceu-lhe e fitou-o com uma expresso tranqila, enquanto Zoya se afastava para entregar Sava a Feodor.
       - Pense bem, capito. O que para si pode no passar de um interldio,  susceptvel de mudar a vida da minha neta. Pense bem, suplico-lhe... e sobretudo... 
seja bom.
       - O que lhe disse, av? - quis saber Zoya depois de Clayton se ter ido embora.
       - Agradeci-lhe a tarte de ma e convidei-o a que nos visitasse outra vez - respondeu Eugenia, levando as xcaras.
       - Nada mais? Ele parecia to srio, como se lhe tivesse dito algo de importante. E nem mesmo sorriu, ao despedir-se.
       - Talvez estivesse a refletir em tudo isto, mida retorquiu e logo acrescentou: - Ele , de fato, velho de mais para ti.
       - Isso pouco me interessa.  um homem to bom.
       -  mesmo. - Eugenia esboou um aceno de concordncia, esperando, no ntimo, que ele fosse suficientemente bom para no repetir a visita. Zoya corria um risco 
excessivo ao lado dele e o que aconteceria se se apaixonasse? Podia revelar-se desastroso.
       
CAPTULO 17
       
       As preces de Eugenia para que Clayton Andrews no voltasse estavam votadas ao fracasso. Depois de tentar manter-se afastado durante uma semana, viu-se a pensar 
constantemente nela, obcecado pelos seus olhos... o cabelo... a forma como ria... a forma como a vira brincar com Sava... as prprias fotografias que lhe mostrara 
da famlia do czar pareciam persegui-lo. Zoya tomara-as reais e, em vez de uma trgica figura histrica, o czar transformara-se num homem com uma mulher, uma famlia, 
trs ces, e o prprio Clayton viu-se a lamentar a imensidade das perdas que ele sofrera enquanto se mantinha sob priso domiciliria em Tsarskoie Selo.
       Ao mesmo tempo que ele pensava na jovem toda a semana, tambm esta no desviou o pensamento de Clayton por um nico momento.
       Desta vez, apresentou-se novamente na casa de Zoya e no no ballet e, com a permisso da av, levou-a a ver A Viva Alegre.
       Na volta, a jovem contou tudo numa grande excitao, mal parando para tomar flego. Clayton riu e serviu champanhe.
       Trouxera-lhes uma garrafa de Cristal que serviu em taas de cristal. Sem pretender ofend-las, desejava constantemente facilitar-lhes a situao e trazia-lhes 
os pequenos confortos que sabia faltarem-lhes: cobertores que insistia terem-lhe sido "dados", um conjunto de copos, uma toalha de mesa bordada e mesmo uma caminha 
para Sava.
       Eugenia apercebeu-se de que Clayton estava enamorado, tal como Zoya. Davam longos passeios no parque, almoavam em pequenos cafs enquanto Clayton lhe explicava 
os uniformes que desfilavam junto deles, os zuavos, os ingleses e os americanos de caqui, os poilus (1) de casacos azuis e mesmo os Chasseurs d'Afrique.
       
         (1) Designao atribuda aos soldados franceses na Primeira Guerra Mundial. (N. da T.)
       
       Abordavam todos os temas, desde o ballet a bebs. Zoya insistia em que um dia queria ter seis filhos e ele ria ante a idia.
       - Porqu seis?
       - No sei - respondeu com um encolher de ombros e um sorriso feliz. - Prefiro nmeros pares.
       Partilhou com ele a ltima carta de Marie. Contava que Tatiana adoecera novamente, embora desta vez sem gravidade e falava da fidelidade e bondade com que 
Nagorny tratava Alexis, sem nunca sair do seu lado. "... E o pap  to bom para todos ns. Faz com que todos se sintam fortes, felizes e alegres..." Era difcil 
de imaginar e Clayton sentia um peso no corao ao escutar as palavras. Mas, quando se encontravam, falavam de muito mais coisas alm da famlia do czar, falavam 
de todas as suas paixes, interesses e sonhos.
       Foi um Vero mgico e encantador para Zoya. Sempre que ela no estava a danar, Clayton aparecia, levava-a a sair, trazia a ambas pequenos presentes e preciosos 
tesouros. E depois, em Setembro, todos os inocentes prazeres tiveram um final abrupto.
       O general Pershing anunciou aos ajudantes-de-campo que ia mudar o quartel-general para Chaumont, no Marne, e, dali a uns dias, Clayton teria de abandonar 
Paris. Nessa mesma altura, Diaghilev fazia planos para levar os Ballets Russes a Portugal e Espanha e Zoya viu-se confrontada com uma difcil deciso. No podia 
deixar a av sozinha e tinha de abandonar o corpo de bailado, o que quase a matou.
       - Podes danar com um dos outros ballets, aqui. No  o fim do mundo - encorajou Clayton, sem conseguir convenc-la. Nenhuma outra companhia era os Ballets 
Russes e partia-lhe o corao verse obrigada a deix-los. As piores notcias chegaram, contudo, duas semanas depois do aniversrio de Alexis. Zoya recebeu uma carta 
de Marie, enviada como sempre pelo Dr. Botkin. A 14 de Agosto, toda a famlia Romanov fora transferida da priso domiciliria no Palcio Alexandre em Tsarskoie Selo 
para Tobolsk, na Sibria.
       A carta fora escrita no dia anterior  partida, e Zoya no fazia idia de onde estavam. Apenas sabia que tinham partido. O pensamento era quase insuportvel. 
Sempre imaginara que a qualquer momento iriam para Livadia, onde estariam a salvo. Contudo, agora tudo mudara e uma garra de pavor apertou-lhe o corao ao ler a 
carta. Mostrou-a a Clayton antes de ele se ir embora e o capito tentou inutilmente acalm-la.
       - Voltars a ter notcias dela em breve. Tenho a certeza, Zoya. No deves estar assim to assustada.
       "Mas como no estar?", interrogava-se. Ainda h poucos meses perdera tudo, assistira com demasiada clareza aos terrores da revoluo, e os amigos e parentes 
encontravam-se, realmente, em perigo. Assustava-o pensar nisso agora, mas ningum podia fazer nada para os ajudar. H muito que o Governo americano reconhecera o 
Governo Provisrio e todos receavam oferecer guarida ao czar e  famlia. No havia hiptese de o salvar dos revolucionrios.
       Apenas se podia rezar e acreditar que um dia ficariam livres. Era a nica esperana que podia oferecer a Zoya. E, pior ainda, ele prprio era obrigado a partir.
       - No  muito longe. Virei a Paris, sempre que puder, prometo.
       Zoya fitou-o com uma expresso trgica... A amiga... os Ballets Russes... e agora ele tinha de deix-la. H quase trs meses que a cortejava e ela proporcionava-lhe 
um constante prazer e uma inocente diverso. Eugenia achava, aliviada e justamente, que ele no fizera nenhuma idiotice. Apenas gostava da companhia dela e via-a 
sempre que podia para passearem, irem ao teatro, jantar no Maxim's ou em qualquer bar. E ela parecia desabrochar com todo aquele interesse afetuoso e proteo. Assemelhava-se 
a ter de novo uma famlia e agora tambm ia perd-lo e tinha de encontrar um emprego com um corpo de bailado menos importante. Por mais que a idia lhe desagradasse, 
Eugenia sabia que dependiam do salrio de Zoya.
       A 10 de Setembro, tinha encontrado outro emprego, mas com uma companhia de ballet que detestava, pois no tinham preciso, nem estilo, nem a rgida disciplina 
dos Ballets Russes a que Zoya estava habituada, alm de que lhe pagavam muito menos.
       No entanto, pelo menos, ela, Feodor e a av continuavam a ter de comer. As notcias da guerra no eram boas, os raids areos continuavam e, por fim, recebeu 
uma carta de Marie. Estavam a viver na casa do governador, em Tobolsk, e Gibbes, o tutor, continuava a dar-lhes lies.
       "... O pap l-nos histrias quase todos os dias e construmos um estrado na estufa para apanharmos um pouco de sol, mas em breve far frio de mais. Dizem 
que os Invernos aqui parecem interminveis..." Olga fizera vinte e dois anos, e Pierre Gilliard tambm estava com eles. "... Ele e o pap cortam lenha quase todos 
os dias, mas, pelo menos, enquanto esto ocupados, podemos escapar a algumas das lies. A mam parece muito cansada, mas o Baby preocupa-a tanto. Sentia-se muito 
doente depois da viagem, mas informo-te com satisfao que est muito melhor.
       Dormimos as quatro num quarto e a casa  muito pequena, mas ao mesmo tempo confortvel. Talvez um pouco como o teu apartamento com a tia Eugenia. D-lhe saudades 
minhas, querida, minha querida, e escreve-me quando puderes. O fato de danares parece fascinante. A mam ficou chocada quando lhe contei e depois riu e disse que 
era mesmo teu ires at Paris para fugires e danares!
       Todos te mandamos saudades e eu em especial..." E, desta vez, assinou a carta como h muito no o fazia: "OTMA". Era um cdigo que tinham inventado em crianas 
para as cartas enviadas por todas e significando Olga, Tatiana, Marie, Anastasia. O corao de Zoya sentia a falta de todas elas.
       Agora que Clayton se fora embora, estava ainda mais sozinha.
       S lhe restava o trabalho e regressar at junto da av depois de cada espetculo. Compreendia at que ponto Clayton a estragara com mimos. Quando ele estava 
por perto, havia sempre sadas, presentes, surpresas e planos. E agora, subitamente, no havia nada. Escrevia-lhe ainda mais freqentemente do que escrevia a Marie 
para Tobolsk, mas as respostas dele eram breves e apressadas. Tinha muito que fazer em Chaumont, ao servio do general Pershing.
       Outubro foi ainda pior. Feodor apanhou a gripe espanhola e a av tratou-o durante semanas a fio; por fim, incapaz de comer ou beber, ou mesmo de ver, sucumbiu 
 doena, e as duas mulheres choraram em silncio  sua cabeceira. Tinha-lhes sido leal e bondoso, mas, tal como um animal levado para muito longe de casa, no conseguira 
sobreviver num mundo diferente. Sorriu-lhes com ternura antes de morrer e sussurrou:
       - ... Agora, posso regressar  Rssia...
       Enterraram-no num pequeno cemitrio nos arredores de Neuilly.
       Vladimir levou-as at l no carro, e Zoya chorou durante todo o caminho de volta a casa, sentindo-se como se tivesse perdido o nico amigo que lhe restava. 
Tudo lhe parecia subitamente sombrio, at o prprio tempo. Sem Feodor, nunca havia lenha suficiente e nem Eugenia nem Zoya conseguiram arranjar coragem para utilizar 
o quarto dele.
       Era como se a dor das perdas se revelasse interminvel. H quase dois meses que Clayton no vinha a Paris e, um dia, quando Zoya regressou tarde a casa do 
trabalho, teve um choque horrvel ao abrir a porta e deparar com um homem na sala em mangas de camisa. E a jovem sentiu um baque no corao, pois ele pareceu-lhe 
um mdico.
       - Aconteceu alguma coisa?
       Ele olhou-a, tambm surpreendido, fitando-a e momentaneamente silenciado pela sua inesperada beleza.
       - Desculpe, mademoiselle... eu... a sua av...
       - Ela est bem?
       - Sim, claro. Penso que se encontra no quarto.
       - E quem  o senhor? - Zoya no entendia o que ele estava a fazer ali em mangas de camisa e quase desfaleceu ao ouvir a resposta.
       - No lhe contou?... Vivo aqui. Mudei-me esta manh. - Era um homem magro, plido e ainda novo, na casa dos trinta, de cabelo ralo e uma perna aleijada. Coxeava 
nitidamente quando voltou ao quarto de Feodor e fechou a porta, ao mesmo tempo que Zoya se precipitava, furiosa, para o da av.
       - O que foi fazer? No acredito! - Zoya fitava-a, irritada, sentada na nica cadeira do quarto; depois, notou que Eugenia mudara umas coisas para o quarto 
de ambas para que ficassem mais confortveis. - Quem  aquele homem? - Expressou-se sem prembulos e incapaz de acreditar no que a av fizera.
       - Aceitei um hspede - respondeu Eugenia, erguendo tranqilamente os olhos do tric. - No tnhamos alternativa. O ourives no me ofereceu absolutamente nada 
pelas prolas e havia muito pouco que vender. Precisvamos de faz-lo mais cedo ou mais tarde. - No rosto pairava-lhe uma calma resignao.
       - No podia, pelo menos, ter perguntado, ou mesmo avisado? No sou uma criana e tambm vivo aqui. Aquele homem  um estranho! E se nos mata durante o sono, 
ou nos rouba as ltimas jias? E se se embebeda... ou traz para c mulheres horrveis?
       - Nesse caso, pedimos-lhe calmamente que saia, mas no te preocupes, Zoya. Parece-me um homem muito srio e tmido. Foi ferido em Verdun, no ano passado, 
e  professor.
       - No me interessa o que ele . Este apartamento  pequeno demais para termos aceite um estranho e ganhamos dinheiro suficiente com o ballet. Porqu isto? 
- Sentia-se como se tivesse perdido a casa a favor do desconhecido e s lhe apetecia sentar-se e chorar ante tamanha indignidade. Aos seus olhos, significava o derradeiro 
golpe. Contudo, para Eugenia, parecera a nica sada.
       E no contara a Zoya, porque suspeitara qual seria a sua reao.
       E a raiva da neta s vinha confirm-la. - No consigo acreditar que tenha feito uma coisa destas!
       - No tnhamos escolha, mida. Talvez, mais tarde, possamos fazer algo diferente. Mas no agora.
       - Nem sequer poderei preparar uma xcara de ch, vestida com a camisa de noite - lamentou, com os olhos cheios de raiva e de tristeza.
       - Pensa nas tuas primas e como deve ser a vida em Tobolsk. No consegues ter a mesma coragem? - As palavras fizeram com que Zoya se sentisse de imediato culpada 
e afundou-se na cadeira que a av desocupara para ir at  janela.
       - Desculpe, av... S que... fiquei to chocada... - Depois sorriu quase maliciosamente. - Acho que lhe preguei um susto de morte. - Correu para o quarto 
e trancou a porta depois de lhe gritar.
       -  um indivduo novo e simptico. Deves pedir-lhe desculpa de manh.
       Contudo, Zoya no lhe respondeu, pensando no extremo a que tinham chegado. Tudo parecia piorar de momento a momento. At Clayton dava a sensao de a haver 
abandonado. Tinha prometido vir a Paris assim que pudesse, mas tudo indicava que de momento tal esperana no existia.
       Escreveu-lhe no dia seguinte, mas sentia uma tal vergonha que no conseguiu mencionar o hspede. Ele chamava-se Antoine Vallet e pareceu aterrorizado ao v-la 
de manh. Desdobrou-se em desculpas, tropeou num candeeiro, quase partiu uma jarra e abalroou-a ao fazer todos os esforos para lhe sair do caminho na cozinha. 
Zoya reparou que tinha uns olhos tristes e quase sentiu pena dele, mas ficou-se pelo "quase". Na realidade, ele invadira o ltimo bastio que lhes restava e no 
estava ansiosa por partilh-lo.
       - Bom dia, mademoiselle. Quer caf? - ofereceu e, embora pairasse um aroma agradvel na cozinha, a jovem abanou a cabea.
       - Muito obrigada. Bebo ch - murmurou entre dentes.
       - Lamento. - Fitou-a com um misto de terror e admirao e abandonou a cozinha o mais rapidamente que pde. Pouco depois saiu para dar aulas.
       Porm, nessa tarde, quando ela voltou do ensaio, l estava ele, sentado na sala,  secretria, a corrigir exerccios. Zoya entrou no quarto, bateu com a porta, 
ps-se a passear nervosamente de um lado para o outro e fitou a av.
       - Presumo que isto significa que no posso usar novamente a secretria - retorquiu. Queria escrever uma carta ao Clayton.
       - Tenho a certeza de que ele no vai l estar a noite inteira, Zoya.
       Todavia, at mesmo a av parecia confinada ao quarto. No tinha stio onde estar sozinha, nenhuma forma de reunir idias.
       A situao pareceu-lhe subitamente insuportvel e lamentou no ter ido para Portugal com os Ballets Russes porm, ao dar meia volta, deparou com os olhos 
cheios  lgrimas de Eugenia, sentiu uma alfinetada no corao e ajoelhou-se aos ps dela, abraando-a.
       - Lamento tanto... No sei o que me deu. Estou apenas cansada e nervosa.
       No entanto, Eugenia sabia perfeitamente o que a preocupava.
       Era Clayton. Tal como o previsto, fora combater e Zoya tinha de regressar a uma vida sem ele. Era bom que nada mais tivesse acontecido e ele fosse um homem 
respeitvel, caso contrrio, seria muito mais difcil para a neta. No perguntou  neta se tivera notcias dele. Quase esperava que ele no lhe escrevesse.
       Zoya dirigiu-se  cozinha, preparou o jantar para a av e para ela e, ao ver que o jovem professor mantinha a cabea levantada na direo dos agradveis aromas, 
cedeu e convidou-o para jantar.
       - O que ensina? - perguntou delicadamente, sem, de fato, se preocupar. Reparou que as mos lhe tremiam muito, parecia estar sempre assustado e nervoso e achou 
que os ferimentos de guerra haviam ido mais longe do que deix-lo coxo. Parecia incuravelmente abalado.
       - Ensino Histria, mademoiselle. E suponho que dana no ballet.
       - Sim - anuiu num fio de voz. No se sentia orgulhosa do corpo de bailado em que danava presentemente, como se sentira quando estava nos Ballets Russes, 
embora por pouco tempo.
       - Sou um grande apreciador de ballet. Talvez pudesse v-la danar um dia destes. - Sabia que ele esperava ouvi-la responder que gostaria, mas foi incapaz 
de pronunciar as palavras. No era verdade. - Gosto muito do quarto - anunciou, sem se dirigir a ningum em particular e Eugenia esboou um sorriso amvel.
       - Estamos muito satisfeitas com a sua companhia.
       - O jantar est muito bom.
       - Obrigada - agradeceu Zoya, sem erguer os olhos. Ele continuou a falar, cingido a uma srie de chaves irrelevantes e a jovem detestou-o mais do que nunca. 
Andava a coxear pela cozinha tentando ajud-la a arrumar e depois acendeu a lareira da sala, o que a aborreceu, pois desperdiava a pouca lenha que tinham, mas, 
j que a acendera, aproximou-se para aquecer as mos. O pequeno apartamento estava gelado.
       - Fui uma vez a Sampetersburgo. - Dirigia-se-lhe num tom baixo, da secretria, mal se atrevendo a olhar aquela rapariga to bonita e impetuosa. -  muito 
bonito.
       Zoya esboou um aceno, virou-lhe as costas e fixou as chamas com lgrimas nos olhos, enquanto ele observava aquelas saudades silenciosas. Casara antes da 
guerra, mas a mulher tinha-o trocado pelo melhor amigo e o nico filho de ambos morrera de pneumonia. Tambm tinha os seus desgostos, mas Zoya no pediu para os 
ouvir.
       Encarava-o como um homem que passara por uma situao de grande perigo e mal lhe sobrevivera. Alm disso, longe de lhe reforar o esprito, destrura-o. Virou-se 
devagar e fitou-o, interrogando-se sobre o que levara a av a aceit-lo. Era-lhe insuportvel pensar que haviam chegado ao desespero, mas tinha essa conscincia, 
caso contrrio, Eugenia nunca tomaria esta atitude.
       - Est tanto frio aqui. - Era apenas uma afirmao, mas ele levantou-se rapidamente e deitou mais uma acha no fogo.
       - Arranjarei mais lenha amanh, mademoiselle. Vai ajudar. Quer mais uma xcara de ch? Posso preparar-lha.
       - No, obrigada. - Interrogou-se sobre que idade teria. Dava a sensao de andar na casa dos trinta e tal. Tinha, de fato, trinta e um, mas a sua vida no 
fora nada fcil.
       E acrescentou, depois, num tom tmido:
       - Ocupei o seu quarto? - Tal explicaria o bvio desagrado que ela sentia com a sua presena, mas Zoya limitou-se a abanar a cabea e, depois, suspirou.
       - Um dos nossos criados veio conosco da Rssia. Morreu em Outubro. - Ele esboou um aceno de concordncia.
       - Lamento. Foram tempos difceis para todos ns. H quanto tempo est em Paris?
       - Desde Abril. Partimos logo aps a revoluo.
       - Tenho conhecido vrios russos aqui - replicou, depois de esboar um novo aceno de cabea. - So pessoas boas e corajosas. - Gostaria de ter acrescentado 
"como voc", mas no se atreveu. Ela tinha uns olhos to brilhantes e fogosos e, quando sacudia a cabea, o cabelo revoluteava como se fosse um fogo sagrado. - H 
algo que gostaria que fizesse, j que estou aqui? Gostava muito de dar qualquer ajuda. Posso encarregar-me de recados para a sua av. Tambm gosto de cozinhar. Talvez 
pudssemos fazer o jantar por turnos.
       A jovem esboou um aceno de cabea. Talvez ele no fosse assim to m pessoa. Mas estava ali. E ela no o queria. Em seguida, o homem reuniu os papis e voltou 
para o quarto, fechando a porta atrs de si.
       Zoya ficou sozinha, de olhos fixos nas chamas e pensando em Clayton.
       
CAPTULO 18
       
        medida que o Inverno passava, as pessoas pareciam mais esfomeadas e mais pobres. O tempo piorou e, com a chegada de um nmero cada vez maior de emigrados 
a Paris, os ourives baixaram os preos.
       Eugenia vendeu o ltimo par de brincos a 1 de Dezembro e ficou horrorizada com o pouco que recebeu em troca. Agora, viviam somente do salrio de Zoya, que 
mal chegava para comerem e pagarem o apartamento. O prncipe Markovski tambm tinha os seus problemas para resolver. O carro avariava-se constantemente e parecia 
mais magro e com mais fome de cada vez que o viam. Continuava a falar corajosamente de melhores tempos e fazia referncia a todos os recm-chegados.
       Face a tamanha pobreza, ao frio cruel e  falta de comida, Eugenia sentia-se ainda mais grata com a presena do hspede. O seu magro salrio mal lhe chegava 
para pagar o custo do quarto, mas mesmo assim conseguia trazer uns extras para casa, metade de um po, lenha para o fogo ou mesmo uns livros para Eugenia. Conseguiu 
at arranjar-lhe alguns em russo, pois os emigrados pobres deviam ter vendido os livros por uma fatia de po.
       Contudo, parecia nunca esquecer Zoya e Eugenia, e trazia quase sempre uma pequena oferta  jovem. Uma vez, ouvira-a dizer quanto gostava de chocolate e, por 
um qualquer milagre, conseguira arranjar uma pequena barra de chocolate.
       Com o correr das semanas, ela mostrou-se mais acessvel, grata pelos presentes, mas mais grata ainda pela bondade com que ele tratava a condessa. Esta comeara 
a sofrer de reumatismo nos joelhos, e subir e descer as escadas tornara-se-lhe doloroso.
       Um dia, Zoya chegou a casa de um ensaio  tarde e verificou que ele transportava a av pelas escadas, o que, dada a sua perna deficiente, constitua uma penosa 
tarefa, mas nunca se queixou. Mostrava-se sempre desejoso de fazer mais, e Eugenia tornara-se-lhe muito chegada.Tambm percebia a enorme atrao que ele tinha por 
Zoya. Mencionara o assunto mais do que uma vez  neta, mas ela insistia em que nunca reparara.
       -  incrvel como no te ds conta do quanto ele gosta de ti, mida. - Contudo, Zoya estava mais preocupada com a tosse horrvel que abalava o corpo da av 
ao pronunciar as palavras.
       H semanas que apanhara uma constipao, e Zoya receava a gripe espanhola que matara Feodor ou a temida tuberculose que parecia devorar Paris. At a sua prpria 
sade no era a mesma de outrora. Com uma alimentao to precria e tanto trabalho, emagrecera imenso e a face juvenil parecia, de sbito, muito mais velha.
       - Como est hoje a sua av? - perguntou Antoine calmamente uma noite, quando estavam a preparar o jantar na cozinha.
       Agora, tratava-se de um ritual noturno entre ambos. J no trabalhavam por turnos nas noites em que ela estava ausente, mas em vez disso cozinhavam juntos 
e, quando Zoya tinha de ir danar, ele prprio cozinhava para Eugenia, arranjando muitas vezes comida que comprava no regresso a casa com o parco dinheiro que ganhava 
com as aulas.  semelhana de todos os demais em Paris nessa altura, tambm os seus escassos fundos pareciam desaparecer. - Estava to plida esta tarde prosseguiu, 
fixando Zoya com um olhar preocupado, enquanto ela cortava duas cenouras velhas para repartir entre os trs.
       Estava farta de guisado, mas era o que comiam praticamente todas as noites e era a maneira mais fcil de dissimular a qualidade inferior da carne e a falta 
quase total de legumes.
       - Ando preocupada com aquela tosse, Antoine - respondeu Zoya, fitando-c, do outro lado da cozinha. - Acho que piorou, no foi? - Ele concordou com um triste 
aceno de cabea e acrescentou dois pequenos quadrados de carne  panela onde Zoya fervia as cenouras num caldo aguado. Nessa noite no havia po.
       Era uma sorte que nenhum deles estivesse com muita fome. Amanh, tenciono lev-la ao mdico. - Contudo, tratava-se de uma despesa superior s suas posses 
e nada restava para vender, exceto a cigarreira do pai e trs caixinhas de prata que haviam pertencido ao irmo, mas Eugenia obrigara-a a prometer que no as venderia.
       - Conheo um mdico na Rue Godot-de-Mauroy. Se quiser, dou-lhe o nome. Ele  barato. - Fazia abortos para as prostitutas, mas era melhor do que a maioria 
dos do seu meio.
       Antoine fora consult-lo vrias vezes por causa da perna e achara-o hbil e bondoso. Agora tinha dores terrveis com aquele frio e umidade do Inverno.
       Zoya reparara que ele parecia coxear mais, mas aparentava mais felicidade do que quando viera viver com elas. Devia fazer-lhe bem regressar do trabalho a 
casa de pessoas decentes e ter de se preocupar com a av dela. Nunca lhe ocorreu que os sentimentos que lhe dedicava o mantinham vivo e que,  noite, deitado na 
cama, sonhava com ela no quarto ao lado, a dormir enrascada em Eugenia.
       - Que tal a escola hoje? - perguntou, enquanto esperava que a gua levantasse fervura. Fitava-o agora com um olhar mais bondoso. Antoine atrevia-se mesmo 
a gracejar com ela de vez em quando, e as trocas de palavras recordavam-lhe um pouco o irmo. No era um homem bonito mas era inteligente, culto e possua um bom 
sentido de humor. Ajudava durante os raids areos e as noites frias. Era o que as agentava em lugar da comida, do calor e dos pequenos prazeres da vida.
       - Correu bem. Contudo, anseio pelas frias. Terei oportunidade de pr a leitura em dia. Quer ir ao teatro um dia? Conheo algum que nos deixar entrar na 
Opra Comique, se estiver disposta a tentar.
       A frase transportou-a de volta a Clayton e aos dias mais amenos de Vero. H uns tempos que no recebia notcias dele e pressups que andasse ocupado com 
o general Pershing. Este planeava toda a campanha francesa, e a jovem estava a par de que era tudo muito secreto. S Deus sabia quando o veria de novo. Contudo, 
habituara-se  situao. Vira pela ltima vez tantas pessoas que amava. Era difcil imaginar algum sem a sensao de perda. Obrigou-se a deixar de pensar em Clayton 
e a regressar a Antoine e  sua oferta de irem ao teatro.
       - Gostaria de ir ao museu um dia destes. - Ele era de fato uma boa companhia e muito culto, embora no no sentido das suas desaparecidas amizades russas. 
Mas era um homem muito calmo  sua maneira, o que lhe agradava.
       - Iremos sair, mal acabem as aulas. Que tal o guisado? indagou, fazendo-a rir.
       - Um horror, como sempre.
       - Gostava que pudssemos ter alguns condimentos decentes.
       - E eu que pudssemos arranjar alguns autnticos legumes e fruta. Se vir mais alguma cenoura velha, acho que grito. Quando penso no que costumvamos comer 
em Sampetersburgo, sinto vontade de chorar. Nessa altura, nem sequer pensava nisso. Na noite passada, fui mesmo ao ponto de sonhar com comida. - Na noite anterior, 
Antoine sonhara com a prpria mulher, mas no lho confessou, limitando-se a esboar um aceno de cabea e a ajud-la a pr a mesa. - A propsito, que tal est a sua 
perna? - Sabia que Antoine no gostava de falar no assunto, mas embrulhara-lhe uma botija quente mais do que uma vez e ele levara-a para a cama e dissera que o ajudara.
       - O frio no  nada bom. D-se por satisfeita por ser jovem. A sua av e eu no temos essa sorte. - Sorriu-lhe e ficou a v-la deitar o magro guisado em trs 
tigelas feias e rachadas. Zoya acabaria por chorar se pensasse na bonita loua de porcelana em que jantavam todas as noites no Palcio Fontanka.
       Havia tanta coisa que tinham tomado por garantido e nunca mais veriam. Era horrvel pensar nisso agora e Antoine bateu  porta do quarto a fim de trazer Eugenia 
para jantar. Parecia, contudo, preocupado, quando voltou s e fitou Zoya sobre a pequena mesa de cozinha.
       - Ela diz que no tem fome - declarou. - Acha que devo ir buscar o mdico para que a veja esta noite? - Zoya hesitou um longo momento, ponderando na deciso 
a tomar. Uma visita noturna a casa seria ainda mais cara do que se as atendesse no consultrio.
       - Vejamos como ela est depois do jantar. Pode sentir-se apenas cansada. Vou levar-lhe ch daqui a pouco. Est deitada?
       Antoine abanou a cabea com uma expresso preocupada.
       - Est a dormitar na cadeira, com o tric no colo. - H meses que Eugenia andava s voltas com um pequeno pedao retangular de l, garantindo que um dia seria 
uma camisola para Zoya.
       Sentaram-se os dois a jantar e, mediante um silencioso acordo, no tocaram na terceira tigela, embora estivessem com fome. Havia ainda uma hiptese de que 
Eugenia resolvesse jantar.
       - Que tal correu o ensaio? - Antoine mostrava-se sempre interessado no que ela fazia e, embora no fosse um homem bonito, havia uma expresso amvel de rapazinho 
nos seus olhos. Tinha cabelo louro e ralo que apartava cuidadosamente com uma risca ao meio e mos bonitas em que h muito reparara. Haviam deixado de tremer e, 
embora sentisse dores permanentes na perna, j no andava to nervoso.
       - Tudo em ordem. Gostava que os Ballets Russes voltassem. Sinto a falta de danar com eles. Esta gente no sabe o que anda a fazer. - Contudo, havia, pelo 
menos, dinheiro para comida. Um emprego era demasiado precioso para se perder no Inverno de 1917, em Paris.
       - Hoje num caf, encontrei umas pessoas que estavam a falar do golpe de Estado na Rssia no ms passado. Foi uma discusso infindvel. sobre o Trotski, o 
Lenine e os bolcheviques com dois pacifistas que se irritaram tanto que ameaaram socar os outros dois. - Esboou um sorriso malicioso. - Foi o pacifismo no seu 
melhor. Na realidade, gostei da discusso. - Na altura, reinava um sentimento de hostilidade contra os bolcheviques e Antoine partilhava a perspectiva pacifista, 
como muitos outros.
       - Interrogo-me sobre o efeito que ter nos Romanov retorquiu Zoya quase num sussurro. - H muito tempo que no recebo uma carta da Sibria.
       Preocupava-a, mas talvez o Dr. Botkin no tivesse conseguido fazer chegar as suas cartas a Mashka. Havia que ter este fato em considerao e esperar pacientemente 
por uma resposta. Nestes dias tudo parecia exigir pacincia. Todos aguardavam melhores tempos.
       Somente esperava que sobrevivessem para ver. Falava-se mesmo na possibilidade de Paris ser atacada, o que parecia difcil de acreditar com todas aquelas tropas 
inglesas e americanas espalhadas por toda a Frana. Contudo, depois daquilo a que assistira na Rssia h uns meros nove meses, sabia que tudo era possvel.
       Levantou-se e levou a tigela com o resto do caldo para o quarto da av, mas regressou minutos depois e dirigiu-se em voz baixa a Antoine, que estava na cozinha.
       - Adormeceu. Talvez seja melhor deix-la dormir. Tapei-a com um cobertor para que no arrefea. - Era um dos cobertores que Clayton lhe dera no Vero anterior. 
- No se esquea de me dar o nome desse mdico, amanh, antes de ir dar aulas.
       Antoine esboou um aceno de cabea e fitou-a com uma expresso interrogativa:
       - Quer que v consigo? - No entanto, ela limitou-se a abanar a cabea, pois mantinha o seu forte sentido de independncia. No chegara at ali quase pelos 
seus prprios meios para agora depender de algum, mesmo de algum to modesto como o hspede.
       Acabou de lavar a loua e sentou-se na sala de estar, o mais prximo possvel do fogo, aquecendo as mos, enquanto ele a observava. As chamas desenhavam reflexos 
dourados no cabelo de Zoya e os olhos verdes pareciam danar. Incapaz de resistir ao apelo, Antoine viu-se junto dela, em parte para se aquecer, em parte para lhe 
sentir a presena.
       - Tem um cabelo to bonito... - declarou sem pensar e depois corou quando ela o fitou, surpreendida.
       - Tambm voc - troou, pensando nas trocas de palavras insultuosas com Nicolai, de que tanto gostavam. - Desculpe... No pretendi ser indelicada... Estava 
a pensar no meu irmo. Contemplou o fogo e Antoine prosseguiu a observao.
       - Como era ele? - indagou num tom suave e julgou que o corao iria quebrar-se, tal era a ansiedade de estender a mo e tocar-lhe.
       - Era maravilhoso... atento, divertido, corajoso e audaz e muito, muito atraente. Tinha cabelos pretos como o meu pai c olhos verdes. - Depois, soltou uma 
sbita risada, ao lembrar-se. Adorava bailarinas. - A maior parte da famlia imperial nutria essa mesma simpatia. - Mas ficaria to zangado comigo, agora. Fitou 
Antoine com um sorriso triste. - Ficaria furioso por eu danar... - O pensamento vagueou uma vez mais, e Antoine no conseguia desviar o olhar.
       - Tenho a certeza de que compreenderia. Todos temos de fazer o que devemos para sobreviver. No h muitas opes. Devem ter estado muito prximo do fim.
       - Estivemos. - E logo em seguida: - A minha me enlouqueceu quando o mataram. - Os olhos encheram-se-lhe de lgrimas ao pensar nele sangrando de morte no 
trio e na av a atar inutilmente os saiotes  volta das feridas para tentar salv-lo. Era um pensamento quase insuportvel e, nesse momento, Sava aproximou-se sem 
fazer rudo da cadeira dela e lambeu-lhe a mo, trazendo-a ao presente.
       Permaneceram sentados durante muito tempo. Ele puxara a nica outra cadeira do quarto e sentaram-se junto ao fogo, imersos nos seus prprios pensamentos, 
at que Antoine ganhou um pouco de coragem.
       - O que deseja fazer com a sua vida? Alguma vez ponderou isso?
       - Danar, suponho - retorquiu, surpreendida com a pergunta.
       - E depois? - Antoine sentia-se curioso a respeito da jovem e raramente tinha oportunidade de a apanhar a ss sem Eugenia.
       - Dantes, queria casar e ter filhos.
       - E agora? Deixou de pensar nisso?
       - Praticamente. A maior parte das bailarinas nunca casam. Danam at carem, ou ensinam, o que quer que acontea primeiro. A maioria das bailarinas que conhecia 
nunca se casara e no estava muito certa de se importar. No havia ningum com quem pudesse imaginar-se casada. Clayton era s um amigo, o prncipe Markovski era 
velho de mais, os homens do ballet estavam para l das suas esperanas e era obviamente incapaz de se ver casada com Antoine. E no havia mais ningum. Alm disso, 
tinha de tomar conta de Eugenia.
       - Daria uma mulher fantstica. - Pronunciou a frase com um ar to solene que ela riu.
       - O meu irmo t-lo-ia achado louco. Sou uma pssima cozinheira e detesto coser. No sei pintar aquarelas, nem tricotar. Nem estou muito certa de saber governar 
uma casa, embora isso pouco interesse agora... - Sorriu ante a idia, enquanto ele a observava.
       - O casamento  algo mais do que cozinhar e coser.
       - Bom. Tambm no sei se sou boa nisso! - Corou e soltou uma gargalhada e ele corou tambm. Chocava-se com facilidade e ela chocara-o.
       - Zoya!
       - Desculpe. - Contudo, parecia mais divertida do que constrangida, ao acariciar a pequena Sava. At a cadela emagrecera, pois s era alimentada com os magros 
restos da mesa.
       - Talvez um dia haja algum que a leve a desejar abandonar a dana. - Antoine compreendera mal. No tinha assim uma paixo to grande pelo ballet, s que 
a alternativa era nula. Precisava de trabalhar para o seu sustento e de Eugenia, e a dana era a nica coisa que sabia fazer. Pelo menos, era alguma   coisa.
       -  melhor meter a av na cama, ou amanh os joelhos matam-na. - Levantou-se, espreguiou-se e Sava seguiu-a at ao quarto. Eugenia j tinha acordado e estava 
a vestir a camisa de noite. Quer o caldo, av? - Continuava  espera dela na cozinha, mas ela abanou a cabea com um sorriso cansado.
       - No, querida. Estou cansada de mais para comer. Porque no o guardas para amanh? - Com a cidade de Paris  fome, teria sido um crime desperdi-lo. - O 
que estiveste a fazer na sala?
       - A conversar com o Antoine.
       -  um bom homem - declarou, fitando intencionalmente Zoya, que pareceu no reparar.
       - Deu-me o nome de um mdico na Rue Godot-de-Mauroy. Quero lev-la l amanh, antes de ir para o ensaio.
       - No preciso de um mdico. - Estava a apanhar o cabelo e, um momento depois, subiu com esforo para a cama. O quarto estava frio e sentia dores horrveis 
nos joelhos.
       - Essa tosse no me agrada.
       - Na minha idade, at ter tosse  uma bno. Pelo menos ainda estou viva.
       - No fale assim. - S comeara a dizer coisas daquelas depois da morte de Feodor. O desaparecimento dele deprimira-a muito, juntamente com o fato de saber 
que o dinheiro estava quase a chegar ao fim.
       Zoya vestiu tambm a sua camisa de noite, apagou a luz e abraou com fora a av para a aquecer naquela noite de Dezembro.
       
CAPTULO 19
       
       O mdico a quem Zoya levou a av afirmou tratar-se apenas de tosse e no de tuberculose. Valia a pena pagar o preo pelas boas notcias, mas Zoya tivera de 
dar-lhe praticamente o dinheiro que lhe restava. At mesmo os baixos honorrios eram demasiados para os seus bolsos vazios.
       Contudo, nada disse a Eugenia quando o prncipe Markovski as levou de volta ao apartamento no carro. Este lanou alguns olhares intencionais a Zoya, que ela 
ignorou, e deixou-o a falar com a av no apartamento quando foi ensaiar. E, ao regressar nessa noite, achou que a av parecia um pouco melhor. O mdico dera-lhe 
um xarope para a tosse que estava a surtir efeito.
       Antoine, j estava na cozinha a preparar o jantar. Nessa noite trouxera frango, o que era uma invulgar regalia. Significava que no s teriam jantar, como 
canja para o dia seguinte. E ao pr a mesa para os trs, interrogou-se sobre se Mashka teria os mesmos problemas. Talvez um frango lhe parecesse um luxo, agora. 
Se estivessem juntas, ririam sobre o assunto. Mas agora no tinha com quem se rir.
       - Ol, Antoine. - Sorriu e agradeceu-lhe pelo nome do mdico.
       - No devias ter gasto o dinheiro - censurou Eugenia de uma cadeira perto do fogo. Vladimir trouxera-lhes lenha. Tomara-se subitamente um dia de riquezas 
inesperadas.
       - Deixe-se de parvoces, av.
       Os trs regalaram-se com o frango que ele serviu na prpria canja e, depois, Zoya bebeu ch com eles junto ao fogo. E quando a av se foi deitar, Antoine 
ficou a conversar com ela. Era algo que nos ltimos tempos faziam freqentes vezes, e pelo menos tinha algum com quem trocar impresses. Ele relembrava os Natais 
em criana e os olhos brilhavam-lhe. Adorava estar prximo dela.
       - O nosso Natal  mais tarde do que o vosso.  a 6 de Janeiro.
       - O Dia de Reis.
       - H festejos maravilhosos por toda a Rssia. Ou havia.
       Suponho que aqui iremos  igreja russa. - De certa maneira ansiava por isso e, por outro lado, sabia que seria deprimente. Todas aquelas almas perdidas, de 
p  luz das velas, lembrando um mundo perdido. Ignorava se conseguiria agentar, mas a av insistiria em que fossem. Esse ano, no haveria, obviamente, presentes. 
No havia dinheiro com que os comprar.
       Todavia, quando chegou o Natal, Antoine surpreendeu-a. Trouxe-lhe um cachecol quente e um confortvel par de luvas e um frasco minsculo do perfume que ela 
uma vez mencionara. Foi o perfume que lhe tocou o corao e lhe fez subir lgrimas aos olhos. Era Lilas, de que Mashka tanto gostava e lhe dera meses atrs. Tirou 
a tampa do fresquinho e o aroma suave trouxe-lhe de volta o toque e o cheiro de tudo o que amava e da sua adorada Mashka. As lgrimas rolavam-lhe lentamente pelas 
faces quando o olhou e, sem pensar, num gracioso gesto de criana, ps-lhe os braos  volta do pescoo e beijou-o. Foi um beijo fraterno, mas todo o corpo dele 
tremeu ao senti-la perto de si.
       Eugenia observava a cena, igualmente de lgrimas nos olhos.
       Ele no era o par que teria desejado para Zoya, mas era um homem decente e trabalhador e tomaria conta da neta. Antoine falara-lhe no assunto no dia anterior 
e ela dera a sua bno. Sentia-se mais fraca de dia para dia e invadia-a o pavor de que, se morresse, no haveria ningum para tomar conta de Zoya. Tinha de casar 
com ele agora para que o seu esprito ficasse em paz.
       Contudo, Zoya no fazia a mnima idia do que haviam planeado quando lhe agradeceu. entusiasmada, o perfume. Antoine oferecera  av um xale bordado e um 
livro de poemas russos. E Zoya sentiu se envergonhada por apenas lhe terem comprado um bloco de apontamentos e um livro sobre a Rssia.
       Descobrira-o num vendedor de livros no Quai d'Orsay, num pequeno e feio quiosque, mas era em francs e achou que poderia agradar-lhe. Mas no tanto quanto 
ela gostara do perfume.
       A av saiu discretamente com os presentes e fechou a porta do quarto sem rudo, desejando-lhe sucesso intimamente e rezando para que Zoya fosse sensata e 
o aceitasse.
       - Deve ter gasto todo o seu dinheiro - retorquiu, ao mesmo tempo que remexia o fogo com uma longa tenaz de metal e Sava agitava a cauda. - Foi idiota mas 
tambm um gesto generoso, Antoine. Muito obrigada, Antoine. Usarei o perfume em ocasies especiais. - J decidira p-lo dali a duas semanas no Natal russo. No queria 
desperdi-lo antes.
       Antoine sentou-se na cadeira diante dela e respirou fundo, tentando ganhar coragem. Era treze anos mais velho do que ela, mas nunca se sentira to aterrorizado 
em toda a vida. At mesmo Verdun lhe causara menos medo do que enfrentar Zoya.
       - Queria falar-lhe de uma ocasio especial, Zoya, j que a menciona. - Sentiu um suor frio nas palmas das mos quando ela lhe deitou um olhar estranho.
       - O que significa isso?
       - Significa... - O corao batia-lhe com fora no peito. Significa... Amo-a. - Ela mal ouviu as palavras e fitou-o, surpreendida.
       - O qu?
       - Amo-a. Amo-a desde o dia em, que cheguei aqui. Julguei que suspeitasse.
       - Como havia de suspeitar? - Parecia admirada e irritada. Ele estragara tudo. Como podiam ser amigos agora frente a uma tal estupidez? - Mas nem sequer me 
conhece!
       - H dois meses que vivemos na mesma casa. Chega. Nem sequer teria de ser muito diferente. Poderamos continuar aqui,  exceo de que dormiria no meu quarto.
       - Que maravilha! - exclamou, levantando-se e comeando a percorrer a sala de um lado para o outro. - Uma mera mudana de quartos e poderamos continuar como 
at agora. Como  capaz sequer de o sugerir? Estamos todos a morrer de fome, no temos dinheiro e quer casar-se. Porqu? Porqu? No o amo. Nem sequer o conheo, 
nem voc a mim... Somos dois estranhos, Antoine!
       - No somos estranhos, somos amigos. E alguns dos melhores casamentos comeam precisamente assim.
       - No penso dessa maneira. Quero estar apaixonada pelo homem com quem casar, louca e totalmente apaixonada. Quero que seja algo de maravilhoso e romntico.
       Antoine parecia tristssimo ante aquela exploso, mas ela gritava mais com o destino que os juntara do que com o homem que lhe trouxera o seu perfume favorito.
       - A sua av acha que podamos ser muito felizes. - No entanto, era o pior que podia ter dito e ela ps-se a percorrer a sala em grandes passadas.
       - Ento, case-se com a minha av! No quero casar-me! Agora, no! Tudo  nossa volta est doente, frio e moribundo. Tudo est morto de fome, pobre e miservel. 
Que maneira de comear uma vida!
       - O que est, de fato, a dizer  que no me ama. - Sentou-se calmamente, disposto a aceitar at mesmo isso. E foi aquela atitude passiva que a acalmou. Sentou-se 
diante dele e tomou-lhe as mos entre as suas, quentes.
       - No, no amo. Mas gosto de si. Julguei que fosse meu amigo. Nunca pensei que houvesse algo mais por trs. Nada de srio, pelo menos. Nunca me disse... - 
Os olhos encheram-se-lhe de lgrimas.
       - Tive medo. Promete pensar no assunto, Zoya?
       Contudo, a jovem abanou tristemente a cabea.
       - Era incapaz, Antoine. Seria injusto para ambos. Merecemos os dois mais do que isso. - Olhou  volta deles e depois fitou-o novamente. - E, se nos amssemos, 
nada disto teria importncia. Mas tem. Simplesmente no o amo.
       - Podia tentar. - Parecia to novo, apesar dos danos e das perdas.
       - No, no podia. Lamento... - Em seguida, abandonou a sala e fechou a porta do quarto sem rudo, deixando o perfume, o cachecol e as luvas em cima da mesa.
       Antoine olhou em redor, apagou as luzes e regressou ao seu quarto. Talvez ela mudasse de opinio. Talvez a av conseguisse convenc-la. Achara aquele plano 
to sensato. Sabia, porm, que a opinio dela provinha do desespero.
       - Zoya?
       A av observava-a da cama de ambas, enquanto a neta se despia, de frente para o jardim. Eugenia no lhe via o rosto, mas suspeitava, instintivamente, que 
ela chorava. E, quando Zoya se virou j de camisa de noite, os olhos verdes lanavam chispas.
       - Porque o fez, av? Porque o encorajou? Foi cruel para os dois. - Pensou na dor refletida na expresso de Antoine e sentiu-se mal. Mas no o suficiente para 
o desposar por piedade. Tinha de pensar em si tambm. E sabia que no o amava.
       - No  cruel.  sensato. Tens de casar com algum e ele tomar conta de ti.  professor, um homem respeitvel e ama-te.
       - No o amo.
       - s uma criana. No sabes o que queres. - Suspeitava tambm que Zoya ainda sonhava com Clayton, um homem com o dobro da idade dela, de quem no tinha notcias 
desde Novembro.
       - Quero amar o homem com quem me casar, av.  pedir assim tanto? - Lgrimas rolavam-lhe pelas faces ao afundar-se na nica cadeira do quarto, apertando Sava 
de encontro ao corpo.
       - Normalmente, no, no . Mas, na presente situao, . Tens de ser sensata. Estou velha e doente. O que vais fazer quando eu morrer? Ficar aqui sozinha 
e continuar a danar? Tornar-te-s velha, azeda e amarga. Deixa-te desses disparates. Aceita-o e obriga-te a aprenderes a am-lo.
       - Av! Como pode dizer uma coisa dessas?
       - Porque vivi muito. O suficiente para saber quando lutar e quando desistir e quando assumir compromissos de corao. No achas que gostaria de te ver casada 
com um prncipe elegante, em Sampetersburgo, numa casa como Fontanka? Contudo, j no h prncipes, andam todos ao volante de txis. Fontanka desapareceu, a Rssia 
desapareceu. Isto  tudo o que existe, Zoya, talvez para sempre. Tens de te adaptar. No te deixarei s. Quero saber que algum tomar conta de ti.
       - No lhe interessa que no o ame?
       Eugenia abanou tristemente a cabea.
       - No  importante, Zoya. No, agora. Casa com ele. Acho que no te arrependers.
       "Mas ele  feio", apetecia-lhe gritar. "...  aleijado..."
       Todavia, no fundo do corao sabia que nada disto importaria, se o amasse. A vida com Antoine seria sempre triste, seria sempre menos do que desejara. E a 
idia de ter filhos dele levava-a a desejar chorar mais ainda. No queria filhos dele, no o amava.
       Era simplesmente incapaz.
       - No consigo - retorquiu com a sensao de que asfixiava.
       - Consegues, sim. E deves. Por mim, Zoya... f-lo por num, antes que morra. Deixa-me saber que ests segura com um homem que te proteger.
       - Proteger do qu? Da fome? Estamos todos a morrer de fome. Ele no pode mudar a situao. E nem me interessa. Preferia morrer de fome aqui sozinha do que 
estar casada com um homem que no amo.
       - No decidas j, pequenina. Pensa no assunto. D-lhe um tempo. Por favor... por mim... - Os olhos suplicavam, e Zoya chorava como se tivesse o corao partido. 
Contudo, na manh seguinte, as lgrimas haviam desaparecido. Falou de imediato com Antoine.
       - Quero que saiba, sem que lhe reste sombra de dvida, que no casarei consigo, Antoine. Quero esquecer que isto aconteceu.
       - No posso. Sou incapaz de viver aqui, sabendo como a desejo.
       - J me desejava antes - replicou, subitamente aterrorizada com a perspectiva de ficarem sem o hspede.
       - Era diferente. No o sabia e agora sabe.
       - Fingirei que nunca o disse. - Parecia novamente assustada como uma criana e ele esboou um sorriso triste.
       - No ser possvel. Tem a certeza, Zoya? No pode pensar algum tempo?
       - No. E no quero dar-lhe falsas esperanas. No posso casar consigo. Nunca.
       - H mais algum? - Sabia que ela tinha um amigo americano, mas nunca pensara que havia algo de srio entre eles.
       - No, no dessa maneira. H apenas um sonho. Contudo, se desistir dos meus sonhos agora, no terei nada. So tudo o que me resta.
       - Talvez as coisas melhorem depois da guerra. Talvez consigamos um apartamento s para ns. - Os sonhos dele eram to pequenos e os dela ainda to grandes. 
Abanou a cabea e, desta vez, ele acreditou.
       - No posso, Antoine. Tem de acreditar em mim.
       - Ento, terei de me mudar.
       - No... por favor... juro que me manterei afastada. A av ficar com o corao desfeito, se se for embora.
       - E voc, Zoya? - A jovem observava-o, silenciosa. - Ter saudades minhas?
       - Julguei que era meu amigo - redargiu tristemente.
       - Sou. Sempre o serei. Contudo, no posso ficar aqui. - Ele tinha um resto de orgulho, e, quando fez as malas nessa tarde, Zoya entrou em pnico. Implorou-lhe 
que no se fosse embora, prometendo-lhe quase tudo, exceto o casamento. Sem o contributo dele para renda e a comida, ficariam numa situao ainda mais desesperada. 
- Impossvel - teimou Antoine. Eugenia falou com ele, prometeu-lhe que convenceria Zoya a ser sensata, mas nada o demoveu. Vira os olhos da jovem e ouvira as suas 
palavras. E ela tinha razo. No podia casar com um homem que no amava. No era esse gnero de mulher. -  melhor ir-me embora. Amanh, procurarei outro quarto.
       - Ela  uma jovenzinha idiota. - E foi isso mesmo o que Eugenia disse  neta nessa noite. Estava a desperdiar a nica oportunidade que tinha de se casar.
       - Pouco me interessa se nunca me casar - replicou Zoya, mais uma vez debulhada em lgrimas.
       E, na manh seguinte, quando se levantou, Antoine tinha-lhe escrito uma carta e ido embora com as suas coisas. Havia trs notas amarrotadas em cima da mesa 
e na carta desejava-lhe felicidades. Sobre as notas, deixara o frasco de perfume que lhe tinha oferecido no Natal.
       Eugenia rompeu em soluos ao v-lo, e Zoya meteu calmamente as trs notas amarrotadas no bolso.
       
CAPTULO 20
       
       Nas duas semanas seguintes pairou a tristeza no apartamento junto ao Palais Royal. O ballet encerrara durante trs semanas e, embora tivessem passado palavra 
por intermdio de Vladimir, no apareceu nenhum hspede.
       Desgostosa com a atitude de Zoya, Eugenia parecia haver envelhecido quase de uma noite para outra e, embora a tosse tivesse melhorado, estava debilitada. 
Censurava a neta quase diariamente por causa de Antoine e a situao financeira tornou-se to desesperada que, pouco depois do Ano Novo, Eugenia desceu dificilmente 
as escadas e pediu a Vladimir que a levasse at ao ourives da Rue Cambon.
       A deslocao era praticamente intil, mas sentia que no lhe restava alternativa. Abriu com cuidado o embrulho que trouxera e mostrou a cigarreira em ouro 
de Konstantin e trs das caixinhas em prata de Nicolai. As tampas eram rplicas em esmalte das suas insgnias militares e estavam gravadas com frases divertidas 
e os nomes dos amigos; uma delas tinha uma pequena r e outra uma fieira de elefantes brancos em esmalte. Representavam todas as coisas de que gostava ou que significavam 
algo para ele e haviam sido oferecidas por amigos. H muito que prometera a si prpria e a Zoya que nunca as venderia.
       O ourives reconheceu-as de imediato como peas de Faberg, mas j vira mais de uma dzia de objetos semelhantes.
       - No posso oferecer muito - desculpou-se, e a soma que escreveu fez subir lgrimas aos olhos de Eugenia, mas tinham de comer. - Lamento, madame. - Ela inclinou 
a cabea com uma silenciosa dignidade, falha de palavras, e aceitou a pequena quantia mencionada. Serviria para as manter pelo menos uma semana, se no comprassem 
algo demasiado extravagante.
       O prncipe Vladimir reparou que a velha senhora parecia plida, mas no fez, como habitualmente, perguntas vulgares.
       Limitou-se a lev-la a casa, depois de pararem para comprar um po e um frango magrssimo. Zoya esperava-os com um ar abatido mas extremamente bonita.
       - Onde esteve? - perguntou ao acomodar a av numa cadeira e enquanto Vladimir descia as escadas para trazer mais lenha.
       - O Vladimir levou-me a dar uma volta. - Contudo, Zoya desconfiava que se tratava de algo mais.
       -  tudo? - Ia a responder afirmativamente, mas os olhos encheram-se-lhe de lgrimas e comeou a chorar, sentindo-se cansada e velha, e como se a vida tivesse 
cometido a sua traio final. Nem sequer podia permitir-se morrer. Ainda tinha de pensar em Zoya. - O que fez av? - Zoya sentiu-se subitamente assustada, mas a 
velha senhora assoou-se ao lencinho de renda que ainda trazia.
       - Nada, minha querida. O Vladimir tinha-se oferecido para nos levar esta noite  Igreja de Santo Alexandre Nevski. - Era vspera de Natal para eles e Zoya 
sabia que todos os Russos em Paris compareceriam, mas no tinha a certeza se seria indicado para a av ir assistir  missa da meia-noite na igreja. Talvez fosse 
melhor ficarem em casa. De qualquer maneira no lhe apetecia, mas a av endireitou-se com uma expresso inamovvel e sorriu a Vladimir, quando ele regressou com 
a lenha.
       - Tem a certeza de que quer ir, av?
       - Claro. - E o que interessava, agora? - Nunca faltei  missa de Natal uma nica vez na minha vida.
       Contudo, ambas sabiam que as esperava um ano difcil. Com tantas perdas, o servio religioso apenas lhes lembraria o ano anterior em que tinham celebrado 
o Natal rodeadas pelos entes amados. E Zoya andara a pensar o dia inteiro em Mashka e nos outros, que passariam o Natal em Tobolsk.
       - Voltarei s onze - prometeu Vladimir, ao sair. Zoya estava a planear usar o seu melhor vestido, e a av lavara e passara a ferro a sua nica gola decente 
de renda para pr no vestido preto que Zoya lhe comprara.
       Foi uma vspera de Natal solitria no silencioso apartamento, com o quarto de Antoine vazio e como que lanando-lhes uma censura. Eugenia oferecera-o a Zoya 
h uns dias, mas ela no conseguia decidir-se a mudar. Depois de Feodor e de Antoine, no queria o quarto e preferia continuar a dormir com a av at encontrarem 
um novo hspede.
       Nessa noite cozinhou o frango para a av, assando-o com cuidado no pequeno fogo. Era um luxo no fazer canja, mas tratava-se do nico presente que partilhavam 
e ambas se concentravam desesperadamente em esquecer anos anteriores, nos seus dias de riqueza. Na vspera de Natal ficavam sempre em casa, depois iam  igreja com 
a famlia  meia-noite e no dia seguinte a Tsarskoie Selo, para celebrar em conjunto com Nicolau e os outros.
       Agora e em vez disso, trocaram comentrios sobre o frango, falaram da guerra, mencionaram Vladimir, tudo para evitar os seus prprios pensamentos. Quando 
Zoya ouviu uma ligeira pancada na porta, levantou-se para ir ver quem era, roando por Sava que esperava um pouco dos restos do frango.
       - Sim? - Zoya interrogou-se sobre se seria a resposta s suas preces e um novo hspede estava prestes a surgir, indicado por Vladimir ou um dos seus amigos. 
Era, contudo, uma hora estranha para aparecer e a jovem ficou pregada ao cho ao ouvir uma voz familiar... No podia ser... mas era. Escancarou a porta e deteve-se 
a olh-lo, completamente fardado, as ombreiras e o bon reluzindo com as insgnias, o rosto srio, mas os olhos azuis cheios de calor.
       - Feliz Natal, Zoya. - Era Clayton que estava ali, de p. H quatro meses que no o via, mas ele sabia a importncia daquela data para elas e movera cus 
e terra para sair de Chaumont a tempo de a partilharem juntos. Tinha uma licena de quatro dias e queria pass-la com Zoya. - Posso entrar? - A jovem conservava-se, 
imvel, incapaz de pronunciar uma palavra e fitando-o numa silenciosa admirao.
       - Eu... Meu Deus... s mesmo tu?
       - Acho que sim. - Sorriu e baixou-se meigamente para a beijar na face. O namoro do Vero anterior no fora mais longe do que isso, mas agora ansiava por tom-la 
nos braos. Quase se esquecera de como ela era bonita, pensou ao observar a figura esguia e graciosa que tinha na frente.
       Zoya seguiu-o at ao interior, fitando, cheia de felicidade, os ombros largos e direitos. Os olhos inundaram-se-lhe de alegria quando ele cumprimentou a av 
e reparou que trazia um saco de onde retirou tesouros fantsticos para elas.
       Havia pezinhos acabados de sair do forno do quartel, chocolates, trs enormes e grossas salsichas, uma alface fresca, algumas mas e uma garrafa de vinho 
das caves do general Pershing. Tratava-se de riquezas indescritveis, muito longe do que haviam visto nos ltimos meses. Zoya perscrutava-o com olhos redondos, felizes 
e uma expresso de adorao.
       - Feliz Natal, condessa - desejou Clayton num tom calmo. Tive saudades de ambas. - Mas nem metade das que Zoya sentira dele. Ainda se apercebia melhor de 
que era assim, agora na sua presena.
       - Obrigada, capito. Como vai a guerra? - indagou Eugenia sem erguer a voz e observando a neta. O que viu aqueceu-lhe o corao e alegrou-a de imediato. Era 
aquele o homem que Zoya desejava, quer o soubesse ou no. Era bem visvel.
       Clayton era elegante e tinha um porte orgulhoso, viril e alto na salinha de estar, dominando tudo  sua volta.
       - Infelizmente ainda no acabou, mas estamos a trabalhar nesse sentido. Devemos ter tudo sob controlo daqui a uns meses. Os restos do jantar permaneciam na 
mesa, agora j sem graa, e Zoya fitou os apetitosos chocolates. Riu ao oferecer um  av e depois comeu dois como uma criana esfaimada, e Clayton soltou uma gargalhada. 
Estava to feliz por a ver. - No posso esquecer-me de quanto gostas desses chocolates - troou, agarrando-lhe ternamente na mo.
       - Uumm!... maravilhosos!... muito obrigada!... - Eugenia ria ao observ-la. Parecia de novo to jovem e feliz quando o capito olhou por cima da cabea dela 
e fitou a velha senhora. Esta tinha envelhecido nos ltimos meses e ambas lhe pareciam mais magras, mais magras e mais cansadas, mas Zoya no perdera a beleza.
       Clayton ansiava por a envolver nos braos e apert-la de encontro ao corpo.
       - Sente-se, por favor, capito - convidou Eugenia, irradiando elegncia e um porte orgulhoso, apesar da idade, da tristeza e dos constantes sacrifcios por 
Zoya.
       - Obrigado. E tencionam ir  igreja esta noite, minhas senhoras? - Sabia que para elas se tratava de um ritual. Zoya contara-lhe tudo sobre as procisses 
de velas na vspera de Natal e queria acompanh-las. Fizera o impossvel para passar aquela noite com elas, e Zoya esboou um aceno de cabea vincado, questionando 
a av com os olhos.
       - Quer juntar-se a ns, sir? - convidou Eugenia.
       - Gostaria muito. - Abriu a garrafa e Zoya foi buscar os copos que ele lhes dera no Vero anterior e deteve-se a olh-lo em silncio enquanto ele servia o 
vinho.
       Assemelhava-se a um sonho v-lo ali de uniforme, qual viso, e recordou-se subitamente do que dissera a Antoine. No podia casar com um homem que no amasse. 
E soube que amava aquele homem. Podia casar-se com ele, independentemente da idade, de onde ele estivera ou do que lhes acontecesse...
       Tratava-se, porm, de pensamentos idiotas. H dois meses que no tinha notcias. No fazia idia dos sentimentos dele nem de at que ponto lhe interessava. 
Apenas sabia que ele era generoso e bom e regressara  sua vida na vspera de Natal. Nada mais sabia. Contudo, ao observ-los, Eugenia sabia mais do que isso, mesmo 
mais do que o prprio Clayton naquele momento.
       Vladimir chegou pouco depois das onze. Prometera lev-las no carro  igreja e pareceu surpreendido ao deparar com Clayton. A condessa apresentou os dois homens, 
e Vladimir perscrutou a face do capito, interrogando-se sobre quem era e o que fazia ali, mas os olhos de Zoya mostraram-se elucidativos. Era como se tivesse sobrevivido 
aos ltimos meses apenas para usufruir daquele momento.
       Clayton seguiu-a at  cozinha, enquanto Eugenia servia um pouco de vinho ao prncipe, tocou-lhe suavemente no brao e atraiu-a devagar a si. Os lbios afloraram 
ao de leve o cabelo sedoso e fechou os olhos, quando a agarrou.
       - Senti terrivelmente a tua falta... pequenina... Queria escrever-te, mas no podia. Agora,  tudo top secret.  um milagre que me tenham deixado vir. - Estava 
intimamente envolvido em todos os planos de Pershing para a Fora Expedicionria Americana. Afastou-se dela e baixou a cabea, perscrutando-a com os brilhantes olhos 
azuis. - Tiveste saudades minhas?
       Zoya no conseguia falar e os olhos inundaram-se-lhe de lgrimas como resposta. Tudo tinha sido to difcil para elas, a pobreza, a falta de comida, o frio 
Inverno, a guerra. Era tudo um pesadelo e, subitamente, ali estava ele, com os bolos, o vinho, e os fortes braos a envolver-lhe o corpo.
       - Muitas mesmo - murmurou com voz rouca e desviando os olhos. Receava fit-lo, pois ele perceberia muita coisa.
       Contudo, sentia-se segura na presena dele, como se o tivesse esperado a vida inteira. Nessa altura, ouviu uma tosse delicada na ombreira da porta da cozinha 
e viraram-se os dois. Era o prncipe Vladimir que os observava com uma muda inveja.
       - Temos de sair dentro em pouco para a igreja, Zoya Konstantinovna. - Dirigiu-se-lhe em russo e os olhos encontraram-se por momentos com os de Clayton. - 
Acompanha-nos, sir? As senhoras vo a um servio religioso da meia-noite.
       - Gostaria muito - respondeu, baixando os olhos para Zoya. Achas que a tua av se importava?
       - Claro que no. - Zoya falou pelas duas, sobretudo por si prpria, ao mesmo tempo que se interrogava sobre onde ele estaria alojado. Pensou em oferecer-lhe 
o quarto de Antoine, mas suspeitou corretamente que a av no acharia conveniente. No que interessasse realmente. Que significado possua o decoro, se no havia 
comida, dinheiro, calor, e o mundo em que se vivera tinha desaparecido? Quem se importaria mesmo com o decoro? Tudo lhe parecia to idiota, no momento em que Clayton 
lhe agarrou meigamente a mo e a levou at  cozinha.
       Sava seguia-os de perto, de focinho levantado, esperando por uns restos de comida. Zoya baixou-se calmamente e deu-lhe um dos seus preciosos bolinhos.
       A av foi buscar o chapu e o casaco e a jovem tirou o seu prprio casaco usado de um cabide perto da porta, enquanto os dois homens aguardavam, conversando 
delicadamente sobre a guerra, o tempo e as perspectivas de paz nos meses vindouros.
       Vladimir parecia observ-lo criticamente, mas no conseguia antipatizar com ele. O americano era, sem dvida, velho de mais para Zoya, e Eugenia seria insensata 
se permitisse que algo acontecesse entre ambos. Quando a guerra acabasse, ele regressaria a Nova Iorque e esqueceria a bonita rapariga com quem se divertira em Paris.
       Contudo, Vladimir no podia, obviamente, censur-lo por a desejar. Tambm ele a desejava, embora h mis de um ms andasse a cortejar uma das amigas da filha. 
Tratava-s de uma robusta rapariga russa de boas famlias que chegara a Paris na Primavera anterior, como o resto, e ganhava a vida a costurar. Ela e a filha estariam 
 sua espera na igreja.
       Clayton ajudou a velha condessa a descer as escaldas, sob o olhar de Zoya, e Vladimir liderou o caminho at ao txi. Seguiram devagar atravs das ruas tranqilas, 
e Clayton olhava em volta, sobretudo para Zoya. Teve a sensao de que a jovem precisava de se divertir e de umas boas refeies. Precisava tambm de um casaco novo, 
pois o velho parecia quase fio, quando o vento assobiou junto deles diante da Igreja de Santo Alexandre Nevski.
       Era uma bonita e antiga igreja e j havia muita gente no interior quando entraram. Ouviram a msica do rgo dos degraus da frente e em redor soava o ameno 
murmrio de vozes. O incenso emanava um cheiro suave e estava calor l dentro. Os olhos de Zoya encheram-se repentinamente de lgrimas ao observar os rostos familiares 
e ao ouvir falar russo por todo o lado. Quase se assemelhava a voltar a casa, estando ali no meio de toda aquela gente, cada um deles com uma enorme vela na mo.
       Vladimir estendeu uma a Eugenia e outra a Clayton e Zoya recebeu uma de um mido. Ele ergueu o rosto com um sorriso tmido e desejou-lhe um bom Natal.
       E a jovem apenas conseguia pensar noutros Natais, noutros tempos... Mashka e Olga e Tatiana e Anastasia... a tia Alix e o tio Nicolau... e o dbil Alexis... 
iam todos os anos juntos aos ofcios divinos da Pscoa que muito se pareciam com este... e, enquanto se debatia com as recordaes, Clayton pegou-lhe ternamente 
na mo e manteve-a agarrada, como se pudesse ler-lhe a mente e descobrir o que ela sentia. Rodeou-lhe o ombro com o brao quando entoaram o primeiro hino e ficou 
extasiado ante a beleza das vozes russas.
       Lgrimas rolavam devagar pelas faces dos homens e muitas das mulheres choravam ao recordar-se da vida que haviam partilhado num lugar que jamais esqueceriam. 
Zoya pensou que tudo aquilo era quase superior s suas foras, a familiaridade dos cheiros, dos sons, das emoes. De olhos fechados, imaginou que Nicolai, a me 
e o pai se encontravam ali. Era um pouco como se tivesse voltado  infncia, ali to prxima de Clayton, e tentou fingir que ainda estavam na Rssia.
       Depois do servio religioso, muitas pessoas conhecidas vieram falar-lhes. Os homens esboavam uma vnia e beijavam a mo de Eugenia, os que haviam sido criados 
ajoelhavam-se brevemente aos seus ps e as pessoas choravam copiosamente e abraavam-se.
       Clayton observava a cena, e Zoya apresentou-o a todos os que conhecia. Havia tantos rostos que achava familiares, embora no os conhecesse todos. No entanto, 
eles pareciam conhec-la e a Eugenia. O gro-duque Cyril estava presente, bem como outros primos dos Romanov, todos com roupa velha, sapatos gastos e rostos que 
mal dissimulavam as preocupaes. Era doloroso estar ali e ao mesmo tempo uma consolao, como se fosse uma breve viagem a um passado que todos desejavam recuperar 
e passariam uma vida inteira a relembrar.
       Eugenia parecia extenuada, mas conservava-se ao lado de Vladimir. Alta e orgulhosa, cumprimentava toda a gente e verificou-se um terrvel momento quando o 
gro-duque Cyril se aproximou dela e se ps a soluar como uma criana. Nenhum deles conseguiu articular uma palavra, e Eugenia tocou-lhe numa bno silenciosa.
       Nesse instante, Zoya agarrou-lhe ternamente no brao e, com um olhar para Vladimir, levou-a l para fora at ao txi. Fora uma noite difcil para todos, mas 
era muito importante tambm estarem ali. E ela recostou-se no assento com um suspiro cansado e um olhar que dizia tudo.
       - Foi um belo servio. - Clayton expressou-se num tom calmo e muito comovido. Sentia-se-lhes o amor, o orgulho, a f e a tristeza. E era como se, numa muda 
concordncia, tivessem estado a rezar pelo czar, a mulher e os filhos. Clayton interrogou-se sobre se Zoya voltara a ter notcias de Marie, mas no queria perguntar-lhe 
diante de Eugenia. Era doloroso de mais. - Obrigado por me ter deixado vir.
       Clayton acompanhou-as at l acima quando regressaram ao apartamento e Vladimir serviu o resto do vinho. Ao ver o olhar triste e o rosto cansado de Eugenia, 
Clayton lamentou no lhes ter trazido brande. Ateou novamente o fogo e acariciou, distrado, Sava, enquanto Zoya comia mais um bolinho.
       - Devia ir deitar-se, av.
       -  o que farei daqui a um minuto. - Queria sentar-se um pouco a recordar e depois brindou todos com um olhar terno. Feliz Natal, crianas. Deus nos abenoe 
a todos. - Bebeu um gole de vinho e depois levantou-se devagar. - Agora, vou deix-los. Sinto-me muito cansada.
       Clayton apercebeu-se de que ela mal podia andar. Zoya ajudou-a a ir at ao quarto e regressou uns minutos depois. Vladimir saiu pouco depois com um derradeiro 
olhar de inveja para Clayton. No entanto, ele sorriu-lhe. Era um homem de sorte por Zoya o fitar daquela maneira. Era to jovem, to alegre e to bonita.
       - Feliz Natal, Zoya. - A tristeza ensombrava-lhe o olhar e ainda se sentia comovido com o servio religioso da meia-noite.
       - Feliz Natal para si, prncipe Vladimir. - Beijou-a nas faces e desceu apressadamente as escadas de volta ao txi. A filha e a amiga esperavam-no em casa.
       E, quando a porta se fechou, Zoya virou-se tranqilamente para Clayton. Era tudo to agridoce, o passado e o presente, a felicidade e a tristeza. As lembranas 
e realidade... Konstantin, Nicolai... Vladimir... Feodor... Antoine... e agora, Clayton...
       Ao fit-lo, lembrou-se de todos e o cabelo brilhava-lhe como ouro  luz do fogo. Ele aproximou-se sem rudo, agarrou-lhe nas mos, abraou-a sem uma palavra 
e beijou-a.
       - Feliz Natal. - Disse-o em russo, como ouvira uma e outra e outra vez em Santo Alexandre Nevski. Zoya repetiu para ele e durante um longo momento no se 
separariam. Clayton acariciava-lhe o cabelo e ouviam o crepitar do fogo. Sava dormia ao lado deles. Amo-te... Zoya... - Ainda no quisera confessar-lho, quisera 
ter a certeza e, contudo, estava certo. Soubera-o desde Setembro, quando a deixara.
       - Tambm te amo. - Ela sussurrou as palavras que eram to fceis de lhe dirigir. - Oh, Clayton... Amo-te... - Contudo, havia a guerra e ele teria eventualmente 
de deixar Paris e regressar a Nova Iorque. No podia permitir-se pensar nisso agora. No podia.
       Clayton conduziu-a suavemente at ao sof e sentaram-se de mos dadas, como duas crianas felizes.
       - Preocupei-me tanto contigo. Quem me dera ter ficado aqui todos estes meses. - E agora restavam-lhes apenas quatro dias, uma ilhota de momentos num mar agitado 
que podia afog-los a qualquer momento.
       - Sabia que irias voltar - sorriu Zoya. - Pelo menos, assim o esperava. - E estava mais do que nunca agradecida por no ter permitido que a av a forasse 
a casar com Antoine. Se lhe tivesse dado ouvidos, podia estar casada com ele, ou mesmo com Vladimir, quando Clayton regressasse.
       - Tentei lutar contra este sentimento, sabes? - Suspirou e estendeu as compridas pernas na feia carpete, que ainda ficara mais no fio durante os ltimos meses. 
Tudo no apartamento parecia velho, sujo e miservel,  exceo da bonita rapariga ao seu lado, de olhos verdes e cabelo ruivo, o rosto de traos perfeitos, o rosto 
com que sonhara durante meses, mau grado todos os motivos que dera a si prprio para tentar esquec-la. - Sou demasiado velho para ti, Zoya - prosseguiu. - Precisas 
de algum novo, que descubra a vida contigo e te torne feliz. - "Mas quem? O filho de algum prncipe russo, um rapaz to pobre quanto ela?" Na verdade, precisava 
de algum que cuidasse dela e queria ser ele a desempenhar esse papel.
       - Tornas-me feliz, Clayton. Mais feliz do que o fui alguma vez... - Sorriu com franqueza. - ...De h muito, muito tempo para c. - Virou-se para ele com uma 
expresso grave. - No quero ningum mais novo. No me interessa se s velho ou novo. S me interessa o que sentimos. Queria l saber que fosses rico ou pobre, que 
tivesses cem ou dez anos. Quando se ama algum, essas coisas no so importantes.
       - Algumas vezes so, mida. - Ele era mais velho e mais sensato. -  uma poca estranha, perdeste tudo e ests armadilhada aqui numa guerra e num pas desconhecido. 
Somos ambos estranhos aqui... mas, mais tarde, quando acalmar, podes olhar para mim e perguntar o que estou a fazer junto de ti? - Sorriu-lhe, receoso de que a sua 
previso pudesse transformar-se em realidade. - A guerra tem conseqncias bizarras. - J vira acontecer a outros.
       - Para mim, esta guerra  eterna. No posso regressar a casa. Oh... alguns deles pensam que um dia voltaremos... mas agora houve outra revoluo. Tudo ser 
sempre diferente. E agora estamos aqui.  esta a nossa vida,  esta a realidade... - Fitou-o com uma expresso sria, j longe de ser criana, por mais jovem que 
parecesse em idade verdadeira. - S sei quanto te amo.
       - Fazes com que me sinta to novo, pequena Zoya. - Voltou a apert-la de encontro ao corpo e ela bebeu-lhe o calor e a fora, todas as boas coisas que possura 
h muito, quando o pai a abraava. - Fazes com que me sinta to feliz.
       Desta vez, beijou-o e, de sbito, ele apertou-a mais e teve de lutar contra a paixo que o avassalava. Sonhara demasiado tempo com ela, ansiara e precisava 
dela e agora mal conseguiu dominar as emoes e o desejo.
       Levantou-se e aproximou-se da janela, pondo-se a olhar, o jardim. Depois, virou-se devagar, interrogando-se sobre o rumo que as suas vidas tomariam. Regressara 
a Paris para a ver e, contudo, sentia um sbito receio do que pudesse acontecer.
       Apenas Zoya parecia segura e calma, certa de que tomava a atitude indicada ao estar ao lado dele. Fitou-o com um olhar tranqilo.
       - No quero fazer nada que venhas a lamentar, mida. - E depois: - Danas esta semana? - Ela abanou a ele sorriu:  timo. Assim, teremos algum tempo antes 
do meu regresso a Chaumont. Suponho que agora tenho de te deixar. - Eram trs da manh, mas no estava cansada quando o acompanhou  porta, com Sava atrs.
       - Onde ests alojado?
       - Desta vez o general teve a bondade de me pr  disposio a casa do Ogden Mill. - Era onde se tinham conhecido, o bonito htel particulier na Rue de Varennes, 
na margem esquerda, onda haviam passeado pelo jardim, na noite da recepo aos Ballets Russes. - Posso vir buscar-te, amanh de manh?
       - Gostava muito - respondeu com um aceno de cabea feliz.
       - Virei s dez. - Voltou a beij-la junto  ombreira da porta, sem saber para onde iriam, mas seguro at ao mais ntimo de si que agora no havia retorno.
       - Boa noite, capito - troou Zoya, com um brilho imenso no olhar.
       - Boa noite, meu amor - pronunciou ele meigamente e desceu apressadamente as escadas nuns ps com vontade de danar. Era-lhe impossvel deixar de sorrir, 
pensando que nunca tinha sido to feliz na vida.
       
CAPTULO 21
       
       - Na noite passada, deves ter-te deitado muito tarde comentou a av num tom calmo,  mesa do pequeno-almoo. Zoya cortara-lhe algumas das mas s fatias 
e fizera uma preciosa torrada do po que Clayton lhes trouxera.
       - No muito. - Desviou os olhos e bebeu o ch em pequenos goles, comendo depois um chocolate.
       - Ainda s uma criana - replicou a av quase tristemente, observando-a. Sabia o que ia seguir-se e temia pela neta. Ele era bom homem, mas a situao no 
se afigurava desejvel. Fora o que Vladimir lhe dissera na noite anterior e tinha de concordar, mas sabia que no conseguiria deter Zoya. Talvez o capito fosse 
mais sensato do que a neta, mas, dado ele ter percorrido todo o caminho desde Chaumont para a ver, achava pouco provvel. E era bvio para todos que ele estava desesperadamente 
apaixonado por Zoya.
       - Tenho dezoito anos, av.
       - E da? - redargiu a velha senhora com um sorriso triste.
       - No sou to pateta como pensa.
       - s o suficiente para te apaixonares por um homem com idade suficiente para ser teu pai. Um homem que est num pas estranho, com um exrcito em guerra, 
um homem que um dia regressar a casa, deixando-te aqui. Tens de pensar em tudo isso antes de fazeres uma parvoce.
       - No vou fazer nenhuma parvoce.
       - Pensa bem. - Contudo, ela estava apaixonada, o que era bastante para j se sentir desgostosa com a sua partida. E ele partiria quando a guerra acabasse, 
se no mais cedo. - No casar contigo. Tens de o saber.
       - De qualquer maneira, no quero casar com ele. - s que era uma mentira e ambas o sabiam.
       Quando Clayton chegou ao apartamento pouco depois do pequeno-almoo, detectou a reserva no olhar da velha senhora. Desta vez, trazia-lhe flores, trs ovos 
frescos e outro po.
       - Vou engordar com estas suas visitas, capito - retorquiu com um sorriso gracioso. Ele era um homem encantador, mas continuava a temer por Zoya.
       - No h esse risco, madame. Gostaria de nos acompanhar num passeio s Tulherias?
       - Gostaria. - Sorriu e quase tambm ela se sentiu jovem. Parecia trazer a luz do Sol e felicidade a todo o lado com os seus presentes e modos graciosos, to 
semelhantes aos do seu filho, com os olhos afetuosos e o riso pronto. - Receio, porm, que os meus joelhos no concordem. Neste Inverno, tenho aparentemente um "pouco" 
de reumatismo. - O "pouco" a que se referia teria incapacitado uma mulher menos corajosa. S Zoya suspeitava do quanto devia sofrer.
       - Permite-me, ento, que leve a Zoya a dar um passeio? - Era um perfeito cavalheiro e ela gostava imenso dele.
       -  muito generoso em pedir-me. No acho que conseguisse impedir Zoya. - Ambos riram e a jovem foi buscar as suas coisas.
       Do rosto emanava um brilho de felicidade que fazia esquecer as roupas usadas. Pela primeira vez desde h meses, desejou poder usar algo bonito. Tinha tantos 
vestidos encantadores em Sampetersburgo, todos queimados e desaparecidos agora, mas no esquecidos.
       Zoya despediu-se da av com um beijo e a velha senhora ficou a v-los sair, com uma sensao de felicidade, enquanto Clayton pegava na mo de Zoya. Pareciam 
iluminar a sala com toda aquela alegria. A jovem ia a conversar, entusiasmada, e ouviu-os a descer rapidamente a escada. Ele tinha  espera um dos carros do pessoal 
e que fora cedido pelo exrcito.
       - Onde gostarias de ir? - Sorriu-lhe, atrs do volante. Estou inteiramente ao teu servio. - E tambm ela estava livre. No tinha ensaios nem espetculos 
com que se preocupar. Podia passar todos os minutos com Clayton.
       - Vamos ao Faubourg Saint Honor. Quero ver as lojas. Nunca tenho tempo para fazer coisas desse gnero, alm de que tambm no vale a pena. - Enquanto seguiam 
no carro, contou-lhe quanto ela e Mashka gostavam de roupas e que bonitos eram os vestidos da tia Alix. - A minha me andava sempre muito bem vestida - prosseguiu.
       - Mas nunca foi uma pessoa muito feliz. - Era uma confisso estranha, mas parecia to natural contar-lhe tudo. Queria partilhar com ele todos os pensamentos, 
desejos, todos os sonhos e recordaes para que a conhecesse melhor. - A mam era muito nervosa. A av diz que o pap a estragou com mimos. - Zoya soltou uma gargalhada, 
sentindo-se de novo jovem.
       - Tambm devias ser estragado com mimos. Talvez o sejas um dia, como a tua me.
       A jovem soltou uma risada alegre. Estacionaram o carro e saram.
       - No me parece que ficasse nervosa.
       Clayton riu tambm e pousou-lhe a mo no brao dele, enquanto iniciavam o passeio. As horas pareceram voar como se fossem apenas momentos.
       Almoaram no Caf de Flore e ele achou que a jovem parecia mais feliz do que no Vero anterior. Nessa altura, ainda se encontrava sob o efeito do choque, 
mas agora a dor diminura um pouco. Tinham passado nove meses desde que chegara a Paris. Ainda lhe custava acreditar que um ano antes estivera em Sampetersburgo, 
levando uma vida normal.
       - Tens tido notcias da Marie nos ltimos tempos?
       - Finalmente, tive. Parece gostar de Tobolsk, mas tem to bom feitio que  normal. Diz que vive numa casa pequena, que ela e as irms partilham um s quarto 
e o tio Nicolau passa o tempo a ler-lhes histrias. Diz tambm que, mesmo na Sibria, continuam com aulas. Acham que dentro em breve podero sair da Rssia. O tio 
Nicolau afirma que os revolucionrios no lhes faro mal, que s querem mant-los l de momento. Contudo, parece uma atitude to cruel e estpida. - Zoya continuava 
furiosa com os Ingleses por no lhes terem dado asilo no anterior ms de Maro. Se o tivessem feito, j poderiam estar todos juntos agora em Londres, ou Paris.
       - Tenho a certeza que a av teria ido para Londres, se os soubesse l.
       - Nesse caso, no te teria conhecido, pois no? E seria horrvel. Talvez seja bom que tivesses vindo para Paris, enquanto esperas que deixem a Rssia. - No 
queria alarm-la, mas no sentia a confiana de alguns relativamente a que o czar e a famlia estariam a salvo na Rssia. Era, contudo, apenas uma impresso sua 
e no queria preocup-la.
       Acabaram de almoar e desceram o Boulevard St. Germain sob o sol de Inverno. O almoo no Cafle de Flore tinha sido agradvel e ela sentia-se com todo o tempo 
do mundo nas suas mos, liberta de espetculos e de ensaios.
       Vaguearam algum tempo sem rumo e o acaso levou-os at  Rue de Varennes, perto da casa onde ele estava alojado.
       - Queres entrar um pouco na casa?
       Zoya conservava recordaes felizes da noite em que se haviam conhecido e esboou um feliz aceno de cabea. Enquanto se aproximavam, ele falou-lhe de Nova 
Iorque, da sua infncia e dos anos em Princeton. Contou que vivia numa casa na Quinta Avenida e ela achou todo o relato muito bonito.
       - Porque  que nunca tiveste filhos quando foste casado? No querias? - Zoya tinha a inocncia da juventude, a coragem de pisar terreno delicado, algo impensvel 
quando se era mais velho. Nunca lhe ocorreu que talvez ele no pudesse t-los.
       - Gostaria de ter tido filhos, mas no era esse o desejo da minha mulher. Ela era uma jovem muito bonita e egosta e interessava-se muito mais pelos seus 
cavalos. Agora, tem uma bela herdade na Virgnia. Andavas muito a cavalo quando estavas na Rssia?
       - Sim - sorriu. - No Vero, em Livadia, e algumas vezes em Tsarskoie Selo. O meu irmo ensinou-me a montar aos quatro anos. Era muito mau e, sempre que eu 
caa, chamava-me estpida. - Mas, pela forma como ela falava, Clayton percebeu quanto gostara dele.
       Nessa altura tinham chegado  casa dos Mill e Clayton serviu-se da chave para entrarem. No havia mais ningum l nessa altura. Todo o pessoal do general 
estava em Chaumont.
       - Apetece-te uma xcara de ch? - perguntou, e os passos de ambos ecoavam no cho de mrmore.
       - Sim. - Estava frio l fora e esquecera-se das luvas no apartamento. E, de sbito, sem qualquer motivo, lembrou-se do gorro de marta que deixara na Rssia. 
Tinham posto pesados xales sobre as cabeas na altura da fuga. A av achara com razo que chapus de pele chamariam demasiado as atenes.
       Seguiu-o at  cozinha, e um momento depois a chaleira estava a fumegar. Ele serviu duas xcaras de ch e sentaram-se a falar at que o Sol se ps devagar 
no jardim. Zoya sentia-se como se pudesse ficar ali sentada a conversar horas a fio, mas repentinamente as vozes emudeceram e apercebeu-se de que Clayton a olhava 
de uma forma estranha.
       - Devia levar-te a casa. A tua av ficar preocupada. Passava das quatro horas e haviam estado ausentes o dia inteiro, mas Zoya avisara a av de que talvez 
no fosse jantar a casa. Com os meros quatro dias da licena dele para partilharem, queriam estar o mximo de tempo juntos.
       - Disse-lhe que talvez regressssemos mais tarde. - E depois teve uma idia. - Queres que faa o jantar aqui? - Parecia agradvel no terem de sair e poderem 
ficar a conversar durante mais algumas horas, como haviam feito todo o dia. - H comida?
       - No sei - respondeu Clayton com um sorriso. Ela parecia-lhe to jovem e bonita ali sentada. - Devia levar-te a algum lado. Talvez ao Maxim's. No gostarias?
       -  pouco importante - redargiu com franqueza. Apenas desejava estar com ele.
       - Oh, Zoya... - Deu a volta  mesa da cozinha e abraou-a com fora. Queria lev-la para fora da casa, antes que acontecesse algo que ela viria a lamentar. 
Sentia uma atrao quase dolorosa pela jovem. - No me parece que seja sensato ficarmos aqui - disse num tom calmo, com muito maior sensatez que ela.
       - O general ficar zangado por eu estar aqui? - Aquela inocncia emocionou-o e baixou o rosto na sua direo, soltando uma gargalhada.
       - No, amor, o general no ficar zangado. Mas no tenho a certeza de conseguir controlar-me por muito mais tempo. Acho-te demasiado bonita para estar contigo 
a ss. Nem sabes a sorte que tens por no ter saltado por cima da mesa para te agarrar. - Ela riu ante a imagem dada e encostou a cabea, feliz, ao corpo dele.
       -  isso o que tem estado a planear fazer, capito?
       - No, mas gostaria. - Ambos estavam perfeitamente descontrados quando ele lhe acariciou a longa cabeleira ruiva. Gostaria de fazer muitas coisas contigo... 
ir at ao Sul de Frana depois da guerra... e a Itlia... Alguma vez estiveste l? - Zoya abanou a cabea e fechou os olhos. Era simplesmente um sonho estar ali 
com ele. - Acho que devamos ir embora - repetiu Clayton num sussurro e a sala pareceu muito silenciosa. - Vou mudar-me. No demoro um minuto. - Mas pareceu demorar 
uma eternidade e ela percorreu tranqilamente as salas elegantes do andar principal e depois, movida por um sbito impulso malicioso, resolveu subir a escada de 
mrmore a ver se conseguia encontr-lo.
       Havia vrias outras salas de estar no segundo andar, uma elegante biblioteca cheia de livros em francs e ingls, algumas portas fechadas e, depois, ouviu-o 
 distncia. Cantava enquanto se mudava e ela sorriu, incapaz de se manter longe dele, ainda que por uns minutos.
       - Ei... - chamou, mas ele no a ouviu. A gua corria na casa de banho e, quando voltou ao quarto, ela esperava-o, como um fauno muito quieto, na floresta. 
Clayton tinha apenas as calas vestidas e estava de tronco nu. Decidira barbear-se de novo rapidamente antes de a levar a jantar fora. Tinha uma toalha nas mos 
e o rosto ainda escorria gua quando a fitou com um olhar surpreendido.
       - O que fazes aqui? - Parecia quase receoso de si prprio, mas no da encantadora Zoya.
       - Estava solitria l em baixo, sem ti. - Avanou devagar at junto dele, sentindo uma fora magntica como nunca at ento.
       Era como se fosse irresistivelmente atrada para ele, independentemente da sua vontade. Clayton deixou cair a toalha e abraou-a de encontro ao corpo, beijando-lhe 
o rosto, os olhos e os lbios, saboreando a pele macia at ficar estonteado.
       - Vai l para baixo, Zoya - pronunciou num tom rouco, desejando afast-la, mas sem conseguir. - Por favor... - Ela fitou-o to triste, quase magoada, mas 
sem medo.
       - No quero...
       - Zoya, por favor... - Contudo, beijou-a uma e outra vez, sentindo o corao dela a bater aceleradamente de encontro ao seu peito.
       - Clayton, amo-te...
       - Tambm te amo. - E, por fim, afastou-se dela com um enorme esforo. - No devias ter subido aqui, pateta. - Tentou aligeirar o momento, afastou-se e virou-se 
para tirar uma camisa do armrio. Todavia, ao voltar-se, ela continuava no mesmo stio, e deixou cair a camisa, avanando na sua direo. - No consigo agentar 
muito mais, pequenina, - Ela estava a enlouquec-lo com a sua juventude e sensualidade. - Zoya, jamais me perdoaria, se...
       - Se... o qu? - A rapariga desaparecera e dera lugar a uma mulher que se conservava na sua frente. - Se me amasses? Que importncia tem, Clayton? J no 
h futuro... apenas o presente. O amanh no existe. - Era a dura lio que aprendera no ano anterior. E sabia quanto o amava. - Amo-te. - Zoya era to garota e 
em simultneo orgulhosa e forte que lhe despedaava o corao detectar nos olhos a ausncia de medo e apenas o amor.
       - Ignoras o que ests a fazer. - Voltara a abra-la e embalava-a como se ela fosse uma criana. - No quero magoar-te.
       - No conseguirias... Amo-te demasiado... Nunca me magoars.
       Clayton deixou de conseguir encontrar palavras para a mandar embora. Desejava-a demasiado, ansiara demasiado por ela. Premiu os lbios sobre os dela e, sem 
pensar, despiu-a, levou-a meigamente at  cama, acariciou-a e beijou-a. Ela correspondia num choro suave. As suas prprias roupas pareceram voar do corpo e perderam-se 
na enorme cama com o dossel a cobri-los como uma bno. Reinou a escurido, enquanto fizeram amor, mas com a luz que chegava da casa de banho via-lhe o rosto ao 
fazer amor, beijando-a, abraando-a e amando-a como nunca amara nenhuma mulher at ento.
       Pareciam ter decorrido horas antes de ficarem silenciosos, lado a lado, e ela suspirou, feliz, aninhando-se como uma cria em busca da me. Os olhos de Clayton 
estavam srios e pensava no que tinham feito, rezando para que ela no ficasse grvida. Rolou para um dos lados e apoiou-se num dos cotovelos, detendo-se a observ-la.
       - No sei se hei-de ficar furioso comigo ou deixar-me arrastar pela felicidade que sinto neste momento. Zoya... querida, ests feliz? - Sentia-se aterrorizado, 
mas ela esboou um sorriso de mulher e estendeu-lhe os braos, ao mesmo tempo que o desejo o invadia uma vez mais. Mantiveram-se deitados, conversaram e fizeram 
amor at quase  meia-noite, hora a que ele olhou para o relgio da cama, horrorizado.
       - Oh, meu Deus, Zoya! A tua av vai matar-me! - A jovem riu quando ele saltou para fora da cama e a arrastou. - Veste-te... E nem sequer te dei de comer!
       - Nem notei - retorquiu com uma gargalhada, qual rapariguinha, e ele virou-se e abraou-a novamente.
       - Amo-te, minha louca. Sabias? Sou velho e adoro-te.
       - Ainda bem, porque tambm te amo e no s velho, s meu! Afastou o cabelo grisalho com um gesto meigo e aproximou-lhe o rosto do dela. - Lembra-te do quanto 
te amo, acontea o que acontecer a qualquer um de ns. - Era uma lio que aprendera cedo na vida, esse desconhecimento do amanh. O pensamento emocionou-o profundamente 
e abraou-a com fora.
       - No vai acontecer nada, pequenina. Agora, ests a salvo.
       Ps-lhe a correr um banho na enorme banheira, e aquele luxo era demasiado para ela. Durante uns minutos foi como se estivesse de volta ao Palcio Fontanka; 
porm quando ps novamente o feio vestido de l cinzento e enfiou os sapatos pretos usados, soube que no era assim. Usava meias de l pretas para aquecer as pernas 
e, ao ver-se no espelho, teve a sensao de contemplar uma rf.
       - Deus do cu. Estou um horror, Clayton. Como podes amar-me?
       - s bonita, pateta. Cada centmetro, o teu cabelo ruivo... tudo em ti - sussurrou, muito prximo, e assemelhava-se a respirar flores de Vero. - Adoro-te.
       Era-lhes difcil separarem-se, mas ele sabia que tinha de a levar a casa, ao apartamento no Palais Royal. No havia forma dela poder passar a noite fora e, 
depois de a acompanhar pelas escadas at ao quarto andar, beijou-a uma ltima vez nos corredores sujos e miserveis, e ela abriu a porta com a sua chave. Depararam 
com Eugenia adormecida numa cadeira, esperando-os. Os olhos cruzaram-se por um momento e depois Zoya inclinou-se e beijou-lhe meigamente a face.
       - Av?... Desculpe ter-me atrasado, no devia ficar  espera...
       A velha senhora mexeu-se e sorriu-lhes, pois at mesmo naquele estado de torpor apercebia-se de como estavam felizes. Era como um sopro de Primavera naquela 
sala miservel, e soube que no conseguiria irritar-se.
       - Quis ter a certeza de que estavam bem. Divertiram-se? Fitou-os e perscrutou os olhos de Clayton, lendo somente a bondade e o amor que ele devotava a Zoya.
       - Imenso - respondeu a neta, sem qualquer culpabilidade. Agora, pertencia-lhe e nada poderia mudar a situao. - Jantou?
       - Comi um pouco do frango de ontem e um dos ovos que o capito trouxe. Obrigada - agradeceu, virando-se para ele e tentando pr-se em p. - Foi uma maravilha, 
capito.
       Clayton sentiu-se embaraado por no lhe ter trazido mais coisas, mas estivera muito apressado naquela manh. E voltou a tomar conscincia de que no dera 
nada de comer a Zoya, interrogando-se sobre se ela estaria to esfaimada quanto ele.
       Tinham estado distrados durante longas e felizes horas, mas agora sentia-se a morrer de fome. A jovem leu-lhe o pensamento, fitou-o com um sorriso mal dissimulado 
e estendeu-lhe o saco com os bolinhos de chocolate. Ele engoliu um com uma expresso culpada e meteu-lhe outro na boca, aps o que ajudaram Eugenia a ir at ao quarto.
       Zoya regressou um momento depois e beijaram-se novamente. Clayton detestava a idia de ter de sair e voltar a casa, mas sabia que tal se impunha.
       - Amo-te - sussurrou, feliz, antes de ele se ir embora.
       - Apenas metade do que te amo - retorquiu ele num, sussurro.
       - Como podes dizer isso?
       - Sou mais velho e mais sabido - troou e depois fechou a porta devagar; Zoya manteve-se de p, de novo jovem, feliz e liberta. Em seguida, apagou tranqilamente 
as luzes do apartamento.
       
CAPTULO 22
       
       Clayton regressou na manh seguinte, impecavelmente vestido e transportando um enorme cesto de comida. Desta vez, arranjara tempo para ir s compras.
       - Bom dia, minhas senhoras! - Eugenia reparou, com um olhar preocupado, que ele parecia excepcionalmente bem-humorado, mas nada podia fazer para os deter. 
Clayton trouxera carne e fruta e duas qualidades de queijo, bolinhos e mais chocolate para Zoya.
       Beijou-a de leve na face e insistiu para que a condessa os acompanhasse num passeio de carro. Seguiram, satisfeitos, pelo Bosque de Bolonha, conversando e 
rindo, e a prpria Eugenia voltou a sentir-se mais jovem s de estar com eles.
       Desta vez foram almoar  Closerie des Lilas e depois levaram-na a casa. Ela estava to cansada que quase no conseguia subir as escadas, e Clayton transportou-a 
praticamente ao colo, recebendo em troca um sorriso de agradecimento. Divertira-se imenso e esquecera durante algum tempo a pobreza, a guerra e as preocupaes.
       Sentaram-se a beber ch na sala e depois Zoya saiu novamente com Clayton. Voltaram  casa na Rue de Varennes e fizeram amor apaixonadamente horas a fio. Contudo, 
desta vez, ele insistiu em lev-la a jantar fora. Levou-a ao Maxim's e depois com muita pena a casa. Quando chegaram, Eugenia estava a dormir.
       Os dois amantes movimentaram-se silenciosamente na sala, comendo chocolates e sussurrando, beijaram-se  luz da lareira e partilharam sonhos. Zoya desejava 
poder ficar toda a noite com ele, mas era impensvel e, quando ele saiu, sentindo-se novamente um rapazinho, prometeu voltar de manh.
       No dia seguinte, atrasou-se mais do que no dia anterior e, s onze horas, Zoya comeou a ficar preocupada. No tinham telefone, o que lhes impedia qualquer 
contato, mas s onze e meia ele apareceu, lutando com um pacote enorme envolto em papel castanho. Pousou-o em cima da mesa da cozinha com um olhar satisfeito e misterioso 
e disse a Zoya que era uma coisa para a av.
       Nessa altura, a velha condessa juntou-se-lhes e ele recuou, ficando a v-la arrancar o papel para deparar com um samovar de prata muito bonito, gravado com 
o braso da famlia russa que o trouxera para Paris e fora obrigada a vend-lo. Nem sequer conseguia imaginar como o haviam feito chegar ali, mas ao v-lo naquela 
manh numa loja da margem esquerda, soubera desde logo que tinha de o comprar para Eugenia.
       A velha senhora susteve a respirao e deu um passo atrs, admirando-o, sentindo uma momentnea picada de tristeza, pois sabia como adorava os seus tesouros 
e quanto lhe custara vend-los. Ainda chorava as cigarreiras de que tinha sido forada a desfazer-se pouco antes do Natal. Contudo, era incapaz de desviar os olhos 
do samovar e do generoso benfeitor que o trouxera.
       - Capito...  bom de mais para ns... - Os olhos encheram-se-lhe de lgrimas e beijou-o com ternura, aflorando com a face acetinada a carne viril que lhe 
recordava a do prprio filho e a do marido. -  to generoso.
       - S desejaria poder fazer mais. - Trouxera um vestido de seda branca a Zoya e ela arregalou os olhos, deliciada, quando o desembrulhou. Fora desenhado por 
uma costureira que ele encontrara na margem esquerda, uma mulher chamada Gabrielle Chanel. Tinha uma pequena loja e parecera-lhe surpreendentemente dotada. Ela prpria 
lhe mostrara o vestido e parecia jovial e animada, o que era invulgar naqueles dias para os Parisienses, desgostados pela guerra. - Gostas? - Zoya correu para o 
quarto, a fim de o experimentar e apareceu irradiando uma imensa beleza. O vestido era puro e simples e o branco-prola acentuava maravilhosamente o cabelo ruivo. 
S desejava ter uns bonitos sapatos a condizer e o colar de prolas que o pap lhe oferecera e que ardera com Fontanka.
       - Adoro-o, Clayton! - Nesse dia, levou-o para almoar com ele e, mais tarde, ficou estendido no cho do quarto dele.
       O dia seguinte era o ltimo da licena e ele partia s quatro dessa tarde. Ela no conseguia suportar a idia quando fizeram amor pela ltima vez e agarrou-se-lhe 
como uma criana a afogar-se, enquanto ele a beijava. Quando Clayton a levou de volta ao apartamento, a prpria Eugenia parecia triste por v-lo partir. As despedidas 
na vida delas haviam sido demasiado dolorosas.
       - Tenha cuidado, capito... Rezaremos todos os dias por si. Como faziam agora por tantos outros! Agradeceu-lhe a imensa bondade com que as tratara, e ele 
parecia deter-se, sem desejar ir embora, incapaz de deixar Zoya por um momento, quanto mais por meses. No fazia idia de quando poderia voltar a Paris.
       Eugenia deixou-os discretamente a ss. As lgrimas encheram os olhos de Zoya, que o fitava na pequena sala de estar, com o samovar de prata dominando tudo 
o resto. No entanto, a jovem s o via a ele e lanou-se-lhe nos braos que estavam vidos de a receber.
       - Amo-te tanto, pequenina... Por favor, por favor, tem cuidado! - Sabia como a vida era potencialmente perigosa para ela em Paris. Ainda havia a eventualidade 
de que Paris pudesse ser atacada e ele rezava pela segurana da amada, sem a largar. Voltarei assim que puder.
       - Jura-me que ters cuidado. jura! - ordenou-lhe ela por entre lgrimas, pois no conseguia suportar a idia de perder mais algum que amava, e muito menos 
algum que lhe era to querido.
       - Promete-me que no lamentars o que fizemos. - Continuava preocupado e tinha um receio enorme de que ela pudesse ter engravidado na primeira vez em que 
haviam feito amor. Depois disso tivera cuidado, mas no da primeira vez. Ela apanhara-o de surpresa e o desejo que sentira havia sido superior ao resto.
       - Nunca lamentarei nada. Amo-te demasiado.
       Seguiu-o pelas escadas at ao carro e ficou a acenar at ele desaparecer, com as lgrimas a correrem-lhe pelas faces, enquanto ele se afastava, talvez para 
sempre.
       
CAPTULO 23
       
       Contrariamente ao que ele prometera, no voltou a ter notcias. As estratgias e manobras eram agora top secret e eles encontravam-se desligados de todos, 
no Marne, a tentar proteger Paris.
       Em Maro, desencadeou-se a ltima grande ofensiva alem e eles ficaram  espera do melhor momento para atacar, mesmo s portas da cidade. Havia bombardeamentos 
nas ruas e Eugenia tinha medo de sair.
       A esttua de So Lucas foi decapitada por bombas na Madeleine. E por todo o lado havia pessoas com fome, frio e medo.
       Diaghilev deu uma oportunidade a Zoya de se escapar. A 3 de Maro partia para mais uma tourne em Espanha com o ballet, mas a jovem insistiu que no poderia 
deixar Eugenia sozinha, em Paris.
       Ficou, assim, em Paris, mas a maioria dos espetculos foi suspensa. Agora era perigoso andar pelas ruas. E s por milagre conseguiu sobreviver  destruio 
da Igreja de St.Gervais-St.Protais junto ao Htel de Ville na Sexta-Feira Santa. Optara por se deslocar at l em vez de ir a Santo Alexandre Nevski e saiu momentos 
antes de as bombas atingirem os telhados e as paredes rurem, matando setenta e cinco pessoas e ferindo perto de cem.
       Os comboios para Lio e para o Sul iam cheios de gente em pnico que fugia de Paris. Mas, quando Zoya sugeriu  av que partissem, a velha senhora mostrou-se 
furiosa.
       - E quantas vezes achas que o farei? No! No, Zoya! Deixa-os matarem-me aqui! Deixa que se atrevam! Fugi da Rssia e no voltarei a fugir! - Era a primeira 
vez que Zoya a via chorar naquela raiva desesperada. Passara exatamente um ano desde que tinham deixado tudo para trs e fugido da Rssia. E, desta vez, no havia 
Feodor, no lhes restava nada para vender, nem stio para onde irem. Era absolutamente intil.
       O prprio Governo francs estava a preparar-se para fugir, se necessrio. Tinham feito planos para se mudarem para Bordus, mas Foch jurara defender Paris 
at ao fim, nas ruas e em cima dos telhados. Todos os espetculos e ensaios de Zoya foram cancelados em Maio. E, nessa altura, os Aliados conheciam o sabor da derrota 
no Mame. Com Pershing ali, Zoya s conseguia pensar em Clayton.
       Sentia-se horrorizada com a eventualidade de ele ser morto e no tivera notcias desde que o capito deixara Paris.
       As nicas notcias que recebera chegaram numa carta de Marie que o Dr. Botkin conseguira enviar-lhe e ficou surpreendida por saber que se tinham mudado para 
Iekaterimburgo, nos Urales, no ms anterior. E as palavras de Marie davam-lhe a entender que tudo piorara. J no podiam trancar as portas dos quartos e os soldados 
seguiam-nas mesmo quando iam  casa de banho. Zoya estremeceu ao ler tudo aquilo, cheia de saudades da amiga de infncia e temendo sobretudo por Tatiana que era 
to cerimoniosa e tmida. A idia das circunstncias em que eles viviam era-lhe quase insuportvel.
       "... Nada nos resta, seno agentar. A mam obriga-nos a cantar hinos, sempre que os soldados comeam com as suas horrveis canes, l em baixo. Tratam-nos 
com muita dureza, agora. O pap diz que no devemos fazer nada que os irrite. Deixam-nos sair um pouco at l fora,  tarde, e passamos o resto do tempo a ler ou 
a coser ... "
       Os olhos de Zoya encheram-se de lgrimas ante as palavras seguintes:
       "... e sabes bem como odeio coser, querida Zoya. Tenho escrito poesia para passar o tempo. Mostro-te tudo quando voltarmos a estar finalmente juntas. Parece 
difcil imaginar que ambas temos dezenove anos. Costumava achar que dezenove era tanta idade, mas agora parece-me cedo de mais para morrer. S a ti posso dizer estas 
coisas, minha adorada prima e amiga. Rezo para que estejas feliz em Paris. Agora tenho de sair para o nosso exerccio. Todos te mandamos saudades que peo tornes 
extensivas  tia Eugenia." Desta vez no assinara com OTMA, o cdigo habitual, mas simplesmente "a tua querida Mashka".
       Zoya ficou muito tempo sentada no quarto, lendo repetidamente as palavras, encostando a carta  face como se o contato com o papel lhe trouxesse de volta 
o contato da amiga. Sentiu repentinamente um medo horrvel por eles. Tudo parecia piorar em todo o lado, mas, pelo menos, o corpo de bailado em que ela danava recomeou 
a trabalhar em Junho. Ela e Eugenia ansiavam desesperadamente por aquele dinheiro e nem sequer haviam conseguido encontrar outro hspede.
       As pessoas deixavam Paris para no mais voltarem. Ata mesmo alguns dos emigrados russos tinham ido para sul, mas Eugenia continuava a recusar partir. Fora 
at onde as foras lho permitiam.
       A meio de Julho fazia calor, mas ainda reinava a fome na cidade. Zoya ficou horrorizada ao ouvir de Vladimir que ele e Yelena tinham andado a caar pombos 
no parque para os comer.
       Garantiu que eram surpreendentemente gostosos e ofereceu-se para lhe levar um, mas Zoya recusou, enojada com a idia.
       Dois dias depois, quando comeava a desesperar que a guerra viesse a acabar, Clayton reapareceu como uma viso num sonho. Zoya quase desmaiou ao v-lo. Foi 
na vspera do Dia da Bastilha e observaram juntos as paradas desde o Arco do Triunfo  Praa da Concrdia. Os uniformes eram extremamente bonitos sob o sol luminoso, 
com os Chasseurs Alpins de bons e fardas pretas, os Life Guards ingleses, o Bersaglieri italianos de chapu em bico e mesmo uma brigada de cossacos antibolcheviques 
com gorros de pele; porm nesse dia, ela s tinha olhos para Clayton.
       Quando regressaram  casa na Rue de Varennes, to profundamente apaixonados como sempre, bateram com toda a fora  porta,  meia-noite. A polcia militar 
andava a convocar toda a gente, as licenas haviam sido canceladas e a ofensiva alem comeara em fora. O Exrcito alemo encontrava-se apenas a oitenta quilmetros 
e os Aliados tinham de os deter.
       - Mas no podes ir agora... - exclamou Zoya com os olhos cheios de lgrimas, apesar das suas tentativas de se mostrar corajosa. - Acabaste de chegar! - Clayton 
chegara apenas nessa manh e, depois de seis meses sem ele, era-lhe insuportvel v-lo partir.
       Contudo, no havia alternativa. O capito tinha meia hora para se apresentar no quartel-general da polcia militar na Rue St. Anne. Mal teve tempo de a levar 
a casa antes de o escoltarem de volta at junto do general Pershing. Aos olhos de Zoya parecia uma terrvel crueldade disporem de to pouco tempo juntos antes de 
ele regressar  frente e arriscar de novo a vida. E, qual criana abandonada, ficou sentada na sala de estar, e chorou pela noite fora, at que a av lhe trouxe 
uma xcara de ch para a consolar.
       No entanto, as lgrimas que verteu por Clayton nada foram comparativamente s que derramou uns dias mais tarde. A 20 de Julho, Vladimir apareceu no apartamento 
com uma expresso solene e um exemplar do Izvestia, o jornal russo. Quando abriu a porta, Zoya pressentiu imediatamente que algo terrvel acontecera ao conduzi-lo 
at ao interior, indo em seguida buscar a av ao quarto.
       Vladimir comeou a chorar quando lhe estendeu o jornal. Parecia uma criana de corao partido, o cabelo branco era quase da mesma cor do rosto e repetia 
incessantemente:
       - Mataram-no... Oh, meu Deus... mataram-no...
       Viera logo ter com elas, tinham o direito de saber, pois todas eram afinal primas Romanov.
       - O que quer dizer? - inquiriu Eugenia, fitando-o horrorizada e soerguendo-se na cadeira, quando ele lhe mostrou a notcia no jornal. Informava que o czar 
Nicolau fora executado a 16 de Julho. E tambm que a famlia tinha sido mudada em segurana. Mudada para onde?
       Zoya sentiu desejo de gritar: onde est a minha querida Mashka?... Onde esto eles?... Como se percebesse o que estava a passar-se, Sava comeou a ganir baixinho 
enquanto os trs russos se sentavam e choravam pelo homem que tinha sido o seu pai, o seu czar... e era o muito amado primo das duas mulheres. Os sons da tristeza 
pairaram na sala durante muito tempo.
       Por fim, Vladimir levantou-se e dirigiu-se at  janela, de cabea baixa e um peso indizvel no corao. Por todo o mundo, os russos que o haviam amado estariam 
a chorar, at mesmo os camponeses em nome de quem a temida revoluo fora engendrada.
       - Que dia terrvel! - exclamou num sussurro. - Que a sua alma descanse em paz - desejou, voltando-se para as mulheres.
       Eugenia parecia ter cem anos e Zoya denotava uma palidez mortal. A nica cor do seu rosto residia nos fogosos olhos verdes, congestionados de lgrimas que 
continuavam a cair-lhe silenciosamente pelas faces. Apenas conseguia pensar naquela manh em Tsarskoie Selo, quando ele se despedira com um beijo e lhe dissera que 
se portasse bem... "Amo-o tio Nicolau..." Ressoavam ainda as suas prprias palavras no crebro... e depois ele dissera que tambm a amava. E agora estava morto. 
Desaparecido para sempre. E os outros?
       Voltou a ler as palavras do Izvestia... "A famlia foi mudada em segurana. "
       
CAPTULO 24
       
       Julho pareceu arrastar-se como um pesadelo. O fato de Nicolau ter sido morto parecia pesar-lhes aos ombros como um fardo insuportvel. A tristeza marcava 
uma posio. Os russos choravam-no por toda a cidade de Paris, enquanto a guerra se desenrolava  sua volta.
       Zoya foi convidada para a festa de casamento de uma das bailarinas que conhecia. Chamava-se Olga Khoklova e desposara Pablo Picasso h umas semanas em Santo 
Alexandre Nevski, mas Zoya no tinha desejo de ir onde quer que fosse. Usava as poucas roupas pretas que tinha em sinal de luto pelo primo.
       Em Agosto, Diaghilev voltou a mandar-lhe um telegrama, desta vez com uma oferta de que se juntasse ao corpo de ballet para uma tourne em Londres, mas no 
podia deixar a av nem lhe apetecia ver ningum. Mal conseguia ir trabalhar e apenas o fazia diariamente para terem comida na mesa.
       Em Setembro, os Aliados avanaram de novo e, decorridas umas semanas, os Alemes tentavam negociar a paz com eles. Zoya continuava, porm, sem receber notcias 
de Clayton. A jovem mal se atrevia a pensar nele. Se algo lhe acontecesse, sabia que no conseguiria continuar a viver. Era demasiado a suportar, demasiado para 
pensar, impossvel de entender.
       O tio Nicolau estava morto. As palavras martelavam-lhe incessantemente na cabea. Escrevera trs cartas a Marie desde que soubera as notcias, mas ainda no 
obtivera resposta. J no sabia do paradeiro do Dr. Botkin e, se a famlia mudara, como se dizia no jornal, era impossvel saber quanto tempo as cartas demorariam 
a chegar at ela.
       Depois de um infindvel ms de Outubro de silncio dos que amava, chegou Novembro e com ele a paz.
       Estavam sentadas na sala quando ouviram a notcia, e escutaram os gritos nas ruas, o jbilo, os sinos da igreja, os canhes. Tinha finalmente acabado. Todo 
o mundo estremecera mas agora acabara finalmente. A grande guerra chegara ao fim.
       Serviu calmamente uma xcara de ch  av e ficou  janela, observando os festejos na rua, sem uma palavra. Tropas dos Aliados por toda a parte, americanas, 
inglesas, francesas, mas ela nem sequer sabia se Clayton estava vivo, mal se atrevendo a acalentar esperanas. Virou-se e fitou Eugenia, to velha agora, to frgil, 
atormentada pela mesma tosse do Inverno anterior e com os joelhos to fracos que lhe era impossvel sair do apartamento.
       - Agora tudo vai melhorar, pequena Zoya - disse num tom suave, entrecortado pela tosse. Sabia o que se passava na mente da neta. Desde que Clayton deixara 
Paris,  meia-noite do Dia da Bastilha, que no tinha notcias dele. - Ele voltar para ti, pequenina. Confia um pouco. Precisas de ter f. - Sorriu-lhe ternamente, 
mas a alegria desaparecera dos olhe de Zoya. Perdera em demasia. E preocupava-se em demasia.
       - Como pode dizer isso? Com tanta gente desaparecida... Como pode acreditar que algum voltar?
       - O mundo continua. Pessoas nascem e morrem e outras nascem depois delas. s a nossa tristeza  to dolorosa. O Nicolau j no sofre. Est em paz.
       - E os outros? - Escrevera cinco cartas a Marie, sem haver obtido resposta a qualquer delas.
       - Apenas podemos rezar pela sua segurana. - Zoya esboou um aceno de cabea. J ouvira tudo aquilo antes. Sentia-se irritada com o destino que lhes tirara 
tanta coisa.
       Nos primeiros dias depois do armistcio era impossvel andar pelas ruas e s saa para ir buscar comida. Mais uma vez as reservas eram quase nulas. No havia 
espetculos e tinham de sobreviver com a escassa quantia que poupara. Tudo lhe parecia subitamente to cansativo!
       - Posso ajud-la a levar isso, mademoiselle? - Sentiu que algum lhe puxava a baguette de baixo do brao e virou-se com palavras iradas na ponta da lngua, 
disposta a matar pelo po, ou a defender-se de um soldado atrevido. "Nem todas em Paris querem ser beijadas por um jovem arrebatado de uniforme", pensou ao dar meia 
volta, de punhos cerrados, e soltou uma exclamao abafada, deixando cair a preciosa baguette quando ele a atraiu de encontro ao corpo.
       - Oh... oh... - Lgrimas jorraram-lhe imediatamente dos seus olhos ao refugiar-se, aliviada, nos seus braos. Ele estava vivo... Oh, cus... ele estava vivo... 
Era como se fossem os dois nicos sobreviventes ao cimo da terra... os nicos sobreviventes de um mundo perdido, ao entregar-se, apaixonada, a Clayton.
       - Assim  melhor! - Fitou-a bem do alto, com o uniforme sujo e amachucado, o rosto spero da barba que no fazia h dias.
       Acabara de chegar a Paris e fora logo procur-la. J falara com Eugenia, ela dissera-lhe que Zoya sara para comprar comida e ele descera precipitadamente 
as escadas para a encontrar na rua.
       - Ests bem? - perguntou Zoya rindo e chorando ao mesmo tempo, e ele beijava-a sem cessar, to aliviado quanto ela por ambos terem conseguido sobreviver.
       Face a tudo, parecia um milagre, e ele nem sequer lhe disse como conhecera a morte de perto tantas vezes, no Marne. No interessava agora. Ele estava vivo, 
ela estava a salvo, e agradeceu silenciosamente aos anjos-da-guarda, enquanto se dirigiam de volta ao apartamento pelo meio da multido.
       Desta vez, Clayton estava alojado num pequeno hotel da margem esquerda, juntamente com dzias de oficiais. Pershing regressara  casa dos Mill e tornava-se 
difcil estarem a ss, mas roubavam os momentos de privacidade que podiam e uma vez atreveram-se at a fazer amor silenciosamente no quarto de Antoine, muito depois 
de Eugenia ter ido dormir. Ela estava muito cansada e passava a maior parte do tempo a dormir. H meses que Zoya andava preocupada com a sade da av, mas at mesmo 
esses receios pareceram apagar -se  luz do seu encontro com Clayton.
       Uma noite, a altas horas, falaram de Nicolau, e ele confessou-lhe que sempre havia temido que tal acontecesse. E Zoya deu-lhe conta do seu receio quanto aos 
outros.
       - O jornal russo dizia que se tinham mudado em segurana... Mas para onde? Escrevi cinco vezes  Mashka e no recebi resposta.
       -  possvel que o Botkin j no consiga fazer sair as cartas. Pode no querer dizer nada, mida. Tens de ter f replicou num tom calmo, ocultando-lhe os 
seus prprios temores.
       - Pareces a av a falar - sussurrou-lhe no quarto s escuras, onde se mantinham aninhados.
       - Algumas vezes, sinto-me velho. - Reparara como a velha senhora parecia frgil desde Julho. No estava bem e pressentia que Zoya tambm o sabia. Eugenia 
tinha agora quase oitenta e quatro anos e os ltimos dois anos haviam sido duros para todos. Era espantoso que tivesse sobrevivido. Contudo, ambos esqueceram essas 
preocupaes quando os corpos se fundiram e fizeram amor at ele descer as escadas nos bicos dos ps, antes do amanhecer.
       Nas semanas seguintes, passaram o mximo de tempo juntos, mas a 10 de Dezembro, praticamente um ms depois do fim da guerra, ele era a imagem da tristeza 
quando lhe apareceu. Iam mand-lo de volta aos Estados Unidos no fim da semana; porm, mais importante do que isso, tomara uma deciso dolorosa a respeito dela.
       Zoya ouviu-o dizer que se ia embora, como se vivesse um sonho. Parecia-lhe impossvel acreditar. O momento que nunca enfrentara, o dia que julgara nunca acontecer... 
tudo desabava finalmente sobre os dois.
       - Quando? - perguntou com um peso no corao.
       - Dentro de dois dias. - No despregou os olhos dos dela, pois havia mais a dizer. E interrogava-se sobre se teria coragem de o fazer.
       - No nos do muito tempo para despedidas, pois no? retorquiu Zoya, tristemente. Estavam sentados na sua pequena e miservel sala, e o dia apresentava-se 
cinzento. Eugenia dormia tranqilamente no quarto, como agora era seu hbito. Zoya regressara ao trabalho, mas a av parecia no ter dado por isso. Voltars a Paris? 
- perguntou Zoya, como se ele fosse um estranho, sentindo-se distanciada e preparando-se para o que se seguiria. J houvera tantas despedidas na sua vida e no tinha 
a certeza de conseguir sobreviver quela.
       - No sei.
       - Ests a esconder-me alguma coisa. - Talvez fosse casado e tivesse dez filhos em Nova Iorque. Tudo era possvel agora. A vida j a atraioara demasiado... 
No que tivesse sido o caso de Clayton. Contudo, agora at contra ele estava irritada.
       - Zoya... Sei que para ti no far sentido, mas tenho pensado muito... a nosso respeito. - A jovem esperou, cega pela dor. Era surpreendente como, no momento 
em que se pensava que j no podia haver mais dor, ela parecia no ter fim. - Quero libertar-te, que leves a tua prpria vida aqui. Pensei em levar-te para Nova 
Iorque... Queria muito. Contudo, no me parece que a condessa agentasse a viagem e... Zoya... Parecia sufocado com as palavras em que andava a pensar h dias. - 
Zoya... - sou velho de mais para ti. J te disse antes. No  justo, Quando tiveres trinta, terei quase sessenta.
       - Que diferena faz? - Nunca partilhara o medo dele quanto  diferena de idades e fitava-o, irritada, magoada pelo seu afastamento, sobretudo agora. - O 
que ests a dizer  que no me amas.
       - Estou a dizer que te amo demasiado para te impor o fardo de um velho. Tenho quarenta e seis anos e tu dezenove. No  justo. Mereces algum jovem e fogoso 
e, depois de tudo acalmar aqui, encontrars outra pessoa a quem amares. Nunca tiveste essa oportunidade. Eras uma criana quando saste da Rssia h dois anos. L 
foste sempre protegida e chegaste aqui, durante a guerra, com pouco mais do que a roupa que trazias no corpo. Um dia, a vida voltar ao normal e conhecers algum 
mais prximo da tua idade. Parecia subitamente firme... quase como Konstantin. - Seria um erro levar-te para Nova Iorque. Seria egosta da minha parte. Estou a pensar 
em ti e no em mim. - Todavia, ela no entendia nada disso, quando o fitou, raivosa, e as lgrimas lhe saltaram dos olhos.
       - Foi tudo um jogo para ti, no foi? - Estava a ser cruel, mas era o que desejava. Queria mago-lo tanto quanto ele a magoara. - No passou disso. Um romance 
de guerra. Uma pequena bailarina para te divertires enquanto estiveste em Paris.
       Apetecia-lhe esbofete-la, mas conteve-se.
       - Ouve-me. No foi nada disso. No sejas idiota, Zoya. Tenho mais do dobro da tua idade. Mereces melhor do que isso.
       - Ah... percebo - redargiu com um brilho de fria nos olhos verdes. - Como a vida feliz que levo aqui. Esperei metade desta guerra por ti, mal respirando 
com medo que fosses morto e agora apanhas um barco e regressas a Nova Iorque. Fcil para ti, no  verdade?
       - No, no . - Virou-se para que ela no lhe visse as lgrimas nos olhos. Talvez fosse melhor assim. Talvez fosse melhor que ela ficasse furiosa com ele. 
No lhe sentiria tanto a falta como seria o seu caso. - Amo-te muito. - Voltou-se e enfrentou-a com uma expresso tranqila enquanto ela se dirigia  porta e a abria 
de par em par.
       - Sai. - Clayton parecia surpreendido. - Para qu esperar mais dois dias? Porque no acabar tudo agora?
       - Gostaria de me despedir da tua av.
       - Est a dormir e duvido que desejasse despedir-se de ti. De qualquer maneira, nunca lhe agradaste. - Apenas queria que ele se fosse embora para poder chorar 
em paz.
       - Zoya, por favor... - Queria tom-la novamente nos braos, mas sabia que no era justo. Era melhor deix-la sentir que fora ela a terminar, deix-la com 
algum orgulho. Era melhor que fosse ele a ficar com o corao despedaado.
       Odiou-se quando desceu as escadas devagar e o som da porta a bater com fora lhe ecoou nos ouvidos. Odiou-se por se envolver com ela. Sempre soubera que ela 
sairia magoada, s no se apercebera de que tambm ele o ficaria.
       Contudo, estava certo que agira da melhor forma. No havia retorno. Era velho de mais para ela e, mesmo que agora a magoasse, ela ficava melhor sem ele e 
poderia encontrar um homem da sua idade, comear uma vida nova.
       Sentiu o corao destroado nos dois dias seguintes e, no dia antes da partida, recebeu um cheque de cinco mil dlares. Meteu-o numa carta dirigida  av 
de Zoya, pedindo-lhe que o guardasse e o informasse se pudesse fazer algo por elas mais tarde. Acrescentou que seria sempre um amigo e ansiaria a neta enquanto vivesse. 
"Fiz isto para bem dela, posso garantir-lhe. E porque tambm suspeito ser essa a sua vontade. Ela  mais nova do que eu. Voltar a apaixonar-se. Tenho a certeza. 
E agora, despeo-me com o corao cheio de tristeza e afeto." 
       Assinara a carta e, na manh em que partiu, mandara-a entregar por um cabo do pessoal do general Pershing.
       Partiu na manh da chegada do Presidente e de Mrs. Wilson.
       Houve um desfile em honra deles nos Campos Elsios  hora em que ele se afastava lentamente pelo Havre, pensando em Zoya.
       
CAPTULO 25
       
       Depois de Clayton a ter deixado, Zoya passou semanas a chorar no antigo quarto de Antoine e julgou que morreria de desgosto. Nada parecia importar-lhe. Pouco 
se lhe dava morrer de fome. Fazia sopa para a av, e ficou surpreendida que tivessem dinheiro bastante para a comprar.
       Pouco depois da partida de Clayton, Eugenia mandara o prncipe Markovski uma vez ao banco e depois metera algumas notas na mo de Zoya.
       - Consegui poupar este dinheiro. Serve-te dele para comprares o que quiseres. - Contudo, nada havia que ela precisasse ou quisesse. Ele fora-se embora. Parecia-lhe 
o fim da vida. Todavia, o dinheiro que a av aparentemente poupara e lhe dera para comprar comida permitiu-lhe ficar em casa sem trabalhar. Disse-lhes que estava 
doente e que no se importava que a despedissem.
       Os Ballets Russes estavam de volta e podia ter danado com eles se quisesse. Contudo, nem isso queria, agora. No queria nada, nem comida, nem amigos ou emprego 
e sobre tudo nenhum homem. Ele fora um idiota em dizer-lhe que precisava de uma pessoa mais nova. No precisava de ningum. Exceto de um mdico para Eugenia. Esta 
apanhara uma gripe terrvel na noite de Natal. Insistira em querer ir  igreja. Contudo, estava fraca de mais mesmo para se sentar, e Zoya pediu-lhe que se deitasse 
sossegada e, quando o prncipe Vladimir chegou, incitou-o a que trouxesse imediatamente um mdico, mas passaram-se horas antes de ele voltar com um.
       O mdico era um homem velho, de ar bondoso, que aprendera russo em criana e dirigiu-se a Eugenia na sua lngua natal. A idosa senhora parecia ter esquecido 
o seu impecvel francs.
       - Ela est muito doente, mademoiselle - sussurrou a Zoya, na sala de estar. - Pode no resistir a esta noite.
       - Mas isso  ridculo. Estava boa esta tarde. - To boa quanto era possvel, naquelas circunstncias. O mdico tinha de estar enganado.
       Zoya sabia que no conseguiria sobreviver mais uma perda. No conseguiria simplesmente enfrent-la.
       - Farei tudo o que estiver ao meu alcance. Chame-me logo se ela piorar. O senhor pode encontrar-me em casa. - Ele prprio tinha voltado recentemente da frente 
e praticava medicina ao domiclio. Fitou o prncipe Vladimir, que esboou um aceno de cabea triste e olhou em seguida para Zoya.
       - Ficarei consigo. - A jovem anuiu. Sabia que nada tinha a recear dele. H quase um ano que vivia com uma mulher, e a filha ficara to furiosa que se mudara 
e estava a viver num convento, na margem esquerda.
       - Obrigada, Vladimir. - Foi preparar uma xcara de ch para a av e, quando entrou sem fazer rudo no quarto, encontrou-a quase a delirar. Tinha o rosto a 
arder em febre e o corpo parecia ter encolhido numa questo de horas.
       Zoya apercebeu-se subitamente de quanto peso ela havia perdido nos ltimos tempos. No era to visvel quando estava vestida, mas agora parecia desesperadamente 
frgil e, ao abrir os olhos, precisou de esforar-se para ver quem era Zoya.
       - Sou eu, av... Chiu... no fale. - Tentou ajud-la a beber o ch, mas Eugenia afastou a xcara, murmurando incoerncias e voltou a adormecer.
       S ao amanhecer  que se mexeu e falou. A neta passara a noite na cadeira a vigi-la e acorreu de imediato ao seu lado para ouvir as palavras. A av acenara 
com a mo, e Zoya aproximou-se devagar, deu-lhe a beber um gole de gua pelos lbios gretados e tambm um pouco do remdio que o mdico deixara, mas via que Eugenia 
tinha piorado muito.
       - ... Tens de...
       - Av... no fale... Vai cansar-se.
        A velha senhora abanou a cabea. Sabia que isso era pouco importante nesse momento.
       - ... Tens de agradecer por mim ao americano... Diz-lhe que me sinto muito grata... Tencionava pagar-lhe...
       - O qu? - inquiriu Zoya, admirada. Por que razo estava ela grata a Clayton? Por as deixar? Por a abandonar e regressar a Nova Iorque?
       Contudo, Eugenia esboou um fraco aceno com a mo na direo da pequena secretria ao canto do quarto.
       - ... Procura... no meu cachecol vermelho...
       Zoya abriu a gaveta e encontrou-o. Tirou-o para fora, p-lo em cima da secretria, abriu-o e soltou uma exclamao abafada. Havia ali uma fortuna. Quase cinco 
mil dlares, quando os contou.
       - Meu Deus, av!... Quando  que ele lhe deu isto? - Estava boquiaberta e no compreendia. Porque teria feito tal coisa?
       - ... Mandou-o quando se foi embora... Ia devolv-lo... mas tive medo... Se precisasses dele... sabia que ele tinha boas intenes. Devolvemo-lo quando pudermos... 
- Contudo, procurava algo atrs dela enquanto falava, qualquer coisa que julgava estar escondido naquele stio, e Zoya viu que a av comeava a ficar agitada e receou 
que lhe fizesse ainda pior.
       - Av, deite-se... por favor... - Ainda no recuperara da surpresa causada pela verdadeira fortuna que Clayton enviara. Era um gesto generoso, mas que a levou 
a sentir-se de novo irritada contra ele. No precisavam de caridade. Era demasiado fcil compr-las... mas a que preo; depois, franziu subitamente o sobrolho ante 
o velho cachecol de l que a av segurava nas mos trmulas e aparentemente tirara de trs da almofada.
       Era o cachecol que usava no dia em que tinham deixado Sampetersburgo. Lembrava-se muito bem e agora a av estendia-lho com um pequeno sorriso nos lbios descorados.
       - Nicolau... - Mal conseguia falar e os olhos encheram-se-lhe de lgrimas. - ... Tens de manter isso a salvo, Zoya... com muito cuidado... Quando no restar 
mais nada, vende... mas s quando estiveres desesperada... No antes... Nada mais resta.
       - A cigarreira do pap e a do Nicolai?... - inquiriu, mas a velha senhora abanou a cabea.
       - ... Vendi-as h um ano... No tnhamos escolha. - Contudo, Zoya escutou as palavras, como se lhe cravasse um punhal no corao. No lhes restava nada agora, 
nenhum objeto, nenhuma recordao, apenas memrias e o que quer que a av segurava nas mos.
       Zoya agarrou cuidadosamente no cachecol, desembrulhou-o em cima da cama e soltou uma exclamao abafada... Era o ovo da Pscoa que Nicolau dera a Alix quando 
Zoya tinha sete anos... Maravilhoso, fabricado por Faberg, uma verdadeira obra de arte.
       O ovo da Pscoa em si era de um esmalte malva-plido com fitas de diamantes  volta e uma pequena mola abria-o, revelando um cisne de ouro em miniatura num 
lago de gua-marinha. Chorando baixinho, tocou na alavanca que se lembrava existir debaixo da asa do cisne. O cisne abriu as pequenas asas douradas e avanou devagar 
na sua palma da mo.
       - Conserva-o a salvo, pequenina... - sussurrou a avo e fechou os olhos.
       Zoya voltou a embrulhar o ovo no cachecol e agarrou ternamente na mo de Eugenia.
       - Av... - A condessa abriu novamente os olhos com um sorriso calmo.
       - Fique comigo... no parta, por favor... - Pareceu-lhe que a velha senhora estava mais confortvel e respirava com mais facilidade.
       - S uma boa rapariguinha, mida... Sempre me orgulhei tanto de ti... - Sorriu de novo, e Zoya comeou a soluar.
       - No, av... - As palavras soavam a despedida e ela no a deixaria morrer. - No me deixe s, av... por favor... - Contudo, a velha senhora limitou-se a 
sorrir e fechou os olhos uma ltima vez. Dera o seu ltimo presente  jovem que tanto amara, garantira-lhe segurana para uma nova vida, mas agora tudo havia terminado. 
- Av... - sussurrou Zoya no quarto silencioso, mas os olhos de Eugenia mantinham-se fechados. Descansava em paz. Desaparecida com os restantes. Eugenia Peterovna 
Ossupov regressara a casa.
       
CAPTULO 26
       
       Enterraram-na no cemitrio russo  sada de Paris, e Zoya manteve-se silenciosamente de p ao lado do prncipe Vladimir e de um punhado de gente que conhecera 
Eugenia. No era ntima de nenhum deles. Os seus anos em Paris haviam sido principalmente passados com Zoya e no tinha pacincia para as queixas e memrias depressivas 
dos outros emigrados. Estava ocupada com o presente e no obcecada com o passado.
       Morreu a 6 de Janeiro de 1919 no pequeno apartamento, no mesmo dia em que Theodore Roosevelt morreu a dormir, e Zoya sentou-se a olhar pela janela, acariciando 
Sava.
       Era impossvel absorver os acontecimentos dos ltimos dias e mais inconcebvel pensar numa vida sem a av. Ainda estava sob a influncia do choque provocado 
pelo ovo imperial que a av escondera durante quase dois anos e o dinheiro que Clayton lhe dera ao partir. Chegaria para viver at ao ano seguinte se no se excedesse 
nas despesas e, pela primeira vez durante todo aquele tempo, no sentia desejo de danar.
       No desejava ver o ballet, nem fazer o que quer que fosse novamente.
       S desejava ficar ali sentada com a cadela e morrer em paz. Depois refletiu, culpabilizada, em como a av ficaria zangada com ela ante esses pensamentos. 
A av estivera sempre comprometida com a vida e no com a morte.
       Viveu calmamente durante uma semana sem ver ningum e parecia mais magra e muito plida, quando Vladimir lhe bateu  porta. O prncipe tinha um ar tenso e 
estava obviamente preocupado com ela, e Zoya sobressaltou-se ao ver que havia algum por detrs dele no corredor escuro, quando abriu a porta. Talvez tivesse trazido 
o mdico para a observar, mas ela no queria ver ningum e muito menos o mdico.
       Tinha meias de l e um vestido preto e apanhara o cabelo ruivo que formava um marcado contraste com o rosto cor de marfim.
       - Sim? - Vladimir hesitou. Quase sentira medo de o trazer ali, medo que o choque fosse demasiado violento, mas sabia que assim tinha de ser.
       - Ol, Vladimir. - Sem dizer uma palavra, ele afastou-se para o lado e Zoya soltou uma exclamao abafada ao deparar com Pierre Gilliard.
       Os olhos de Pierre encheram-se de lgrimas ao v-Ia. Parecia terem decorrido mil anos desde que se haviam encontrado no dia em que ela partira de Tsarskoie 
Selo. Avanou um passo na sua direo e Zoya caiu-lhe nos braos. Em seguida ergueu o rosto numa splica, mal conseguindo articular as palavras por entre os soluos:
       - Eles chegaram finalmente? - Gilliard era o tutor com quem as filhas imperiais tinham estudado toda a vida, e Zoya sabia que ele as acompanhara at  Sibria, 
mas ele limitou-se a abanar a cabea, incapaz de responder.
       - No... - balbuciou por fim. - No... no chegaram - Ficou a aguardar mais notcias e, sentindo o corpo a transformar-se em pedra, avanou at  miservel 
sala de estar, seguida por ele. Pierre estava magro, extenuado e muito plido. Vladimir deixou-os ss. Fechou a porta devagar quando saiu e desceu as escadas lentamente 
at ao txi.
       - Esto bem? - O corao ameaava saltar-lhe do peito enquanto aguardava a resposta de Pierre Gilliard e, quando estavam sentados nas cadeiras um em frente 
do outro, ele estendeu o brao e tomou-lhe as mos entre as suas. As dela estavam geladas quando Gilliard comeou a falar:
       - Acabei de chegar da Sibria... Tinha de ter a certeza antes de vir... Deixmo-los em Iekaterimburgo, em Junho. Disseram-nos que tnhamos de partir. - Era 
como se pretendesse desculpar-se, mas Zoya apenas queria ouvir que Mashka e os outros estavam bem. Mantinha-se sentada num silncio de pedra, com as mos geladas 
e trmulas.
       - No estava l ento quando... quando o... Nicolau... - Era incapaz de pronunciar as palavras, mas ele compreendeu o abanou tristemente a cabea.
       - O Gibbes e eu tivemos de partir... mas regressamos em Agosto. Deixaram-nos entrar na casa, s que estava vazia, mademoiselle. - No conseguiu dizer-lhe 
o que tinham descoberto, os buracos de balas e os vestgios de sangue lavado. - Disseram-nos que eles se tinham mudado para outro lugar, mas o Gibbes e eu receamos 
o pior.
       Aguardou o resto com o corao a saltar-lhe no peito, certa de que a histria teria um final feliz. Depois de todo aquele tempo, s podia ter.
       A vida no podia ser to cruel que deixasse os bolcheviques matarem as pessoas que tanto amava... um frgil rapazinho e quatro raparigas que haviam sido suas 
primas e amigas e a me que as amava. J bastava que o pai tivesse morrido. Era impossvel pior do que isso. Observou-lhe o rosto enquanto ele prosseguia a narrativa, 
de olhos fechados e lutando contra as lgrimas. Ainda estava exausto da viagem e s chegara a Paris na noite anterior, decidido a v-la.
       - Chegamos a Iekaterimburgo no dia do aniversrio do Alexis, mas no estavam. - Suspirou. - Permaneci desde ento. Tinha a certeza, mesmo depois de ver os 
buracos de balas na casa, que ainda estavam vivos.
        Zoya sentiu que lhe faltava a respirao e fitou-o.
       - Buracos de balas? Mataram o tio Nicolau em frente dos filhos?
       - Mataram o Nagorny trs dias antes... Ele tentou impedir um soldado de roubar as medalhas do Alexis. Este deve ter ficado com o corao despedaado. Passara 
a vida inteiro com ele. ... O fiel Nagorny, que se recusara a abandon-los. No haveria fim?
       - A meio de Julho, os bolcheviques disseram-lhes que os parentes iam tentar salv-los e que tinham de mudar, antes que lhes descobrissem o paradeiro.
       Zoya pensou nas cartas de Mashka anteriores a isso, dizendo-lhe onde estavam. "Mas quem ia tentar salv-los?"
       - A sangrenta revoluo imperava desde Junho e era quase impossvel chegar a qualquer lugar - prosseguiu. - Contudo, apareceram  mela-noite e ordenaram-lhes 
que se vestissem...
       A voz morreu-lhe na garganta, e Zoya agarrou-lhe as mos com tanta fora que o magoou enquanto o fitava, duas pessoas abandonadas numa ilha deserta, os outros 
desaparecidos... Mas para onde? Esperou pelo resto, sem pronunciar uma palavra. Dali a pouco, ele iria dizer-lhe que eles vinham a caminho de Paris...
       - Desceram as escadas, a imperatriz, Nicolau e os filhos... A Anastasia ainda tinha o Jimmy com ela. - "O pequeno cocker spaniel do Alexis."
       Pierre ps-se novamente a chorar ante a recordao de toda a cena. - ... E a Joy... - Sava ganiu como se reconhecesse o nome da me e ele continuou: - ... 
Nessa altura, o pequeno Alexis j no podia andar, estivera muito doente... Disseram-lhes que se vestissem e levaram-nos para o rs-do-cho, a fim de aguardarem 
transporte... O Nicolau mandou-os trazer cadeiras para Alexandra e Alexis e estava... - Mal conseguia prosseguir... - ... estava com ele no colo, quando eles chegaram... 
Agarrava-o quando eles abriram fogo.
       Zoya sentiu que o corao se transformava num pedao de pedra.
       Devia ter sido o momento em que haviam assassinado Nicolau... Gilliard, porm, continuou a relatar, soluando: - Mataram-nos a todos, Zoya Konstantinovna... 
Abriram fogo sobre todos. S o Alexis viveu um pouco mais do que os outros e bateram-lhe na cabea com os canos das espingardas, enquanto ele se agarrava ao pai... 
e depois mataram o pequeno Jimmy. A Anastasia tinha desmaiado e, ao gritar, mataram-na com as baionetas e depois...
       Zoya chorava em silncio, incapaz de acreditar no que ouvia.
       - E depois... puseram-nos numa mina e cobriram-nos com cido... Morreram, pequena Zoya... todos eles... at mesmo o pobre e meigo Baby. 
       Nessa altura, a jovem abraou-o e apertou-o, enquanto ele chorava.
       Mesmo agora, passados meses, nem ele conseguia acreditar.
       - Descobrimos a Joy, um dos soldados deixara-a entrar, e estava quase morta de fome quando a encontraram perto da mina... a ganir pelas crianas que amava. 
E,  Zoya, ningum alguma vez vir a saber quanto eram queridos ou quanto os amvamos.
       - ... Oh, meu Deus... Oh, meu Deus... A minha pobre e querida Mashka... morta com espingardas e baionetas... como deve ter-se sentido assustada...
       - O Nicolau tentou det-los... mas no havia nada que os detivesse. Se nos tivessem deixado ficar... mas no teria modificado nada. - No lhe contou que o 
Exrcito Branco chegara para libertar Iekaterimburgo oito dias depois. Apenas oito dias.
       Zoya fitou-o com um olhar vazio. Nada lhe importava agora. Nada voltaria a importar-lhe... nem a ela... nem a eles... Ocultou o rosto entre as mos e chorou, 
abraada a Pierre.
       - Tinha de lhe contar pessoalmente... Lamento tanto... tanto... - To poucas palavras para a perda de pessoas fantsticas. Nada haviam compreendido naquele 
ltimo dia em Tsarskoie Selo e ela j sabia que devia ter ficado com eles, os bolcheviques poderiam t-la morto tambm... deveriam t-la, morto com baionetas e balas 
como tinham morto Mashka e todos eles... e Baby...
       Pierre deixou-a e prometeu voltar no dia seguinte depois de ter dormido. Foi-lhe insuportvel fit-la ao partir, encarar o olhar despedaado e o rosto inexpressivo. 
E, quando ficou novamente sozinha, Zoya pegou em Sava e embalou-a para trs e para diante, chorando e gritando no apartamento vazio:
       - Oh, av... Eles morreram... Mataram-nos a todos... - E, por fim, apenas um sussurro permaneceu no silncio, enquanto Zoya pronunciava o nome dela pela ltima 
vez... jamais suportaria voltar a diz-lo... E murmurou baixinho:
       - Minha Mashka...
       
CAPTULO 27
       
       Depois de ter ouvido as notcias trazidas por Pierre Gilliard, Zoya sentiu-se, durante vrios dias, como se estivesse em estado de choque.
       A juntar  dor da morte da av havia a agonia de saber da execuo. No dia seguinte quando voltou, Pierre disse-lhe que o Dr. Botkin morrera com os restantes, 
o que explicava o motivo de nenhuma das cartas ter chegado ao destino, mas tambm no havia ningum para responder.
        E soube igualmente que o gro-duque Miguel tambm fora morto a tiro, uma semana antes da execuo de Nicolau, Alexandra e dos filhos.
       Quatro outros gro-duques tinham sido assassinados depois. A lista parecia ser infindvel. Era como se quisessem destruir toda uma raa, um captulo inteiro 
da Histria. E os pormenores eram de uma brutalidade para alm das palavras.
       Perante o que agora sabia, era compreensvel que a Conferncia de Paz de Versalhes nada quisesse dizer para ela. Aos seus olhos, a guerra e at mesmo o seu 
final deixaram de ter qualquer significado. Perdera os pais, o irmo, a av, os primos, os amigos e a ptria e at mesmo o homem que amava a deixara.
       Sentada no pequeno apartamento dia aps dia, a olhar atravs da janela, a vida parecia-lhe um deserto.
       Pierre Gilliard veio visit-la mais vezes antes de partir. Ia regressar  ptria,  Sua, para descansar antes de voltar  Sibria e ajudar o prosseguimento 
da investigao. Contudo, nem isso lhe parecia importante. Nada o era. Para Zoya, tudo acabara.
       No fim de Janeiro, Paris tinha recuperado a alegria e os soldados americanos pareciam encher as ruas. Havia festas, espetculos especiais e paradas, tudo 
em honra dos dignitrios que chegavam dos Estados Unidos para conferenciar em Versalhes, celebrar o fim da "Grande Aventura" e iniciarem a nova era de paz que despontava.
       No entanto, para Zoya nada havia a celebrar. Vladimir foi visit-la algumas vezes depois de Pierre Gilliard partir rumo a Berna a fim de se juntar  mulher, 
mas Zoya mal falava e Vladimir ficava a observ-la, temendo pela sua sanidade e segurana. As notcias tinham-se espalhado pelos emigrantes e houve lgrimas infindveis 
e um luto silencioso. Os Romanov deixariam uma imensa saudade e jamais seriam esquecidos pelos que os haviam conhecido.
       - Deixe-me lev-la a dar um passeio de carro, mida. S lhe faria bem ir a qualquer lado.
       - Tenho tudo o que preciso aqui, Vladimir. - Fitou-o com tristeza, acariciando suavemente a pequena Sava. Ele trazia-lhe comida como fizera quando tinham 
chegado a Paris. Desesperado, at lhe comprou vodca. Talvez, se no houvesse outra soluo, pudesse afogar as mgoas.
       Mas a garrafa ficou por abrir e a vodca intocada, como a maior parte da comida que trouxera. Dava a sensao de que ela se dispusera a morrer, ansiosa por 
se juntar aos outros.
       Vrias das mulheres que ele conhecia tambm passavam por casa dela, mas na maior parte das vezes Zoya no respondia, quando elas batiam  porta. Limitava-se 
a ficar sentada muito quieta, esperando que se fossem embora, sentada sozinha no apartamento s escuras.
        No fim de Janeiro, Vladimir sentiu-se assustado e falara mesmo com um mdico. Aparentemente nada podiam fazer, exceto esperar a viragem da mar. Contudo, 
ele receava que ela fizesse algo drstico antes.
       Continuava a pensar na jovem ao fim de uma das tardes, quando conduziu o txi at Crillon, esperando que um dos importantes americanos o mandasse parar. E 
depois, como que em resposta a uma prece, olhou para o outro lado da rua e avistou-o.
       Buzinou freneticamente e acenou, mas o indivduo alto e fardado desapareceu no hotel e, quando Vladimir saltou para fora do carro, rezou para que no tivesse 
sido uma iluso. Atravessou a rua com a velocidade de um raio e entrou no hotel, conseguindo apanh-lo antes que ele entrasse num elevador. Clayton Andrews virou-se 
com um olhar surpreendido quando Vladimir o chamou. Saiu lentamente do elevador, receando que algo terrvel pudesse ter sucedido.
       - Graas a Deus que  voc - suspirou Vladimir, aliviado e esperando que ele ainda estivesse disposto a ver a jovem. No estava certo do que acontecera entre 
os dois, mas sabia que tinha havido qualquer desentendimento antes de Clayton abandonar Paris.
       - Aconteceu-lhe alguma coisa? - Foi tudo o que Clayton conseguiu pensar ao detectar a expresso no rosto de Vladimir.
       Chegara no dia anterior e tivera de se conter para no ir v-Ia. Contudo, sabia que era intil torturar-se ou a Zoya. Estavam melhor assim. Queria que ela 
tivesse uma nova vida e se se mantivesse por perto no a ajudaria a encontr-la, por mais que lhe sentisse a falta.
       Mal pusera os ps em Nova Iorque, tinham-lhe pedido que regressasse a Paris e desse uma ajuda nas muitas reunies associadas ao Tratado de Versalhes, antes 
de abandonar definitivamente o exrcito. E regressara bastante alvoroado. Ignorava se teria fora suficiente para voltar a Paris e no a ver.
       - Trata-se da Zoya? - perguntou ao prncipe, assustado pelo olhar dele, que dizia mais do que todas as palavras.
       - H algum stio onde possamos conversar? - retorquiu Vladimir, observando o trio cheio de gente e fitando de novo Clayton. Tinha muita coisa para lhe contar. 
Clayton consultou o relgio. Dispunha de duas horas livres. Esboou um aceno de cabea e seguiu Vladimir at l fora, na direo do txi convenientemente  espera.
       - Responda-me, homem. Ela est bem? Aconteceu-lhe alguma coisa?
       O prncipe exibia um ar triste quando ligou o motor do carro. Tinha os punhos da camisa roados e o casaco gasto, mas conservava o bigode impecavelmente aparado 
e o cabelo de um branco de neve. Tudo em si emanava nobreza e distino. Havia agora tantos iguais a ele em Paris. Condes, prncipes, duques e homens de boas famlias 
ao volante de txis e a servir s mesas.
       - No lhe aconteceu nada, capito - respondeu, e Clayton soltou um suspiro de alvio. - Pelo menos, no diretamente. - Seguiram at ao Deux-Magots, escolheram 
uma mesa l atrs e Clayton mandou vir dois cafs. - A av morreu h trs semanas.
       - J o receava. - Ela parecia to doente e debilitada quando deixara Paris h mais de um ms.
       - Contudo, pior do que isso, recebeu a visita de Pierre Gilliard que veio da Sibria para a ver. A notcia foi terrvel. No saiu do apartamento desde essa 
altura. Receio que enlouquea, para ali sentada, a chorar por eles.  de mais. - Tinha lgrimas nos olhos e lamentou que Clayton no tivesse encomendado uma bebida 
mais forte. De bom grado beberia uma vodca simples. S de pensar na jovem, doa-lhe o corao. Coisas demasiadas haviam acontecido a todos eles, sobretudo a Zoya.
       - O Gilliard estava presente quando mataram o czar? - Ele prprio sentia uma enorme tristeza s de pensar nisso, embora nunca o tivesse conhecido. Contudo, 
Zoya dera-lhe vida com os seus relatos de Livadia, do iate e de Tsarskoie Selo e agora quase lhe parecia familiar.
       - Parece que os soldados dos sovietes o mandaram embora e ao tutor ingls pouco antes, mas regressaram dois meses depois e h meses que andam a falar com 
soldados, guardas e camponeses locais de Iekaterimburgo, ajudando nas investigaes do Exrcito Branco. Conhecem a maioria e ele quer regressar e falar com mais 
alguns. S que deixou de ser importante - replicou com um olhar velho e triste dirigido a Clayton Andrews. - Esto todos mortos... todos eles... assassinados ao 
mesmo tempo que o czar... at mesmo as crianas - acrescentou. No sentia vergonha das lgrimas que lhe rolavam pelas faces. Chorava sempre que pensava no assunto. 
Tinha perdido tantos e to bons amigos. Todos tinham. Todavia, Clayton Andrews parecia chocado, horrorizado e ciente do efeito que produziria em Zoya.
       - A Marie tambm? - Era uma derradeira esperana... a bem de Zoya... mas Vladimir limitou-se a abanar a cabea.
       - Todos eles. Mortos. - Contou a Andrews pormenores que Gilliard no se atrevera a relatar a Zoya, sobre cido, mutilaes e fogo. O que ela sabia j bastava. 
Haviam pretendido varr-los da superfcie da Terra, sem deixarem vestgios. , contudo, impossvel apagar a beleza, dignidade e graciosidade e pessoas to profundamente 
boas e encantadoras. Os corpos haviam desaparecido, mas o esprito viveria para sempre.
       - Como  que a Zoya recebeu a notcia?
       - No tenho a certeza que sobreviva. Anda a emagrecer de dia para dia. No come, no fala, no sorri. Parte-se-me o corao s de a ver. Vai visit-la? - 
Estava pronto a implorar-lhe. Ela tinha de continuar a viver. A av j era de idade, mas Zoya era jovem e alegre e, aos dezenove anos, a sua vida estava apenas no 
comeo. No suportaria v-Ia chegar ao fim agora. Tinha de continuar a viver e transportar a beleza que todos haviam visto para uma nova vida e no enterr-la como 
estava a fazer.
       Clayton Andrews suspirou, enquanto mexia o caf com um ar pensativo. O que Vladimir lhe tinha contado era extremamente chocante e, mais do que isso, despedaava-lhe 
o corao... nem o rapazinho escapara... fora o que o prprio Pierre Gilliard dissera ao ouvir as notcias "As crianas!... As crianas, no!" Contudo, fitou tristemente 
o prncipe, pensando novamente em Zoya.
       - No estou certo de que queira ver-me!
       - Deve tentar. Por ela. - No se atreveu a perguntar ao homem se ele ainda a amava. De qualquer maneira, sempre o achara velho de mais para ela e dissera-o 
a Eugenia. No entanto, ele era a nica esperana que restava e vira o brilho nos olhos de Clayton, no ano em que fora assistir aos servios religiosos de Natal com 
eles. Pelo menos nessa altura, no duvidava que amasse profundamente a jovem. - Na maioria das vezes, no atende quando batem  porta - prosseguiu. - s vezes, limito-me 
a deixar-lhe comida c fora e ela recolhe-a, embora no tenha a certeza se a come.
       - O prncipe fazia-o em memria da av. Gostaria que algum fizesse o mesmo por Yelena. E agora estava a suplicar a Clayton Andrews que fosse v-Ia. Teria 
feito qualquer coisa para a ajudar. Quase lamentava que Gilliard tivesse aparecido, mas precisavam de saber, no podiam prolongar eternamente a esperana.
       - Farei o que puder - prometeu, Clayton, consultando o relgio. Tinha de regressar ao hotel para uma daquelas infindveis reunies. Levantou-se, pagou o caf 
e agradeceu a Vladimir no caminho de volta, interrogando-se sobre se ela o receberia. Aos olhos de Zoya, abandonara-a e sabia que a jovem no entendera os seus motivos. 
Achava que ela agora o odiava e talvez fosse melhor para seu bem. Mas no podia deix-la para ali a morrer. O quadro pintado por Vladimir era um pesadelo.
       Nessa noite, assistiu, impaciente, s reunies e s dez horas saiu, fez sinal a um txi e indicou a morada ao motorista. Foi um alvio descobrir que o homem 
era um francs e no um dos aristocratas russos.
       Ao chegar, o prdio pareceu-lhe dolorosamente familiar e hesitou um momento antes de subir as escadas devagar. Ignorava o que dizer, talvez nada houvesse 
a dizer. Talvez o que pudesse fazer se resumisse a estar ali.
       A subida at ao quarto andar pareceu-lhe interminvel e os corredores eram ainda mais frios, escuros e ftidos do que se recordava. Deixara-a apenas h seis 
semanas, mas, naquele breve espao de tempo, mudara tanta coisa, acontecera tanta coisa. Conservou-se muito tempo do lado de fora da porta,  escuta, interrogando-se 
sobre se ela estaria a dormir e depois sobressaltou-se ao ouvir passos.
       Bateu ao de leve uma vez e os passos pararam. Pararam durante muito tempo e, quando ela julgou que ele se fora embora, ouviu-os de novo, desta vez com os 
latidos de Sava. O corao ameaava saltar-lhe do peito ao pensar nela ali to perto, mas no podia ser egosta, pois era a jovem quem agora interessava. Viera at 
ali para a ajudar a ela e no a si, e forou-se a pensar assim quando bateu de novo e falou atravs da porta.
       - Tlgramme! - anunciou. - Tlgramme! - Era um truque baixo, mas sabia que, de outra forma, Zoya no abriria a porta. Os passos aproximaram-se e a porta 
abriu-se um pouco; porm, de onde ele estava, ela no conseguia v-lo. E, com um nico passo e uma ligeira presso, abriu mais a porta e empurrou-a para o lado, 
falando meigamente. Devia ter mais cuidado, mademoiselle.
       Zoya soltou uma exclamao abafada e o rosto denotou uma palidez de morte. Clayton ficou chocado ao ver quanto ela emagrecera. O prncipe tinha razo. Estava 
com uma aparncia terrvel ao fit-lo com os enormes olhos assustados.
       - O que fazes aqui?
       - Dei um salto de Nova Iorque para ver como estavas. - Tentou parecer despreocupado, mas o aspecto dela falava por si. Situava-se para l do riso, para l 
do amor e interesse.
       - Porque vieste aqui? - inquiriu, zangada e frgil, quase lhe partindo o corao. Desejava apert-la de novo nos braos, mas no se atreveu.
       Receou quebrar-lhe os ossos.
       - Queria ver-te. Estou aqui por causa das negociaes do Tratado de Paz em Versalhes. - Ainda se conservavam na ombreira da porta e ele olhou-a interrogativamente 
quando Sava veio lamber-lhe a mo. A cadelinha no se esquecera, mesmo que Zoya j no se interessasse em lembrar-se. - Posso entrar uns minutos?
       - Porqu? - Fitava-o com uns olhos grandes e tristes, mas mais bonita que nunca.
       E foi incapaz de continuar a mentir-lhe.
       - Porque ainda te amo, Zoya,  por isso. - No era ssa a resposta que planeara, mas no conseguiu evitar as palavras.
       - Deixou de ser importante.
       - Para mim, .
       - No era h seis semanas, quando te foste embora.
       - Nessa altura tambm era muito importante. Achei que estava a tomar a atitude certa. Achei que tinhas direito a mais do que podia oferecer-te. - Materialmente, 
podia oferecer-lhe tudo, mas no podia dar-lhe juventude nem os anos que desperdiara antes de a conhecer. Na altura, parecera-lhe importante, mas agora j no estava 
to seguro face a tudo o que Vladimir lhe dissera. - Deixei-te porque te amava e no o contrrio. - Contudo, soube, tal como ento, que ela no compreendia. No 
era minha inteno abandonar-te. No fazia idia de que aconteceria tanta coisa depois de partir.
       - O que queres dizer? - inquiriu, olhando-o com uma expresso triste e sentindo que ele sabia, mas sem uma certeza absoluta.
       - Estive com o Vladimir esta tarde.
       - E o que  que ele te contou? - Mantinha-se muito rgida e afastada dele, fitando-o no mais fundo e ele deixou que o corao voasse ao seu encontro. Ela 
sofrera tanto. No era justo. Devia ter acontecido a outra pessoa. No a ela, a Eugenia ou aos Romanov... ou a Vladimir. Sentia pena de todos, mas acima de tudo 
amava-a.
       - Ele contou-me tudo, pequenina. - Deu mais um passo na sua direo e tornou-a nos braos, verificando admirado que ela no se debatia. - Contou-me sobre 
a tua av... - Hesitou, mas apenas um momento. - ... E sobre os teus primos... e a pobre Mashka... - Zoya engoliu um soluo, virou a cara e depois, como se o dique 
se tivesse rompido subitamente, desatou a soluar nos seus braos e ele fechou a porta com o p e levou-a como a uma criana at ao sof, sem a largar um momento. 
A jovem chorou durante muito tempo, tremendo da cabea aos ps enquanto lhe contava tudo o que ouvira da boca de Gilliard, e Clayton continuou a abra-la. Por fim, 
a sala ficou de novo em silncio e ouvia-se apenas um fungar ocasional. Ela virou os olhos verdes na sua direo e Clayton beijou-a ternamente, como tinha ansiado 
desde que a deixara. - Gostaria de ter estado aqui quando ele veio.
       - Tambm teria gostado - confessou, chorando novamente. - Tudo tem sido to terrvel desde que te foste embora... e a Mashka... oh, meu Deus, a pobre Mashka... 
Pelo menos, o Pierre disse que as balas a mataram rapidamente. Mas os outros...
       - No penses mais nisso. Tens de deitar tudo para trs das costas.
       - Como posso? - Continuava sentada ao colo dele e recordava-se das suas conversas de h muito tempo com o pai.
       - Tem de ser, Zoya. Pensa na tua av, pensa em como foi corajosa. Levou-te para fora da Rssia numa trica, rumo  liberdade. No te trouxe at aqui para 
que desistisses da esperana, abandonasses tudo e ficasses sentada neste apartamento at morreres de fome. Trouxe-te para que tivesses uma vida melhor, para te salvar 
a vida. No deves de forma alguma desperdi-la. Seria uma afronta ante a sua memria e tudo o que tentou fazer por ti. Tens de honr-la e fazer tudo que puderes 
para levares uma boa vida.
       - Suponho que tens razo, mas  to difcil agora - retorquiu, aps o que ergueu os olhos e acrescentou: - Ela contou-me sobre o dinheiro antes de morrer. 
Ia devolver-to, mas tenho-me servido dele. - Corou e pareceu-se mais com ela prpria.
       - Assim o esperei. - Mostrava-se satisfeito porque, pelo menos, fizera algo por ela. - O Vladimir diz que no danas h meses.
       - Desde que a av adoeceu e depois de ela ter morrido e o Pierre vir aqui... No consegui voltar.
       - Tudo bem. - Olhou por cima do ombro dela e fixou o samovar com um sorriso nostlgico.
       - O que queres dizer? O Diaghilev pediu-me mais uma vez que partisse em tourne com eles. E agora podia, se quisesse. - Fungou de novo, mas desta vez ele 
riu-se.
       - No, no podias.
       - Porque no?
       - Porque vais para Nova Iorque.
       - Vou? - redargiu, surpreendida. - Porqu? - Parecia mais do que nunca uma criana, e ele sorriu-lhe.
       - Para casares comigo,  esse o motivo. Tens exatamente duas semanas para juntares as tuas coisas e depois partimos. O que te parece? Fitou-o de olhos arregalados.
       - Ests a falar a srio?
       - Sim, estou. Se me quiseres. - Apercebeu-se, sobressaltado, que ela agora era uma condessa, mas no por muito tempo. Casaria com ela antes de deixarem Paris. 
E, ento, seria Mrs. Clayton Andrews para o resto da vida. - Se for idiota bastante para aceitar o peso de um homem de idade, o problema  seu, Miss Ossupov. No 
vou avis-la mais.
       - timo. - Agarrou-se-lhe como uma criana perdida, chorando novamente, mas desta vez eram lgrimas de alegria e no de tristeza.
       - Na verdade, leva algumas coisas contigo agora - retorquiu, pousando-a suavemente no cho. - Vou arranjar-te um quarto no hotel. Vou vigiar-te antes de partirmos. 
No quero ter de desatar a bater nessa porta aos gritos de "tlgramme" nas duas prximas semanas. - Zoya riu e secou as lgrimas.
       - Foste muito indelicado!
       - No tanto como tu a fingires que no estavas em casa. No interessa. Vai buscar as tuas coisas. Podemos voltar aqui dentro de dias e levar o que quiseres 
contigo.
       - No tenho muita coisa. - Passeou o olhar pela sala. No havia praticamente nada que quisesse levar, excetuando talvez o samovar e algumas das coisas da 
av. Queria deixar o passado para trs e comear uma vida nova ao lado dele. E depois, presa de um sbito terror, inquiriu erguendo o rosto: - Falas mesmo a srio? 
- E se ele mudasse de opinio? Se voltasse a deix-la ou a abandonasse em Nova Iorque? Clayton detectou todo o medo e comoveu-se.
       - Claro que sim, mida. Devia ter-te levado comigo quando me fui embora. - Contudo, ambos sabiam que ela no podia ter deixado a av e esta tambm no estava 
em condies de viajar. - Ajudo-te a fazer as malas.
       Meteu tudo numa mala pateticamente pequena e depois lembrou-se da cadela. No podia abandon-la e era a nica amizade que tinha,  exceo, obviamente, de 
Clayton.
       - Posso levar a Sava para o hotel?
       - Claro - Pegou na cadelinha que tentava freneticamente lamber-lhe o queixo e agarrou na malinha de Zoya, enquanto ela apagava as luzes.
       Era altura de ir para casa. Fechou a porta sem olhar para trs e seguiu Clayton pelas escadas, rumo a uma nova vida.
       
CAPTULO 28
       
       Levou-lhe menos de um dia a arrumar as suas coisas. Empacotou o samovar, os livros, o tric da av, os xales dela e a sua roupa, a toalha de renda, mas pouco 
mais havia. Deu o resto a Vladimir, a alguns amigos e ao padre de Santo Alexandre Nevski.
       Despediram-se de Vladimir e ela prometeu escrever. E, dentro de dias, viu-se ao lado de Clayton diante de um padre e tornou-se sua mulher. Assemelhava-se 
a um sonho quando o olhou com as lgrimas correndo-lhe pelas faces. Perdera tudo e agora at o nome desaparecera.
       Contudo, agarrava-se a ele como se Clayton fosse a prpria vida, quando regressaram ao hotel. Era como se receasse que ele pudesse mudar de opinio.
       Passaram mais dois dias em Paris e depois apanharam o comboio para a Sua. Haviam decidido passar ali a lua-de-mel e confessou a Clayton que gostaria de 
voltar a ver Pierre Gilliard antes de partir.
       Levaram dois dias a chegar a Berna, pois o comboio parava infindavelmente em todas as estaes, mas, quando acordou no ltimo dia, faltou-lhe a respirao. 
As montanhas cobertas de neve saudaram-na e, por um momento, teve a sensao de estar de volta  Rssia.
       Gilliard foi esper-los ao comboio e foram almoar a casa dele com a mulher, que fora ama das crianas Romanov. Abraou Zoya que chorava, e Clayton ouviu-lhes 
as recordaes durante o almoo. Era doloroso mas em simultneo partilhavam imensa ternura e memrias felizes.
        - Quando volta? - indagou Clayton sem erguer a voz, enquanto Zoya foi ver umas fotografias na companhia da mulher de Gilliard.
       - Mal recuperemos foras. A vida na Sibria foi muito dura para a minha mulher. No quero lev-la comigo. O Gibbes e eu combinamos encontrar-nos para ver 
se conseguimos descobrir mais alguma coisa.
       - E isso ainda interessa? - Clayton interpelava-o honestamente. Tudo parecia haver terminado e no valia a pena manter um elo com o passado doloroso. Dissera 
o mesmo a Zoya, mas Gilliard parecia obcecado com a situao. Agora ainda lhe era mais real, mas tornava-se compreensvel, pois permanecera vinte anos com os filhos 
do czar e eles eram toda a sua vida.
       - Para mim, interessa. No descansarei at saber tudo, at descobrir qualquer deles que tenha sobrevivido. - Era uma nova idia.
       - H alguma hiptese?
       - No acredito que haja. Mas preciso de ter a certeza, ou nunca mais descansarei.
       - Amava-os muito...
       - Todos ns. Eram uma famlia extraordinria e at mesmo vrios guardas da Sibria tornaram-se mais brandos depois de os conhecerem.
       Tinham de os mudar constantemente para manter o ambiente de dureza. Os bolcheviques sentiam-se frustrados. O Nicolau era bondoso para todos, at mesmo para 
os que lhe haviam destrudo o imprio. Acho que nunca se perdoou por ter abdicado a favor deles. Estava sempre a ler livros de Histria e afirmou-me que um dia o 
mundo diria que ele falhara... que desistira... Acho que lhe despedaou o corao.
       Era uma anlise do homem que os outros jamais conheceriam. Um perscrutar de uma poca que no voltaria para nenhum deles. A magnitude do que todos eles haviam 
vivido superava at mesmo o que possua para oferecer a Zoya em Nova Iorque. Sabia, porm, que ela l seria feliz. Nunca mais sentiria frio nem fome. Pelo menos, 
tinha isso a oferecer-lhe. J pensara em comprar-lhe unia casa. A sua manso de granito na Quinta Avenida parecia-lhe de sbito pequena de mais.
       Passaram trs dias em Berna e depois levou-a a Gnova e a Lausana. Regressaram a Paris no final de Fevereiro e apanharam o Paris para Nova Iorque. Partiu 
um belo dia do Havre com as suas quatro chamins bem erguidas. Tratava-se de um bonito navio, o orgulho da French Line e mantivera-se parado durante trs anos, pois 
tinha sido lanado a meio da guerra.
       Zoya portou-se como uma criana excitada durante a maior parte da viagem. Engordara um pouco e os olhos tinham voltado a brilhar. Jantaram vrias vezes no 
camarote do capito e danavam pela noite fora.
       Quase se sentia culpada por se divertir assim. Deixara tanta gente para trs no seu mundo perdido, mas Clayton no lhe permitia que pensasse nisso agora. 
Apenas queria que ela seguisse em frente, para a nova vida que partilhariam. Falava na casa que construiriam, nas pessoas que iriam conhecer e nos filhos que teriam. 
Esperava-a toda uma vida pela frente.
       Ainda no fizera vinte anos e tudo estava apenas no comeo.
       E na noite antes de chegarem a Nova Iorque, ela deu-lhe o presente de casamento que andara a guardar. Continuava embrulhado no cachecol da av. Clayton soltou 
uma exclamao ao deparar com o ovo e o seu desenho elaborado. Ela pousou o pequeno cisne de ouro em cima da mesa e mostrou-lhe como funcionava.
       -  a coisa mais bonita que vi em toda a minha vida... No, a segunda mais bonita.
       Zoya fitou-o, desapontada, pois desejara que ele gostasse tanto daquele ovo quanto ela. Significava tanto aos seus olhos. Era a nica relquia que conservava 
do passado.
       - Qual foi a primeira?
       - Tu, meu amor. Tu s a mais bela e a melhor.
       - Pateta! - exclamou a rir.
       Fizeram amor durante toda a noite e ainda estavam acordados quando a Esttua da Liberdade se recortou no horizonte, ao apartarem a Nova Iorque na manh seguinte.
       
NOVA IORQUE
      CAPTULO 29
       
       Zoya ficou no convs a observar, admirada, enquanto o Paris aportava no cais da French Line no Hudson. Vangloriavam-se de terem a maior prancha de desembarque 
do mundo e ela vestia um fato Chanel preto que Clayton lhe tinha comprado antes de deixarem Paris.
       Nessa altura, Chanel mudara-se para a Rue Cambon e os seus modelos pareciam muito mais interessantes do que os de Poiret, embora no fosse to famosa. Zoya 
usava um chapu a condizer, apanhara o cabelo, e sentira-se muito chique quando o comprara, mas agora invadia-a uma sbita sensao de estar mal vestida.
       As mulheres  sua volta ostentavam roupas e peles caras e no vira tantas jias desde que deixara a Rssia. Apenas tinha a fina aliana de casamento de ouro 
que Clayton lhe enfiara no dedo quando haviam casado.
       No se via vestgios de champanhe em parte alguma, contrariamente a quando haviam partido do Havre. Os navios franceses tinham de respeitar uma nova proibio 
sobre o lcool e era necessrio fazer desaparecer todas as bebidas alcolicas, mal ultrapassavam o limite de cinco quilmetros. Apenas podiam servir lcool em guas 
internacionais, contrariamente aos navios americanos que no serviam nenhum. Este fato aumentava a popularidade dos navios franceses e ingleses.
       A linha do horizonte de Nova Iorque no se assemelhava a nada do que alguma vez vira. Longe estavam as igrejas, catedrais, espiras e a antiga elegncia da 
Rssia ou o gracioso esplendor de Paris. Tudo isto era moderno, vivo e excitante, fazendo-a sentir-se muito jovem quando ele a conduziu at ao seu Hispano-Suiza 
e o motorista arrumou as malas no porta-bagagens.
       - O que achas, pequenina? - Observava-a com uma expresso radiosa, enquanto seguiam pela Quinta Avenida e se dirigiram  manso que ele outrora partilhara 
com a mulher. Era elegante, pequena e fora decorada por Elsie de Wolfe. As duas mulheres tinham sido boas amigas e ela decorara as casas dos Astor e dos Vanderbilt 
em Nova Iorque, bem como as de muitos dos seus amigos em Bston.
       -  uma maravilha, Clayton! - Sentia-se a anos-luz das estradas cobertas de neve em que viajara de trica, rumo a Tsarskoie Selo.
       Havia cavalos e carros nas ruas, mulheres de casacos de cores vivas orlados de pele e homens caminhando apressados ao seu lado. Todos pareciam felizes e contentes, 
e os olhos de Zoya danavam quando desceu do carro e contemplou a manso de tijolo. Indubitavelmente mais pequena do que o Palcio Fontanka, era, segundo os padres 
americanos, muito grande e, quando se viu de p no vestbulo de mrmore, duas criadas de uniforme cinzento, com avental e touca, pegaram-lhe no casaco e ela esboou-lhes 
um sorriso tmido.
       - Esta  Mistress Andrews - anunciou Clayton, apresentando-a a ambas e  idosa cozinheira que entrou com mais duas criadas, vinda da cozinha.
       O mordomo era ingls e tinha um ar muito srio e a casa ostentava todos os sinais que tanto agradavam a Mrs. Wolf, antiguidades franceses misturadas com 
"moderne", como gostava de lhe chamar. Clayton j dissera a Zoya que poderia mudar o que quisesse, que queria que ela se sentisse em casa. Contudo, a jovem adorava 
o que via.
       Amplas portas-janelas francesas davam para um jardim coberto de neve e Zoya bateu palmas como uma criana. Clayton riu e conduziu-a ao andar de cima, at 
ao quarto de dormir. Havia colchas de cetim rosa na cama, reposteiros e um lustre encantador e tambm um quarto de vestir com paredes forradas de cetim rosa s para 
ela e roupeiros que lhe lembravam os da me. E riu ao ver os seus poucos vestidos pendurados quando a criada lhe desfez as malas nessa tarde.
       - Receio que as criadas fiquem muito desapontadas - declarou a rir, nua no quarto de vestir, antes de jantar. Acabara de tomar um banho na luxuosa banheira 
de mrmore... longe da imagem terrvel da pequena banheira na diviso ao fundo do corredor no apartamento prximo do Palais Royal. Nunca mais teria de partilhar 
a casa de banho com os vizinhos. Tudo lhe parecia um sonho quando olhava  volta e para o homem que a salvara das tristezas da sua vida em Paris. No fazia idia 
da riqueza dele nem da importncia que ele tinha na sociedade de Nova Iorque. De uniforme e com os seus modos simples no havia qualquer motivo para desconfiar. 
- Porque no me falaste disto tudo?
       - No teria tido qualquer importncia. - Clayton sabia que no era esse o motivo por que ela o amava, o que se tornava reconfortante. Era um alvio no ser 
perseguido por debutantes fora de prazo ou filhas das amigas da falecida me, recentemente vivas, divorciadas ou  caa de um marido prspero.
       Mais importante para Zoya era o fato de ele ser afetuoso e bom e de lhe ter salvo a vida.
       - Ficava sempre to embaraada quando te falava na vida em Sampetersburgo,... Receava que te parecesse excessivo.
       - E pareceu... - Riu. - Mas tambm encantador... como a minha bela noiva. - Ficou a v-Ia enfiar a roupa interior nova de cetim e depois decidiu tirar-lha 
com a mesma rapidez.
       - Clayton! - Mas no protestou quando ele a levou para a cama.
       Todas as noites apareciam atrasados para o jantar, e Zoya sentia-se embaraado com a visvel desaprovao do mordomo.
       Os criados no se mostravam calorosos e a jovem tinha conscincia de um murmurar sempre que andava pela casa. Serviam-na mas com relutncia e, sempre que 
possvel, mencionavam a antiga mulher dele. A ex-Mrs. Andrews fora aparentemente o mximo da perfeio. A empregada conseguira mesmo deixar um exemplar da Vogue 
no seu quarto de vestir e aberta nas pginas onde Cecil Beaton falava com entusiasmo do ltimo vestido dela e de uma festa que dera para as suas amigas em Virgnia.
       - Ela era lindssima, no? - perguntou Zoya suavemente uma noite, quando estavam sentados junto  lareira do quarto. Contudo, ali, a lareira apenas realava 
a decorao e no era uma necessidade para que sobrevivessem. Pensou com tristeza mais do que uma vez em Vladimir no seu apartamento gelado e nos outros amigos, 
literalmente a morrerem de fome em Paris. Sentia-se culpada por tudo o que Clayton lhe dava.
        - Ela quem? - Fitou-a sem compreender.
       - A tua mulher. - Ela chamava-se Margaret.
       - Vestia-se muito bem quando queria. Mas tu tambm, pequena Zoya. Ainda nem sequer comeamos a ir s compras.
       - Estragas-me com mimos. - Sorriu-lhe timidamente, corando de uma forma que o emocionava. Atraiu-a de encontro ao corpo.
       - Mereces muito mais do que alguma vez te darei. - Queria recompens-la por tudo o que ela perdera, por tudo o que tinha sofrido em Paris depois de abandonar 
a Rssia. O ovo imperial da Rssia estava orgulhosamente exposto por cima da lareira no quarto, juntamente com as fotografias dos pais dele em elegantes molduras 
de prata e trs pequenas estatuetas em ouro que tinham pertencido  me. - s feliz, mida?
       - Como deixar de o ser? - retorquiu com um olhar luminoso no quarto tranqilo. Clayton apresentou-a aos amigos e levava-a a todo o lado na sua companhia, 
mas ambos tinham conscincia do ressentimento das outras mulheres. Era bonita, era jovem e parecia requintada nos vestidos luxuosos que ele lhe comprava. - Porque 
me detestam tanto? Sentiu-se mais do que uma vez incomodada porque as mulheres deixavam de falar  sua chegada e hostilizavam-na.
       - No te detestam. Apenas tm cimes.
       Tinha razo; porm, no final de Maio, Clayton sentiu-se furioso pelos rumores que se haviam desencadeado. Algum pusera a circular que Clayton Andrews casara 
com um, vulgar bailarina de Paris... Mencionava-se vagamente o Folies-Bergre e um bbedo do seu clube chegara a perguntar se ela danara o can-can. Clayton esteve 
prestes a bater-lhe.
       Numa festa, uma mulher perguntou a outra, ao verem Zoya danar, se era verdade que ela fora uma prostituta paga em Paris.
       - Deve ter sido. V s como ela dana!
       Zoya dominava os passos do novo fox-trot na perfeio sob as cuidadosas instrues de Clayton. E ele, elegante e orgulhoso, acompanhava-a naquele rodopio, 
to obviamente apaixonado pela sua bela e jovem mulher que todos a odiavam. Tinha vinte anos, uma cinturinha de vespa, pernas bonitas e o rosto de um anjo.
       Quando soavam os acordes da valsa, sentia lgrimas a picarem-lhe os olhos enquanto giravam e fitava-o com a memria da noite em que se haviam conhecido e 
outras dolorosas de muito antes. Se fechasse os olhos, estava de novo em Sampetersburgo... danando com Konstantin ou o elegante e jovem Nicolai no uniforme da Guarda 
Preobrajenski... ou mesmo Nicolau, no Palcio de Inverno. Lembrava-se do baile de debutante que nunca tivera e agora no lhe parecia doloroso. Ele compensara-a e 
era mesmo capaz de olhar para as fotografias de Mashka com um sorriso triste, mas sem lgrimas. Transportaria eternamente os amigos no corao.
       - Amo-te tanto, Pequenina... - sussurrou quando danavam no baile dos Astor em Junho e ela parou subitamente e fitou-o, como se tivesse visto um fantasma. 
Os ps haviam ficado pregados ao cho e empalideceu. - Passa-se alguma coisa? - murmurou Clayton.
       -  impossvel... - Parecia doente e ele sentiu-lhe a mo fria na dele. Um homem alto e extremamente elegante acabara de entrar na sala acompanhado por uma 
bonita mulher com um chamativo vestido azul.
       - Conhece-los?
       Todavia, ela no conseguia falar. Era o Prncipe Obolenski ou algum muito semelhante, e a mulher que lhe dava o brao parecia ser a gr-duquesa Olga, a tia 
das jovens gr-duquesas que as levara todos os domingos  cidade a almoar com a av, antes de parar para tomar ch no Palcio Fontanka com Zoya.
       - Zoya!... - Clayton receou que ela desmaiasse quando a mulher soltou uma exclamao surpreendida e se precipitou na direo deles. Zoya lanou-se nos braos 
dela.
       - Querida... s mesmo tu?... Oh, minha querida Zoya... - A encantadora Olga abraou-a e ambas choraram lgrimas de alegria, transbordantes das ternas lembranas 
dos entes amados que haviam perdido, enquanto Clayton e o prncipe Obolenski as observavam. - Mas o que ests a fazer aqui?
       Zoya esboou uma ligeira vnia e virou-se a fim de apresentar o seu elegante marido.
       - Olga Alexandrovna, posso apresentar-lhe o meu marido, Clayton Andrews? - Ele inclinou-se, beijou a mo da gr-duquesa e depois Zoya explicou que Olga era 
a irm mais nova do czar.
       - Onde tens estado desde... - Tinha dificuldade em pronunciar as palavras, quando os olhos se cruzaram. No a via desde que ambas haviam sado de Tsarskoie 
Selo.
       - Estive em Paris com a av... Ela morreu a seguir a Natal.
       A gr-duquesa voltou a abraar a jovem e todos no salo de baile testemunharam o acontecimento; nas horas seguintes, a notcia espalhou-se por todo o lado. 
A nova mulher de Clayton Andrews era uma condessa russa. Os relatos sobre Folies-Bergre dissiparam-se e o prncipe Obolenski referiu os fantsticos e exticos bailes 
do Palcio Fontanka.
       - A me dela era a mulher mais bonita que conheci na vida. Obviamente fria, como todas as alems, mas de uma beleza espantosa. E o pai era um homem encantador. 
Foi uma perda terrvel quando o mataram. Tantos homens fantsticos que desapareceram. - Pronunciou as palavras com pena, bebendo uma taa de champanhe, mas com menos 
emoo do que as mulheres. Zoya nunca mais saiu de perto de Olga durante a noite. Estava a viver em Londres, mas deslocara-se Nova Iorque para visitar uns amigos. 
Estava alojada com prncipe Obolenski e a mulher, Alice Astor.
       A cidade de Nova Iorque ficou rapidamente a par das origens de Zoya, da sua famlia nobre e, pouco depois. tornara-se uma coqueluche da sociedade. Cecil Beaton 
fazia a crnica de cada um dos seus movimentos e eram convidados para todos os lados. As pessoas que a haviam posto de lado passaram repentinamente a ador-la.
       Elsie de Wolfe queria redecorar a casa e depois fez uma notvel sugesto. Ela e as amigas haviam comprado uma srie de antigas herdades em East River e estavam 
a remodelar as velhas casas numa rua chamada Sutton Place. Ainda no era moda, mas sabia que assim seria, quando chegasse ao fim do trabalho.
       - Porque no me deixa decorar uma delas para si e para o Clayton? Estava a fazer esse trabalho numa casa destinada a William May Wright, o acionista, e Cobina, 
a mulher. Contudo, Zoya achava que estavam muito bem na confortvel manso de tijolo.
       Zoya deu o seu primeiro jantar em honra da gr-duquesa Olga antes de ela regressar a Londres, e o seu destino tomou um rumo a partir de ento. Estava fadada 
a tornar-se a menina-bonita de Nova Iorque, para grande satisfao do marido. Clayton satisfazia-lhe todos os caprichos e encarregou secretamente Elsie de Wolfe 
de remodelar uma das casas de Sutton Place para eles. Era, de fato, o supra-sumo da elegncia e, quando Zoya a viu, arregalou os olhos de espanto.
       No era to exuberante como a nova casa dos Wright, onde tinham estado na noite anterior e onde conhecera Fred Astaire e Tahulah Bankhead. O mais chocante 
de tudo havia sido a casa de banho forrada a marta, mas no havia esses excessos na casa dos Andrews. Definia-se por uma elegncia suave, cho de mrmore, quartos 
arejados e cheios de tesouros que Elsie de Woolfe se assegurara de poderem agradar  jovem condessa russa. As pessoas tinham comeado a trat-la assim, mas ela sempre 
insistia em que agora era Mrs. Andrews. A idia de usar o ttulo parecia-lhe ridcula, embora os americanos parecessem ador-lo.
       Nessa altura, havia muitos outros emigrantes em Nova Iorque, recm-chegados de Paris e Londres e alguns deles diretamente da Rssia, trazendo relatos da sua 
fuga enquanto a guerra civil rugia entre as foras vermelhas e brancas, que tentavam assumir o poder sobre a angustiada nao.
       Contudo, os russos brancos em Nova Iorque divertiam-na freqentemente. Havia, sem dvida, os verdadeiros aristocratas, muitos dos quais conhecia, mas dzias 
de outros vangloriavam-se de ttulos que nunca haviam tido na Rssia. Havia prncipes, princesas e condessas por todo o lado.
       Uma noite, ficou boquiaberta ao ser apresentada a uma princesa imperial que logo reconheceu como a mulher que fizera chapus para a me, mas no disse nada 
de embaraoso quando foram apresentadas. E, mais tarde, a mulher pediu que no a denunciasse aos russos ainda de luto.
       Ela prpria recebia muitos dos nobres que haviam sido amigos dos pais. Contudo, o passado morrera e no havia conversa, iluso ou qualquer recordao dolorosa 
que o fizesse reviver. Queria olhar em frente, tomar-se uma parte integral da vida que levava. E s no Natal se permitiu lembrar com lgrimas renovadas, enquanto 
se conservava ao lado de Clayton, entoando os cnticos familiares russos e segurando a vela que ardia em memria dos que tinha amado e perdido. O Natal foi uma poca 
difcil, mas, nessa altura, j h nove meses que estava em Nova Iorque e tinha notcias excitantes para Clayton.
       Esperou at regressarem a casa da igreja e, quando estavam deitados na enorme cama de dossel em Sutton Place, aguardou para lhe dizer at terem feito amor.
       - Ests o qu? - Parecia completamente apanhado de surpresa e ficou logo receoso de poder t-la magoado. - Porque no me disseste? - Os olhos brilhavam-lhe 
e Zoya chorava de alegria.
       - S soube h dois dias. - Riu como se fosse a guardi do segredo mais importante do mundo. Ainda no se via, mas ela sabia e, desde que o mdico lhe dera 
a notcia, sentia-se como se conhecesse o verdadeiro significado da vida. Desejara o filho de Clayton mais do que qualquer outra coisa no mundo e beijou-o, feliz, 
deixando que ele a observasse em adorao. Ainda no tinha vinte e um anos e ia ter um filho.
       - Quando nasce?
       - Ainda falta muito, Clayton. No antes de Agosto. - Ele ofereceu-se para mudar para outro quarto, a fim de no lhe perturbar o sono, e Zoya riu-se com a 
preocupao. - No te atrevas! Se mudares para outro quarto, vou contigo!
       - Poderia ter a sua graa. - Parecia divertido. Elsie de Wolfe dera-lhes quartos suficientes por onde escolher. E, na Primavera, Zoya mandara-a preparar um 
berrio. Era todo decorado em azul-claro com murais suaves e luxuosos cortinados.
       Tratava-se de uma nova aposta para Mrs. Wolfe que se divertira com os Rolls em miniatura de Cobina Wright Junior, mas se sentiu satisfeita com as perspectivas 
mais rgidas de Zoya quanto ao mais adequado para as crianas. Zoya sempre denotara a dignidade e bom gosto com que nascera e acrescentara o seu toque pessoal  
casa em Sutton Place. Tinha uma aura de tranqilidade e requinte de que todos falavam. H muito que tinham vendido a manso de tijolo na Quinta Avenida e contratado 
pessoal novo.
       E no dia em que Alexis Romanov, o querido e meigo Baby,teria completado dezessete anos, deu  luz o primeiro filho. O parto correu facilmente e dele resultou 
um robusto rapazinho de quatro quilos que soltou o primeiro vagido enquanto o pai passeava nervosamente de um lado para o outro, fora do quarto.
       Zoya estava quase a dormir com o pequeno querubim nos braos quando Clayton a viu finalmente. O beb tinha o cabelo ruivo da me e um rosto redondo. Estava 
todo embrulhado em rendas, e lgrimas de alegria correram lentamente pelas faces de Clayton ao v-lo.
       - Oh,  to bonito... parece-se mesmo contigo...
       - S no cabelo... - murmurou, sonolenta. O mdico dera-lhe algo para dormir e fitou o marido com um ar sonhador. - Tem o teu nariz. Assemelhava-se a um pequeno 
boto de rosa no rosto angelical, e Clayton riu, acariciando o sedoso cabelo ruivo. Zoya fitou-o, ento, suplicante e perguntou: - Podemos chamar-lhe... Nicolau? 
Nicholas?...
       - Se quiseres. - Gostava do nome e sabia quanto significava para ela. Era no s o nome do czar como o do falecido irmo.
       - Nicholas Konstantin... - sussurrou, brindando-o com uma expresso de felicidade, e depois adormeceu, ao mesmo tempo que o seu adorado marido a velava; por 
fim, saiu do quarto nos bicos dos ps, agradecido por todas as ddivas da vida. Ao cabo de todos aqueles anos, tinha um filho... um filho! Nicholas Konstantin Andrews.
       "Soa bem", pensou a rir e desceu as escadas para festejar com uma taa de champanhe.
       - Ao Nicholas! - brindou, sozinho na sala e com um sorriso nos lbios. -  Zoya!
       
CAPTULO 30
       
       Os anos seguinte voaram sobre asas de anjos, cheios de pessoas, arrebatamento e festas. Zoya encaracolou o cabeo que o horrorizou, descobriu os cigarros 
e depois achou que eram uma idiotice. Cecil Beaton escrevia constantemente sobre ela e as famosas festas na casa que construram para os Veres em Long Island.
       Viram o ltimo espetculo de Nijinski em Londres, e Zoya ficou muito triste ao saber que ele enlouquecera e fora internado numa instituio em Viena. Contudo, 
o ballet j no fazia parte da sua vida,  exceo dos espetculos a que compareciam ocasionalmente com os Vanderbilt ou os Astor, Assistiam a torneios de plo, 
recepes, bailes e organizaram eles prprios uma srie deles. A nica vez que moderou o ritmo foi em 1924 quando descobriu que estava grvida novamente. O prncipe 
de Gales acabara de os visitar em Long Island, depois de assistir a um desafio de plo. Desta vez, passou bastante mal e Clayton esperava que tal significasse que 
teria uma menina. Aos cinqenta e dois anos, ansiava por ter uma filha.
       Ela nasceu na Primavera de 1925, o mesmo ano em que Josephine Baker se tornou a coqueluche de Paris. O corao de Clayton encheu-se de alegria quando viu 
a recm-nascida pela primeira vez. Tinha o mesmo brilhante cabelo ruivo da me e do irmo Nicholas e soube de imediato impor a sua presena aos admiradores. Chorava 
quando as suas ordens no eram satisfeitas e foi a menina dos seus olhos, mal nasceu.
       Alexandra Marie Andrews foi batizada com o vestido de batizado que h quatro geraes se conservava na famlia Clayton. Fora feito em Frana durante a guerra 
de 1812 e, quando o vestiu, parecia uma das duquesas imperiais.
       O cabelo era da cor do da me, mas os olhos eram os de Clayton e tinha uma personalidade muito prpria. Aos dois anos, dominava at mesmo o irmo. Nicky, 
como lhe chamavam, tinha a delicadeza do pai e a alegria de viver que fora apangio do irmo de Zoya. Era uma criana que todos admiravam e de que todos gostavam, 
sobretudo a me.
       Contudo, aos quatro anos, Sasha fazia andar todos numa roda-viva. At a velha Sava fugia, aterrorizada, quando a via zangada. A cadela tinha doze anos e continuava 
com eles, sempre nos calcanhares de Zoya quando ela estava em casa ou atrs do pequeno Nicky, a quem adotara.
       - Sasha! - exclamou a me, desesperada, quando, ao regressar a casa, a encontrou com as suas melhores prolas e tendo despejado um frasco inteiro de Lilas, 
o perfume que ainda usava e Clayton lhe comprava sempre. - No deves fazer coisas dessas!
       A prpria ama sentia dificuldade em control-la. Era uma jovem francesa que tinham trazido de Paris, mas no havia censuras nem ralhos que impressionassem 
a pequena condessa.
       - Ela  mesmo assim, mam! - desculpou-a Nicholas da porta. Tinha nessa altura oito anos e era to elegante como o pai. -  uma rapariga. As raparigas gostam 
de usar coisas bonitas.
       Os olhos cruzaram-se com os de Zoya e ela sorriu. Era to bom, to compreensivo, to parecido com Clayton. Gostava de todos, mas era Alexandra, Sasha como 
lhe chamavam, a testar-lhe a pacincia.
         noite, iam ao Cotton Club e depois danar em Harlm. E meses antes tinham assistido a uma fabulosa festa oferecida no fantstico apartamento de Cond Nast, 
na Park Avenue. Cole Porter tambm marcara obviamente presena e Elsie de Wolfe, que queria decorar uma casa para Zoya, em Palm Beach. Todavia, dada a sua pele delicada, 
ela no gostava de sol e contentava-se em ir at l de passagem todos os anos, quando ficavam com os Whitney.
       Nesse ano, Zoya comprou a roupa a Lelong e tornou-se muito amiga da sua encantadora mulher, a princesa Natalie, que era filha do gro-duque Paul e tambm 
russa como Ziva. E Tallulah Bankhead repreendera a jovem mais do que uma vez por ela no usar bastante bton.
       Os bailes com vestidos de fantasia estavam na moda e Clayton adorava-os. Tinha cinqenta e sete anos e continuava loucamente apaixonado pela mulher, embora 
a espicaasse sem cessar nesse ano, dizendo-lhe que ela tinha finalmente idade para estar casada com ele, agora que fizera trinta, Hoover tinha sido eleito presidente, 
derrotando o governador AI Smith de Nova Iorque. Calvin Coolidge decidira no voltar a candidatar-se. E o governador de Nova Iorque era Franklin Roosevelt, um homem 
interessante e casado com uma mulher inteligente, embora no fosse bonita. Contudo, Zoya apreciava a companhia dela e as conversas que partilhavam, ficando sempre 
satisfeita quando os Roosevelt os convidavam para jantar.
       Assistiram  pea Caprce com eles e, embora Clayton se mostrasse entediado, Zoya e Eleanor adoraram-na. Viram em seguida Street Scene, que ganhou o Prmio 
Pulitzer. Todavia, Clayton confessou que se divertia muito mais no cinema. Era doido por Colleen Moore e Clara Bow. E Zoya gostava, igualmente de Greta Garbo.
       - s como os estrangeiros - troava Clayton mas ela deixara de parecer estrangeira aos olhos de quem quer que fosse. Decorridos dez anos, Zoya integrara-se 
por completo na vida de Nova Iorque. Adorava o teatro, o ballet e a pera levara o pequeno Nicky a ver O Cavaleiro da Rosa com eles em Janeiro, s que ele ficou 
chocado ao ver uma mulher a fazer o papel de homem.
       - Mas  uma rapariga! - exclamara em voz alta, chocado, e as pessoas do camarote ao lado sorriram. Zoya agarrou-lhe ternamente na pequenina mo e sussurrou-lhe 
uma explicao aceitvel relacionada com o primor das vozes. - Que horror - declarou e enfiou-se no assento, enquanto Clayton sorria, sem muita certeza de no concordar 
com o filho.
       Nicholas interessou-se muito mais pelos vos de Lindbergh. E Clayton e Zoya foram ao casamento de Lindbergh com Anne, a filha do embaixador Morrow, em Janeiro, 
pouco antes de mudarem para Long Island, onde passariam o Vero.
       Os midos sentiam-se felizes ali e a prpria Zoya gostava de dar longos passeios pela praia, conversando com Clayton os amigos, ou ficando sozinha, a meditar 
nos Veres da sua juventude, em Livadia, na Crimeia.
       Por vezes, ainda pensava neles, seria impossvel o contrrio. As figuras do passado continuavam presentes no seu corao, mas as recordaes eram agora mais 
tnues e havia alturas em que tinha dificuldade em definir os rostos.
       Na comija da lareira do quarto, tinha fotografias de Marie e das outras jovens em molduras Faberg. Aquela em que estavam todas de cabea para baixo continuava 
a ser a sua preferida e o pequeno Nicholas tambm lhes conhecia os nomes e os rostos. Gostava de ouvir falar sobre como eram, o que tinham dito e feito, as maldades 
de criana e intrigava-o que ele e Alexis, o filho do czar, partilhassem o mesmo dia de anos.
       Tambm gostava de ouvir "as partes tristes", como lhes chamava... sobre o tio Nicolai, em honra de quem recebera o nome. Zoya falava-lhe das discusses, partidas 
e desapontamentos entre ambos e garantiu-lhe que ela e Nicolai tinham lutado quase tanto como ele e Sasha. Aos quatro, ele achava que ela era uma chata do pior. 
E havia outros em casa da mesma opinio. O pai mimava-a mais do que agradava a Zoya, mas nem pensar em repreender a filha na presena dele.
       -  uma criana, querida. No a perturbes.
       - Mas se no a disciplinarmos agora, Clayton, ela ser um monstro aos doze anos.
       - A disciplina  para os rapazes - replicava, mas tambm era incapaz de ralhar a Nicholas. Era bondoso para todos e, nesse Vero, brincou com eles um tempo 
infindo na praia.
       Nessa altura, o rei Jorge voltara a ter fora e poder na Gr-Bretanha. Zoya enervava-se sempre ao ver fotografias dele. Parecia-se tanto com o seu primo direito, 
o czar, que era sempre um choque aquele rosto a fit-la de um retrato. A prpria neta, Isabel, tinha s um ano menos do que Sasha.
       Nesse Vero, o que mais impressionou o pequeno Nicholas foi uma exibio de Yehudi Menuhin em Nova Iorque. O mido era um prodgio no violino e apenas trs 
anos mais velho do que Nicholas, o qual ficou fascinado pela sua maneira de tocar. Falou no assunto durante algumas semanas, e Zoya ficou satisfeitssima.
       Clayton andava a ler na praia A Oeste Nada de Novo e, nesse Vero, divertiu-se a jogar na bolsa. Desde Maro que as aes subiam e desciam e as pessoas faziam 
enormes fortunas. Nos ltimos dois meses, Clayton comprara dois colares de diamantes a Zoya com uma frao dos lucros obtidos. Mas ela estava muito triste com a 
notcia de que Diaghilev morrera em Veneza, em Agosto. Teve a sensao de que se fechava mais um captulo da histria para ela e falou no assunto a Clayton, enquanto 
passeavam na praia, depois de ter sabido a notcia.
       - Se ele no me tivesse deixado danar, teramos morrido de fome.
       Eu no sabia fazer mais nada - replicou, olhando tristemente para Clayton, e ele pegou-lhe na mo, recordando como a vida havia sido dura nessa altura, o 
horroroso apartamento prximo do Palais Royal, a quase inexistncia de comida durante a guerra. Tinham sido, na realidade, tempos difceis, mas pertencendo a um 
passado distante, e ela fitou-o com um sorriso. - E depois apareceste tu, meu amor... - Nunca se esquecia de que ele a salvara.
       - Teria aparecido outra pessoa.
       - No algum que pudesse amar como te amo - redargiu meigamente. Ele inclinou-se para a beijar e detiveram-se longamente a olhar os ltimos raios do pr 
do Sol do Vero. Regressariam a Nova Iorque no dia seguinte. Nicholas tinha de ir para a escola e Sasha ia comear a freqentar o jardim-infantil. Zoya pensou que 
lhe faria bem comear a contatar com outras crianas, embora Clayton no tivesse tantas certezas. No entanto, confiava sempre esse tipo de assuntos  mulher.
       Jantaram de novo com os Roosevelt, praticamente a seguir ao regresso. Tambm eles tinham voltado da sua casa de Vero em Campobello. E, uma semana mais tarde, 
os Andrews deram uma festa para celebrar o comeo de uma nova poca social. O prncipe Obolenski apareceu como era seu hbito e com ele centenas de outros igualmente 
famosos.
       O ms pareceu voar entre festas, teatro, bailes, e Outubro chegou num abrir e fechar de olhos. Clayton andava preocupado pois o negcio das aes no corria 
bem e telefonou a John Rockefeller a convid-lo para almoar, mas ele viajara at Chicago por uns dias e teria de esperar para o ver.
       Contudo, duas semanas mais tarde, Clayton sentia-se demasiado perturbado para almoar com quem quer que fosse. As suas aes estavam a baixar, mas no queria 
dizer a Zoya para no a afligir. Na verdade, apostara todos os seus bens na bolsa h uns meses. Estava tudo a correr to bem que tivera a certeza de conseguir triplicar 
a fortuna da famlia.
       Na quinta-feira, vinte e quatro, todos se desfaziam das aes, e os conhecidos de Clayton pareciam em pnico. Nessa tarde deslocou-se  bolsa e voltou aterrorizado 
e no dia seguinte as coisas pioraram. Na segunda-feira, verificou-se o desastre total e  noite Clayton soube que estava arruinado. A bolsa fechou  uma hora num 
vo esforo de deter a frentica venda das aes, mas para Clayton era tarde de mais. A bolsa ficaria fechada durante o resto da semana, mas ele j perdera tudo 
o que possuam. Apenas lhes restava as casas e o contedo. Tudo o mais desaparecera. Clayton regressou a casa a p, sentindo um enorme peso no peito. Mal conseguiu 
encarar Zoya, ao entrar no quarto.
       - Querido?... O que aconteceu?... - Ele tinha o rosto cor de cinza quando se virou para a olhar. Zoya estivera a escovar o cabelo que deixara crescer novamente, 
pois odiava os caracis to em moda, mas ele pareceu nem a ver ao atravessar o quarto, detendo-se junto  lareira com um olhar vazio. - O que aconteceu? - Deixou 
cair a escova e correu para junto dele. - Clayton... Clayton, o que se passa?
       O marido fitou-a de uma forma que lhe recordou subitamente o pai, quando Nicolai fora morto.
       - Perdemos tudo, Zoya... tudo... Fui um idiota... - Tentava explicar-lhe o que sucedera enquanto ela o fitava de olhos muito abertos, depois do que o abraou 
e apertou de encontro ao corpo, deixando-o chorar. - Meu Deus... Como pude ser to estpido... O que faremos, agora?
       O corao dela quase parou. Era como na revoluo. Contudo, havia sobrevivido e, desta vez, tinham-se um ao outro.
       - Venderemos tudo... trabalharemos... sobreviveremos, Clayton. No interessa. - Contudo, ele soltou-se dos braos dela, pondo-se a percorrer o quarto de um 
lado para o outro, frentico ante a conscientizao de que estavam arruinados e o mundo desabara  sua volta.
       - Ests doida? Tenho cinqenta e sete anos... O que achas que posso fazer? Conduzir um txi como o prncipe Vladimir? E tu? Regressares ao ballet? No sejas 
idiota, Zoya... Estamos arruinados! Arruinados! As crianas morrero  fome... - Chorava quando ela lhe pegou nas mos, que estavam geladas.
       - No morrero  fome. Posso trabalhar e tu tambm. Se vendermos o que temos, podemos viver durante anos desse dinheiro. - S os colares de diamantes chegariam 
para lhes dar casa e comida muito tempo; ele, porm, abanou a cabea com uma expresso triste, pois encarava a situao de uma outra forma. J vira um seu conhecido 
saltar da janela do gabinete. E Zoya desconhecia as enormes dvidas que ele contrara, sabendo que possua dinheiro para as cobrir quando quisesse.
       - E a quem venders? A todos os outros que tambm perderam a camisa?  tudo intil, Zoya...
       - No, no  - replicou num tom suave. - Temo-nos um ao outro e as crianas. Quando sa da Rssia, partimos numa trica sem nada, cobertas de trapos, com 
dois dos cavalos do tio Nicolau e as jias que conseguimos coser nas bainhas das roupas e sobrevivemos. - Ambos pensaram em simultneo na misria do apartamento 
dela de Paris, mas haviam sobrevivido e agora ela tinha-o e aos filhos. - Pensa no que os outros perderam... Pensa no tio Nicolau. e na tia Alix... No chores, Clayton... 
Se eles conseguiram ter coragem, no h nada que seja impossvel encarar, meu amor... - Mas ele limitava-se a chorar nos braos dela, incapaz de fazer frente  situao.
       Nessa noite, quando desceram para jantar, ele mal pronunciou qualquer palavra. Zoya tentava pensar, fazer planos, decidir o que vender e a quem vender. Possuam 
duas casas, todas as antiguidades que Elsie de Wolfe, agora Lady Mendl, os ajudara a descobrir, quadros, objetos... uma infinidade.
       Assemelhava-se a planear uma fuga, enquanto fazia sugestes e tentava acalm-lo. Todavia, ele subiu ao andar de cima com passo pesado e, ao falar-lhe do quarto 
de vestir, preparando-se para se deitar, no conseguiu arrancar-lhe uma nica resposta. Sentia-se preocupadssima com ele. Fora um rude golpe, mas, depois de sobreviver 
a tudo o mais que lhe acontecera na vida, recusava deixar-se abater agora.
       Ajud-lo-ia a lutar, ajud-lo-ia a sobreviver, esfregaria soalhos, se fosse necessrio. No se importava e, ao pr-se  escuta, interrogou-se sobre se ele 
sara do quarto ao lado. H vrios minutos que no dizia nada.
       - Clayton? - Entrou no quarto vestida com uma camisa de noite que ele lhe comprara h um ano, em Paris. Soltou uma exclamao abafada ao avist-lo, prostrado 
no cho, como se tivesse cado, correu para o seu lado e virou-o de costas. Contudo, ele fitou-a com olhos vazios. - Clayton! Clayton!... - Ps-se a soluar, gritando 
o nome dele, batendo-lhe na face, tentando arrast-lo pelo cho, como se tudo o que fizesse servisse para o reanimar. No entanto, ele no se mexia, no via e j 
no podia ouvi-la.
       Clayton Andrews morrera de um ataque de corao, incapaz de sobreviver  perspectiva de perder mais do que podia agentar e, quando caiu de joelhos ao lado 
dele e chorou, apoiando-lhe a cabea no regao, Zoya fitou-o, incrdula. O homem que amara estava morto. Abandonara-a. Desesperada e s, novamente pobre, o sonho 
em que se tornara a sua vida voltou a transformar-se em pesadelo.
       
CAPTULO 31
       
       - Mam, porque  que o pap morreu? - Sasha fitava Zoya com os grandes olhos azuis, ao voltarem do cemitrio, no Hispano-Suiza.
       Toda a gente em Nova Iorque comparecera, mas ela mal os vira.
       Sentia-se como que envolta numa nvoa, ao olhar para a criana, com o pesado vu preto ocultando-lhe o rosto, as mos enfiadas em luvas negras e os filhos 
numa angstia muda, sentados ao seu lado.
       Nicholas mantivera-se junto dela no funeral, um homenzinho agarrando-lhe na mo, de olhos cheios de lgrimas enquanto o coro cantava a docemente triste Ave-Maria. 
Contudo, outros como ele haviam morrido na semana anterior, alguns por vontade prpria, outros abatidos pelo golpe que no haviam conseguido suportar. Fosse como 
fosse, tinha-o perdido.
       - No sei, querida... No sei porqu... Teve um terrvel, e... foi para o cu ter com Deus. - Mal conseguia articular as palavras e Nicholas observava-a.
       - Est no cu com o tio Nicolau e a tia Alix? - perguntou Nicholas e ela fitou-o.
       Conservara-os vivos para ele, mas para qu? O que interessava agora? Todos os que amava tinham desaparecido...  exceo dos filhos.
       Abraou-os com fora ao sair do carro e conduziu-os precipitadamente para casa. No convidara ningum, no queria ver ningum, no queria dar explicaes, 
nem dizer-lhes nada. J bastava ter de contar s crianas.
       Decidira aguardar uns dias; j dissera  maioria da criadagem que podia ir embora. Ficava apenas com uma criada e a ama e poderia ser ela prpria a cozinhar. 
E o motorista tambm partiria quando ela vendesse os carros. Ele prometera fazer tudo o que pudesse para a ajudar.
       Conhecia vrias pessoas que tinham gostado do Alfa Romeo de Clayton e do Mercedes de que se servia e o Hspano-Suiza fora desejado por todos. Apenas se interrogava 
sobre se ainda haveria algum que os comprasse.
       A velha cadelinha Sava aproximou-se e lambeu-lhe a mo, como se percebesse, enquanto Zoya se mantinha sentada junto  lareira no quarto, fixando o stio onde 
ele morrera h uns dias. Parecia inacreditvel que tivesse desaparecido... que Clayton no estivesse ali... e agora tinha tanto que fazer. No dia seguinte ao da 
morte dele, convocara os advogados e eles tinham prometido explicar-lhe tudo.
       Quando o fizeram, as notcias nada tinham de bom. A situao era ainda pior do que Clayton receara. Deixara dvidas enormes e no restava nenhum dinheiro. 
Os advogados aconselharam-na a vender a casa de Long Island por qualquer preo e com todo o recheio. Seguiu o conselho e foram eles a coloc-la no mercado para venda. 
Nem sequer l foi buscar as suas coisas. Sabia que seria incapaz. Todos estavam a fazer o mesmo, os que no se suicidavam ou fugiam das casas pela calada a meio 
da noite, a fim de evitar as contas e o pagamento das hipotecas.
       E s no sbado conseguiu decidir-se a enfrentar os filhos. Tomara as refeies com eles, mas movia-se como uma mquina, de sala em sala, apenas lhes falando 
quando tinha de o fazer. Contudo, mal conseguia pensar. Havia tanto que fazer, tanto que embalar, tanto que vender e nenhum lugar para onde irem, depois de o fazer.
       Sabia que tinha de arranjar emprego, mas ainda nem sequer conseguia pensar no assunto. No conseguia pensar em nada e fitava-os com um olhar angustiado. Sabia 
que Sasha era demasiado nova para entender, mas tinha de dizer a Nicholas e s com muita dificuldade foi capaz de agentar a dor nos olhos do filho quando o tentou.
       De fato, apenas conseguiu abra-lo com muita fora e ambos choraram o marido e o pai que haviam amado. Sabia, porm, que tinha de ser forte, to forte quanto 
a av o fora por ela e em circunstncias ainda piores. Chegou a ponderar em regressar a Paris com os filhos, pois a vida talvez fosse mais barata, mas tambm l 
as pessoas tinham problemas, e Sergei Obolenski confidenciara-lhe que havia agora quatro mil russos ao volante de txis em Paris. E tudo seria demasiado estranho 
para eles. Zoya decidiu que deviam permanecer em Nova Iorque.
       - Nicholas... meu amor... vamos ter de nos mudar - As palavras pareciam duras e estranhas e ele fitou-a com um olhar confuso.
       - Porque o pap morreu?
       - Sim... No... Bom, na verdade, porque... - "Porque agora somos pobres... porque no podemos dar-nos ao luxo de continuar a viver aqui... porque..." - ... 
Porque vamos passar uns tempos difceis. No podemos ficar aqui. - Nicholas olhou-a com curiosidade, tentando mostrar-se corajoso, e Sasha brincava com a cadela, 
ao mesmo tempo que a ama saa da sala, debulhada em lgrimas. Sabia que teria de os deixar e sentia o corao despedaado por se separar das crianas de quem cuidara 
desde que tinham nascido. Contudo, Zoya dissera-lho no dia anterior. J no havia forma ocultar a verdade.
       - Vamos ser pobres, mam?
       - Sim - respondeu, pois sempre fora honesta com o filho. - Da forma a que penso que te referes. No vamos ter uma casa grande, nem uma poro de carros. Mas 
vamos ter ac coisas importantes... exceto o pap...
       - Sentiu um n na garganta. - ... Temo-nos, porm, uns aos outros, querido. E ser sempre assim. Lembras-te do que te contei sobre o tio Nicolau, a tia Alix 
e as crianas quando as levaram para a Sibria? Foram muito corajosos e encararam tudo quase como um jogo. Sempre souberam que o importante era estarem juntos, amarem-se 
uns aos outros e serem fortes... e  o que nos cabe fazer agora.
       As lgrimas corriam-lhe pelas faces enquanto falava, mas Nicholas fitava-a com uma expresso solene e tentando desesperadamente entender.
       - Vamos para a Sibria? - Foi a primeira vez que pareceu intrigado, e ela sorriu.
        - No, querido, no vamos. Vamos ficar aqui em Nova Iorque.
       - Onde viveremos? - Como todas as crianas, estava interessado nas realidades mais simples.
       - Num apartamento. Terei de encontrar um stio par vivermos.
       - Ser bonito?
       Pensou imediatamente nas cartas que Mashka lhe escrevera de Tobolsk e Iekaterimburgo.
       - Torn-lo-emos bonito, garanto.
       - Podemos levar a cadela? - acrescentou, fitando-a de novo com um olhar triste.
       Os olhos de Zoya encheram-se de lgrimas ao observar Sava a brincar com Sasha no cho e voltou a fix-lo.
       - Claro que sim - respondeu. - Ela acompanhou-me desde Sampetersburgo. - Quase sufocou, mas fixou-o com um olhar tranqilo e acrescentou: - No vamos deix-la, 
agora.
       - Posso levar os meus brinquedos?
       - Alguns... os que conseguirmos meter no apartamento, prometo.
       Sorriu, um pouco tranqilizado.
       - Ainda bem. - E depois voltou a fazer uma expresso triste, pensando no pai e no fato de nunca mais o ver. - Vamos dentro em pouco?
       - Acho que sim, Nicholas. - O mido esboou um aceno de cabea e, com um ltimo abrao, levou Sasha e a cadela e abandonaram o quarto.
       Zoya deixou-se ficar sentada no cho, rezando para ser to forte como Eugenia o tinha sido com ela e, nesse momento, Nicholas entrou nos bicos dos ps e fitou-a.
       - Amo-te, mam - pronunciou.
       Ela envolveu-o nos braos e tentou suster as lgrimas.
       - Tambm te amo, Nicholas... Amo-te muito, muito...
       Nicholas aproximou-se ainda mais e meteu-lhe algo na mo, sem uma palavra.
       - O que  isto?
       Era uma moeda de ouro, e ela sabia quanto o filho se orgulhava dela. Clayton dera-lhe apenas h uns meses e ele mostrara-a a toda a gente, durante semanas.
       - Podes vend-la, se quiseres. Ento, talvez no sejamos to pobres.
       - No... no, meu amor...  tua. O pap deu-ta.
       Nicholas manteve-se muito direito, tentando reprimir as lgrimas.
       - O pap teria querido que eu tomasse conta de vocs.
       Zoya limitou-se a abanar a cabea, incapaz de falar, apertando a moeda na mo. Abraou-o com muita fora e levou-o at ao quarto dele.
       
CAPTULO 32
       
       Os Wright tambm haviam perdido o seu dinheiro. Cobina e a filha tinham organizado um nmero musical de clube noturno, vestindo roupa de vaqueiro e engraados 
chapus. Ela e Bill estavam a divorciar-se e a casa de Sutton Place fora vendida por uma ninharia.
       Outras mulheres vendiam os casacos de peles em trios de hotel e trocavam-se pneis de plo por dinheiro a pronto. Zoya divisava por todo o lado o mesmo tipo 
de pnico que se verificara h doze anos em Sampetersburgo, mas sem a ameaa fsica da revoluo.
       A prpria casa deles em Long Island foi vendida por pouco mais do que o preo dos carros ali guardados, e os advogados de Clayton aconselharam-na a agarrar 
a oportunidade. "Cholly Knickerbocker" fazia o relato de novas humilhaes quase diariamente. A coluna era, na verdade, escrita por um indivduo chamado Maury Paul 
e o que ele descrevia era quase inacreditvel, referindo senhoras da sociedade que se tornavam empregadas de mesa e lojistas.
       Algumas no haviam sido afetadas pelo desastre financeiro, mas, ao passear os olhos por Sutton Place, Zoya tinha a sensao de que estava quase deserto. A 
sua criadagem fora embora,  exceo da ama que cuidava das crianas.
       Sasha parecia no entender o desaparecimento de Clayton, mas Nicholas tornara-se uma criana pensativa e sossegada e fazia constantes perguntas a Zoya sobre 
onde iam morar e quando venderiam a casa. Ela teria enlouquecido se no sentisse tanta pena do mido. Recordava-se dos seus prprios medos durante a revoluo. Os 
olhos de Nicholas assemelhavam-se a dois profundos lagos verdes de dor e preocupao.
       Parecia um homem pequeno enquanto a observava a escolher roupa mais prtica no quarto.
       Seria intil levar os requintados vestidos de noite, todos os Poiret, Chanel, Lanvin e Schiaparelli. Embrulhou-os e entregou-os  ama para que os vendesse 
no trio de entrada do Plaza. Tamanha indignidade seria demasiado humilhante, se ela no estivesse excessivamente preocupada.
       Necessitavam de todo o dinheiro que conseguissem arranjar.
       E, por fim, vendeu a casa com o mobilirio que Elsie de Wolfe lhes comprara, os quadros, os tapetes persas, at mesmo a loua de porcelana e os cristais. 
Mal chegou para as dvidas de Clayton e apenas lhes rendeu o suficiente para viverem uns meses.
       - No ficaremos com nada, mam? - perguntou Nicholas olhando em volta com uma expresso triste.
       - S com o que precisaremos no novo apartamento. - Andou  procura de casa durante dias a fio em bairros que nunca vira e, por fim, descobriu uma de duas 
pequenas divises na Rua 17 da zona ocidental da cidade.
       Tratava-se de um pequeno apartamento com duas.janelas que davam para as traseiras de um outro prdio. Era mnimo, escuro e havia um quase insupervel cheiro 
a lixo. Durante trs dias ela prpria fez a mudana com a ajuda da ama e de um velho negro que contratou por um dlar.
       Levaram duas camas, uma secretria, o maple do toucador, um pequeno tapete e alguns candeeiros. E pendurou o quadro de Nattier que Elsie de Wolfe lhes trouxera 
recentemente de Paris. Receava levar as crianas para aquele local, mas no fim de Novembro a casa em Sutton Place vendeu-se e, dois dias mais tarde, despediram-se 
com lgrimas e um beijo da ama e, de p, no trio de entrada de mrmore, Zoya deteve-se enquanto ela beijava Sasha e todos choravam.
       - Voltaremos aqui, mam? - perguntou Nicholas fitando-a e tentando mostrar-se corajoso, mas o queixo tremia-lhe e tinha os olhos muito abertos ao examinar 
o que o rodeava pela ltima vez. Zoya de bom grado lhe teria poupado esta dor, mas pegou-lhe na mozinha e ajeitou o casaco  volta dos ombros antes de lhe responder.
       - No, querido, no voltaremos. - Empacotara quase todos os brinquedos dos midos e um caixote de livros para ela, embora fosse incapaz de se concentrar em 
alguma coisa agora. Algum lhe oferecera O Adeus s Armas de Hemingway, mas o livro permanecera por abrir na sua mesa-de-cabeceira. Mal conseguia pensar quanto mais 
ler e ia estar ocupada  procura de emprego.
       O dinheiro que recebera pela venda da casa apenas serviria para os sustentar uns meses, se tivessem sorte. As coisas haviam perdido o valor e toda a gente 
estava a vender casas, peles, antiguidades e tesouros. Tudo valia apenas o que as pessoas podiam pagar, e o mercado estava a transbordar de objetos luxuosos que 
agora nada valiam.
       Parecia inacreditvel que alguns no tivessem sido afetados pela crise, pois Cholly Knickerbocker continuava a referir-se a casamentos, festas e bailes. Havia 
ainda gente que danava no Embassy Club todas as noites ou no Casino de Central Park, ao som da msica de Eddy Duchin.
       Contudo, Zoya sentia-se como se nunca mais viesse a danar e as crianas desceram os degraus da frente pela ltima vez, de malas na mo, e Sasha com a melhor 
boneca enfiada debaixo do brao. E como se tudo tivesse acontecido somente no dia anterior, apenas conseguia pensar no incndio do Palcio Fontanka... na camisa 
de noite da me em chamas quando ela saltou da janela... e em Eugenia empurrando-a pela porta das traseiras do pavilho at Feodor e  trica que as esperava.
        - Mam?... - Sasha falava com ela desde que tinham entrado no txi e Nicholas acenava  ama que se mantinha a chorar no passeio. Ia ficar em casa de amigos 
e j tivera uma oferta de emprego dos Van Alen, em Newport. - Mam... responde-me... - Sasha puxava-lhe com insistncia pela manga ao mesmo tempo que Zoya indicava 
a nova morada, de olhos baos e o rosto sombrio.
       Sentia-se como se estivesse novamente a deixar Clayton... a casa que tinham partilhado... a vida que sempre fora to fcil. Dez anos passados num abrir e 
fechar de olhos, olhos cheios de lgrimas agora, tamanhas eram as saudades que dele tinha. Recostou-se no assento e fechou os olhos com tristeza, esforando-se por 
se concentrar nos filhos.
       - Desculpa, Sasha... O que disseste? - A voz era um sussurro quando abandonaram Sutton Place pela ltima vez. Desaparecera a beleza e a vida fcil a que haviam 
posto um abrupto ponto final naquele dia fatdico de Outubro.
       - Perguntei quem  que ia tomar conta de ns? - Era maior a curiosidade de quem se encarregaria dela do que a tristeza de ter perdido a ama. Era tudo muito 
estranho e confuso, at mesmo para Nicholas, que tinha mais quatro anos.
       - Eu, minha querida.
       Sasha mostrou-se surpreendida e Nicholas fitou a me com aquele sorriso terno que sempre lhe recordava Clayton. Era quase doloroso olh-lo agora. Tudo lhe 
lembrava o que haviam perdido, como acontecera nos dias em que tinham abandonado a Rssia.
       - Eu ajudo-te, mam - declarou Nicholas num tom orgulhoso e esforando-se por no chorar. - Tomarei conta de ti e da Sasha. - Sabia que era esse o desejo 
do pai e no o deixaria ficar mal. Transformara-se subitamente no homem da famlia. Num nico ms, todo o seu mundo seguro e feliz ficara virado de pernas para o 
ar, mas estava decidido a manter-se  altura da situao, tal como Zoya. Ela recusava um novo sabor a derrota. Lutaria por eles... trabalharia... e um dia... um 
dia... estariam novamente seguros e a salvo.
       - Cozinhars para ns, mam? - perguntou Sasha, tirando a boneca  me e alisando-lhe o cabelo. A boneca chamava-se Annabelle e tinha o ar de ser bem tratada.
       As suas outras bonecas estavam  espera no novo apartamento. Zoya fizera todo o possvel para que o lugar parecesse confortvel e familiar, mas nada havia 
de familiar nos feios arredores, quando o txi parou na Rua 17 da zona ocidental. A jovem mulher estremeceu ao olhar em volta, chocada por todo aquele aspecto sombrio, 
e o rosto de Nicholas denotava o mesmo ao seguir a me pelas escadas e tentando afastar o enjo causado pelos cheiros horrveis.
        - Aqui cheira mesmo mal! - exclamou Sasha que subia atrs de Zoya.
       O motorista levou-lhes as malas e Zoya pagou-lhe dos escassos fundos. Jurou que nunca mais andaria de txi. Podiam apanhar um autocarro ou andar a p. No 
haveria mais txis, nem mais carros. Vendera o Hspano-Suza aos Astor.
       Zoya conduziu-os at ao nico quarto do apartamento, onde havia duas camas, dominando tudo o mais. Os brinquedos encontravam-se arrumados ao lado e os quadros 
do berrio de Sasha tinham sido cuidadosamente pendurados sobre a sua cama.
       Ao lado da de Nicholas, colocara um retrato de Clayton, muito elegante com o seu uniforme durante a guerra. Trouxera uma mala cheia de fotografias dela, de 
Clayton e dos filhos, e outras, j a amarelecer e emolduradas, de Nicolau e Alexandra e das crianas em Livadia e Tsarskoie Selo. Trouxera igualmente o precioso 
ovo imperial, cuidadosamente enrolado num par de pegas de Clayton. Guardara tambm numa caixa os seus botes de punho e alfinetes de gravata, mas as jias dela 
seriam vendidas em leilo.
       Para os que ainda tinham dinheiro, deparavam-se oportunidades fantsticas por todo o lado, colares de diamantes, tiaras e belos colares de esmeraldas, "apanhados" 
a troco de ninharias em leiles ou vendas privadas. O desespero de uma famlia transformava-se subitamente na boa sorte de outra.
       - Onde vais dormir, mam? - Nicholas parecia novamente preocupado quando percorreu o apartamento e verificou que havia um nico quarto.
       Nunca vira alojamentos to pequenos e at mesmo os criados de Sutton Place tinham tido melhores quartos do que aqueles. O stio era feio e apertado.
       - Vou dormir aqui no sof, querido.  muito confortvel. - Sorriu-lhe e inclinou-se para o beijar na face ao ver que os olhos do filho se enchiam de lgrimas.
       Era injusto ter de fazer aquilo aos filhos e lutou contra uma sensao de fria que comeara recentemente a sentir por Clayton. Outros tinham sido mais perspicazes 
do que ele, menos audazes, e menos idiotas ao arriscar tudo o que tinha.
       Se no tivesse morrido, poderiam ter sobrevivido de outra forma... os dois... Podiam, pelo menos, ter enfrentado o destino lado a lado, mas agora estava mais 
sozinha do que nunca. Todo o peso assentava nos seus ombros, como achava que devia ter sido o caso de Eugenia. Aquela coragem e fora da av serviam-lhe de exemplo 
ao olhar para o filho que lhe oferecia a cama no quarto que iria partilhar com a irm.
       - Podes dormir na minha cama, mam. Dormirei a.
       - No, querido... Ficarei bem. - E depois com um sorriso corajoso: - Todos ficaremos. Agora, tens de tomar conta da Sasha, enquanto fao o jantar.
       Pendurou os casacos de todos, contente por ter trazido roupas quentes para eles. O apartamento era frio e no havia sequer uma lareira, como no apartamento 
de Paris.
       - Porque no levas a Sava  rua? - A velha cadelinha mantinha-se sentada junto  porta, como se esperasse voltar novamente a casa, como todos.
       Nicholas ps-lhe a trela e disse a Sasha que se portasse bem enquanto ia l abaixo e a me lhes cozinhava o frango que trouxera da casa em Sutton Place. No 
entanto, ela sabia muito bem que as provises que trouxera no durariam muito, nem to-pouco o dinheiro.
       O Natal foi um dia como qualquer outro,  exceo da boneca que comprou a Sasha e do relgio de pulso que conservara das coisas de Clayton para oferecer a 
Nicholas.
       Abraaram-se num esforo imenso para no chorar e pensando na imensidade de todas as perdas.
       O apartamento estava gelado, os armrios vazios e as jias de Zoya tinham sido leiloadas. Estava decidida a conservar o ovo imperial, mas alm disso quase 
nada restava e sabia que tinha de encontrar um emprego depressa; contudo, no sabia aonde, e isso atormentava-a dia e noite.
       Pensou em trabalhar numa loja, mas no queria deixar as crianas sozinhas o dia inteiro. Sasha no andava na escola e no podia abandon-la enquanto Nicholas 
freqentava a escola pblica juntamente com as crianas do bairro, a maioria vestida de farrapos e vivendo em barracas espalhadas pelo rio Hudson.
       Os bairros de lata surgiam por todo o lado, pululando de pessoas que haviam sido acionistas, homens de negcios e advogados. Cozinhavam as refeies em caldeires 
ao ar livre e rebuscavam os arredores  noite  procura de comida e de objetos que pudessem usar. Zoya sentia o corao despedaado ao ver aquelas crianas de grandes 
olhos esfonicados e rostos magros, as faces vermelhas do frio, acolhendo-se junto s fogueiras para se aquecerem fora das barracas.
       Comparado com toda aquela misria, o apartamento parecia um paraso e lembrava os filhos, quase diariamente, de como deviam sentir-se agradecidos. No entanto, 
at para ela era difcil ao ver o dinheiro a desaparecer e ps-se desesperadamente  procura de emprego. Tinha de ser algo que pudesse fazer  noite, quando as crianas 
estivessem a dormir ou, pelo menos, seguras em casa.
       Sabia que podia confiar em Nicholas para tomar conta de Sasha depois de ter regressado da escola. Era responsvel e bom para a irmzinha, brincando com ela, 
ajudando-a a reparar os brinquedos e falando sem cessar sobre o pai. O tema era-lhe por de mais doloroso ao observ-los e ia at  sala onde chorava em silncio, 
acariciando a velha Sava. A cadelinha estava agora quase cega e Nicholas tinha de a transportar ao colo pelas escadas, quando ia passe-la  rua sob o frio agreste.
       Era Janeiro quando Zoya se dirigiu da Rua 17 da zona ocidental at  Sexta Avenida, junto  Rua 49, movida por um plano louco. Sabia que era louco, mas no 
lhe ocorria mais nada. Apresentara-se em vrios restaurantes, s que os proprietrios tinham entrevistado outras tantas mulheres como ela. "Qual a sua experincia 
como empregada de mesa?", perguntavam. Ela deixaria cair as bandejas, partiria a loua e seria requintada de mais para trabalhar longas horas a troco de um parco 
salrio. Insistia em que seria capaz, mas mandavam-na embora e no havia mais nada que soubesse fazer, exceto danar, mas no no ballet, como em Paris.
       Em desespero, chegara a pensar na prostituio, a que outras tambm haviam recorrido, mas sabia que era incapaz. A memria de Clayton era demasiado forte 
e pura, ele era o nico homem que amara e no conseguia suportar a idia de outro homem a toc-la, nem mesmo para dar de comer aos filhos.
       Danar era a nica coisa que sabia, mas tambm estava consciente de que aos trinta anos no podia regressar ao ballet, depois de ter passado mais de onze 
anos sem praticar. Continuava a ser flexvel e elegante, mas estava demasiado velha e sentia-se com mil anos quando entrou no teatro de que ouvira falar. J estivera 
no Ziegfeld e tinham-lhe dito que lhe faltava altura. Assim, restava-lhe tentar o chamado teatro burlesco.
       Situava-se a cinco quarteires do Ziegfeld Theater. Quando entrou pela porta do palco, o teatro estava naturalmente a abarrotar de mulheres seminuas que tentou 
ignorar, enquanto procurava algum com quem pudesse falar.
       - Ah, sim?  bailarina? - retorquiu num tom de mofa a mulher que tratava desses assuntos.
       - Fui.
       - Com quem?
       Engoliu em seco, sabendo que parecia demasiado afetada com o seu simples vestido preto Chanel. Devia ter posto qualquer coisa mais alegre e ousada, mas h 
muito que vendera todos os vestidos de noite e apenas tinha a roupa sbria e quente que recolhera nos seus armrios de Sutton Place, o que sabia ser-lhe til no 
gelado apartamento.
       - Dancei com os Ballets Russes em Paris. E pratiquei Rssia antes disso.
       - Uma bailarina, hein? - A idia parecia diverti-la imenso, e Zoya conservava-se muito quieta, com o cabelo ruivo apanhado e o rosto sem pintura. - Escute 
bem, senhora. No est numa casa de repouso para velhas bailarinas. Isto  o Fitzhugh's Dance Hall! - Pronunciou o nome com orgulho, e Zoya sentiu-se invadir por 
uma repentina onda de fria.
       - Tenho vinte e cinco anos - mentiu. - E era muito boa.
       - Sim? Em qu? Aposto que nunca fez nada do gnero antes. - Era verdade, mas tambm o era que estava disposta a fazer o que quer que fosse pelos filhos. Lembrou-se 
subitamente da sua audio para os Ballets Russes, h treze anos em Paris.
       - Deixe-me tentar... s uma vez... Posso aprender... Por favor... - Os olhos encheram-se-lhe involuntariamente de lgrimas na altura em que um indivduo baixo 
e de charuto passou por perto, a fitou de relance e gritou para dois homens que transportavam peas do cenrio:
       - Seus idiotas! Vo partir isso! - E, em seguida, com uma expresso aborrecida, agitou o charuto na direo da mulher que falava com Zoya.
       - As malditas raparigas apanharam sarampo... Achas normal? Arranjei um grupo de velhas peritas em sapateado e adoecem como se fossem raparigas... trs delas 
a semana passada... mais sete agora... Merda, o que vou dizer s pessoas que pagaram uma data de massa para ver o espetculo? Que vo ver um bando de gajas a acenar-lhes 
os traseiros cheios de manchas? Era o que faria, se tivessem aparecido para trabalhar.
       - Acenou o charuto na direo de Zoya e para l dela, como se a sua presena no contasse, o que era verdade.
       Sem esperar que ele lhe falasse diretamente, tomou a palavra.
       - Gostaria de fazer uma audio para um emprego como bailarina.
       Agora tinha apenas um leve sotaque mas ainda bvio, s que nenhum deles a identificou como russa. A mulher julgara que ela era francesa, com aquele luxuoso 
vestido preto e o porte elegante.
       - Sabe sapatear? - perguntou, virando-se para a avaliar, mas sem parecer impressionado.
       - Sim. - Decidiu poupar-lhe explicaes.
       - Uma bailarina - replicou a outra mulher com evidente desprezo.
       - J teve sarampo? - perguntou-lhe. Era muito mais importante para ele, com dez coristas doentes e sabe-se l quantas expostas a apanh-lo nas prximas semanas.
       - J tive - murmurou, rezando para que ainda soubesse danar. Talvez tivesse esquecido tudo. Talvez...
       Encolheu os ombros e voltou a meter o charuto apagado entre os lbios.
       - Deixa que ela mostre o que vale, Maggie. Se conseguir aguentar-se e fizer alguma coisa, pode ficar at as outras voltarem. - Depois, virou costas e a mulher 
de nome Maggie pareceu aborrecida. A ltima coisa que precisavam era de uma gaja elegante e plida que se achava boa de mais para um nmero de revista. Mas ele tinha 
razo, pois, com as outras doentes, estavam com problemas.
       - Okay - acedeu, relutante, e depois gritou l para trs: - Jimmy! Levanta o cu e vem tocar! - Um homem negro com um sorriso enorme apareceu e olhou para 
Zoya.
       - Ei, querida. O que queres que toque? - perguntou, sentando-se ao piano. E ela quase riu, presa de um terror nervoso. O que lhe responderia? Chopin? Debussy? 
Stravinsky?
       - O que  que costuma tocar para as audies? - replicou, e ele sorriu.
       Era fcil concluir que se tratava de uma aristocrata branca a passar um mau bocado e teve pena dela, com aqueles grandes olhos verdes e um sorriso implorativo. 
Parecia uma criana e interrogou-se sobre se ela alguma vez danara. Ouvira falar de outras que tinham ido trabalhar em cabars, executando nmeros inventados por 
elas, como Cobina Wright e Cobina Junior.
       - De onde ? - Maggie estava a falar com outra pessoa, enquanto eles conversavam. E Jimmy concluiu que gostava dela.
       Zoya sorriu-lhe, orando intimamente para no fazer m figura, mas valia a pena correr o risco.
       - Da Rssia, h muito tempo. Vim para c depois da guerra.
       Jimmy baixou a voz e olhou-a nervosamente por cima do. ombro.
       - J danou alguma vez? Diga-me a verdade enquanto a Maggie no est a ouvir. No posso ajud-la se no souber a verdade.
       - Estive no ballet quando era jovem. H onze anos que no dano sussurrou, agradecida.
       - Deus do cu... - Abanou a cabea, desgostoso. - O Fitzhugh's Dance Hall no tem ballet... - Era, sem dvida, a declarao do ano, pois nesse preciso momento 
duas coristas seminuas passaram por eles. - Oua prosseguiu em tom de confidncia. - Vou tocar uma coisa lenta. Limite-se a rolar os olhos e a sorrir, d um pouco 
ao traseiro, mostre as pernas e tudo correr bem. Tem alguma roupa consigo? - Mas bastou olh-la para saber a resposta.
       - Lamento, eu...
       - No interessa. - E, nesse momento, Maggie voltou a prestar-lhes ateno.
       - Vais ficar para a sentado nesse cu negro todo o dia, Jimmy, ou fazemos uma audio? Pessoalmente, que se dane, mas o Charlie quer que eu a veja. - Deitou 
um olhar maldoso a Zoya e ela rezou para no se sair mal. Contudo, seguiu as instrues dele, e Charlie, o diretor, voltou a passar, murmurando entre dentes ao observ-la. 
Queria que se apressasse, pois ainda tinha de fazer uma audio a dois novos cmicos e a uma stripper.
       - Merda. Exatamente o que no preciso aqui... uma senhora pronunciou, como se fosse um insulto. - ... Abana o cu... Isso.. assim... Vejamos as pernas... Mais.
       Ela corou e levantou a saia, continuando a danar ao som do ritmo que Jimmy lhe marcava. Tinha umas belas pernas e a graciosidade de treze anos a danar nunca 
a abandonara.
       - O que s, cus? - gritou-lhe o homenzinho, e ela corou mais. - Uma virgem? As pessoas no vm aqui rezar, mas ver boazonas a danar. Achas que podes faz-lo 
sem parecer que acabaste de ser violada?
       - Tentarei, sir... Darei o meu melhor...
       - timo. Ento, volta aqui esta noite, s oito. - Maggie afastou-se com evidente desdm, e Jimmy levantou-se de um salto e veio abra-la.
       - Ei! Conseguimos!
       - No tenho palavras para agradecer - retorquiu, apertando-lhe a mo e com um olhar grato. - Tenho dois filhos, Eu... ns... - Lutava novamente para suster 
as lgrimas enquanto o velho negro a observava. - Preciso muito do emprego... - As lgrimas correram-lhe pelas faces e limpou-as com um misto de alvio e embarao, 
incapaz de falar por momentos.
       - No se preocupe. Vai sair-se bem. At esta noite. - Sorriu e regressou ao jogo de cartas em que estava a perder quando Maggie o chamara.
       Zoya percorreu a p todo o caminho de regresso ao apartamento pensando no que acabara de fazer. Contrariamente  sua audio com os Ballets Russes h uns 
anos, no a invadia um sentimento de vitria e realizao. Somente alvio por ter um emprego e um sentimento de embarao e degradao; no entanto, tratava-se da 
nica coisa que podia fazer e era  noite, no tendo de deixar Sasha com pessoas conhecidas. De momento, parecia-lhe o emprego ideal, s que era terrvel.
       Nessa noite, explicou a Nicholas que tinha de sair. No disse porqu ou onde ia. No queria ter de lhe explicar que aceitara um emprego como corista. O eco 
das palavras de Charlie soava-lhe aos ouvidos: "Abana o cu... Deixa-me ver essas pernas... O que s tu? Uma virgem?" Sob a perspectiva deles, era. Com quase trinta 
e um anos e apesar das dificuldades da vida, sempre fora protegida de pessoas como ele e da gente para quem ia danar.
       - Onde vais, mam?
       - Sair um pouco. - J deitara Sasha. - No fiques de p at muito tarde - avisou e beijou-o, apertando-o um mento, como se fosse a caminho da sua prpria 
execuo. - Vai para a cama daqui a meia hora.
       - Quando voltas? - quis saber, fitando-a, desconfiado da porta do quarto.
        - Mais tarde.
       - Passa-se alguma coisa, mam? - Era uma criana intuitiva e estava a aprender muito cedo as cruis reviravoltas do destino que podem mudar o curso da vida 
num momento.
       - No, nada, meu querido. - Sorriu-lhe. - Garanti-te. - Pelo menos, teriam algum dinheiro.
       Contudo, no estava de forma alguma preparada para as piadas ordinrias, as raparigas vulgares, a roupa espalhafatosas e os comediantes que a beliscavam quando 
ela passava apressadamente junto deles.
       Porm, quando a msica comeou e o pano subiu, deu o seu melhor  multido risonha e excitada, e ningum se queixou quando ela perdeu o compasso mais do que 
uma vez. Contrariamente aos Ballets Russes de outrora, aqui ningum dava por nada. Apenas queriam ver um grupo de raparigas bonitas praticamente despidas. Havia 
contas e lentejoulas, curtos cales de cetim com sapatos a condizer e inmeras boas de plumas e enormes toucados.
       Tratava-se de uma pobre imitao do que as raparigas do Ziegfeld usavam e lamentou mais do que uma vez o destino por ser baixa de mais para ser contratada 
pelo bondoso Florenz Ziegfeld. Zoya devolveu a roupa  rapariga que lha tinha emprestado e regressou lentamente a casa sem ter tirado a pintura. Ficou ainda mais 
chocada quando um homens ao passar por ela lhe ofereceu um nquel pelo "melhor que pudesse fazer por ele" num vo de escada prximo. Correu durante todo o resto 
do caminho at casa, lavada em lgrimas c pensando na vida terrvel que a esperava no Fitzhugh's Dance Hall.
       Nicholas dormia a sono solto quando ela voltou e beijou-o ternamente, manchando-lhe a face de bton, pensando em como ele parecia um anjo e igual ao pai. 
Era impossvel que Clayton tivesse desaparecido... a tivesse abandonado a tudo aquilo... Se soubesse... mas era tarde de mais para lamentos. Regressou nos bicos 
dos ps  sala de estar onde dormia, tirou a pintura e vestiu a camisa de noite. Longe iam as sedas, cetins e enfeites. Tinha de usar grossos vestidos de flanela 
para se proteger do gelo do apartamento.
       E, de manh, preparou o pequeno-almoo a Nicholas antes de ele ir para a escola: um copo de leite, uma fatia de po e uma laranja que comprara no dia anterior. 
Mas ele no se queixou. Sorriu-lhe, deu-lhe uma palmadinha na mo e saiu a correr, depois de beijar Sasha.
       Nessa noite, ela voltou ao teatro, como nas semanas seguintes, at as bailarinas regressarem curadas do sarampo. Mas Charlie comunicou-lhe entre dentes que 
podia ficar, que tinha umas pernas bonitas e no lhe causava problemas. Jimmy festejou com uma cerveja roubada do seu bar favorito, ao lado. Ela agradeceu e bebeu 
um gole para no o magoar. Omitiu que fazia trinta e um anos nesse mesmo dia.
       Jimmy era o seu nico amigo. As outras haviam pressentido imediatamente que ela era "diferente". Nunca partilhavam piadas e, de fato, mal lhe dirigiam a palavra, 
quando falavam dos namorados e dos homens que as perseguiam nos bastidores. Algumas chegavam a fugir com homens que lhes ofereciam dinheiro.
       Era o que Charlie apreciava nela. No era muito divertida, mas era certinha. No primeiro ano, deram-lhe um aumento. Zoya nem conseguia acreditar que ficara 
tanto tempo, mas no havia sada, nenhum lugar para onde ir e ningum que lhe pagasse. Disse a Nicholas que danava num pequeno grupo de bailado e deixou-lhe o nmero 
de telefone do teatro para o caso de uma emergncia. No entanto, agradeceu a Deus por ele nunca lhe ter telefonado. E, pressentindo que ela se envergonhava do que 
fazia, Nicholas nunca lhe pediu para assistir a um espetculo. Uma noite, Sasha acordara com tosse e febre e o filho esperara a p que ela chegasse, mas no quisera 
telefonar-lhe para o teatro e preocup-la. Nicholas revelou-se em todos os aspectos uma ajuda e um enorme conforto.
       - Voltaremos a ver os nossos amigos? - perguntou-lhe calmamente uma tarde, enquanto ela lhe cortava o cabelo e Sasha brincava com Sava.
       - No sei, querido.
       Recebera uma carta da ama h uns meses. Sentia-se feliz na casa dos Van Alen e tinha imensas histrias sobre o dbut, no incio do Vero, de Barbara Hutton 
e do de Doris Duke, em Newport. Parecia uma ironia que ela ainda fizesse parte desse mundo e Zoya no. Todavia, tal como eles a haviam evitado quando ela aparecera, 
convencidos de que fora uma bailarina do Folies-Bergre, era ela quem os evitava agora, sabendo que se tornara finalmente uma corista.
       Sabia tambm que, tendo perdido tudo como muitas outras do seu meio, deixara de lhes despertar qualquer interesse. A condessa que havia sido e tanto os impressionara 
j no o era. No era ningum. As guas tinham-se fechado sobre ela. Tal como sobre Clayton e muitos outros. O nico de quem sentia ocasionalmente saudades era Sergei 
Obolenski e a sua corte de aristocratas russos. S que eles no compreenderiam no que se tornara a sua vida, nem porque fazia o que fazia. Ele continuava casado 
com Alice Astor.
       Nessa altura, Elsa Maxwell escrevia uma coluna social e, de vez em quando, ao ler o jornal, Zoya debruava-se sobre as histrias de Cholly Knickerbocker relativas 
s pessoas que ela conhecera quando estava casada com Clayton. Tudo lhe parecia agora to irreal, como se nunca as tivesse conhecido. Havia relatos de runas financeiras, 
suicdios, casamentos, divrcios. Sentia-se feliz por no fazer parte da lista.
       Leu igualmente a notcia da morte de Pavlova em Haia, devido a pleurisia. Em Maio, levou as crianas  inaugurao do Empire State Building. Corria o ano 
de 1931 e estava uma bela tarde de Maio.
       Nicholas contemplou, respeitoso, a imponente construo. Subiram no elevador, pararam na plataforma de observao no centsimo segundo andar, e a prpria 
Zoya sentiu-se como se voasse. Foi a tarde mais feliz que passavam de h muito tempo a essa parte e regressaram ao apartamento sob uma atmosfera primaveril, com 
Sasha na frente deles, rindo e brincando. Tinha, ento, seis anos e era dona de uns belos caracis e um rosto muito semelhante ao de Clayton.
       Quando passaram, havia pessoas a venderem mas na rua e mais do que uma mulher admirou as duas bonitas crianas. Nicholas ia fazer dez anos em Agosto, mas 
muito antes j a cidade se encontrava sob um calor opressivo. E o 2 de julho foi o dia de maior calor que alguma vez se registrou.
       Os dois midos ainda estavam acordados quando ela saiu para trabalhar de vestido branco de algodo estampado com pequenas flores azuis. Nicholas sabia que 
ela trabalhava, mas continuava sem saber onde e tambm no lhe parecia importante.
       Deixou-lhes um jarro com limonada e recordou a Nicholas que devia vigiar Sasha. As janelas estavam escancaradas para que o ar entrasse no apartamento, semelhante 
a uma fornalha.
       - No a deixes sentar-se demasiado perto das janelas - avisou Zoya e deteve-se a ver Nicholas, puxando a mida de cabelo louro para o quarto deles. Sasha 
vestia somente cuecas e estava descala, parecendo angelical ao dizer adeus  me. - Ficam bem? - perguntou como sempre que os deixava, mas com um peso no corao 
ao percorrer a distncia que a separava do teatro. Mal conseguia andar sob aquele calor trrido. Mesmo de noite, a rua parecia queimar sob os ps e os buracos nas 
solas dos sapatos ainda tornavam a deslocao mais incmoda. Por vezes interrogava-se sobre como tudo acabaria, como iriam sobreviver e quanto tempo conseguiria 
manter-se no palco com aquelas plumas e roupa ridcula.
       Nessa noite pouca gente assistiu ao espetculo, pois estava demasiado calor para se ir a algum lugar. As pessoas que ainda tinham posses retiraram-se para 
Newport e Long Island, e as outras mantiveram-se em casa sem fazer nada ou sentadas nos degraus. Sentia-se exausta quando, por fim, regressou a casa e no pensou 
em nada quando ouviu as sirenes  distncia.
       Foi s ao aproximar-se da sua rua que o fumo acre lhe entrou pelas narinas e todo o corpo lhe tremeu ao avistar os carros de bombeiros e o que lhe pareceu 
o bairro em chamas quando dobrou a esquina. Soltou uma exclamao horrorizada, comeou a correr, e uma mo gelada parecia apertar-lhe a garganta ao ver os carros 
de bombeiros no exterior do prdio onde moravam.
       - No!... No!... - Gritava e tentava abrir caminho por entre a multido que se mantinha de p na rua, observando os trs prdios a arder. Havia fumo por 
todo o lado e sentiu-se sufocar quando avanou e foi detida pelos bombeiros  porta do prdio.
       - No pode entrar a, minha senhora!... - Gritavam uns para os outros no meio do incndio, pontuado pelo som aterrador das derrocadas. Havia exploses de 
vidros, e um deles provocou-lhe um corte no brao, que comeou a sangrar e lhe manchou o vestido. Um dos homens puxou-a  fora para trs. - Disse-lhe que no podia 
entrar!
       - Os meus filhos! - arquejou. - Os meus bebs!... - Debatia-se com uma fora sobre-humana e, por um momento, escapou-lhe, mas ele voltou a agarr-la. - Largue-me! 
- Virou-se na sua direo e o homem prendeu-lhe os braos com as mos fortes, enquanto os vizinhos observavam a cena num mudo terror. - Os meus filhos esto ali... 
Oh, meu Deus... por favor... - Soluava incontrolavelmente, quase sufocada pelo fumo que lhe queimava os olhos e a garganta quando ele gritou para dois dos homens 
que voltaram a correr ao interior do prdio. J tinham trazido vrias idosas e um homem novo estava desmaiado na rua, enquanto dois bombeiros tentavam reanim-lo.
       - Ei, Joe! - chamou o bombeiro e voltou-se rapidamente para Zoya. Onde esto eles, minha senhora? Em que apartamento?
       - No ltimo andar... um menino e uma menina... - Sufocava naquele ar cheio de fumo e j vira que as escadas no passavam do terceiro andar.
       - Deixe-me ir... por favor... por favor... - Ele passou a informao aos colegas que voltaram a correr ao edifcio durante o que pareceu horas...
       Zoya observava, sabendo que, se eles morressem, a sua vida terminaria. Os filhos eram tudo o que lhe restava no mundo, a sua razo de continuar a existir.
       Contudo, os bombeiros no reapareceram e outros trs entraram no prdio, munidos de machados e com expresses ansiosas. Ouviu-se um som horrvel e uma exploso 
de fascas e chamas quando uma parte do telhado desabou e Zoya quase perdeu os sentidos.
       Tinha os olhos esbugalhados de terror e precipitou-se subitamente para diante, resolvida a encontr-los ou a morrer com eles. Passou a toda a velocidade pelos 
bombeiros, continuou a correr mas, nessa altura, como que em resposta s suas preces, avistou os bombeiros avanando na sua direo, dois deles com fardos nos braos, 
e ouviu uma criana a chorar no meio do estrondo do incndio.
       Viu que era Nicholas a agitar os braos e a cham-la. O terceiro bombeiro pegou-lhe ao colo como se ela fosse uma criana, e os trs homens precipitaram-se 
para fora do edifcio, no preciso momento em que o fogo ia devor-los. Mal tinham chegado  rua, quando o estrondo no interior do prdio aumentou. Um muro de chamas 
ergueu-se nas costas dos fugitivos e Nicholas abraou-a, chorando e gritando pelo seu nome, enquanto ela lhe cobria a face de beijos, apercebendo-se depois de que 
Sasha estava inconsciente.
       Ajoelhou-se no passeio ao lado da filha, gemendo e murmurando o nome dela, enquanto os bombeiros lutavam desesperadamente por lhe salvar a vida. Por fim, 
a criana soltou um grito abafado e mexeu-se. Zoya deitou-se junto dela e chorou, acariciando-lhe os caracis e abraando-a.
       - Meu beb... minha querida... - Sentia que era o castigo por os ter deixado ss a noite inteira. S conseguia pensar em como teria sido se ao regressar a 
casa... Era quase impensvel. Manteve-se ali na rua, agarrando os filhos e observando o desabar do prdio, que levava tudo o que possuam.
       - S interessa que estejam vivos - repetia, lembrando-se da noite em que a me morrera no incndio do Palcio Fontanka.
       Os bombeiros permaneceram at ao romper de mais um dia abrasador de Julho e declararam que apenas dali a uns dias algum poderia entrar.
       Teriam de encontrar outro stio onde ficarem, antes de tentarem procurar nas cinzas o que quer que restasse dos seus pertences.
       Zoya pensou nas fotografias de Clayton que se haviam perdido... nas pequenas recordaes que conservara... as fotogratas dos pais, dos avs, do czar... pensou 
no ovo imperial que guardara para a eventualidade de precisar de vend-lo, mas no podia preocupar-se com nada disso agora.
       O importante era que Nicholas e Sasha estavam vivos. E depois, com uma dolorosa picada no corao, lembrou-se de Sava. A cadela que trouxera de Sampetersburgo 
h tanto tempo tinha morrido no incndio.
       - No consegui traz-la, mam... Estava escondida debaixo do sof quando os homens entraram - soluou Nicholas. - Queria traz-la, mam... mas eles no me 
deixaram...
       - Chiu... querido, no chores... - O longo cabelo ruivo soltara-se durante a luta que travara com os bombeiros para ir buscar os filhos e espalhava-se sobre 
o vestido branco de flores azuis. Tinha vestgios de cinzas no rosto e a camisa de noite de Nicholas tresandava a fumo. Estava entranhado, mas nunca lhe cheirara 
to bem, ou significara tanto aos seus olhos como naquele momento. - Amo-te tanto... Ela era muito velhinha, Nicky... Chiu... meu querido, no chores... - Sava tinha 
quase quinze anos e chegara at quele momento com eles, mas Zoya apenas conseguia pensar nos filhos.
       Uma vizinha acolheu-os, e Zoya e as crianas dormiram no cho da sala em cima de cobertores. Por mais que tomassem banho e ela lavasse o cabelo, continuavam 
a cheirar a fumo, mas, de cada vez que olhava l para fora e avistava o prdio em runas do outro lado da rua, apercebia-se da sorte que haviam tido. Estremecia 
s de olhar. No dia seguinte telefonou para o teatro e disse que no ia trabalhar.
       Nessa noite, percorreu a p a distncia que a separava do teatro para ir buscar o ltimo pagamento. No lhe interessava que morressem de fome, mas no voltaria 
a deix-los sozinhos... nunca mais.
       O pagamento chegaria para lhes comprar roupa e alguma comida, mas no tinham onde ficar nem para onde ir e, totalmente exausta, foi  procura de Jimmy para 
se despedir dele. - Vai deixar-nos? - Sentia-se triste que ela se fosse embora, mas compreendeu ao ouvir a histria.
       - No posso continuar a fazer isto. Se alguma coisa tivesse acontecido... - E podia voltar a acontecer. Era um pecado deix-los ss. Teria de encontrar qualquer 
outra coisa, nas ele limitou-se a esboar um aceno de cabea. No estava surpreendido e achava bem.
       - De qualquer maneira, no pertence aqui. Nunca pertenceu. - Sorriu. Toda a sua raa emergia da forma como se movimentava, embora nunca lhe tivesse falado 
do passado, mas doa-lhe sempre o corao ao v-Ia levantar a perna com as outras. - Arranje outra coisa. Um bom emprego com a sua gente. Este no  um lugar para 
si. - Contudo, h um ano e meio. que trabalhava ali e servira para lhe pagar a renda. - No tem famlia nem amigos a quem recorrer? - Zoya abanou a cabea, pensando 
uma vez mais na sua sorte por no ter perdido os filhos. - Tem algum stio para onde voltar? A Rssia ou algo assim? - Ela sorriu ante a ignorncia dele sobre a 
devastao ocorrida.
       - C me arranjarei - retorquiu, sem na realidade ter a mnima idia do que fazer.
       - Onde esto agora?
       - Na casa de um vizinho. - Jimmy sentiu vontade de a convidar a ficar em Harlm, mas sabia que no lhe conviria. O tipo de pessoas como ela iam danar ao 
Cotton Club para se divertirem e no mudavam para Harlm com um velho pianista de um clube.
       - Bom. D-me notcias, sim?
       Inclinou-se, beijou-a na face e os olhos brilharam-lhe quando ela foi buscar o dinheiro. Apertou-lhe calorosamente a mo no momento em que ela se foi embora, 
satisfeito com o que fizera. S mais tarde nessa noite  que ela descobriu o dinheiro na mala. Cinco notas de vinte dlares que Jimmy lhe metera na mala enquanto 
fora receber. Ganhara-os a jogar s cartas nessa tarde e sentira-se contente por poder dar-lhe aquele dinheiro.
       Zoya sabia que s podia ter sido ele. Pensou em voltar ao teatro e devolver-lho, mas sabia quanto lhe era necessrio. Em vez disso, escreveu um bilhete a 
agradecer e prometeu pagar-lhe, assim que pudesse. Contudo, sabia que tinha de arranjar um emprego e um lugar onde pudessem viver.
       No final da semana, o prdio arrefecera o suficiente para permitir que os residentes l voltassem. Pouco havia que pudessem salvar e dois dos apartamentos 
tinham ficado completamente destrudos; ao subir as escadas pouco seguras, Zoya susteve a respirao e interrogou-se sobre o que iria encontrar. Abriu a porta com 
dificuldade e vasculhou o cho com uma p. O cheiro a fumo ainda pairava no ar e toda a sala ficara destruda.
       Os brinquedos, a roupa das crianas e a maioria da sua fora consumida, mas sabia que provavelmente nunca deixariam de cheirar a fumo. Meteu os pratos numa 
caixa recuperada do fogo e verificou, surpreendida, que a mala das fotografias ainda ali estava, intocvel.
       Sustendo a respirao, ps-se a remexer no que fora uma arca e subitamente avistou-o... O esmalte estava rachado, mas o resto mantinha-se intacto. O ovo imperial 
resistira. Fitou-o com muda surpresa e ps-se a chorar... Era uma relquia de uma vida perdida. Nada mais havendo a salvar, meteu os restos das coisas das crianas 
numa nica caixa, o seu vestido Chanel, dois saia-casacos e um vestido de linho cor-de-rosa e o nico par de sapatos.
       Demorou apenas dez minutos a levar tudo para baixo e, quando se voltou para dar uma ltima vista de olhos, deparou com Sava por baixo do sof... deitada e 
tranqila, como se estivesse a dormir. Zoya ficou uns minutos em silncio a observ-la e depois fechou a porta devagar e desceu as escadas apressadamente com as 
caixas, ao encontro dos filhos que a esperavam do outro lado da rua.
       
CAPTULO 33
       
       Depois de agradecer profusamente aos vizinhos pela sua generosidade, Zoya alugou um pequeno quarto de hotel com algum do dinheiro que Jimmy lhe tinha dado. 
J lhe restava menos de metade aps comprar roupa nova s crianas e um vestido decente para si que no cheirasse a fumo Tinham de comer num restaurante todas as 
noites. Falavam no que iriam fazer, e Nicholas fitava-a com expectativa; porm, uma noite ao ler o jornal  procura de emprego, ocorreu-lhe subitamente uma idia. 
No se tratava de algo que faria se pudesse escolher, mas no podia. Tinha de deitar mo  realidade, mesmo que a embaraasse.
        No dia seguinte, ps o vestido novo, escovou cuidadosa o cabelo e desejou ter ainda algumas das suas jias, mas apenas lhe restava a aliana de casamento 
e um certo porte, quando se contemplou calmamente no espelho.
       - Onde vais, mam? - perguntou Nicky, ao observar o vestido.
       - Vou arranjar emprego. - Desta vez, no se sentia incomodada quando os filhos a olharam.
       - Sabes fazer alguma coisa? - retorquiu Sasha inocentemente e Zoya riu.
       - No muito.
       Contudo, percebia de roupas, usara as melhores nos ltimos dez anos e, mesmo em criana, ela e Marie tinham estudado tudo o que as mes e outros familiares 
haviam usado. Sabia arranjar-se com estilo e talvez pudesse ensinar outros a faz-lo. Havia muitas mulheres com dinheiro bastante para se darem a esse luxo.
       Apanhou o autocarro depois de confiar Sasha aos cuidados do irmo e, nervosa por os deixar sozinhos, desceu prximo da morada indicada no anncio. Ficava 
na Rua 51,  sada da Quinta Avenida. Ao chegar  porta, verificou que o estilo correspondia ao que esperara. Um porteiro fardado ajudava as senhoras a sarem dos 
automveis e, uma vez l dentro, avistou senhoras elegantes e alguns homens observando os luxuosos artigos da loja.
       Havia vestidos e chapus e uma linha extraordinariamente bonita de sapatos de fabrico prprio. As empregadas estavam bem vestidas e muitas tinham um porte 
aristocrtico. "Era o que devia ter feito logo de incio", censurou-se, tentando afastar a imagem do incndio e rezando para que as crianas estivessem bem. Era 
a primeira vez que as deixava sozinhas desde aquela noite e jamais teria a certeza de que estavam bem fora da sua vista, mas sabia que isto era algo que tinha de 
fazer. No lhe restava qualquer alternativa.
       - Posso ajud-la, madame? - perguntou uma mulher de cabelo grisalho com um vestido preto, quando Zoya olhou em volta. - Deseja ver alguma coisa? - O sotaque 
era visivelmente francs e Zoya virou-se para ela com um sorriso composto. Tremia por dentro, mas rezava para que no se notasse quando lhe respondeu no impecvel 
francs que falava desde criana.
       - Posso falar com o gerente, por favor?
       - Ah... que bom ouvir algum falar francs! - exclamou a mulher de idade, a sorrir. Parecia uma professora elegantemente vestida de um colgio para jovens. 
- Sou eu. Deseja alguma coisa?
       - Sim - respondeu Zoya num tom baixo, de forma a que ningum pudesse ouvi-la. - Sou a condessa Ossupov e ando  procura de emprego. - Seguiu-se um momento 
de silncio enquanto os olhares das duas mulheres se cruzavam e, depois de uma interminvel espera, a francesa esboou um aceno de cabea.
       - Percebo. - Interrogava-se sobre se a jovem mulher seria uma fraude, mas o seu porte tranqilo sugeria quem dizia ser, e a francesa esboou um gesto discreto 
na direo de uma porta fechada nas suas costas. Importa-se de vir ao meu gabinete, madame? - O ttulo no era importante para ela, mas sabia que podia s-lo para 
as suas clientes, como Barbara Hutton, Eleanor Carson, Doris Duke e as amigas. Tinha uma clientela de elite e os ttulos significavam muito para a maioria delas. 
Muitas casavam com prncipes e condes, s para poderem usufruir dos ttulos.
       Zoya seguiu-a at uma sala de estar elegantemente decorada em tons de preto e branco. Era onde mostrava os seus vestidos mais caros e a nica rival era Chanel 
que trouxera recentemente os seus artigos para os Estados Unidos, mas liavia lugar para ambas em Nova Iorque.
       A francesa chamava-se Axelle Dupuis e chegara de Paris h uns anos, tendo montado aquele elegante salo conhecido apenas por "Axelle". No entanto, h anos 
que era um must de Nova Iorque. Zoya chegara a comprar-lhe um vestido mas no usara obviamente o seu nome russo e, por sorte, Madame Dupuis no se recordava dela.
       - Tem alguma experincia no ramo? - inquiriu, observando Zoya atentamente. O vestido que ela usava era barato e os e os sapatos estavam gastos, mas as mos 
graciosas, a forma como se movimentava e o penteado indicavam algum que conhecera melhores tempos. Falava alm disso francs, no que fosse muito importante ali. 
E parecia exibir um estilo nato, mesmo vestida sem luxo. Axelle sentia-se intrigada. - J alguma vez trabalhou em moda?
       - No - respondeu Zoya honestamente e abanando a cabea. - Mudei-me de Sampetersburgo para Paris depois da revoluo. - J era capaz de pronunciar as palavras, 
agora que coisas piores tinham acontecido e tinha de pensar em Nicky e Sasha. Por eles, rastejaria por aquele emprego e no conseguiu ler nada no rosto da mulher 
quando ela preparou um ch para ambas.
       O servio de ch em prata era muito bonito e a loua de porcelana, francesa. Tinha um porte elegante e observou atentamente Zoya quando ela bebeu um gole. 
Coisas deste gnero eram importantes devido  sua clientela, as mais elegantes e exigentes mulheres do mundo. No podia permitir-se que fossem servidas por pessoas 
sem maneiras e rudes e ficou satisfeita ao examinar Zoya com argutos olhos cinzentos.
       - Quando foi para Paris, trabalhou em moda? - Axelle sentia-se curiosa. Havia algo de inconfundivelmente aristocrata naquela jovem mulher quando Zoya a fixou.
       - Dancei com os Ballets Russes. Era a nica coisa que sabia fazer e ramos muito pobres. - Decidira ser honesta com ela, pelo menos at certo ponto.
       - E depois?
       Zoya esboou um sorriso triste, sentada muito direita na sua cadeira.
       - Casei com um americano e vim para c em mil novecentos e dezenove. - "H doze anos..." - O meu marido morreu h dois anos. Era mais velho do que eu... - 
No falou  francesa de tudo o que tinham perdido. Deixara de ser importante e queria salvar a dignidade de Clayton, mesmo depois da sua morte. - Tenho dois filhos 
para sustentar e perdemos tudo o que possuamos num incndio... No que fosse muito...
       - A voz morreu-lhe ao pensar no pequeno apartamento onde Sava morrera e fixou Axelle. - Preciso de um emprego. Sou velha demais para voltar a danar. - Varreu 
as imagens do clube e prosseguiu: - ... e sei algumas coisas sobre roupa. Antes da guerra... - Hesitou, mas forou-se a continuar, pois, se ia apoiar-se no ttulo, 
teria de lhe fazer referncia. Em Sampetersburgo, as mulheres eram elegantes e bonitas... - Sorriu, sem que Axelle deixasse de a observar.
       -  parente dos Romanov? - Muitas russas insignificantes haviam feito esta reivindicao, mas havia algo naquela jovem mulher que deixava antever tal possibilidade. 
Estava disposta a acreditar quando os olhos verdes de Zoya a fixaram e se expressou na sua voz meiga, pegando na xcara de ch como uma aristocrata.
       - Sou prima do falecido czar, madame.
       No disse mais nada, e Axelle refletiu demoradamente. Valia a pena tentar. Ela podia ser o que as clientes desejavam... e como adoravam condessas! Axelle 
sabia que a idia de terem uma condessa a atend-las seria um fator de suprema excitao.
       - Podia dar-lhe uma oportunidade, senhora... condessa, acho que deveria trat-la assim. Aqui, tem de usar o seu ttulo.
       - Claro. - Zoya tentava parecer calma, mas apetecia-lhe gritar de alegria, como se fosse uma criana... Ia ter um emprego! No Axelle's! Era perfeito! No Outono, 
os dois midos estariam na escola e ela regressaria a casa s seis da tarde. Era respeitvel... era perfeito... No conseguiu reprimir um sorriso de alvio e Axelle 
correspondeu. - Obrigada, madame. Muito obrigada.
       - Vejamos como se sai. - Levantou-se para indicar que a audincia tinha terminado, e Zoya apressou-se a imit-la e pousou a xcara no tabuleiro sob o olhar 
extremamente agradado de Axelle. - Quando gostaria de comear?
       - Na prxima semana convm-lhe?
        - Perfeito. s nove horas. Em ponto. E... Condessa - acrescentou pronunciando a palavra com o -vontade da prtica e olhando para o vestido de Zoya -, talvez 
antes de ir, queira escolher um vestido para usar... algo preto ou azul-escuro... - Pensou no seu adorado Chanel preto que no conseguira recuperar do incndio. 
Tresandava a fumo, por mais que se esforasse por tirar o cheiro.
       - Muito obrigada, madame.
       - De nada. - Inclinou a cabea num gesto delicado e transps de novo a porta que dava para a sala principal onde uma mulher com um enorme chapu branco soltava 
exclamaes ante os sapatos. Fez recordar a Zoya que teria de comprar sapatos novos com o pouco dinheiro que possua e apercebeu-se subitamente de que se esquecera 
de perguntar qual era o salrio. Contudo, era irrelevante. Tinha um emprego, fosse l por que preo. Era muito melhor do que vender mas na rua.
       Deu a notcia s crianas mal regressou e foram dar um passeio no parque, depois do que voltaram ao hotel para fugir ao calor. Nicholas estava to excitado 
como ela, e Sasha perguntou com os olhos azuis muito abertos se tambm tinham vestidos para menina.
       - No, meu amor, no tm. Mas compro-te um vestido novo assim que puder. - Comprara-lhes o mnimo depois do incndio, tal como para ela, mas agora um novo 
dia nascera. Tinha um emprego respeitvel e esperava ganhar um salrio decente. No teria de voltar a danar.
       Depois, interrogou-se com um sorriso sobre se veria algumas das suas antigas amigas no Axelle's. Haviam-na posto de lado quando chegara de Frana para depois 
a adorar. Tinham-na esquecido completamente quando Clayton morrera e abandonado depois de perderem tudo. Como as pessoas eram falsas; no que se importasse. S os 
filhos tinham valor.
       O resto chegara e partira, viera e fora-se novamente embora. No lhe interessava. Haviam sobrevivido mesmo assim... A vida voltava a parecer-lhe infinitamente 
preciosa.
       
CAPTULO 34
       
       Os seus dias na loja eram longos e cansativos e as mulheres que atendia muito exigentes. Eram impetuosas e mimadas, algumas incapazes de se decidirem, mas 
mostrava-se sempre paciente e achava que sabia o que lhes ficava bem.
       Era capaz de pegar num vestido, puxar aqui, enfiar ali e. subitamente, a mulher parecia desabrochar quando se olhava ao espelho... conseguia escolher o chapu 
perfeito para o vestido certo... um raminho de flores... uma pequena pele... os sapatos encantadores. Criava imagens que se transformavam em poesia, e a patroa estava 
satisfeitssima com o seu trabalho.
       No Natal, Zoya conseguira uma posio de relevo no Axelle's, superara todos em vendas e as clientes perguntavam sempre pela condessa. Era condessa para aqui, 
condessa para ali... e no pense, condessa... e, oh, condessa, por favor... Axelle observava-a em ao, sempre discreta e com um porte digno, vestida com elegncia, 
as luvas brancas imaculadas quando vinha trabalhar, o cabelo impecavelmente penteado e um leve sotaque que aumentava o mistrio. E Axelle cedo espalhara que ela 
era prima do czar. Exatamente aquilo de que precisava para a loja e, quando Sergei Obolenski tambm veio conhecer aquela "condessa" de que todos falavam, fitou-a, 
estupefato, vendo as lgrimas que lhe enchiam os olhos.
       - Zoya! O que ests a fazer aqui?
       - A divertir-me. - No mencionou os dois anos brutalmente difceis a que sobrevivera.
       - Que tontice! Mas, de fato, talvez seja divertido, sim! Tens de vir jantar conosco. Contudo, recusou sempre. J no tinha roupa, tempo, ou mesmo energia 
para andar com os conhecidos dele. Tudo isso acabara para ela.
       Todas as noites regressava a casa at junto dos filhos, que a esperavam no apartamento da Rua 39, prximo de East River, para onde conseguira mudar-se a tempo 
do Natal. Os dois andavam em colgios decentes e os salrios regulares e comisses que Axelle lhe pagava no lhe permitiam luxos, mas chegavam para levarem uma vida 
confortvel, o que era uma grande melhoria por comparao aos dois ltimos anos quando danava no Fitzhugh's Dance Hall.
       Estava a trabalhar para Axelle quando o beb Lindbergh foi encontrado morto em Maio de 1932 e leu, surpreendida, que Florenz Ziegfeld morrera em Julho do 
mesmo ano. Interrogou-se sobre como teria sido trabalhar para ele e no no Fitzhugh's Dance Hall. Interrogou-se tambm sobre o que seria feito de Jimmy. H muito 
que lhe devolvera os cem dlares que ele lhe metera furtivamente na mala quando estava to desesperada, mas nunca mais tinha tido notcias. Ele era parte de uma 
outra vida, outro captulo encerrado enquanto continuava a trabalhar como condessa no Axelle's. E ficou muito emocionada quando Eleanor Roosevelt veio v-Ia e comprar 
alguma roupa  loja durante a campanha eleitoral. Recordava-se com entusiasmo dos velhos amigos de Clayton e mandou-lhes um telegrama quando Frank1in ganhou e enviou 
a Eleanor um bonito gorro de pele, que ela disse que usaria na inaugurao em Maro e Axelle ficou satisfeitssima.
        - Sabe indubitavelmente lidar com elas, ma chre - elogiou a elegante francesa.
       Gostava de Zoya e sentia-se encantada com o pequeno Nicholas. O mido tinha os modos de um jovem prncipe e as histrias que Obolenski lhe contara uma tarde 
sobre Zoya e as filhas do czar tornavam-se agora muito credveis. Ela era uma mulher invulgar nascida numa poca de infelicidade. Se as coisas tivessem acontecido 
de uma outra forma, poderia casar-se com um prncipe da sua estirpe e viver num dos palcios que frequentara em criana. Parecia injusto, mas no mais do que a depresso 
que se notava por todo o lado. Nesse ano, toda a gente  exceo da clientela de Axelle parecia estar a morrer de fome.
       Na quadra natalcia, Zoya foi com Nicholas ao cinema ver o filme Tarzan e ele ficou encantado. Depois, foram tomar ch. Ele andava na Trinity School e saa-se 
bem. Era um bom estudante e uma criana inteligente e, aos onze anos, afirmava que um dia seria um homem de negcios, como o pai o fora. Sasha queria ser estria 
de cinema. Zoya tinha-lhe 'comprado uma boneca Shirley Temple e ela nunca a abandolava, juntamente com Annabelle, que sobrevivera ao incndio. Eram crianas felizes, 
embora tivessem passado por tempos difceis.
       Na Primavera, Zoya tornou-se assistente de Axelle. Tal significava mais dinheiro e mais prestgio e deixava mais tempo livre  prpria Axelle. Zoya convenceu 
Axelle a permitir que Elsie de Wolfe redecorasse a loja, e o negcio pareceu disparar em flecha.
       - Bendito seja o dia em que atravessou aquela porta - exclamou Axelle, sorrindo, por sobre as cabeas das entusiasmadas clientes no primeiro dia em que voltaram 
a abrir depois da nova decorao. O prprio presidente da cmara, Fiorello La Guardia, apareceu, e o negcio ia de vento em popa.
       Deu um casaco de marta a Zoya como presente e a jovem mulher soltou uma exclamao de espanto. Era de marta criada em fazenda e ressaltava-lhe a elegncia 
quando apanhava o autocarro diariamente para ir ter com os filhos. No ano seguinte, conseguiu mudar-se para um novo apartamento. Ficava somente a trs quarteires 
do Axelle's, e cada um dos filhos tinha agora o seu quarto. Nicholas tinha doze anos, quase treze, e sentia-se aliviado por se haver liberto um pouco de Sasha.
       Dois anos mais tarde, no dcimo primeiro aniversrio de Sasha, Axelle convidou Zoya a ir com ela a Paris, na primeira viagem de negcios.
       Nicholas ficou na casa de um amigo e contratou uma baby-sitter para tomar conta de Sasha durante trs semanas.
       Partiu com Axelle no Queen Mary no meio de uma grande excitao e de champanhe. Detendo-se a olhar a Esttua da Liberdade quando o navio arrancou lentamente 
de Nova Iorque, Zoya pensava no que conseguira durante aquele tempo, desde a morte de Clayton. Haviam passado sete anos. Tinha agora trinta e sete e sentia-se como 
se houvesse vivido vrias vidas.
       - Em que ests a pensar, Zoya? - Axelle estivera a observ-la, muito calma e direita junto ao varandim,  medida que avanavam para mar aberto. Estava elegantemente 
arranjada com um vestido verde-esmeralda da cor dos olhos e um pequeno gorro de pele na cabea e, ao virar-se para fixar a patroa, os olhos eram quase da mesma cor 
do mar.
       - Pensava no passado.
       - Acontece com freqncia, julgo - replicou Axelle num tom calmo. Respeitava-a muito e interrogava-se sobre a razo por que ela no saa mais. Oportunidades 
no lhe faltavam. As clientes eram doidas por ela e havia sempre um monte de convites em cima da sua secretria dirigidos simplesmente  "condessa Zoya". Contudo, 
ela s raramente sala e dizia sempre que "j fizera tudo isso antes". - Talvez Paris traga alguma excitao  tua vida. - Zoya limitou-se a rir e abanou a cabea.
       - Tive excitao bastante na minha vida, muito obrigada. - Revolues e guerras e o casamento com um homem que adorara. Continuava apaixonada por Clayton 
depois de todos aqueles anos e sabia que voltar a ver Paris seria doloroso sem ele. Era o nico homem que tinha amado e sabia que nunca haveria outro como ele... 
exceto o filho, talvez... Sorriu ante a idia e respirou a brisa martima. - Vou a Paris em trabalho anunciou bruscamente a Axelle e depois riu ante as palavras 
da mulher mais velha.
       - No estejas assim to segura, minha querida.
       Regressaram depois ao camarote. Zoya desfez as malas e colocou as fotografias dos filhos junto  cama. No precisava de mais nada, nem nunca precisaria. Nessa 
noite deitou-se com um livro novo e elaborou uma lista das roupas que iam encomendar em Paris.
       
CAPTULO 35
       
       Axelle reservara quartos no Ritz, convenientemente localizado na Place Vendme e resplandecente de todo o luxo que Zoya no esquecera.
       Tinham passado anos desde que tomara banho numa funda banheira de mrmore, igual  que tinha na casa de Sutton Place. Fechou os olhos e usufruiu de todo o 
prazer da funda banheira cheia de gua quente.
       Comeariam as compras na manh seguinte, mas naquela primeira tarde Zoya saiu calmamente do hotel para dar um passeio e foi invadida pelas recordaes ao 
vaguear pelas ruas, avenidas e os parques que outrora partilhara com Clayton.
       Foi tomar uma bebida ao Caf de Flore e depois, incapaz de se controlar, apanhou um txi para o Palais Royal e deteve-se em silncio diante do prdio onde 
vivera com Eugenia. Haviam passado dezessete anos desde que ela morrera, dezessete anos de bons e maus momentos e trabalho duro Junto dos seus amados filhos. As 
lgrimas correram-lhe devagar pelas faces, perante as recordaes da av e do falecido marido.
       Era quase como se esperasse que ele lhe batesse no ombro, como na noite em que se haviam conhecido. Ainda conseguia ouvir-lhe a voz, como se lhe tivesse falado 
horas antes.
       Em seguida, virou costas lentamente, foi at s Tulherias e sentou-se num banco, imersa nos seus pensamentos, observando as crianas a brincar  distncia. 
Interrogou-se sobre como seria trazer Nicholas e Sasha at ali, uma vida em certos aspectos mais fcil do que em Nova Iorque; porm, o seu trabalho no Axelle's conferira 
um novo rumo  sua existncia.
       H cinco anos que estava com Axelle e era excitante encontrar-se do lado das compras, em vez de ter de esperar no meio de hordas de mulheres mimadas e exigentes. 
Conhecia to bem as mulheres. Havia algumas com quem lidava bem, mulheres que compreendia e conhecera toda a sua vida. Lembrara-se mais do que uma vez da sua prpria 
me.
       E os homens tambm gostavam de Zoya, pois ela era to capaz de lhes vestir as mulheres como arranjar discretamente roupa para as amantes que traziam  loja. 
Nunca lhe escapava uma alcoviteirice dos lbios, uma crtica maldosa, mas apenas bom gosto e sugestes interessantes. Axelle sabia que sem ela o sucesso da loja 
jamais teria atingido aquele ponto. "A condessa", como todos lhe chamavam, adicionava um chique incontestvel s vidas dos ricos nova-iorquinos.
       Contudo sentiu-se repentinamente muito, muito longe dali. Sentiu-se de novo urna jovem e ao mesmo tempo triste, pensando na nova vida que se iniciara para 
ela desde a ltima vez que estivera em Paris.
       Ao apanhar um txi de volta ao hotel, o corao deu-lhe um salto no peito, interrogando-se sobre se poderia encontrar Vladimir Markovski.
       Nessa noite, no hotel, procurou o nmero na lista telefnica, mas o nome no constava. Desconfiava que ele j teria morrido nessa altura. Deveria estar prximo 
dos oitenta anos, se fosse vivo.
       Nessa noite, Axelle convidou-a para jantar no Maxm's, mas, com um olhar nostlgico, recusou e disse que estava muito cansada e queria descansar antes de 
iniciarem a volta  procura das novas colees. No explicou a Axelle que a recordao de Clayton a lev-la a jantar l seria por de mais dolorosa. Aqui, via-se 
obrigada a fechar constantemente as portas ao passado.
        Parecia-lhe apenas a um passo de Sampetersburgo. Tudo estava to prximo. No se encontrava a meio mundo de distncia. Encontrava-se nos lugares que descobrira 
com Eugenia e Vladimir, nos stios onde Clayton a levara. Era quase doloroso estar ali e ansiava por deitar mo ao trabalho a fim de esquecer o passado e ocupar-se 
com o presente.
       Nessa noite telefonou a Nicholas para casa do amigo e contou-lhe tudo sobre Paris. Prometeu que um dia o traria com ela. Era uma cidade to bonita e desempenhara 
um papel to importante na sua vida. O filho disse-lhe que a amava e tivesse cuidado com ela. Mesmo aos catorze, quase quinze anos agora, no receava mostrar emoes.
       -  o russo que existe em ti - espicaava-o Zoya por vezes, pensando em quanto se parecia com Nicolai, sobretudo quando o ouvia troar de Sasha. O telefonema 
para a filha foi igualmente tpico. Sasha dera-lhe uma lista de compras de tudo o que queria de Paris, que inclua um vestido vermelho e vrios pares de sapatos 
franceses.  sua maneira, era to amada quanto Natalya o fora e quase to exigente. Interrogou-se sobre o que Mashka teria pensado deles, ou de corno teriam sido 
os seus prprios filhos, caso houvesse vivido e casado.
       Nessa noite foi um alvio adormecer e fugir s recordaes. A viagem a Paris revelou-se muito mais difcil do que pensara e sonhou com Alexis, Marie e Tatiana, 
e as ouvia, tendo acordado s quatro da manh e sendo incapaz de voltar a adormecer at quase s seis. Na manh seguinte, sentia-se cansada quando mandou vir crossants 
e caf.
       - Alors, estamos prontas? - perguntou Axelle, aparecendo  porta com um belo conjunto Chanel vermelho, o cabelo branco impecavelmente penteado e a bolsa Herms 
ao ombro. Parecia novamente muito francesa e Zoya pusera um vestido de seda azul e um casaco a condizer de Lanvin. Era da cor do cu, e apanhara o cabelo ruivo num 
rolo elegante.
       Ambas pareciam muito parisienses quando o porteiro lhes abriu a porta de um txi, e Zoya reconheceu o sotaque do motorista. Era um dos inmeros e idosos russos 
que continuavam a guiar txis em Paris; porm, quando lhe perguntou se conhecia Vladimir, limitou-se a abanar a cabea.
       No se lembrava de lhe ouvir o nome nem de o ter conhecido. Era a primeira vez em anos que Zoya falava russo. At mesmo com Sergei Obolenski falava francs. 
E Axelle escutou a musicalidade das palavras, at pararem nos Estdios Schiaparelli, na Rue de la Paix.
       Tinham combinado comear por ali e foi uma loucura. Encomendaram dzias de camisolas diferentes para a loja, conversaram longamente com a estilista, explicando 
as necessidades e preferncias da clientela. Ela era uma mulher interessante e ficaram intrigadas ao descobrir que tinha apenas mais trs anos que Zoya. Usufrua 
de um xito notvel  poca, quase to grande como o de Gabrielle Chanel, ainda instalada na Rue Cambon. Foi l que se dirigiram a seguir c, mais tarde nesse mesmo 
dia,  Casa Balenciaga, onde Zoya escolheu vrios vestidos de noite e os experimentou para lhes sentir o cair e o toque, enquanto Axelle a observava.
       - Devias ter sido estilista tambm - disse-lhe Axelle a sorrir. - Tens uma intuio surpreendente para roupas.
       - Sempre gostei de roupas bonitas - confessou, rodopiando nas intrincadas criaes do gnio espanhol. - Mesmo em crianas, Marie e eu costumvamos olhar para 
as roupas que as nossas mes e as amigas delas usavam. - Riu ante a lembrana. - E ramos horrveis quanto s que achvamos que tinham mau gosto.
       Axelle apercebera-se do olhar distante e perguntou num tom suave.
       - Era tua irm?
       - No - apressou-se Zoya a responder. Era raro abrir as portas do passado a algum e muito menos a Axelle, com quem mantinha quase sempre uma relao de negcios, 
mas estava demasiado prximo de casa naquele momento. - Era minha prima.
       - Uma das gr-duquesas? - Axelle pareceu logo impressionada quando Zoya esboou um aceno de cabea afirmativo. - Que coisa terrvel tudo aquilo.
       Regressaram depois ao negcio e, na manh seguinte, foram ver os esboos de Dior, tendo jantado no quarto nessa noite. Passaram em revista as listas do que 
tinham encomendado, do que tinham gostado e do que achavam que ainda precisavam. Axelle no ia comprar uma parte de tudo aquilo, mas queria apenas ver, a fim de 
desenhar esboos para a costureira que ocasionalmente lhe copiava os esboos de outros. Era muito habilidosa e dava muito dinheiro a ganhar a Axelle.
       Encontraram-se pessoalmente com Christian Dior, um homem encantador, e Axelle apresentou Zoya com o seu ttulo. Nesse dia estava l Lady Mendl, ex-Elsie de 
Wolfe, e, depois de elas sarem, forneceu a Dior os pormenores da vida de Zoya com Clayton.
       - Foi uma coisa horrvel. Perderam tudo em mil novecentos e vinte e nove - explicou no momento em que apareceu WaIly Simpson. Dior era um grande f dela, 
a qual entrou com os dois buldogues anes.
       Nessa tarde, Zoya e Axelle voltaram a visitar Elsa Schiaparelli, desta vez no seu salo mais luxuoso, construdo na Place Vendme h dois anos, e Zoya riu 
com o divertido sof que Salvador Dali desenhara para ela com a forma de lbios. Falaram novamente nas camisolas e nos vrios casacos que Axelle queria encomendar. 
Contudo, estavam a atingir rapidamente os limites do seu oramento. Axelle queixou-se que o dinheiro desaparecia, pois era tudo encantador. Vivi uma altura excitante 
no mbito da moda em Paris.
        Schiaparelli deixou-as, pois tinha uma entrevista com fabricante de casacos americano. Tal como Axelle, tambm ele era um dos seus melhores clientes estrangeiros, 
explicou quando uma das assistentes entrou e lhe murmurou algo ao ouvido.
       - Desculpam-me, minhas senhoras? A minha assistas vai mostrar-lhes os tecidos em que o casaco pode ser encomendado. Mister Hirsch espera-me no meu gabinete. 
- Despediu-se igualmente de Zoya, e as duas mulheres conferenciaram muito tempo com a assistente e encomendaram o casaco em vermelho, preto e num cinza que agradou 
particularmente a Zoya. Parecia favorecer as cores mais discretas, como na sua prpria roupa. Pusera um vestido de um nu malva-claro, desenhado por Madame Grs, 
e que Axelle a deixara comprar com um enorme desconto.
       Quando saram da loja, uma hora mais tarde, foram seguidas por um homem alto, com um tufo de cabelo preto e um rosto que parecia talhado em mrmore por um 
mestre. Voltaram a v-lo no elevador do hotel.
       - No estou a segui-Ias. Tambm vivo aqui - declarou, olhando para Zoya com uma expresso juvenil. Depois estendeu a mo a Axelle. - Acho que compraram uns 
artigos, minha linha. Sou o Simon Hirsch.
       - Claro - sorriu ela, parecendo de novo muito francesa, agora que estava ali. O sotaque at se acentuara mais. - Sou a Axelle Dupuis - disse e lembrou-se 
rapidamente de Zoya. - Apresento-lhe a condessa Ossupov, a minha assistente. - Foi a primeira vez desde h muito tempo que Zoya se sentiu embaraada com o ttulo. 
Ele parecia um homem to simples e agradvel que se achou idiota ao dar-se ares quando lhe estendeu a mo.
       Tinha o aperto forte de um homem que dirigia um imprio seu e fitou os olhos verdes de Zoya com os seus, meigos e castanhos.
       -  russa? - inquiriu quando o elevador parou no andar delas, e Zoya sorriu, corando um pouco, um defeito que achava que a atormentaria durante a vida inteira.
       - Sou - anuiu num tom suave e admirando a forma como ele se movimentava. O quarto dele era aparentemente ao lado do delas e percorria os amplos corredores, 
fazendo de sbito com que parecessem demasiado estreitos. Tinha os ombros de um jogador de futebol e a energia de um rapazinho, enquanto caminhava.
       - Tambm eu. Ou melhor, a minha famlia. Nasci em Nova Iorque. Sorriu e as duas mulheres pararam junto ao quarto de Zoya. - Divirtam-se com as vossas compras. 
Bonne chance! - desejou num francs com um forte sotaque ao desaparecer no quarto.
       - Cus, como me doem os ps... - comentou Axelle quando entraram no quarto de Zoya e tiraram os sapatos. - Ainda bem que o conhecemos. Tem uma boa linha. 
Queria dar mais uma vista de olhos, antes de voltarmos. Precisamos de mais casacos para o prximo Outono e podemos comprar-lhe alguns modelos, se nos fizer um preo 
aceitvel.
       Sorriu e Zoya mandou vir ch, depois do que passaram uma vez mais em revista as encomendas feitas. S lhes restavam mais quatro dias na cidade, antes de regressarem 
a Nova Iorque no Queen Mary.
       - Na verdade, devamos pensar mais em chapus e sapatos - redargiu Zoya pensativamente, fechando os olhos. Ternos de lhes dar mais do que apenas vestidos, 
fatos de noite e conjuntos... Foi sempre esse o nosso ponto forte. O aspecto geral de que tanto gostam.
       -  nisso que somos boas. - E depois fixou a bonita mulher de vestido cor de malva, de cabelo solto, e caindo-lhe como uma cascata pelos ombros. - Atraente, 
no?
       - Quem? - retorquiu Zoya de olhos muito abertos e obviamente confusa. Estava a tentar resolver se deviam encomendar a Chanel os chapus a condizer com os 
fatos e se tambm deviam pensar em algumas das suas fabulosas jias. As clientes possuam tantas jias pessoais, que no estava bem certa de que compreendessem a 
elegncia do que Chanel estava a fazer.
       - O homem dos casacos de Nova Iorque, claro. Se tivesse vinte anos menos, tinha-o agarrado. - Zoya riu ante a imagem de uma senhora como Axelle a agarrar 
algum. Quase conseguia ver o homem a voar pelo quarto, com a etiqueta de Axelle e riu face a idia.
       - Gostava de ver.
       - Tem um rosto marcado, mas muito simptico. Gosto de homens assim. - Era quase to alto como Clayton mas muito mais largo de ombros, e Zoya no voltara a 
pensar nele, desde que se haviam separado.
       - Vamos juntas quando eu for ao salo de exposio dele. Talvez te convide para jantar, pois so ambos russos. - Estava a brincar, mas no totalmente. Bem 
vira a forma como ele olhara para Zoya e o interesse estampado no rosto ao ouvir o ttulo.
       - No sejas idiota, Axelle. O pobre homem estava apenas a ser delicado.
       - Mon dieu! Esta minha vista no engana - redargiu, acenando com um dedo a Zoya. - s nova de mais para te comportares como uma freira. Nunca sais com ningum? 
- Era a primeira vez que se atrevia a fazer uma pergunta do gnero, mas estavam longe de casa e as perguntas pessoais tornavam-se mais fceis ali, longe da loja 
e das clientes.
       - Nunca - sorriu Zoya com um ar estranhamente calmo. - No desde que o meu marido morreu.
       - Mas isso  horrvel! Que idade tens agora? - Esquecera-se.
       - Trinta e sete, ou seja de mais para agir como une debutante. J vemos dessas que cheguem na loja. - Soltou uma risada, e Axelle semicerrou os olhos numa 
censura amistosa enquanto Zoya servia mais uma xcara de ch do tabuleiro de prata. Os luxos do Ritz comeavam a tomar-se um hbito agradvel.
       - No sejas ridcula! - protestou. - Nessa idade, eu tinha dois amantes.
       - Deitou um olhar malicioso  sua jovem amiga. - Infelizmente, eram ambos casados. - Contudo, um deles ajudara-a a montar a loja. Era um boato que Zoya  tinha 
ouvido antes, mas a que nunca dera muito crdito. Talvez, afinal, fosse verdade. - De fato - acrescentou -, encontro-me com um homem muito simptico em Nova Iorque. 
No se pode passar o resto da vida entre a loja e os filhos. Um dia crescero e depois?
       Zoya riu, mas apreciou a preocupao de Axelle.
       - Trabalharei ainda mais. Na minha vida no h lugar para um homem, Axelle. Estou na loja at s seis da tarde todos os dias e depois ocupo-me da Sasha e 
do Nicky at s nove ou dez. Quando tomo banho, leio o jornal e um ou outro livro, passou o tempo. Adormecia sobre o prato, se algum me levasse a sair. - Axelle 
sabia quanto ela trabalhava, mas tinha pena. Havia um doloroso vazio na vida da amiga mais nova e Axelle nem mesmo tinha a certeza de que ela se desse conta.
       - Talvez devesse despedir-te para teu prprio bem - brincou a mulher mais velha, mas ambas sabiam que no havia esse perigo. Zoya era agora demasiado importante 
para ela. Encontrara, finalmente, um porto seguro.
       Contudo, na manh seguinte, quando regressaram  casa Dior, desta vez para discutir sapatos, avistaram Simon Hirsch a sair de um txi.
       - Vejo que nos encontramos novamente. Tenho de tomar cuidado, ou acabam por vender os mesmos casacos que eu! - Todavia, no parecia preocupado. Voltou a mirar 
Zoya, vestida com um conjunto de linho rosa que quase lhe dava um ar de rapariguinha.
       - No corre esse risco, Mister Hirsch - garantiu-lhe Axelle. - Viemos discutir sapatos.
       - Graas a Deus. - Seguiu-as at ao interior, encontraram-se de novo  sada e desta vez riram os trs. - Talvez devssemos combinar os horrios para poupar 
tempo e dinheiro em txis. - Sorriu a Zoya e consultou o relgio. Estava bem vestido, com sapatos ingleses de encomenda, um fato de bom corte e o relgio que tinha 
no pulso acabara de ser comprado na Cartier. - Tm tempo para almoar ou esto demasiado ocupadas, minhas senhoras? - Zoya preparava-se para recusar, mas Axelle 
surpreendeu-a ao aceitar. E, sem mais delongas, Simon Hirsch fez sinal a um txi e indicou a morada do novo Hotel George V. - Servem almoos excelentes. Fiquei l 
da ltima vez que estive em Paris. - Exibia uma expresso grave, quando se aproximaram do hotel, mesmo  sada dos Campos Elsios. - Nessa altura, h um no, fui 
 Alemanha, mas desta vez no vou voltar. Foi extremamente desagradvel. - No se alargou sobre o tema pois saram e, ao chegarem  sala de jantar, o chefe de mesa 
conduziu-os a uma mesa excelente. Mandaram vir o almoo, e ele perguntou a Axelle se iam a mais algum lado, mas ela respondeu que apenas tinham tempo para Paris. 
- Comprei uns tecidos fantsticos em Inglaterra e na Esccia antes de vir por causa da minha linha de homem. Belos artigos - replicou, encomendando o vinho, e Zoya 
manteve-se muito quieta na cadeira a observ-lo. - Contudo, no voltaria a pr os ps na Alemanha - garantiu novamente. - Sobretudo com toda esta situao do Hitler.
       - Acha que ele vai realmente fazer o que se diz por a? - Zoya ouvira falar na sua hostilidade para com os Judeus, mas no sabia bem se devia acreditar.
       - No me parece que haja qualquer dvida. Os nazis criaram uma atmosfera de anti-semitismo que se infiltrou por todo o pas. Quase tm medo de falar uns com 
os outros. Na minha opinio, conduzir a um grave problema. - Os olhos mostravam-se calmos mas com um brilho de raiva, e Zoya esboou um aceno de cabea.
       - Parece difcil de acreditar. - No entanto, tambm a revoluo o era.
       - Esse tipo de loucura  sempre. A minha famlia deixou a Rssia por causa dos massacres dos judeus. E agora esto a comear aqui, obviamente de uma forma 
mais subtil, mas no muito. No h nada de muito subtil na caa aos Judeus. - Os olhos emitiam um fulgor de raiva e as duas mulheres escutavam-no. Depois, e como 
que para mudar de assunto, virou-se para Zoya com um sorriso interessado. - Quando deixou a Rssia, condessa?
       - Por favor, trate-me por Zoya. - Corou, embaraada. - Na "vida real", o meu nome  Zoya Andrews. - Os olhos encontraram-se e mantiveram-se fixos e, depois, 
ela desviou o rosto antes de responder  pergunta. - sa da Rssia em mil novecentos e dezessete. Logo aps a revoluo.
       - Deve ter passado uma poca difcil. A sua famlia acompanhou-a?
       - S a minha av. - Agora j era capaz de falar no assunto. Levara quase vinte anos a consegui-lo. - Os outros foram mortos antes de virmos, a maioria. E 
alguns, um ano mais tarde. - Hirsch no se apercebeu de que ela se referia ao czar, nunca lhe ocorrendo que estivesse to bem relacionada.
       - E foi, ento, para Nova Iorque?
       - No. - Sorriu agradavelmente, enquanto o empregado servia o vinho. Era um vinho timo de 1926, encomendado por Simon. - Viemos para Paris. Vivi aqui dois 
anos antes de ir para Nova Iorque com o meu marido. - Os olhos dele procuraram a aliana e verificaram com pena que ainda continuava no dedo, mas Axelle tambm deu 
pelo olhar e conhecia Zoya o suficiente para saber que ela no daria mais explicaes.
       - A condessa  viva - interferiu providencialmente, e Zoya fitou-a, aborrecida.
       - Desculpe - pronunciou em tom grave, mas era visvel que a informao lhe interessava. - Tem filhos?
       - Dois. Um filho e uma filha. - Parecia orgulhosa quando respondeu e ele sorriu. - E o senhor, Mister Hirsch? - Estava apenas a ser delicada enquanto aguardavam 
o almoo, mas Axelle parecia muito satisfeita com a conversa. Gostava dele e era bvio que estava muito interessado em Zoya. - Tambm tem filhos?
       - No. - Sorriu, abanando a cabea com uma expresso de pena. Nunca casei, nem tive filhos. No tive tempo. Passei os ltimos vinte anos a construir um negcio. 
A maior parte da minha famlia trabalha para mim. O meu pai s se reformou no ano passado e penso que a minha me finalmente desistiu. Considera que, se no me casei 
at aos quarenta, j no h muita esperana que o faa. Costumava pr-me doido. Sou filho nico e ela queria dez netos ou coisa assim.
       Zoya sorriu maliciosamente, recordando as suas primeiras conversas com Mashkca, de como falavam em quantos filhos desejavam. Ela queria seis e Mashka quatro 
ou cinco, mas nenhuma das suas vidas correra como esperavam.
       - Possivelmente casar daqui a uns anos e ir surpreend-la com cinco pares de gmeos.
       Simon Hirsch fingiu engasgar-se com o vinho e depois pareceu divertido.
       - Terei de lhe dizer isso... ou talvez no, para que no me venha com a mesma conversa. - Nessa altura        trouxeram o almoo, finos croquetes de peixe 
para Axelle e codorniz para Zoya. Ele encomendara um bife e desculpou-se pelo seu gosto tpico americano. - Posso fazer-lhes perguntas sobre a vossa viagem de compras, 
minhas senhoras, ou  tudo muito secreto? - Zoya sorriu e trocou um olhar com Axelle, parecia muito descontrada e respondeu em lugar dela.
       - No acho que tenhamos muitos segredos a esconder-lhe, Mister Hirsch, exceto talvez o dos nossos casacos. - Todos riram e Zoya falou-lhe em algumas das coisas 
que haviam comprado, sobretudo das camisolas a Schiaparelli.
       - Aquele pulver novo que ela est a fazer  sensacional - replicou Zoya com uma expresso satisfeita. - E os sapatos que encomendamos hoje na Dior so uma 
maravilha.
       - Terei de ir  loja ver tudo quando chegar. Compraram algum do novo rosa shocking da Elsa? - Gostava muito da cor, estava a planear inseri-Ia na nova linha 
e interrogava-se sobre a opinio de Zoya.
       - Ainda no tenho muitas certezas a esse respeito.  um pouco viva para algumas das nossas clientes.
        - Acho-a fantstica.
       Zoya sorriu. Era to estranho ouvir aquele homem de aspecto rude, que mais parecia um jogador de futebol, a discutir o rosa shocking de Elsa Schiaparelli, 
mas no havia dvida de que os casacos dele eram os de melhor corte dos Estados Unidos e era bvio que tinha olho para a moda e as cores e sabia o que estava a fazer.
       - O meu pai era alfaiate - explicou Hirsch -, e o pai dele tambm. Abriu a Hirsch & Co. com os dois irmos no Lower East Side. Faziam roupas e casacos para 
as pessoas conhecidas e depois algum da Stima Avenida ouviu falar deles, comeou a encomendar-lhes artigos e o meu pai mandou tudo para o diabo... - Olhou com 
uma expresso de desculpa para Zoya que estava por demais interessada na histria para se preocupar com a linguagem. ... Mudou-se para a Stima Avenida, abriu uma 
oficina e, quando entrei no negcio, virei tudo de pernas para o ar com uma coisa chamada... moda.
       "Tivemos bastantes discusses - prosseguiu -, e, quando os meus tios se reformaram, atirei-me de cabea, com ls inglesas e algumas cores que quase puseram 
o meu pai a chorar. Tambm comeamos a fazer casacos de senhora e... bom, nos ltimos dez anos chegamos onde eu tinha previsto de incio.  uma linha de qualidade, 
sobretudo agora que o meu pai se reformou e levo novos modelos de Paris.
       -  uma histria interessante, Mister Hirsch - comentou Axelle. Era o tipo de histria que construra o sucesso do seu pas adotado. - Os seus casacos so 
lindssimos. Vendemo-los muito bem.
       - Fico satisfeito. - Sorriu e via-se que era um homem que estava  vontade na sua pele. Fizera um enorme sucesso e quase sozinho. - O meu pai disse que eu 
ia arruinar o negcio. Foi um verdadeiro voto de confiana quando se retirou no ano passado e agora finge que j no est interessado. Mas, sempre que saio, os meus 
alfaiates e costureiras dizem-me que ele aparece s escondidas e controla os ateliers. - Zoya riu e ele virou-se de novo para ela. - E a senhora, condessa... desculpe, 
Zoya... como foi parar  Axelle's?
       - Oh! - Riu, sentindo-se estranhamente  vontade com ele e mais prxima de Axelle do que alguma vez at ento. - Por um longo e difcil caminho. - Depois, 
fez uma expresso sria. - Perdemos tudo no crash de vinte e nove - replicou com honestidade, e Axelle tambm sabia desse pormenor. - De uma noite para a outra, 
tivemos de vender as nossas duas casas, a moblia, as minhas roupas e peles, at mesmo a loua de porcelana.
       Era a primeira vez que falava realmente do assunto a Axelle e com  vontade.
       - Tinha dois filhos para sustentar e praticamente nenhuma especialidade. Dancei com os Ballets Russes aqui em Paris durante a guerra e tambm com outra companhia 
de bailado, nas em mil novecentos e vinte e nove tinha trinta anos e um pouco de idade a mais para voltar a danar no ballet.
       Fitou-os com um sorriso divertido, e Axelle no estava de forma alguma preparada para o que ouviu a seguir.
       - Candidatei-me s Ziegfeld Follies, mas no tinha altura bastante e por isso consegui um emprego a danar num teatro de terceira categoria.
       Axelle quedou-se boquiaberta, e Simon Hirsch fitou-a com um enorme respeito. No eram muitas as mulheres capazes de passar da riqueza  misria to corajosamente 
nem de admitir terem danado num clube.
       - Deves sentir-te surpreendida, Axelle. Ningum sabe disto, nem mesmo os meus filhos. Foi horrvel. Trabalhei l durante um ano e meio e detestei cada minuto. 
Uma noite... - Os olhos encheram-se-lhe de lgrimas ante a recordao. - Uma noite houve um incndio horrvel quando eu estava a trabalhar e quase perdi os meus 
filhos. Eles so tudo o que me interessa e no podia deix-los mais vezes sozinhos  noite; por isso, meti o que restava em dois caixotes, mudei-me para um hotel, 
um amigo emprestou-me cem dlares e bati  porta da Axelle.
       "Acho que ela nunca soube como eu estava desesperada - rematou com um olhar grato para a amiga, enquanto Axelle tentava deglutir o que acabara de ouvir, sentindo 
vontade de chorar. - E tive muita sorte por me ter dado emprego. Nunca sa de l e espero no sair. - Sorriu aos seus ouvintes, sem saber quanto os comovera, sobretudo 
Simon. - E todos viveram muito felizes para sempre.
       - Que histria! - exclamou ele, surpreendido, e Axelle levou um leno rendado aos olhos.
       - Porque no me contaste tudo isso nessa altura?
       - Receava que no me contratasses. Teria feito tudo para conseguir esse emprego. Fui mesmo ao ponto de me vangloriar do ttulo, algo que nunca fizera antes. 
- Riu, bem-humorada. - Se o tivesse feito, tenho a certeza de que me poriam a danar enquanto algum gritava dos bastidores: "E agora a nossa condessa!" Riram os 
trs, mas Zoya mais  vontade do que os outros. Eles continuavam impressionados com a histria e s Axelle sabia como as pessoas teriam sido maldosas, se soubessem 
que a condessa Ossupov danara numa espcie de cabar.
       - Na vida faz-se o que tem de se fazer - replicou. - Durante a guerra, alguns dos nossos amigos chegaram a apanhar pombos no parque para comer. - Simon interrogou-se 
sobre o que mais teria vivido. A revoluo fora certamente um golpe brutal, com a morte de toda a famlia antes de ela ter fugido. Havia muito mais naquela figura 
vestida com o bonito fato de linho cor-de-rosa. Muito mais. E ele queria saber tudo. Foi com pena que viu o almoo chegar ao fim e as deixou no Ritz a caminho de 
se encontrar com o representante de uma fbrica francesa de onde queria encomendar mais tecidos.
       Apertou a mo a Zoya, que se mantinha junto ao txi, e observou-a demoradamente ao afastar-se, pensando em como ela era uma mulher incrvel. Queria saber 
tudo sobre ela, como escapara, como sobrevivera, qual era a sua cor favorita, o nome do co, os piores medos enquanto criana.
       Parecia-lhe uma loucura, mas, no espao de uma mera tarde, sabia que se apaixonara pela mulher dos seus sonhos. Levara quarenta anos, mas encontrara-a numa 
tarde, em Paris, a cinco mil quilmetros de casa.
       
CAPTULO 36
       
       Foi com pena que Zoya viu chegar ao fim a viagem. Tinham-se divertido bastante e, na ltima noite, haviam jantado no Cordon Bleu e regressado devagar ao hotel. 
Axelle desejou-lhe uma boa noite de sono e agradeceu-lhe a ajuda na escolha da linha de Outono para a loja. Ainda estava surpreendida com a histria que Zoya contara 
ao almoo, h uns dias, quando haviam almoado no George V com Simon Hirsch. Conferiu-lhe uma nova sensao de respeito pela coragem de Zoya.
       No voltaram a encontr-lo e Zoya interrogou-se sobre se ainda estaria na cidade. Deixara-lhe um bilhete a agradecer-lhe o almoo e a desejar-lhe sorte para 
o resto da viagem e depois tinham andado ocupadas com o negcio. Haviam comprado os chapus e, por fim, algumas das jias na Casa Chanel.
       No ltimo dia, Zoya fora s compras para os filhos. Descobrira, de fato, o vestido vermelho que Sasha desejava e comprou para Nicholas um bonito casaco, alguns 
livros em francs, lngua que ele falava muito bem, e um pequeno relgio de ouro na Cartier que lhe lembrava o de Clayton. Comprou ainda para Sasha uma boneca francesa 
e uma pulseirinha em ouro.
       Tinha as malas carregadas com o que lhes comprara e j fechadas e preparadas para a viagem de volta ao Havre na manh seguinte. Contudo, havia algo mais que 
estava a planear fazer essa noite e de que no falara. a Axelle.
       O dia seguinte era a Pscoa russa e decidira, depois de muita hesitao, ir  missa da meia-noite na catedral russa de Santo Alexandre Nevski. Fora uma resoluo 
difcil de tomar. Tinha ido l no passado, acompanhada por Clayton, Vladimir e Eugenia. Sabia, porm, que era incapaz de deixar Paris sem l voltar uma vez mais. 
Era como se uma parte dela continuasse ali e jamais ficaria livre enquanto no regressasse l c enfrentasse a situao. Nunca mais voltaria a casa. Sampetersburgo 
ficava demasiado longe, mas esta ltima pea do que fora a sua vida tinha de ser tocada e agarrada e sentida uma ltima vez, antes de regressar a Nova Iorque e at 
junto dos filhos.
       Despediu-se de Axelle e, s onze e meia, desceu as escadas e mandou parar um txi. Indicou ao motorista o endereo na Rue Daru e, quando a viu, susteve a 
respirao... Ainda era a mesma... nada tinha mudado desde a vspera de Natal, h muito tempo, quando l fora com a av e Clayton.
       O oficio religioso ofereceu a mesma beleza de que se recordava e manteve-se solenemente de p com os outros russos, cantando e participando no servio, erguendo 
a vela e chorando em silncio, sentindo a falta de todos e ao mesmo tempo a proximidade deles.
       Estava triste e ao mesmo tempo estranhamente em paz quando se deteve depois na catedral, observando os outros a falar baixinho. E subitamente avistou um rosto 
conhecido muito idoso e gasto, mas teve a certeza de que se tratava de Yelena, a filha de Vladimir. No lhe falou, limitando-se a descer lentamente os degraus e 
fitou o cu noturno com um sorriso, desejando todo o bem s almas que haviam feito parte da sua vida...
       Fez sinal a um txi e regressou ao hotel, sentindo-se mais velha do que desde h muito tempo e, quando se meteu na cama, chorou, mas eram as lgrimas de um 
desgosto que o tempo sarara e que agora s algumas vezes era lembrado.
       De manh, no disse nada a Axelle. Apanharam o comboio para o Havre e subiram a bordo do Queen Mary. Os camarotes eram os mesmos onde tinham vindo e Zoya 
ficou a observar quando o navio largou, lembrando-se de quando fora para os Estados Unidos no Paris, com Clayton.
       - Parece to triste... - A voz mesmo ao lado dela sobressaltou-a e, ao virar-se, deparou com Simon, olhando-a com ternura. Axelle ficara l em baixo a desfazer 
as malas e ela subira, sozinha com os seus pensamentos.
       Fitou-o com um sorriso tmido. O cabelo de Simon agitado pelo vento dava-lhe um ar ainda mais rude.
       - Triste, no. Apenas recordava.
       - Teve uma vida interessante. Desconfio que ainda mais do que nos contou ao almoo.
       - O resto j no interessa. - Fixou o mar sem o olhar e ele ansiava por lhe tocar na mo, por faz-la sorrir, por fazer com que se sentisse feliz e jovem. 
Era to sria e, naquele, momento quase solene. - O passado s vale por aquilo em que nos torna, Mister Hirsch. Foi difcil voltar aqui, mas ainda bem que o fiz. 
Paris est cheia de recordaes para mim. - Ele esboou um aceno de cabea, desejando saber mais sobre a vida dela do que o pouco que lhe contara.
       - Deve ter sido duro aqui durante a guerra. Tambm quis ir, mas o meu pai no me deixou. Acabei por me alistar, mas era tarde de mais. Nunca sa dos Estados 
Unidos. Acabei numa fbrica da Jrgia. Uma fbrica txtil, claro. - Sorriu. - Pareo destinado a no escapar ao negcio dos trapos. - Voltou a fazer uma expresso 
sria. - Mas deve ter passado um mau bocado.
       - Passei. Mas o nosso destino foi mais fcil do que o daqueles que ficaram na Rssia. - Pensava em Mashka e nos outros e Simon receou ser intrometido. De 
qualquer maneira, no queria afugent-la e ela era to bonita, imersa nos pensamentos. - No que isso seja importante para si. Sorriu. - Fez uma boa viagem de compras?
       - Sim. E a sua?
       - tima. Acho que a Axelle est satisfeita com tudo o que encomendamos. - Depois fez meno de o deixar e ele desejou pux-la para si fisicamente, antes que 
pudesse voltar a fugir-lhe.
       - Janta comigo esta noite?
       - Terei de perguntar  Axelle o que ela quer fazer. Mas muito obrigada. Tornarei o convite extensivo  minha amiga.
       Queria vincar que no estava disponvel. Gostava multo dele, mas sentia-se vagamente desconfortvel na sua presena. Havia algo de to intenso nos olhos dele, 
o aperto de mo era to vigoroso; at mesmo o brao com que a conduziu no momento em que o navio comeou a vogar era forte de mais, e tinha toda a inteno de lhe 
resistir. Quase lamentou estarem no mesmo navio. Ignorava se desejava v-lo com muita freqncia. Porm, ao mencionar o convite a Axelle, ela mostrou-se encantada.
       - Claro que aceito. Vou deixar-lhe um bilhete.
       Juntou o gesto  palavra e depois horrorizou Zoya, anunciando  ltima hora que se sentia enjoada com o balanar do navio e deixou Zoya sozinha com ele na 
sala de jantar, o que no correspondia ao seu desejo.
       Contudo, minutos depois, esquecera a sua hesitao e verificou que apreciava o momento. Ele descreveu-lhe o ano que passara na Jrgia na fbrica de txteis 
e disse que no conseguia entender uma palavra do que diziam devido ao arrastado sotaque do Sul. Por fim, e como vingana, pusera-se a filar-lhes em idiche. Zoya 
riu e ficou a ouvi-lo a falar da famlia. A me parecia quase to tirnica como a dela, embora fossem de ascendncias muito diversas.
        - Talvez todas as russas sejam assim - troou -, embora a minha me fosse, na verdade, alem. E graas a Deus que a minha av no era como ela. Era extraordinariamente 
boa, tolerante e forte. Em muitos aspectos devo-lhe a vida. Penso que teria gostado muito dela - garantiu,  sobremesa.
       - Estou certo que sim. - E, em seguida, incapaz de se dominar: -  uma mulher espantosa. Gostaria de a ter conhecido h muito tempo.
       Zoya riu perante a idia.
       - Talvez no tivesse gostado tanto de mim. A adversidade tem o condo de nos humilhar e nessa altura era mimada. - Pensava nos dias de luxo em Sutton Place. 
- Os ltimos sete anos ensinaram-me muita coisa. Sempre pensei durante a guerra que, se a minha vida voltasse a ser confortvel, nunca tomaria nada como garantido, 
mas tomei. Agora, aprecio tudo... a loja... o meu emprego... as crianas... tudo. - Ele sorriu, cada vez mais apaixonado.
       - Quero saber coisas sobre a sua vida antes disso, na Rssia. - Nesse momento, j estavam a passear no convs. O suave balouar do navio no a incomodava 
e a noite arrefecera um pouco, pelo que ajeitou a gola.
       Usava um vestido de noite de cetim cinzento, copiado de um modelo de Madame Grs pela costureirinha de Axelle, e um casaco de raposa prateada que trouxera 
emprestado da loja, mas, com ou sem roupa emprestada, estava lindssima quando ele baixou os olhos na sua direo.
       - Porque quer saber? - perguntou Zoya, intrigada. O que podia interessar-lhe? Seria mera curiosidade ou algo mais? Ignorava o que ele pretendia, mas sentia-se 
estranhamente segura ao lado dele.
       - Quero saber tudo a seu respeito.  uma mulher to cheia de beleza, fora e mistrio. - Expressava-se de uma forma sria quando a olhou e f-la sorrir. Nunca 
ningum lhe dissera algo assim, nem mesmo Clayton, mas nessa altura era muito mais jovem, quase uma criana. E era muito mais velha agora e mais experiente do que 
a rapariga que fora outrora.
       - J sabe bastante mais do que qualquer outra pessoa. - Sorriu. Nunca tinha confessado a ningum que fui corista, - E depois sorriu, sentindo-se novamente 
jovem e maliciosa. - A pobre Axelle quase caiu da cadeira, no foi? - Simon riu tambm.
       - Tambm eu - confessou. - Nunca tinha conhecia uma bailarina desse gnero.
       - Pense em como a sua me ficaria contente! - Riu outra vez. Ele acompanhou-a e depois Zoya ps-se outra vez sria. - De qualquer maneira, no acho que gostasse 
de me conhecer. Os seus pais deixaram a Rssia para fugir aos massacres de judeus. Duvido que tenham muita simpatia por russos.
       - Conheceu a famlia imperial em criana? - No queria embara-la concordando com ela, mas Zoya tinha sem dvida razo. A me referia-se de vez em quando 
ao czar como uma figura odiada, responsvel por todo o seu infortnio, e o pai era mais suave, mas no muito. Reparou, contudo, que ela o fixava calmamente, pesando 
algo na mente, e depois esboou um aceno de cabea quase imperceptvel.
       - Sim. Conheci. - Hesitou somente uma frao de segundo. - O czar e o meu pai eram primos. Cresci praticamente com eles. - Em seguida, falou-lhe de Mashka, 
dos Veres em Livadia e dos Invernos no Palcio Alexandre na sua companhia. - Ela era como minha irm. Quase morri ao receber a notcia, e em seguida... apareceu 
o Clayton... Casamos pouco depois. - Os olhos encheram-se-lhe de lgrimas e ele pegou-lhe na mo, maravilhado com a sua fora e coragem. Assemelhava-se a conhecer 
algum de um outro mundo, um mundo que sempre o fascinara. Tinha lido livros sobre o czar enquanto jovem, para grande tristeza da me, mas sempre desejara saber 
mais sobre o homem que ele fora. E agora Zoya contava-lhe, dando-lhe vida com toda a suavidade e encanto que o haviam caracterizado. Fazia-o ver o outro lado do 
czar, aquele com que no estava familiarizado. - Acha que haver outra guerra? - Parecia incrvel que na sua vida ocorressem duas grandes guerras, mas algo lhe dizia 
que no era impossvel e Simon concordava com ela.
       - Penso que  possvel. Espero que no. - Parecia srio ao pronunciar as palavras.
       - Tambm eu. Foi to terrvel e morreram tantos jovens. H vinte anos, Paris ficou devastada. Todos tinham partido para a guerra. No consigo imaginar tudo 
novamente. - Sobretudo agora que tinha um filho, e p-lo a par dos seus receios.
       - Um dia, gostava de conhecer os seus filhos.
       Zoya sorriu.
       - So engraados... O Nicholas  um rapazinho muito srio. E a Sasha  um pouco mimada. Era a menina dos olhos do pai.
       - Parece-se consigo? - Sentia-se intrigado com tudo, mas ela abanou a cabea.
       - No. Parece-se mais com ele. - No o convidou, porm, para ir visit-los em Nova Iorque. Continuava a desejar manter uma certa distncia. Ele era to agradvel 
e simptico, mas a forma como se sentia  vontade na sua presena assustava-a e no queria comear nada com ele.
       Simon acompanhou-a at ao camarote ao lado do de Axelle e deixou-a  porta com uma expresso de desejo, que ela ignorou. E, no dia seguinte, quando foi passear 
pelo convs com Axelle, ele parecia esper-las. Convidou Zoya para um jogo de marelas, convidou-as para almoar, o que Axelle aceitou antes de Zoya conseguir pronunciar 
uma palavra, e a tarde pareceu voar. Voltaram a jantar com ele e nessa noite Simon levou-a a danar, mas ele sentiu-a retrada e perguntou-lhe porqu, enquanto passeavam 
no convs depois.
       - Talvez porque tenha receio - respondeu, erguendo o rosto para o dele, no escuro, e decidindo ser honesta.
       - De qu? - Sentia-se magoado. No lhe queria mal nenhum. Muito pelo contrrio.
       - De si. - Sorriu. - Espero no parecer indelicada.
       - Indelicada, no, mas sinto-me confuso. Assusto-a? - Ningum lhe fizera uma acusao do gnero at ento.
       - Um pouco. Talvez tenha mais medo de mim do que de si. Passou muito tempo desde que um homem me levou a algum lado e muito menos a jantar e a danar num 
navio. - Lembrou-se novamente da sua viagem no Paris com Clayton, mas isso fora durante a lua-de-mel. - No houve ningum, desde o meu marido. E no quero mudar 
a situao agora, - Porque no? - Parecia surpreendido.
       - Oh... - Deu a sensao de que refletia, enquanto falavam. - Porque sou velha de mais, porque tenho de pensar nos meus filhos... porque amava muito o meu 
marido... Talvez por todos esses motivos, suponho.
       - No posso discutir o amor que tinha ao seu marido, mas  ridculo que se imagine velha de mais. Em que  que isso me torna? Tenho mais trs anos!
       - Oh, cus... - exclamou Zoya. - Bom, mas para si  diferente. Nunca foi casado. Eu fui. Para mim, faz parte do passado. - Parecia segura e ele mostrou-se 
aborrecido.
       - Que coisa ridcula! Como pode dizer isso na sua idade? As pessoas apaixonam-se e casam todos os dias, pessoas que enviuvaram e se divorciaram... Algumas 
delas so mesmo casadas... e algumas delas tm o dobro da sua idade!
       - Talvez eu no seja to interessante como elas - Sorriu, e ele abanou a cabea com uma expresso triste.
       - Aviso-a de que no vou ficar sentado e aceitar a situao. Gosto muito de si. - Baixou o rosto, fitou-a com os calorosos olhos castanhos e ela sentiu despertar 
algo no seu ntimo que se mantinha adormecido h anos.- No tenciono desistir. Faz idia do que  o mundo para mim? Raparigas de vinte anos que soltam risadinhas 
quando falam, mulheres de vinte e cinco histricas por ainda no terem casado, divorciadas de trinta anos que querem algum que lhes pague renda e mulheres de quarenta, 
to desesperadas que me assustam de morte. No conheci ningum que me pusesse assim to louco nos ltimos vinte anos e no tenciono ficar sentado a ouvir que  velha 
de mais. Entendido, condessa Ossupov? Zoya sorriu ante as palavras e riu involuntariamente quando ele acrescentou: - E aviso-a que sou um homem muito teimoso. Tenciono 
persegui-la, nem que tenha de montar uma tenda  porta da loja da Axelle. Parece-lhe sensato?
       - Nada mesmo, Mister Hirsch. Parece-me um absurdo total. Contudo, sorriu.
       - timo. Vou encomendar a tenda, assim que chegarmos a Nova Iorque. Exceto, claro, se aceder a jantar comigo na noite em que voltarmos.
       - H trs semanas que no vejo os meus filhos - replicou, com nova gargalhada. Contudo, tinha de confessar que gostava bastante dele. Talvez ele acabasse 
por concordar em serem apenas amigos.
       - Muito bem, ento - acedeu. - No dia seguinte. Pode trazer os seus filhos. Talvez sejam mais sensatos do que a me. - Levantou-lhe o queixo e fitou os olhos 
verdes que lhe haviam roubado o corao desde o primeiro momento em que a vira na Loja Schiaparelli.
       - No esteja assim to seguro - redargiu, pensando nos filhos. - So muito dedicados  memria do pai.
       - O que  bom - replicou tranqilamente. - Contudo, tem direito a mais do que isso na sua vida e eles tambm. H tanta coisa que pode fazer por eles. O seu 
filho necessita de um homem por perto e a sua filha possivelmente tambm.
       - Talvez. - No recuara nem um passo quando ele a acompanhou ao camarote, mas Simon apanhou-a de surpresa ao beij-la suavemente nos lbios. - Por favor, 
no volte a fizer isso - sussurrou, sem a mnima convico.
       - No o farei - anuiu e repetiu o beijo.
       - Obrigada. - Ela esboou um sorriso sonhador e um momento depois fechou-lhe a porta na cara, enquanto ele subia at ao seu camarote, com um sorriso de rapazinho.
       
CAPTULO 37
       
       O romance aconteceu, embora ela no quisesse, enquanto prosseguiam viagem rumo a Nova Iorque. Jantavam e danavam, beijavam-se e falavam. E ela sentia-se 
como se o tive conhecido toda a sua vida. Nutriam os mesmos interesses, os mesmos gostos e at os mesmos receios. Axelle deixou-os  vontade e ria intimamente ao 
observ-los de longe. Na ltima noite, encontravam-se no convs quando Simon a fixou com uma expresso triste.
       - Vou sentir terrivelmente a tua falta, Zoya.
        - Tambm eu sentirei a tua - confessou -, mas tem de ser assim. Estava a divertir-se demasiado na        companhia dele e sabia que tinha de parar, mas no 
se recordava exatamente porqu. Tudo fizera sentido h uns dias, mas deixara de fazer. Queria tanto estar com ele quanto ele a desejava, e agora regressavam a Nova 
Iorque e voltariam s suas vidas. Nunca devamos ter comeado isto, Simon - disse, e ele olhou-a, sorrindo.
       - Estou apaixonado por ti, Zoya Ossupov. - Adorava o som do nome russo e de vez em quando continuava a        espica-la sobre o ttulo que ela odiava usar, 
mas fazendo-o em trabalho.
       - No digas essas coisas, Simon. S tomar tudo mais difcil.
       - Quero casar contigo. - Pronunciou a frase calmamente, sem uma sombra de dvida na voz, e ela fitou-o com uma expresso infeliz.
       -  impossvel.
       - No  nada. Vamos para casa dizer s crianas que estamos apaixonados.
       - Que loucura. Acabamos de nos conhecer. - E nem sequer fizera amor com ele. Continuava assustada e ligada pela lealdade ao falecido marido.
       - De acordo. Esperemos uma semana. - Zoya riu e ele beijou-a novamente. - Casas comigo?
       - No.
       - Porqu?
       - Porque s doido. - Riu por entre os beijos. - Podes mesmo ser perigoso, tanto quanto sei.
       - Serei muito perigoso se no casares comigo. J viste algum judeu russo apaixonado enlouquecer a bordo de um navio ingls? Causaria um incidente diplomtico 
internacional! Pensa nas pessoas que perturbarias... Acho que  melhor dizeres que sim... - Voltou a beij-la.
       - Simon, por favor... s sensato... Podes odiar-me quando me vires de novo em Nova Iorque.
       - Digo-te amanh  noite. Se assim no for, casas comigo?
       - No! - Havia alturas em que era impossvel falar com ele e noutras parecia capaz de lhe perscrutar a alma.
       Agarrou-lhe com fora nas mos e fitou-a bem no fundo dos olhos.
       - Nunca na minha vida pedi a uma mulher que casasse comigo. Estou apaixonado por ti. Sou um homem responsvel. Tenho um negcio. A minha famlia acha-me muito 
inteligente. Suplico-te, Zoya... por favor, querida... por favor, casa comigo.
       - Oh, Simon! No posso - retorquiu, infeliz. - O que pensariam os meus filhos? Dependem inteiramente de mim e no esto preparados para verem entrar uma pessoa 
na vida deles. Nem eu. H demasiado tempo que estou s.
        - Ests, sim - anuiu calmamente. - Mas no tens de ficar para sempre. Pensars no assunto?
       Hesitou e depois cedeu e olhou-o.
       - Sim... mas tal no significa que da advenha algo. - Contudo, aquela promessa bastava-lhe e ficaram sentados, horas a fio, no convs, e na manh seguinte 
ele foi bater-lhe  porta do camarote, s sete horas.
       - Anda ver a Esttua da Liberdade comigo.
       - A esta hora? - Quando lhe abriu a porta ainda estava de camisa de noite e o cabelo pendia-lhe numa longa trana sobre as costas. - Que horas so?
       Simon sorriu ao deparar com a camisa de noite e a trana.
       - Horas de te levantares, preguiosa. Podes vestir-te depois. Pe apenas um casaco e cala-te. - Zoya enfiou o casaco de marta que Axelle lhe dera h uns 
anos e riu, calando os sapatos de salto alto e seguindo-o at ao convs naquele estranho preparo.
       - Se alguma das minhas clientes me vir, no voltar a confiar na minha opinio.
       - timo. Nesse caso, talvez a Axelle te despea e eu possa salvar-te de um terrvel destino. - Contudo, ambos se calaram ao avistar a linha do horizonte de 
Nova Iorque e a Esttua da Liberdade, para onde navegavam devagar. -  lindssimo, no?
       -  - concordou Zoya com um feliz aceno de cabea; agora olhava novamente para o futuro.
       Tudo aqui lhe parecia novo e com vida, e o mero fato de olhar fazia com que se sentisse outra vez bem. Simon virou-se e abraou-a, mantendo-a muito apertada 
de encontro ao corpo enquanto se aproximavam do cais. Depois, ela desceu apressadamente as escadas para se vestir e fechar as malas.
       No voltou a v-lo at estarem prontas a deixar o navio. Ofereceu-lhes boleia, mas recusaram, pois Axelle tinha um carro  espera. Contudo, ele seguiu-as 
ao longo da plataforma de desembarque levando-lhes as inalas pequenas e, de sbito, Zoya soltou um gritinho e precipitou-se para diante.
       Nicholas esperava-a no cais, perscrutando a multido e parecendo to bonito e jovem. Correu para ele, pronunciando-lhe o nome e o filho voou para os seus 
braos e apertou-a. Viera sozinho depois de levar Sasha ao colgio e era bvio quanto ela amava o jovenzinho.
       Simon observou-os, invejoso, enquanto ajudava Axelle e depois dirigiu-se ao stio onde Zoya estava com o filho, apertou-lhe a mo com um ar solene e sorriu 
ao mido. Gostaria de ter tido um filho assim, sobretudo ao ver quanto ele se parecia com Zoya.
       - Ol. Sou o Simon Hirsch - apresentou-se quando o jovem ergueu o rosto na sua direo. - Deves ser o NichoIas. - Nicky esboou um sorriso tmido e depois 
riu.
       - Como  que sabe?
       - A tua me passa o tempo a falar de ti.
       - Tambm falo muito dela. - Sorriu, rodeando-lhe os ombros com o brao e Zoya observou como ele crescera. Tinha quase quinze anos e era quase to alto como 
Clayton o fora. - Divertiste-te? - perguntou enquanto esperavam peIas nelas dela para que o agente da alfndega as inspecionasse.
       - Sim. Mas senti muito a tua falta. - Depois dirigiu-se-lhe em russo e ele riu e Simon tambm e ela apercebeu-se de que ele entendera. - No  justo! - Dissera-lhe 
que tinha o cabelo comprido de mais e parecia um adorvel co peludo. Contudo, Nicholas interessou-se subitamente por Simon ao aguardarem juntos na doca.
       - Fala portanto russo, sir?
       - Um pouco. Os meus pais so de Vladivostoque. A minha me costumava dizer-me esse tipo de coisas em russo e algumas vezes ainda o faz.
       Todos riram e um momento depois toda a bagagem havia sido inspecionada e Axelle e Zoya estavam libertas e podiam ir embora.
       Simon ficou a v-las afastarem-se, acenando durante muito tempo e, no carro, Nicholas voltou a dirigir-se em russo  me.
       - Quem era?
       - Um amigo da Axelle. Viajou ocasionalmente no navio conosco.
       - Parece simptico. - Nicholas parecia impressionado.
       - E  - anuiu Zoya num tom despreocupado e perguntou-lhe como estava Sasha.
       - Impossvel como sempre. Agora quer um co. Um perdigueiro. Diz que vai enlouquecer-te at lhe dares um. Acho-os horrveis. Se vamos ter um, que seja um 
buldogue ou um boxer.
       - Quem disse que amos ter um co?
       - A Sasha e o que a Sasha quer, ela tem - Axelle sorriu. Tinham mudado de russo para francs, e Zoya disse-lhe que no fosse indelicado para Axelle.
       -  assim?
       - No ? - acusou Nicholas com um esboo de sorriso.
       - Nem sempre. - Corou, mas ele tinha razo, pois ela era uma jovem muito persistente e, por vezes, tornava-se mais fcil aceder, s para no levantar problemas. 
- E, alm disso, portou-se bem? - Zoya sabia que o filho passara para a ver todos os dias, embora ele tivesse ficado em casa de um amigo, e ela em casa com uma baby-sitter.
       - Ontem, fez uma cena quando lhe disse que no podia ir ao cinema com uma amiga - resmungou Nicholas. - Contudo, ainda no fizera os trabalhos de casa e, 
de qualquer maneira, j era tarde de mais. Tenho a certeza de que te vai contar assim que entrares.
       - Bem-vinda a casa! - Axelle sorriu e Zoya riu-se. Sentira-lhes muito a falta, mas sabia que agora tambm sentiria a falta de Simon e ele mostrara-se muito 
meigo para com Nicholas quando se tinham conhecido.
       - O teu amigo parecia simptico - comentou delicadamente a Axelle no caminho para casa.
       - Tambm acho. - Olhou intencionalmente para Zoya enquanto o jovem continuava a tagarelar e esperava, no ntimo, que Zoya voltasse a ver Simon depois de estarem 
em casa.
       Pouco depois de chegar, entregaram um enorme ramo de rosas. O carto dizia apenas: "No te esqueas, amo-te, S.", e ela corou e meteu o carto na secretria 
e centrou as atenes na filha que, segundo o previsto, se queixava furiosamente do irmo.
       - Cheguei agora mesmo a casa. Dem-me um minuto para me adaptar - proferiu Zoya a rir.
       - Podemos ter um co? - Nicholas acertara em cheio. Sasha no parou de exigir nas duas horas seguintes e nem mesmo o vestido novo vermelho serviu para a dissuadir. 
Contudo, Nicholas estava encantado com o relgio, as roupas e os livros novos. Deitou-lhe os braos  volta do pescoo e beijou-a afetuosamente na face.
       - Bem-vinda a casa, mam.
       - Amo-te, querido... e a ti tambm - acrescentou, envolvendo Sasha no crculo dos seus braos.
       - E o co? - insistiu Sasha, e a me riu.
       - Veremos, Sasha... veremos... - Nessa altura, o telefone tocou e foi atender. Era Simon, e ela agradeceu-lhe as rosas, rindo da discusso entre Nicholas 
e Sasha sobre o co.
       - Ainda sentes a minha falta?
       - Muito. Acho que estou a precisar de um rbitro por estes lados.
       - timo. Candidato-me ao emprego. Que tal jantarmos amanh  noite?
       - Que tal um co? - Riu e ele pareceu confuso ao ouvir toda a excitao do outro lado da linha.
       - Queres comer um co?
       -  uma idia gira! - Riu de novo, sentindo mais saudades do que julgara que teria.
       - Vou buscar-te s oito. - Contudo, ela entrou em pnico ante a idia.
       O que diriam as crianas? O que pensaria Nicholas? Apetecia-lhe telefonar e dizer que mudara de idias, mas, mesmo depois de eles se terem ido deitar, no 
conseguiu faz-lo.
        Na noite seguinte, Simon apareceu s oito em ponto e tocou  campainha no preciso momento em que Zoya saa do quarto. O apartamento era pequeno mas simples 
e elegante. Possuam poucas coisas, mas tudo de qualidade. Ele deteve-se na ombreira, parecendo maior do que a vida e, quando Zoya o convidou a entrar, notou que 
Sasha o fitava.
       - Quem  ele? - perguntou, enfurecendo a me ante a falta de maneiras. Nicholas tinha razo a respeito da irm.
       - Mister Hirsch. Posso apresentar-lhe a minha filha Alexandra?
       - Como est? - Apertou-lhe a mo com um ar solene e nesse instante entrou Nicholas.
       - Oh, ol... Como est? - Sorriu ingenuamente e estava a dizer a Sasha como ela era uma peste quando saram. Zoya sorriu ao fechar a porta e aguardaram que 
o elevador os transportasse.
       Sentia-se preocupada com a expresso que detectara nos olhos de Sasha. Era como se soubesse por que razo ele estava ali, mas Simon garantiu-lhe que j estava 
 espera, que tinha muita resistncia e no se preocupasse.
       Levou-a a jantar no 21 e falaram durante horas, como no navio. E depois ele acompanhou-a devagar e beijaram-se suavemente a pouca distncia da casa dela.
       - No consigo suportar a tua ausncia. Hoje, portei-me todo o dia como um mido  espera do Natal. Porque no levamos as crianas a qualquer lado amanh  
tarde? - Era domingo, ela no teria de trabalhar e a idia agradava-lhe, mas sentia-se nervosa com o que Sasha diria ou mesmo o meigo Nicholas.
       - O que pensaro as crianas?
       - Que tm um novo amigo.  assim to terrvel?
       - Podem voltar a ser malcriadas.
       - Consigo dar a volta  situao, Zoya. No acho que estejas a perceber. Isto  tudo o que quero. Falei-te verdade no navio. Amo-te.
       - Como sabes? Como podes estar to seguro? - Continuava a ter medo do que sentia por ele, mas tambm tivera saudades o dia inteiro e detestava a idia de 
o deixar agora, mesmo at ao dia seguinte. Como era possvel? Como lhe acontecera depois de todos aqueles anos? Sabia que tambm ela estava apaixonada. S no sabia 
ainda como lidar com a realidade. Continuava a desejar fugir, mas j no tinha certezas quanto a ser capaz.
       - Deixa correr as coisas, meu amor. - Voltou a beij-la. - Virei buscar-vos ao meio-dia.
       - s um homem muito corajoso.
       - No tanto como tu, meu amor. - Sorriu-lhe, feliz. - At amanh. Talvez vamos dar um passeio de carro a qualquer lado.
        - As crianas iam adorar.
       E na manh seguinte, quando ele chegou, apesar das queixas de Sasha de que queria brincar com as bonecas, foram de carro at Long Island e gostaram imenso. 
Nicholas quase desmaiou ao ver o carro, um Cadllac novo em folha, num distinto tom verde-escuro, com pneus de jantes cromadas e todos os extras possveis. Nunca 
vira nada to bonito, e Simon convidou-o a sentar-se ao lado dele no banco da frente.
       - Gostavas de conduzir, mido? - Esperou at se encontrarem numa estrada secundria e deixou que Nicholas tomasse o volante. O rapaz sentiu-se como se tivesse 
morrido e ido para o cu e Zoya observava-o do banco traseiro, onde se sentara com Sasha.
       Simon tinha razo. O filho precisava da presena de um homem na vida. Precisava de um amigo. A prpria Sasha parecia portar-se melhor, como h meses no o 
fazia, e namoricou incrivelmente com Simon quando as trouxe de novo a casa. Levara-as a almoar num pequeno restaurante que conhecia. Comeram ostras e camares e 
gelado para sobremesa.
       - Bom, condessa Ossupov - troou ele, depois de as crianas se terem ido deitar e quando estava sentado na sala com ela. - Como me portei? Passei ou chumbei?
       - O que achas? O Nicholas nunca se sentiu to feliz na vida e penso que a Sasha est apaixonada por ti.
       - E a me? - indagou com uma expresso sria, fitando-a bem nos olhos, que ela evitou para depois se virar para ele. - O que dizes, Zoya? Casas comigo?
       Sentiu-se como se tivesse engolido o corao ao sussurrar, estendendo-lhe a mo:
       - Sim... sim, Simon. Caso. - Ele deu a sensao que ia desmaiar, e Zoya interrogou-se sobre se teria endoidecido. Era um ato de loucura e mal conhecia o indivduo, 
mas sabia que no podia viver sem ele.
       - Falas a srio? - replicou baixinho, receoso de acreditar no que ouvia, enquanto a atraa a si e ela o fitava com um sorriso assustado.
       - Falo, Simon.
       
CAPTULO 38
       
       Axelle ficou boquiaberta quando no dia seguinte Zoya a informou no trabalho que ia casar. Esperara que a relao se desenvolvesse, mas nunca imaginara que 
tudo acontecesse to rapidamente.
       - O que acham as crianas? - perguntou, enquanto Zoya a fitava, ainda surpreendida com o que fizera, ou concordara fazer. Tinham combinado esperar uns tempos 
para deixar que as crianas se familiarizassem com ele. E Zoya no estava preparada para casar de imediato. Depois de todos aqueles anos sozinha, Simon sabia que 
ela precisava de se habituar  idia e estava disposto a dar-lhe todo o tempo necessrio numa base racional.
       - Ainda no lhes dissemos. Contudo, parecem gostar dele. - Contou-lhe o passeio a Long Island. Fora, na verdade, um romance tumultuoso.
       Apenas se tinham conhecido h semanas e, contudo, Zoya sabia que ele era um homem bom e sabia tambm que o amava.
       Nessa tarde, ele passou pela loja e comprou-lhe flores e a Axelle tambm. A mulher mais velha sentiu-se comovida por ele no a ter esquecido, e Hirsch agradeceu-lhe 
por acompanhar o romance.
       - S no quero que ma roube depressa de mais, Mister Hirsch. Detestava a idia, mas ambos lhe garantiram que avanariam devagar. E ainda faltava apresent-la 
aos pais. Havia, alm disso, mais pormenores de que se ocupar. Nesse fim-de-semana, ele sabia que as duas crianas ficariam em casa de amigos e apareceu sem avisar 
no apartamento de Zoya, no sbado de manh. Levava um ramo enorme de lilases brancos e exibia um sorriso misterioso em que ela fingiu no reparar.
       - Parece muito contente, Mister Hirsch.
       - Porque no havia de estar? Estou comprometido com uma mulher lindssima e espantosa. - Beijou-a, e Zoya levou os lilases para a cozinha a fim de os arranjar 
e foi l que Simon a encontrou, escolhendo uma jarra de pesado cristal. Comprara-a por lhe lembrar uma que a me usava sempre para colocar as flores do jardim do 
Palcio Fontanka.
       - So uma maravilha, no so? - Recuou um passo para as admirar e viu-se nos braos de Simon, que a virou suavemente para ele, beijando-a.
       - No tanto como tu. - Zoya aninhou-se silenciosamente nos seus braos durante um momento, usufruindo de todo o seu carinho e calor. Acariciando-lhe o cabelo, 
ele baixou o rosto e sussurrou, fitando-a: Vamos dar um passeio de carro por a. Est um belo dia. - Sabia que ela no tinha de andar  pressa por causa dos filhos.
       - Que idia fantstica! - aprovou Zoya com um sorriso feliz, e ele voltou  sala de estar, enquanto ela se ia mudar para calas brancas e uma camisola de 
caxemira branca.
       Simon examinou as fotografias em molduras de prata espalhadas por todo o lado e parou, surpreendido, diante de uma das crianas Romanov, que pareciam estar 
de cabea para baixo, fazendo caretas  pessoa que tirara o retrato. E, ao observar com mais ateno, verificou que uma das jovens com roupa de tnis era uma Zoya 
muito mais nova, adivinhando corretamente que a rapariga ao lado dela era Marie e as outras as irms dela.
       Ainda lhe custava apreender a histria que ela vivera. No entanto, fazia parte agora de um passado distante. A prpria fotografia estava apagada pelo tempo. 
E havia outras, de Sasha e Nicholas, e vrias de Clayton. Era um indivduo com porte distinto e Zoya parecia muito feliz ao lado dele.
       - O que ests a fazer aqui to quieto? - Sorriu ao voltar  sala, muito bonita com as calas e a camisola branca. Havia momentos em que ela lhe fazia recordar 
Katherine Hepburn.
       - Estava a observar algumas das tuas fotografias. O Nicholas parece-se muito com o pai, no?
       - Por vezes. - Sorriu. - E tambm um pouco com o meu pai. - Pegou numa grande moldura em prata que tinha uma fotografia dos pais e estendeu-a a Simon. - E 
ainda com o meu irmo. - Apontou para outra fotografia em cima da mesa, e Simon esboou um aceno de cabea.
       - Parecem um grupo muito distinto. - Mostrava-se, como sempre, impressionado pelos seus antepassados aristocratas, mas Zoya esboou um sorriso triste.
       - Isso foi h muito tempo. - Era difcil acreditar que haviam passado vinte anos, desde que vira os pais. - Por vezes, penso que s se devia viver no presente. 
O passado  apenas um pesado fardo que se transporta. E, contudo... - Fitou-o, com um olhar perspicaz. -  to difcil larg-los... esquecer... seguir em frente...
       Era esse o motivo por que decidira esperar um pouco at se casarem.
       Ainda precisava de afastar-se um pouco de tudo. Faltava-lhe dar um passo gigantesco, o do passado para o presente. Contudo, ele entendia e no a apressava. 
Sabia que ela precisava de tempo e estava disposto a mostrar-se paciente. Sobretudo agora que ela concordara em casar-se com ele. Com essa promessa, podia esperar 
e ajud-la a fazer a transio.
       - Acho que as coisas partem quando estamos prontos. E, a propsito, ests pronta para partir?
       - Claro, sir. - Trazia um blazer de flanela azul-escuro e, minutos depois, estavam no carro dele, rumo ao que ele designava como um "destino secreto". - Significa 
que estou a ser raptada, Mister Hirsch?
       Riu e sentiu-se jovem, enquanto seguiam sob o brilho do sol. Era uma sensao agradvel no ter de se preocupar com as crianas. Tudo se tornava diferente 
quando tinha de pensar nelas, o que a fazia sentir-se mais sria e menos romntica. Contudo, agora s conseguia pensar na companhia agradvel de Simon.
       - Raptar-te  a melhor idia que tive desde que nos conhecemos. Riu perante a sugesto dela. - E, pensando bem, devia t-lo feito em Paris.
        Estava, porm, disposto a ficar-se por Connecticut, enquanto seguiam ao longo da Merritt Parkway. Falou-lhe do negcio e de algumas idias relativas  coleo 
de Outono. Adorava conversar com ela de tudo e de nada e da sua esperana de um dia vir a colecionar quadros famosos.
       Gostava particularmente dos impressionistas, e Zoya referiu-lhe a coleo que os pais tinham na Rssia.
       - No estou certa de que as "coisas" continuem a ser assim to importantes.  curioso, pois costumava ter como garantidas todas as belas coisas que me rodeavam. 
Porm, depois de ter perdido tudo uma vez e de ter vendido tudo o que tinha com o Clayton, esse significado perdeu-se no tempo. - Sorriu-lhe com uma expresso apaixonada. 
- As pessoas da minha vida so mais importantes. - Ele estendeu a mo e acariciou-lhe os dedos do outro lado da mesa, enquanto almoavam, e, um pouco mais tarde, 
de mos dadas, continuaram a conversar, prosseguindo o passeio pelo campo. A tarde chegava ao fim e Zoya encostou-se-lhe, descontrada.
       - Cansada?
       Ela reprimiu um bocejo e depois riu e abanou a cabea.
       - No. Apenas feliz.
       - Voltaremos dentro em pouco. S quero mostrar-te um stio.
       - Onde? - Adorava estar com ele. Sentia-se segura, amada e feliz.
       -  segredo.
       Zoya soltou uma risada e meia hora mais tarde ficou surpreendida ao descobrir para onde ele a levara. Tratava-se de uma casinha de estilo ingls numa estrada 
secundria conhecida de Simon, rodeada por uma sebe, com grandes rvores frondosas e uma profuso de roseiras que emanavam uma forte fragrncia quando eles saram 
do automvel e olharam em volta.
       - De quem  esta casa, Simon?
       - Gostaria de poder responder que  minha. Pertence a uma fantstica senhora inglesa que a transformou em estalagem para a manter. Descobri-a h uns anos 
e de vez em quando venho at c para me libertar de toda a loucura de Nova Iorque. Entra. Quero que a conheas.
       No dissera a Zoya, mas, nessa manh, telefonara a Mrs. Whitman e avisara-a da sua chegada. Quando entraram na confortvel sala de estar, decorada de encantadores 
tecidos de algodo estampado de flores, tinham um ch ingls  espera. O bule de prata brilhava, convidativo, e havia bandejas cheias de sanduches e bolinhos a 
que Mrs. Whitman chamava "biscoitos". Era uma mulher alta, magra, de cabelos brancos, com um sotaque acentuado, olhos risonhos e umas mos compridas e elegantes, 
endurecidas pelo trabalho no jardim. Era bvio que estava  espera de Simon e Zoya.
        - Que bom voltar a v-lo, Mister Hirsch. - Tinha um aperto de mo fantstico e deitou um olhar de aprovao a Zoya quando Simon a apresentou como sua noiva. 
- Que boa notcia! Ficaram, ento, noivos h pouco tempo?
       - Muito pouco - responderam em unssono e riram.
       Mrs. Whitman serviu-lhes uma xcara de ch e convidou-os a sentarem-se na sua confortvel salinha. Havia uma bonita lareira e elegantes antiguidades inglesas 
que trouxera com ela, h cinqenta anos. Vivera em Londres, depois em Nova Iorque e, quando o marido morrera, retirara-se para o campo.
       Reconheceu de imediato o sotaque de Zoya, e algo no seu porte indicou-lhe que havia algo mais sobre ela do que estava  vista. Achava que Simon fizera uma 
escolha sbia e interessante e assim o afirmou, o que divertiu Zoya. Para festejar o noivado, abriu uma garrafa do seu melhor xerez.
       O Sol ps-se sobre o jardim quando lhes fez um brinde e, pouco depois, levou o copo e saiu da sala com um olhar discreto a Simon. Os seus aposentos situavam-se 
nas traseiras da casa e, sempre que tinha hspedes importantes, deixava-os usar a sala, bem como os quartos do andar superior. Havia dois com uma enorme casa de 
banho vitoriana a lig-los e bonitas camas de dossel que mandara vir de Inglaterra.
       - Vem ver. - Simon contara tudo isto a Zoya e ela parecia hesitante.
       - Achas que no se importa, Simon? - Tentava imaginar para onde fora Mrs. Whitman. H muito tempo que ela desaparecera, mas era to confortvel estar ali 
sentada na alegre sala a beber xerez na companhia dele que Zoya se sentia lindamente. Todavia, no lhe agradava muito subir ao andar de cima sem ser convidada.
       - No sejas pateta. Conheo este lugar como se fosse a minha casa.
       Pegou-lhe na mo e levou-a at l acima, aos bonitos quartos, e Zoya sorriu ao v-los. As luzes estavam acesas e as camas abertas, como se ela esperasse hspedes 
a qualquer momento. Contudo, os quartos estavam obviamente desocupados e, quando Zoya se virou para voltar l abaixo, Simon abraou-a com uma risada e beijou-a nos 
lbios. Ela ficou ofegante quando ele a largou, com o cabelo despenteado e um ar sensual. E depois, com um olhar malicioso, Simon puxou-a para a cama, e Zoya soltou 
uma exclamao abafada, tentando escapar s suas carcias.
       - Simon! O que vai pensar Mistress Whitman! Pra com isso. Vamos desfazer a cama toda! Simon!
       Contudo, ele ria quando se recostou sob o enorme dossel.
       - Espero bem que sim - desejou.
       - Simon! Queres fazer o favor de te levantar? - Tambm ria, ao v-lo instalado to confortavelmente e todo vestido na cama de um dos dois quartos de hspedes 
de Mrs. Whitman.
       - No.
       - Ests embriagado! - Todavia, ele mal bebera durante todo o dia,  exceo do pequeno clice de xerez e no fora o suficiente para o embriagar. No entanto, 
era bvio que estava a divertir-se imenso. Depois, estendeu o brao e puxou Zoya de encontro ao seu corpo.
       - No estou nada. Contudo, esta manh tinhas razo quando disseste que havias sido raptada. Julguei que poderia fazer-te bem afastares-te por um dia ou dois, 
minha querida. Aqui estamos a salvo, no meu esconderijo secreto. - Depositou-lhe um beijo nos lbios abertos e depois sorriu-lhe quando ela o fitou. - Considera-te 
raptada. - Parecia extremamente satisfeito consigo prprio e Zoya examinou-o, surpresa.
       - Falas a srio? Estamos alojados aqui?
       - Estou e estamos. Na verdade - acrescentou, parecendo um pouco embaraado pela primeira vez -, tomei a liberdade de trazer algumas coisas que achei que poderias 
precisar. - Tinha um ar malicioso e Zoya esboou um sorriso curioso.
       - s extraordinrio, Simon! - Atirou-se para a cama, atirou-lhe os braos ao pescoo e beijou-o.
       De fato, ele comprara-lhe uma bonita camisa de noite e um roupo de cetim, chinelos a condizer e comprara tambm todo o tipo de cremes, loes e leos de 
banho que achara poderem agradar-lhe, e ainda dois btons, uma escova de dentes e a marca da pasta que vira antes na casa de banho dela. Metera tudo numa mala pequena, 
que lhe trouxe uns momentos depois e pousou no quarto ao lado, enquanto ela examinava as coisas, deliciada, virando-se em seguida para ele.
       - O que  que Mistress Whitman pensar de ficarmos aqui, Simon? Sabe que no somos casados. - E ela parecera to digna, embora Simon soubesse que ela era 
muito menos pomposa do que parecia e tinha um enorme sentido de humor. Alm disso, era difcil resistir a duas pessoas to obviamente apaixonadas como no caso deles.
       - O que pode pensar, Zoya? Temos quartos separados.
       Zoya esboou um aceno de cabea e ocupou-se de novo a desembrulhar os tesouros que Simon lhe trouxera,ficando emocionada ao deparar com um frasco enorme do 
seu perfume favorito.
       - Deus do cu, Simon! Ser que no esqueceste algo?
       - Espero bem que no. - Voltou a tom-la nos braos e depois foi l abaixo buscar o resto das sanduches e outro copo de xerez. Propusera-lhe irem jantar 
fora, mas ela insistiu em que no tinha fome.
       Simon acendeu a lareira no quarto dele e sentaram-se confortavelmente em frente, a comer sanduches e os delicados biscoitos ingleses de Mrs. Whitman, que 
ela dizia serem exatamente iguais aos que a me costumava dar-lhe quando ela era criana, na Rssia.
       - Perfeito, no achas, querida? - Ela inclinou-se e voltou a beij-lo, e ele fitou-a alegremente. Zoya era tudo o que alguma vez desejara na vida.
       Deixou-o por volta das nove e foi at ao seu quarto preparar-se para se deitar. Estavam ambos cansados e Simon pressentiu-lhe o nervosismo.
       Ouviu-a a deixar correr a gua para o banho e passou muito tempo antes de haver novamente sons no quarto. Interrogou-se sobre o que estaria a fazer e como 
ficaria na camisa de noite de um branco-marfirn. Era algo para vestir numa noite de npcias e fora exatamente assim que imaginara o fim-de-semana secreto.
       Dirigiu-se lentamente  porta, bateu ao de leve e, quando a porta se abriu, susteve a respirao ao v-Ia. O cetim moldava-lhe as formas e o cabelo ruivo 
caa-lhe suavemente sobre os ombros.
       - Deus do cu... Ests lindssima...
       -  um presente maravilhoso, Simon... Obrigada... - Parecia tmida ao recuar, fitando-o. Ele nunca vira ningum mais bonito. Conseguia parecer em simultneo 
nobre e convidativa, e recorreu a todas as foras para no estender a mo e tocar-lhe. Contudo, no se atreveu. Ela assemelhava-se a uma pea de fina porcelana, 
como um dos delicados tesouros ingleses que Mrs. Whitman tinha na sala.
       - Zoya...
       Ela esboou um sorriso j no de menina, mas de mulher, uma mulher que acabara por am-lo profundamente devido a toda a sua ternura, gestos delicados e bondade. 
Quando o olhou, soube que havia sido abenoada no dia em que o conhecera.
       - Porque no entras um pouco? - retorquiu num tom rouco e desviando-se da porta.
       Simon transps a ombreira, voltando a sentir-se um rapazinho e depois, arrebatado pela fora viril que o invadia, apertou-a, e a camisa deslizou suavemente 
dos ombros de Zoya. Um leve toque f-la descair at  cintura, depois pelas ancas esguias e ficou nua diante dele.
       - Amo-te tanto.
       Mal conseguia falar ao beijar-lhe os lbios, o pescoo, os seios e o corpo todo. Com um gesto poderoso levou-a nos braos at  cama e, momentos depois, deitou-se 
junto dela. Fez amor como desejara desde o dia em que se tinham conhecido e a calma reinou no quarto quando finalmente ficaram ao lado um do outro, saciados, felizes 
e ligados para toda a vida. Ela era tudo o que ele desejara que fosse. Era mais do que sonhara.
       - Amo-te, Simon.
       E, ao pronunciar as palavras, soube que o amava como nunca amara antes. Agora era uma mulher, era a mulher dele, como sempre seria. O presente e o futuro 
pertenciam-lhes e o passado era apenas uma memria obscurecida quando regressaram ao quarto dele, apagaram a luz e ficaram deitados a observar o fogo da lareira 
a transformar-se em cinzas.
       Depois de voltarem a fazer amor, adormeceram nos braos um do outro, sonhos e corpos num s, as vidas unidas como se tivessem casado naquela noite em casa 
de Mrs. Whitman. Foi a perfeita noite de npcias e, na manh seguinte, o pequeno-almoo apareceu misteriosamente em bandejas na sala de Mrs. Whitman. quando Zoya 
colocou o roupo de cetim sobre a carne nua e seguiu Simon at l abaixo, com uma risada feliz.
       - Tem o sabor de pecado, no? - sussurrou, cometido os bolos de frutos. Estendeu um a Simon e serviu o caf. Era como se nunca tivesse pertencido a outro 
homem. H tanto tempo que fora mulher de Clayton e agora era outra pessoa. No entanto, Simon sorriu-lhe e abanou a cabea.
       - No me sinto de forma alguma em pecado. Sinto-me casado.
       - Tambm eu - redargiu num tom suave e fito-o com um olhar cheio de tudo o que a invadia e, sem mais uma palavra, ele levou-a para cima, esquecidos os bolos 
e o caf.
       
CAPTULO 39
       
       Nas duas semanas seguintes, tudo entre eles pareceu mudar.
       Pertenciam um ao outro e sabiam-no. O nico obstculo a superar residia no fato de Zoya no conhecer os pais dele. Sentia-se nervosa por isso, mas ele acalmou-a 
o melhor que pde depois de numa sexta-feira  noite a surpreender, dizendo-lhe que informara a me que a levaria a jantar l em casa.
       - E como  que ela reagiu? - inquiriu, preocupada, Zoya, que pusera um vestido preto novo. Simon no a avisara para no a assustar.
       Dissera-lhe apenas que iam sair. E agora, subitamente, apesar do que acontecera entre eles h duas semanas na casa de Mrs. Whitman, voltava a sentir-se uma 
rapariguinha, aterrorizada com a perspectiva de conhecer a me dele.
       - Queres mesmo saber? - Riu. - Perguntou-me se eras judia.
       - Oh, no... E espera at ela ouvir o meu sotaque. Quando descobrir que sou russa, vai ser horrvel.
       - No sejas pateta. - Contudo, ela tinha razo. Simon ainda mal as apresentara quando a me fitou Zoya de olhos semicerrados.
       - Zoya Andrews? Que nome  esse? A sua famlia  russa? - Partia do princpio de que ela recebera o nome de uma av ou parente distante.
       Era quase to alta como Simon e baixou os olhos na direo dela.
       - No, Mistress Hirsch - respondeu, fitando-a com os grandes olhos verdes e rezando para que no rebentasse a tempestade. - Eu sou.
       -  russa? - Fez a pergunta na lngua materna dela e Zoya quase sorriu ante o sotaque. Era o sotaque dos camponeses que tinha conhecido na juventude e, por 
momentos, recordou-se de Feodor e da sua simptica mulher, Ludmila.
       - Sou russa - repetiu, mas desta vez na sua lngua, que falava com a pose e suave dico da aristocracia. Sabia que a mulher mais velha o reconheceria de 
imediato e a odiaria mais do que nunca por esse fato.
       - De onde? - O interrogatrio prosseguiu, e Simon observava, desesperado, o pai, que tambm fitava atentamente Zoya. Gostou do que viu. Ela era uma mulher 
atraente e educada. Por ele estava tudo bem, mas sabia que no havia forma de deter Sofia, a me de Simon.
       - De Sampetersburgo - replicou Zoya com um sorriso calmo.
       - Sampetersburgo? - Ficou impressionada, mas preferia morrer a confess-lo.- Qual era o seu nome de famlia?
       Pela primeira vez na vida, sentiu-se grata por no ter o apelido Romanov, mas o seu nome no era muito melhor. Quase riu ao enfrentar a gigante vestida com 
uma bata estampada. Os braos assemelhavam-se aos de um homem, o que fez com que Zoya ainda se sentisse mais frgil.
       - Ossupov. Zoya Konstantinovna Ossupov.
       - Porque no nos sentamos, enquanto falamos? - sugeriu Simon, incomodado, sem que a me desse qualquer indcio de desistir nem esboasse um gesto na direo 
das cadeiras de espaldar direito no pequeno apartamento de Houston Street.
       - Quando veio para c? - inquiriu sem delonga a Zoya e Simon soltou um gemido inaudvel ao suspeitar o que se seguiria.
       - Depois da guerra, madame. Fui para Paris em mil novecentos e dezessete, depois da revoluo.
       No valia a pena esconder-lhe o que era. Apenas sentia pena de Simon, que estava com um ar tristssimo, escutando a troca de palavras entre a me e a mulher 
com quem queria casar. Contudo, depois de terem feito amor e dos laos que haviam conseqentemente nascido, ambos sabiam que nada podia separ-los.
       - Expulsaram-na, portanto, depois da revoluo.
       - Suponho que se pode pr o assunto nesses termos - disse Zoya a sorrir. - Vim-me embora com a minha av, depois de a minha famlia ser morta - acrescentou 
com uma expresso sria.
       - Tambm a minha o foi - redargiu Sofia Hirsch de rompante. O nome de famlia havia sido Hirschov, mas o oficial da imigrao em Ellis Island fora demasiado 
preguioso para escrever o nome todo e haviam, portanto, ficado Hirsch em vez de Hirschov. - A minha famlia foi morta nas perseguies, pelos cossacos do czar. 
- Zoya ouvira relatos em criana, mas nunca tomara conscincia de que um dia viria a assumir a posio em que se encontrava.
       - Lamento muito.
       - Uummm....
       A me de Simon franziu o sobrolho e dirigiu-se  cozinha para acabar de fazer o jantar. Quando a refeio ficou pronta, a me acendeu as velas e entoou o 
Sabbath. A me seguia o kosher e preparara um jantar com o tradicional challah, que serviram com um vinho especial. Tudo aquilo era uma experincia nova para Zoya.
       - Sabe o que  kosher? - inquiriu a meio da refeio.
       - No... eu... no, de fato, no muito. - Continuavam a falar russo e Zoya sentia-se pouco  vontade com a sua falta de conhecimento. - No se bebe leite 
com carne. - Foi o melhor que conseguiu, e a me voltou a franzir o sobrolho a Simon e tratava-o constantemente por "Shimon", falando idiche em vez de russo.
       - Tem de se manter tudo separado. Os lacticnios nunca podem tocar na carne. - Tinham pratos separados e a prosperidade adquirida permitia-lhe usar dois foges. 
Zoya achou as explicaes muito complicadas, mas ela mostrava-se muito orgulhosa da sua dedicao  lei talmdica e fitou orgulhosamente o filho. - Ele  to inteligente 
que bem podia ter sido um rabino - redargiu. - E o que fez? Foi para a Stima Avenida e deixou a famlia de parte.
       - Isso no  verdade, mam - retorquiu Simon a sorrir. - O pap reformou-se e o tio Joe e o tio Isaac tambm.
       Zoya apercebeu-se, ao ouvi-lo, de que se tratava de um aspecto da vida dele que no compreendera totalmente. Uma coisa era o que Simon contara sobre a famlia, 
outra era conhec-los. Sentiu um repentino pavor de nunca estar  altura aos olhos deles. Nada sabia da religio deles nem de quo importante era para Simon. Nem 
sequer sabia se ele era religioso, embora suspeitasse que no. Ela prpria no atribua muito significado  religio, embora acreditasse em Deus. Contudo, apenas 
ia  igreja ortodoxa na Pscoa e no Natal.
       - O que fazia o seu pai? - Sofia Hirsch disparou a pergunta, depois de Zoya a ter ajudado a levantar a mesa. J sabia que Zoya trabalhava numa loja e que 
Simon a conhece em Paris.
       - O meu pai estava no exrcito - respondeu, e a mulher mais idosa quase gritou.
       - No era um cossaco?
       - No, mam. Claro que no - respondeu Simon em lugar dela, obviamente ansioso por se ir embora, e Zoya achou subitamente tudo aquilo muito divertido. As 
vidas ambos, de princpios to diferentes, haviam-se cruzado a meio e, depois de passados anos a ostentar o ttulo a algura tinha agora de garantir quela mulher 
que o pai no havia sido um cossaco.
       De repente, apercebeu-se pelo canto do olho de que Simon tambm tinha a mesma opinio. Era como se soubesse exatamente o que ela estava a pensar. E decidiu 
espicaar a pouco a me. Sabia que ela ficaria impressionada, mesmo que se fingisse horrorizada. Sentia que o pai dera a aprovao e, mesmo que a me tambm o fizesse, 
nunca o admitiria. - A Zoya  uma condessa, mam - rematou. - S que  demasiado modesta para usar o ttulo.
       - Uma condessa de qu? - indagou a me e, desta vez, Zoya riu-se abertamente.
       - De absolutamente nada, agora. Tem razo. Tudo isso acabou. - A revoluo fora h dezenove anos e, embora no estivesse esquecida, parecia parte de uma outra 
vida.
       Fez-se um longo silncio enquanto Simon pensava como se escapar graciosamente com Zoya.
       -  uma pena que no seja judia - pronunciou, por fim, a me, num tom triste, como se quaisquer deuses pudessem estar a escut-la. Simon sorriu, consciente 
de que era o mximo que Sofia conseguiria aproximar-se de demonstrar o seu agrado. - Ela vai converter-se?
       Dirigiu-se ao filho, como se Zoya no estivesse presente, e Simon respondeu uma vez mais por ela:
       - Claro que no, mam. Porque havia de o fazer?
       O pai ofereceu-lhe mais um copo de vinho, enquanto Simon lhe dava uma palmadinha na mo e a me a fitava com permanente interesse.
       - O Simon disse-me que tem filhos. - Era mais uma acusao do que uma pergunta, mas Zoya sorriu, sempre orgulhosa deles.
       - Sim. Tenho dois.
       -  divorciada.
       Simon emitiu um grunhido imperceptvel, e Zoya sorriu a Sofia.
       - No. Sou viva. O meu marido morreu h sete anos de um ataque de corao. - Resolveu esclarecer para que ela no pensasse que o matara.
       - Que tristeza. Que idade tm?
       - O meu filho, o Nicholas, tem quase quinze, e a Alexandra tem onze.
       Sofia esboou um aceno de cabea, pareceu finalmente satisfeita e Simon aproveitou a oportunidade para se levantar e dizer que tinham de ir embora. Zoya imitou-o 
e agradeceu-lhe o jantar.
       - Gostei de a conhecer - murmurou Sofia entre dentes e o marido sorriu. Mal falara toda a noite, exceto ocasionalmente e em voz baixa a Simon. Era um homem 
tmido que passara meio sculo  sombra da muito mais faladora Sofia. - Aparea novamente - convidou delicadamente quando Zoya lhe apertou a mo e agradeceu de novo 
no seu aristocrtico russo. Simon teve a certeza de que ela lhe telefonaria no dia seguinte e no pararia de falar.
       Acompanhou Zoya at ao Cadllac que os aguardava estacionado l em baixo e suspirou de alvio ao deslizar para trs do volante, fitando tristemente a mulher 
que amava.
       - Desculpa. No devia ter-te trazido aqui.
       Zoya riu ante a expresso do rosto dele.
       - No sejas pateta - retorquiu, inclinando-se e beijando-o. - A minha me teria sido muito pior. Agradece no seres obrigado a enfrent-la.
       - No acredito nas perguntas que faz e depois admira-se porque  que nunca trago ningum c a casa. S se fosse doido! Meshuge! - acrescentou em idiche, 
com uma elucidativa palmada na cabea, e Zoya riu, enquanto ele a levava a casa.
       - Espera at a Sasha comear a fazer-te passar um mau bocado. At agora tem sido um anjo.
       - Ento estamos quites. Juro que nunca mais voltarei a fazer-te uma coisa destas.
       - Voltars, sim, e no me importo. S tinha pavor que ela me interrogasse sobre o czar. No queria mentir-lhe, mas tambm no morria por lhe contar a verdade. 
- Sorriu. - Ainda bem que no somos Romanov. Teria desmaiado.
       Simon riu perante a idia e levou-a um bocado ao Copacabana para relaxarem e beberem champanhe. Aos olhos  Simon tinha sido uma noite muito dura. Contudo, 
Zoya estava surpreendida por haver corrido facilmente. Na verdade, esperava que tivesse sido muito pior, o que horrorizo Simon.
       - Como  que podia ter sido pior?
       - Podia ter-me mandado sair. Houve um momento que pensei que o faria.
       - No se atreveria. No  to m como parece. - Esboou um sorriso malicioso. - E faz uma canja fantstica.
       - Vou pedir-lhe que me ensine - redargiu Zoya, que depois se lembrou de algo que a fizera interrogar-se. - Temos de fazer comida kosher? Contudo, ele no 
conseguiu suster o riso ante a pergunta. - Ento? Temos?
       - A minha me ficaria encantada, mas deixa-me garantir-te, minha querida, que recusaria comer em casa. No te preocupes com essas coisas, de acordo? Prometes? 
- Inclinou-se e beijou-a no momento em que a orquestra comeava a tocar a sua cano favorita, I've Got You Under My Skin, de Cole Porter. - Dana, Mistress Andrews 
ou devo trat-la por condessa Ossupov?
       - Que tal apenas Zoya? - Riu e seguiu-o at  pista.
       - Que tal Zoya Hirsch? Como soa?
       Ela sorriu-lhe enquanto danavam e ambos riram, pensando no mesmo. Era realmente um nome estranho para a prima do czar.
       
CAPTULO 40
       
       Conseguiram manter a ligao em segredo dos midos at Junho, quando Sasha os apanhou a beijarem-se apaixonadamente na cozinha.
       Fitou-os num horror silencioso e depois afastou-se a correr e fechou-se no quarto, de onde s saiu quando Nicholas ameaou que deitava a porta abaixo se ela 
no viesse c para fora e se portasse como gente.
       Nicholas sentia-se muito ofendido com a atitude da irm. Gostava de Simon e comeava a esperar que ele tivesse intenes srias para com a me. Simon mostrara-se 
sempre bondoso para todos eles levando-os a passear de carro aos domingos  tarde e a jantar sempre que possvel, trazendo-lhes alm disso belos presentes. Foi buscar 
Nicholas ao colgio mais do que uma vez no Cadillac e oferecera um rdio aos dois jovenzinhos, de que eles muito gostavam.
       - V se te comportas! - avisou-a Nicholas, irritado. - E vai pedir desculpa  mam!
       - No vou! Ela estava a beij-lo na cozinha.
       - E da? Gosta dele.
       - Mas no assim...  repugnante!
       - Tu  que s repugnante. Agora vai pedir-lhes desculpa.
       Sasha escapou-se sorrateiramente para a sala e recusou olhar para Simon. Nessa noite, depois de ele se ir embora, Zoya finalmente contou-lhe.
       - Estou muito apaixonada por ele, Sasha. - A mida ps-se a chorar e Nicholas escutava da ombreira.
       - E o pap? No o amavas?
       - Claro que sim... Mas, querida, ele agora desapareceu. H muito tempo que desapareceu. Podia ser agradvel termos conosco algum que nos ame. O Simon ama-te 
muito, a ti e ao Nicholas.
       - E eu tambm gosto dele. - Nicholas defendia abertaciente Simon, o que comoveu a me. - Vo casar? - perguntou meigamente, e Zoya, fitando ora um ora outro, 
esboou um aceno de cabea afirmativo que provocou novo ataque de histeria em Sasha.
       - Odeio-te! Ests a destruir a minha vida!
       - Porqu, Sasha? - retorquiu, muito perturbada com a reao da filha.
       - No gostas dele?  um homem to simptico e ser to bom para ns. Tentou abra-la, mas a filha no deixou.
       - Odeio-vos aos dois! - bradou Sasha, sem saber muito bem porque o dizia, exceto talvez para arreliar a me. Contudo, Nicholas ficou furioso e lanou-se sobre 
a figura soluante em cima da cama.
       - Pedes desculpa ou levas um bofeto?
       - Parem com isso! Os dois! Isto no  maneira de comear uma nova vida.
       - Quando  que vo casar-se? - Sasha apenas deixou de chorar o tempo que durou a pergunta.
       - Ainda no sabemos. Quisemos esperar um pouco.
       - Porque no casam este Vero e depois podemos viajar todos? sugeriu Nicholas, e Zoya sorriu. Parecia-lhe uma boa idia e sabia que Simon ficaria satisfeito, 
mas a perspectiva no agradava obviamente a Sasha.
       - No irei a lado nenhum com vocs.
       - Irs sim, porque te metemos numa mala e depois, pelo menos, no teremos de te ouvir. - Sasha extravasou ento a fria no irmo.
       - Odeio-te! No irei a lado nenhum com eles! - Fungou ruidosamente, com um olhar faiscante dirigido  me, mas Nicholas apanhou-a ao acus-la.
       - Sabes uma coisa? Tens cimes! Tens cimes da mam e do Simon!
       - No tenho nada!
       - Tens! - Continuaram a gritar, e Zoya desesperava quanto a ter novamente paz, mas, no dia seguinte, quando contou a Simon, Sasha acalmara-se, embora tivesse 
deixado de falar com o irmo.
       - Agrada-me muito a idia do Nicholas - comentou. Sabia como Zoya tinha, por vezes, dificuldade em lidar com Sasha. Dava-se bastante bem com a mida, mas 
esta parecia fazer constantes exigncias sobre a me para reclamar a ateno e o tempo dela, vestidos novos, roupas novas e pisava incessantemente o risco. - Porque 
no casamos em Julho e vamos para Sun Valley com as crianas?
       - No te importas de as levares na nossa lua-de-mel? - Mostrava-se surpreendida com a bondade dele, a sua disponibilidade em aceitar os midos como se fossem 
seus, o que a tocava profundamente.
       - Claro que no. Gostarias?
       - Claro.
       - Combinado, ento! - exclamou e beijou-a, antes de ir consultar um calendrio. - Que tal casarmos a doze de Julho? - Os olhos brilhavam-lhe quando a enlaou 
pela cintura. H muito, muito tempo que ela no se sentia to feliz. E fora realmente difcil aquela espera para se casar com ele. Tudo o que queria agora era pertencer-lhe 
para toda a vida.
       - O que dir a tua me?
       Simon pensou um momento antes de lhe responder com um sorriso.
       - Vamos p-la a falar com a Sasha. Foram feitas uma para a outra.
       Zoya soltou uma gargalhada e ele beijou-a.
       
CAPTULO 41
       
       A 12 de Julho de 1936, Simon Ishmael Hirsch e Zoya Alexandra Eugenia Ossupov Andrews casaram pelo civil no jardim da bonita casinha de pedra de Axelle na 
Rua 49.
       A noiva vestia um conjunto creme Norell e um chapelinho com um fino vu cor de marfim e sorriu ao erguer o rosto para o marido, que a beijou. A me dele optara 
por no aparecer, s para vincar que no aprovava o fato de Zoya no ser judia. Contudo, o pai estava presente bem como duas das raparigas da loja. Havia igualmente 
um punhado de amigos comuns e obviamente os dois filhos de Zoya.
       Nicholas foi o padrinho e Sasha manteve-se ao lado deles com um ar amuado. Zoya poderia ter tido um casamento mais cerimonioso se quisesse, e as suas clientes 
mais importantes, como Barbara Hutton e Doris Duke, teriam adorado aparecer, mas, embora Zoya as conhecesse bem, no mantinha uma ligao de intimidade com elas. 
Eram parte de uma outra vida e queria que o seu casamento fosse muito simples e especial.
       O mordomo de Axelle serviu o champanhe e, s quatro horas, Simon seguiu de regresso ao apartamento de Zoya no seu Cadillac. Tinham decidido ficar l at depois 
da lua-de-mel, altura em que procurariam uma casa maior.
       No entanto, passariam primeiro trs semanas em Sun Valley. O lugar fora inaugurado nesse ano e apanharam o comboio para Idaho na Estao da Pensilvnia. Simon 
comprou jogos para as crianas e a prpria Sasha estava excitada quando chegaram a Chicago.
       Ficaram uma noite em Blackstone e prosseguiram viagem no dia seguinte. Todos estavam satisfeitssimos quando chegaram a Ketchum, e Zoya e Simon ainda mais, 
depois de uma noite de arrebatamento e paixo. A relao fsica que partilhavam era algo que nenhum deles conhecera antes e ainda os aproximava mais.
       S haviam passado trs meses sobre o seu encontro, mas sentia-se como se tivesse conhecido Simon desde sempre. Ensinou Nicholas a pescar e iam nadar todos 
os dias. No final do ms regressaram queimados do sol e felizes ao apartamento de Zoya.
       Foi ento que toda a realidade se abateu sobre Zoya. No primeiro dia em que voltaram, sentou-se a ver Simon barbear-se e sentiu-se invadida por uma vaga de 
felicidade ao observ-lo a cobrir o rosto de espuma; soltou uma sbita risada ao tocar na pele macia por o amar tanto e beijou-o.
       - Alguma coisa engraada? - Virou-se para ela com um sorriso e Zoya abanou a cabea.
       - No, s que tudo parece subitamente to real, no ?
       - Verdade - anuiu. Inclinou-se para a beijar e encheu-a de espuma da barba, fazendo-a rir. Beijou-a uma e outra vez e, momentos depois, ela fechou a porta 
do quarto  chave e fizeram amor antes de ela sair para o trabalho.
       Prometera a Axelle que ficaria na loja at ao fim de Setembro. E os dias pareciam voar. Trs semanas depois de regressarem, descobriram um apartamento que 
lhes agradou entre a Park Avenue e a Rua 68. Tinha divises grandes e arejadas, e o quarto deles ficava em frente do das crianas. Nicholas tinha um quarto grande 
e confortvel, e Sasha insistiu para que as paredes do seu quarto fossem pintadas de prpura.
       - Tambm tinha um quarto prpura quando era uma rapariguinha... quando era mais ou menos da tua idade. - Falou-lhe, ento, do encantador boudoir cor de malva 
de Alix. Trouxe-lhe ternas recordaes ao descrev-lo e Sasha ouvia-a fascinada.
       Havia uma fotografia de Clayton no quarto de Nicholas e ele colocou ao lado um bonito retrato de Simon. Os dois homens da famlia iam dar longos passeios 
ao fim da tarde, quando Simon regressava a casa do trabalho e, uma semana depois de se terem mudado, ele trouxe para casa uma pequena cocker spaniel.
       - Olha, mam! - exclamou Nicholas, excitado. - Parece mesmo igual  Sava. - Ela ficou surpreendida por o filho ainda se recordar dela, e Sasha ficou amuada 
durante um dia por no ser um co russo como ela queria. Contudo a cadela era muito meiga e chamaram-lhe Jamie.
       A vida parecia idlica quando se instalaram no novo apartamento. Havia mesmo um quarto de hspedes junto  biblioteca e Simon espicaou-a, dizendo que seria 
para o primeiro beb. No entanto, Zoya abanou a cabea e sorriu.
       - Tive filhos h muito tempo, Simon. Sou velha de mais para ser me agora. - Aos trinta e sete anos, estava longe de querer mais filhos. - Um dia destes serei 
av. - Riu e ele abanou a cabea.
       - Tambm queres uma bengala, avozinha? - troou, rodeando-lhe os ombros com o brao, enquanto se mantinham sentados no quarto a conversar pela noite fora, 
tal como fizera com Clayton, anos antes.
       Contudo, a vida era diferente com Simon. Partilhavam interesses comuns, amigos comuns, eram adultos que se tinham unido na fora e no na fraqueza. Ela pouco 
mais era que uma criana quando Clayton a salvara dos horrores da sua vida em Paris de 1919 e a trouxera para Nova Iorque, Agora tudo era diferente, pensava Zoya, 
ao dirigir-se ao trabalho, gozando os seus ltimos dias no Axelle's e olhou a amiga com tristeza.
       - O que vou fazer agora? - inquiriu, sentada na sua secretria Lus XV e erguendo os olhos da xcara de ch para Axelle. - Com que vou ocupar os dias?
       - Porque no vais para casa e tens um filho? - retorquiu a mulher mais velha com uma gargalhada.
       Zoya abanou a cabea, desejando poder ficar. Contudo, Simon queria que ela tivesse a liberdade de que h anos no dispunha. H sete anos que trabalhava e 
agora no tinha necessidade de o fazer. Podia gozar a companhia dos filhos, do marido, a casa, fazer o que lhe aprouvesse, mas Zoya sabia que tudo lhe pareceria 
muito montono sem a obrigao de ir diariamente para a loja.
       - Pareces o meu marido a falar.
       - Ele tem razo.
       - Ficarei to aborrecida sem trabalho.
       - Duvido muito, minha querida. - Contudo, as lgrimas brilhavam nos olhos de Axelle quando Simon foi buscar Zoya nessa tarde e as duas mulheres se abraaram. 
Zoya Prometeu aparecer no dia seguinte e lev-la a almoar.
       Simon riu e avisou a mulher que apadrinhara o romance deles desde o primeiro momento:
       - Vai ter de fechar a porta  chave para a manter afastada daqui. No me canso de lhe dizer que h um mundo l fora  espera que ela o descubra.
       No entanto, em Outubro, Zoya descobriu que tinha mais tempo livre entre mos do que sabia fazer com ele. Via Axelle quase diariamente, visitava museus e ia 
buscar Sasha ao colgio. Chegava mesmo a passar freqentemente pelo escritrio de Simon e escutava com avidez os seus planos de negcio. Decidira acrescentar uma 
linha de casacos de criana e mostrava-se ansioso pelos conselhos que ela lhe dava. A infalvel intuio de Zoya ajudava-o a fazer escolhas em que, de outra forma, 
no teria pensado.
       - Sinto tanto a falta de tudo isto, Simon - confessou-lhe em Dezembro, quando apanharam um txi de regresso do teatro. Ele levara-a  estria de You Can't 
Take It With You com Frank Conlan e Josephine Hull no Teatro Booth. Fora uma noite agradvel, mas ela sentia-se nervosa e aborrecida. Descobrira que trabalhara anos 
de mais para agora desistir e ficar sentada em casa sem fazer nada. - E se voltar uns tempos para a loja da Axelle?
       Simon pensou no assunto e fitou-a, quando chegaram ao apartamento.
       - Por vezes,  difcil recuar no tempo. Porque  que no comeas algo de novo?
       "Como o qu?", interrogou-se. Apenas tinha conhecimento de dana e vestidos e danar estava sem dvida fora de questo. Riu de si para si quando entraram 
no apartamento e ele se virou para a admirar. Estava to bonita, de olhos brilhantes e a esplendorosa cabeleira ruiva.
       Continuava a assemelhar-se a uma rapariguinha e desejava-a em permanncia. No lhe parecia com idade bastante para ter um filho de quinze anos, refletiu ele 
quando Zoya se sentou numa cadeira e o fitou com um sorriso, detendo o olhar no smoking que ele vestia. Mandara-o fazer por encomenda em Londres, para desgosto da 
me. "O teu pai podia ter-te talhado um melhor", dissera ela.
       - O que  assim to divertido?
       - Ocorreu-me uma idia louca... Estava a lembrar-me de quando dancei no Fitzhugh's. Foi horrvel, Simon... Detestei tanto tudo aquilo.
       - No consigo imaginar-te a sacudires o traseiro e a rodares os colares.
       - Riu ante o pensamento, mas sentiu-se em simultneo emocionado. Ela fora to corajosa ao ultrapassar tudo aquilo. Apenas lamentava no a ter conhecido nessa 
altura. Teria casado com ela, poupando-a  situao. Agora, ela j no precisava de poupar; era eficiente e forte.
       Simon quase se sentia tentado a met-la no negcio, mas sabia que a famlia ficaria horrorizada. Ela no pertencia  Stima Avenida. Pertencia a uma elite 
muito mais elevada, e subitamente ocorreu-lhe uma idia. Serviu-se de um clice de conhaque e abriu uma garrafa de champanhe para ela, enquanto se sentavam a falar 
junto  lareira.
       - Porque no abres a tua prpria loja?
       - Como a Axelle? - Parecia intrigada, mas agradou-lhe a idia e depois pensou na amiga e abanou a cabea. - No seria justo para a Axelle. No quero competir 
com ela. - Axelle fora boa de mais para que agora a prejudicasse, mas Simon tinha outras idias na cabea.
       - Ento, faz algo diferente.
       - Como, por exemplo?
       - Faz tudo, roupa de mulher, de homem, talvez mesmo de criana. Mas apenas da melhor qualidade, aquele tipo de negcio em que te sentes to  vontade. Uma 
linha completa... sapatos, malas e chapus... Ensina as pessoas a vestissem-se, no s as elegantes como as que freqentam a loja da Axelle, mas as outras tambm, 
as que tm dinheiro mas no sabem us-lo. - As mulheres que ela vestira no Axelle's eram sem dvida as mais elegantes de Nova Iorque, mas a maioria tambm ia a Paris 
comprar roupa, como Lady Mendl, Doris Duke e Wallis Simpson. - Podias comear com uma coisa pequena e depois aumentar o negcio. At podias vender os meus casacos!
       Simon riu, mas ela fitou-o com uma expresso pensativa, bebendo o champanhe em pequenos goles. A idia agradava-lhe e, em seguida, dirigiu-lhe uma pergunta 
sria:
       - Podemos dar-nos a esse luxo? - Sabia que ele tinha dinheiro, mas no fazia idia do capital em jogo. Era algo que nunca discutiam.
       Possuam mais do que o suficiente para a vida que levavam, mas os pais dele continuavam a morar em Houston Street e sabia que ele os sustentava, bem como 
a todos irmos do pai. Ele contemplou-a com meiguice e sentou-se ao lado dela.
       - Talvez seja chegada a altura de termos uma conversa sria sobre tudo isto.
       Zoya corou e abanou a cabea. De fato, no desejava saber. Porm, se pretendia abrir uma loja prpria, talvez fosse necessrio.
       - No quero parecer bisbilhoteira, Simon. O teu negcio  da tua conta.
       - No, meu amor. Tambm  teu e vai muito bem. De vento em popa. - Informou-a quanto fizera no ano anterior e ela olhou-o, surpreendida.
       - Falas a srio?
       - Bom - desculpou-se, sem compreender a surpresa nos olhos dela. Podia ser melhor, se tivesse encomendado todas as caxemiras que queria em Inglaterra. No 
sei porque me contive. Para a prxima poca, no o farei - explicou e ela riu.
       - s doido. Acho que nem o Banco de Inglaterra transacionou tanto dinheiro no ano passado.  incrvel, Simon! Mas eu pensei... quero dizer, os teus pais...
       Desta vez foi ele a troar.
       - A minha me s sairia de Houston Street de arma apontada. Adora o stio. - Todas as tentativas de Simon para que eles se mudassem para um apartamento mais 
luxuoso haviam sido infrutferas. A me gostava dos amigos, das lojas onde fazia as compras e da vizinhana. Mudara-se para a Lower East Side quando viera para Nova 
Iorque h uma gerao e iria morrer ali. - Acho que o meu pai gostaria de se mudar para a parte alta da cidade, mas a minha me no o deixa. - A me continuava a 
usar batas e orgulhava-se em ter apenas um casaco "bom". Mas podia comprar todos os casacos de Axelle, se quisesse.
       - O que vais fazer com tudo isso? Investir? - Pensou com um arrepio no falecido marido e nas suas aventuras no mercado da bolsa, mas Simon era bastante mais 
perspicaz do que Clayton. Tinha instinto para o que dava dinheiro e, no seu caso, resultara em cheio.
       - Investi uma parte, a maioria em aes, e apliquei bastante no negcio. No ano passado, comprei tambm duas fbricas de txteis. Penso que, se comearmos 
a fbricar os nossos artigos, nos sairemos melhor do que com algumas importaes. Assim, consigo controlar melhor a qualidade. As duas fbricas so na Jrgia e a 
mo-de-obra  muito barata. Vai levar uns anos, mas penso que teremos muito mais lucros. Zoya nem conseguia imaginar, pois os lucros qu ele mencionara j eram imensos. 
Construra o negcio do nada em vinte anos. Aos quarenta, j fizera uma imensa fortuna. - Portanto, meu amor, se queres abrir a tua loja, vai em frente - incitou. 
- No vais tirar comida da boca de ningum. Ficou a meditar no assunto uns minutos, enquanto Zoya tentava assimilar o que ouvira na ltima meia hora. - Na verdade, 
acho que podia ser um investimento fantstico.
       - Ests disposto a ajudar-me, Simon? - indagou, pousando o copo e fitando-o com uma expresso grave.
       - No precisas da minha ajuda, querida, exceto talvez para assinar os cheques - retorquiu, inclinando-se e beijando-a. - Sabes mais deste ramo do que qualquer 
outra pessoa que conheo e tens um sentido nato do que convm ou no. Devia ter-te dado ouvidos sobre o rosa shocking, quando estivemos em Paris. - Riu bem-disposto, 
pois esgotara todos os tecidos rosa e as encomendas para o restante ainda no tinham chegado.
       - Por onde comeo? - indagou, subitamente excitadissima com a idia.
       - Podias procurar um stio nos prximos meses. E na Primavera vamos a Paris e encomendas artigos para uma linha de Outono. Se te mexeres acrescentou, semicerrando 
os olhos e fazendo clculos -, estars pronta para abrir em Setembro.
       - Mas isso  muito perto. - S faltavam nove meses e havia muita coisa a fazer. - Podia pedir  Elsie que se encarregasse da decorao. Ela tem uma intuio 
fantstica para o que as pessoas querem, mesmo sem o saberem.
       Contudo, ele esboou um sorriso terno  mulher, incentivado por toda aquela excitao.
       - Tu prpria podias faz-lo.
       - No, no seria capaz.
       - Deixa l. De qualquer maneira, ia faltar-te tempo. Entre a descoberta do stio, o contrato de pessoal e compras para a loja, terias demasiado que fazer 
para ainda por cima te preocupares com a decorao. Vou pensar... Falarei com algumas pessoas que conheo quanto  localizao.
       - Falas a srio? - indagou com um brilho intenso nos olhos verdes.  Achas mesmo que posso faz-lo?
       - Claro que sim. Vamos experimentar. Se no resultar, fechamos e aguentamos os prejuzos de um ano. - E ela agora sabia que podiam dar-se a esse luxo.
       Nas prximas trs semanas no falou em mais nada e, quando o levou a assistir  missa no Natal russo, passou a maior parte do tempo a sussurrar-lhe ao ouvido. 
Um dos agentes imobilirios descobrira o que achara ser o lugar perfeito e ela mal conseguia esperar para ver.
       - A tua me desmaiava se te visse a sares daqui - observou, fitando-o com uma expresso de felicidade. Desta vez o servio religioso no a entristecera, 
pois estava por demais excitada com o que tentavam construir.
       Vira Sergei Obolenski pela primeira vez em meses e ele esboou uma vnia delicada quando o apresentou a Simon, comeando por falar ingls por delicadeza para 
com Simon e depois conversando com ele no seu elegante russo.
       - Surpreende-me que no tenhas casado com ele - comentou Simon tranquilamente, tentando esconder o fato de que tinha cimes, mas Zoya fitou-o e riu, quando 
regressavam a casa no Cadillac verde.
       - O Sergei nunca esteve interessado em mim, amor.  demasiado esperto para se casar com pobres ttulos russos. Prefere indubitavelmente as altas esferas americanas.
       Simon inclinou-se e beijou-a, puxando-a mais de encontro ao corpo no assento.
       - No sabe o que perde.
       No dia seguinte, Zoya convidou Axelle para almoar e falou-lhe, excitada, nos seus planos. Pusera logo Axelle a par do assunto desde o incio, deixando bem 
claro que no queria competir com ela diretamente.
       - Porque no? - retorquiu a amiga, olhando-a, surpreendida. - A Chanel no compete com o Dior? E a Elsa com todos eles? No sejas pateta! Ser timo para 
o negcio! - Zoya no tivera essa opinio, mas sentiu-se aliviada por ter a bno de Axelle.
       Quando viu o stio que o amigo de Simon descobrira apaixonou-se de imediato por ele. Era perfeito. Fora anteriormente um restaurante entre as ruas 54 e 55 
e distava somente trs quarteires do Axelle's.
       Encontrava-se em muito mau estado, mas, ao semicerrar os olhos, soube que era mesmo o que pretendia e, melhor ainda, o andar de cima tambm estava disponvel.
       - Fica com os dois - aconselhou Simon.
       - No achas grande demais? - Era enorme, e esse o motivo por que o restaurante falira. Revelara-se excessivamente grande para a pequena clientela, mas Simon 
abanou a cabea, levado pelo seu instinto nato do que funcionava a nvel de negcio.
       - Podes pr roupa de mulher no rs-do-cho e roupa de homem no andar de cima, e, se resultar - disse com uma piscadela de olho ao amigo -, podemos comprar 
o prdio. De fato, talvez devamos faz-lo j, antes que eles se armem em espertos e aumentem excessivamente o aluguel. Fez alguns clculos num bloco de apontamentos 
e depois esboou um aceno de cabea. - Vai em frente, Zoya. Compra-o.
       - Comprar? - repetiu, ofegante. - O que farei com os outros trs andares?
       - Alugas com contratos de um ano. Se a loja for um sucesso, podes recuperar um andar por ano. Pode ser que um dia fiques contentssima por teres cinco andares.
       - Isto  uma loucura, Simon! - Sentia-se, porm, to excitada que mal conseguia dominar-se. Nunca sonhara em ser dona de uma loja e, de sbito, ali estava, 
no meio de tudo aquilo.
       Contrataram arquitectos e Elsie de Wolfe e, semanas depois, estava rodeada de planos, documentos e desenhos, havia amostras de mrmore por toda a sua biblioteca, 
bem como tecidos, e acabamentos de madeira; toda a casa era um turbilho e, por fim, Simon deu-lhe uma secretria no seu escritrio e uma funcionria para lhe tratar 
dos pormenores.
       Cholly Knickerbocker mencionou o fato na sua coluna e saiu um artigo sobre o tema em The New York Times. "Ateno, Nova Iorque!", dizia o artigo. "Quando 
Zoya Ossupov, a famosa condessa do Axelle's, e Simon Hirsch, com o seu imprio da Stima Avenida, uniram foras em Julho passado, podem ter dado incio a algo de 
grandioso!" E as palavras foram profticas.
       Em Maro, partiram com destino a Paris no Normandie a fim de comprar artigos para as linhas de Simon e escolher alguns elementos da primeira coleo de Zoya. 
E desta vez escolheu todas as coisas de que gostava, sem ter de se submeter  vontade de Axelle.
       Nunca se divertira tanto na vida como quando foi s compras com ele, e Simon concedeu-lhe um oramento ilimitado. Ficaram no George V e usufruram de momentos 
a ss que se assemelharam a uma lua-de-mel.
       Regressaram a Nova Iorque um ms depois de terem partido, felizes, refrescados e mais apaixonados do que nunca. A nica mancha ao voltarem a casa residiu 
na notcia de que Sasha fora expulsa do colgio. Aos doze anos, estava a transformar-se num pequeno terror.
       - Como  que isto aconteceu, Sasha? - Dirigiu-se num tom calmo  filha na primeira noite em casa. Tal como, h um ano, Nicholas tinha ido esper-los ao barco, 
mas desta vez na nova Duesenberg que Simon encomendara, antes de terem deixado de as fbricar no ano anterior.
       Nicholas ficara excitadssimo ao v-los e contara a Zoya as notcias da irm. Sasha levara bton e verniz de unhas para o colgio e fora apanhada a beijar 
um dos professores. Ele tinha sido temporariamente suspenso e Sasha expulsa sem qualquer esperana de readmisso. - Porqu? - insistiu Zoya. - O que pode ter-te 
levado a fazer uma coisa dessas?
       - Estava aborrecida - respondeu Sasha com um encolher de ombros -, e frequentar um colgio s de raparigas  estpido.
       Simon pagara-lhe os estudos em Marymount, e Zoya ficara contentssima por v-Ia num colgio melhor do que ela poderia permitir-se. Nicholas prosseguira no 
Trinity como antes de eles se casarem e adorava estar l. Faltavam-lhe mais dois anos antes de ir para Princeton, como o pai antes dele.
       Sasha aguentara seis meses no Marymount e agora fora expulsa e nem sequer tinha a delicadeza de se mostrar embaraada. S havia dois professores no colgio, 
o de msica e o de dana, o resto eram freiras e mesmo assim Sasha arranjara sarilhos.
       Zoya interrogou-se sobre se seria uma maneira de a castigar por se ter afastado tanto tempo e se mostrar to entusiasmada com o novo negcio.
       Era a primeira vez que refletia no assunto, mas agora no havia nada a fazer. Encomendara todas as linhas americanas antes de partir e comprara e pagara o 
restante em Paris. Tinha de abrir a loja fosse l como fosse. E era uma altura pssima para Sasha lhe causar problemas. Contudo, Sasha no era a nica coisa que 
a preocupava.
       - No te sentes embaraada? - perguntou Zoya. - Antes do mais, pensa em como o Simon foi bom em mandar-te para l. - No entanto, a filha limitou-se a encolher 
os ombros, e Zoya sentiu que no conseguira convenc-la quando voltou ao quarto e encontrou Simon a desfazer as malas. - Lamento muito, Simon. Parece-me to ingrato 
por parte dela ter feito isto.
       - O que  que ela disse? - inquiriu Simon, fitando a mulher com uma expresso preocupada. Havia algo em Sasha que o perturbava nos ltimos meses. Apanhara-a 
mais do que uma vez a fit-lo com olhos esfaimados, de uma forma que teria inspirado um homem menos decente a trat-la como uma mulher e no como uma criana, mas 
nunca falara do assunto a Zoya. Continuara a trat-la como uma mida, o que s servira para a espicaar. Todavia, ela s tinha doze anos e era extremamente bonita. 
Possua a beleza germnica distante da av e o fogo russo da me. Tratava-se de uma combinao terrvel. - Est triste? - indagou, e Zoya abanou a cabea.
       - Se, ao menos, estivesse. - A filha no mostrara uma centelha de arrependimento.
       - O que vais fazer agora?
       - Procurar outro colgio, acho. O ano j vai um pouco avanado para tal. - Era o meio de Abril. - Podia arranjar-lhe um tutor at ao Outono, mas no estou 
certa que fosse bom para ela.
       Simon gostou da idia.
       - Talvez devesses faz-lo. Tirava-lhe um pouco da presso. - "Desde que seja uma mulher." No entanto, Zoya apenas encontrou um homem jovem e nervoso que lhe 
garantiu ser capaz de lidar com Sasha sem qualquer problema. Ficou exatamente um ms e depois fugiu, aterrorizado, sem explicar a Zoya que, no dia anterior, ela 
o recebera com uma camisa de noite que pertencia, obviamente,  me e lhe dissera que queria que a beijasse.
       - s uma fedelha - acusava-a Nicholas noite e dia. Aos dezasseis anos era mais intuitivo em relao a ela do que a prpria me. E Sasha lutava com Nicholas 
como uma gata, arranhando-lhe a cara quando se irritava.
       O prprio Simon estava preocupado com a garota; porm, quando comeava a perder a esperana, ela tornava-se submissa e encantadora.
       As obras da loja corriam de vento em popa e, em Julho, dava a sensao de que abririam em Setembro. Nesse ano, celebraram o aniversrio de casamento numa 
casa alugada em Long Island, dois dias depois de Amelia Earhart desaparecer no Pacfico. Nicholas sentia-se fascinado por ela e confessou em segredo a Simon que 
um dia queria aprender a voar. Charles Lindbergh era o seu heri de infncia. Tambm se sentira fascinado pelo Hndenburg, o dirigvel que tinha explodido sobre 
Nova Jrsia no princpio de Maio. Por sorte, quando tentara convencer Zoya e Simon a viajarem nele at  Europa, Zoya mostrara-se desconfiada e, de qualquer maneira, 
queriam ir de barco, recordando a viagem de h um ano atrs no Queen Mary.
       - Ento, Mistress Hirsch, o que acha? - perguntou Simon, junto  seco de sapatos do piso das mulheres na nova loja dela, no incio de Setembro. -  tudo 
o que queria que fosse?
       Os olhos encheram-se-lhe de lgrimas ao perscrutar o que a rodeava numa muda admirao. Elsie de Wolfe tinha criado uma atmosfera de beleza e elegncia dada 
por sedas cinzentas e um cho de mrmore rosa.
       Havia luzes suaves e arranjos de flores de seda em bonitas mesas Lus XV.
       - Parece um palcio!
       - Nada menos do que mereces, amor. - Beijou-a nessa noite festejaram com champanhe. A loja abriria na semana seguinte com uma festa esplendorosa e a presena 
da elite de Nova Iorque.
       Zoya comprara o vestido para a inaugurao no Axelle's.
       - Isto ser bom para o negcio! Posso ter de dizer no meu prximo anncio que a condessa Zoya faz compras aqui! - As duas mulheres tinham-se tornado amigas 
ntimas e ambas sabiam que nada mudaria a situao.
       Zoya e Simon tinham pensado horas a fio num nome para a loja e, por fim, Simon soltara uma risada, com os olhos brilhantes.
       - J sei!
       - Tambm eu - disse Zoya, a sorrir de orgulho. - Hirsch & Ca.
       - No - ripostou ele ante o som do nome pouco romntico. - Nem sei porque no pensei nisso antes. Condessa Zoya! Parecera-lhe demasiado exibicionista, mas 
acabara por convenc-la.
       Era o que as pessoas queriam, penetrar no mistrio da aristocracia, ter um ttulo mesmo que implicasse comprar um, ou, neste caso, comprar as roupas que uma 
condessa escolhera para elas.
       As colunas dos jornais referiam sem cessar a "condessa Zoya" e, pela primeira vez em anos, Zoya foi s festas para que a convidavam. Era apresentada como 
condessa Zoya e o seu marido, Mr. Hirsch, mas por todo o lado as altas esferas e debutantes pululavam  sua volta. E ela parecia sempre requintada nas suas roupas 
elegantes, de Chanel a Madarne Grs ou Lanvin. As pessoas estavam ansiosas por conhecer as lojas, e as mulheres convenciam-se de que sairiam de l com a aparncia 
de Zoya.
       - Conseguiste, minha amiga - sussurrou Simon na noite da inaugurao, em que a loja transbordava com todos os nomes importantes de Nova Iorque. A prpria 
Axelle enviara-lhe um ramo enorme de orqudeas brancas. "Bonne chance, Mon ame, Affectueusement, Axelle", dizia o carto que Zoya leu com lgrimas nos olhos e fitando 
Simon apaixonadamente.
       - A idia foi tua.
       -  o nosso sonho. - Sorriu, pois, em certa medida, era o beb de ambos. At os filhos dela estavam presentes.
       Sasha com um bonito vestido branco de renda que parecia pudico e era algo que as filhas do czar poderiam ter usado, ou mesmo Zoya em criana, e esse o motivo 
por que ela o comprara em Paris. E Nicholas estava elegantssimo, aos dezasseis anos, com o primeiro smoking e os botes de punho oferecidos por Simon, pequenas 
safiras incrustadas em platina e rodeadas de diamantes. Eram uma famlia da alta sociedade, quando os fotgrafos dispararam as mquinas e Zoya posou repetidas vezes 
com as mulheres da alta sociedade que se tornariam suas clientes.
       A partir desse dia, a loja nunca esteve vazia. Mulheres chegavam em Cadillacs, Perce-Arrows e Rolls. Um ocasional Packard ou Lincoln tambm parava junto 
 porta, e o prprio Henry Ford apareceu a comprar um casaco para a mulher. Zoya tinha planeado vender apenas alguns, pois queria que a maioria dos casacos fosse 
de Simon. Contudo, Barbara Hutton encomendou um com gola de arminho e Mrs. Astor um cor de areia at ao cho.
       No fim do ano, o destino da Condessa Zoya estava traado, e as vendas da quadra natalcia aumentavam. At mesmo a seco de homem no segundo andar elegantemente 
decorado estava a vender bem. Os homens faziam as compras em divises forradas de painis de madeira com bonitas lareiras, enquanto as mulheres gastavam as fortunas 
no andar de baixo nos gabinetes forrados de seda cinzenta.
       Era tudo o que Zoya sonhara e mais e, em Park Avenue, os Hirsch brindaram, felizes, na vspera de Ano Novo.
       - A ns! - disse Zoya, erguendo a taa, ostentando um vestido de noite preto, feito para ela por Dior.
       Todavia, Simon limitou-se a sorrir quando voltou a erguer a taa.
       -  Condessa Zoya!
       
CAPTULO 42
       
       No final do ano seguinte, Zoya teve de abrir outro andar, e a compra do prdio feita por Simon revelara-se proftica. A seco de homem passou para o andar 
de cima e no segundo andar, vendia peles e modelos exclusivos de vestidos e havia ainda uma pequena boutique para as filhas das clientes, Tambm comeavam a aparecer 
rapariguinhas para comprar vestidos de festas e os primeiros vestidos de noite. Vendia mesmo fatos de batizado, a maioria franceses, e todos eles to bonitos como 
os que vira em criana na Rssia miperial.
       A sua prpria filha gostava de ir  loja e escolher vestidos novos sempre que queria, mas Zoya acabou por restringi-Ia. Sasha parecia denotar um apetite insacivel 
por roupas caras e Zoya no queria que exagerasse.
       - Porque no? - redarguiu Sasha, amuada da primeira vez que Zoya lhe disse que no podia ir fazer compras por capricho.
       - Porque j tens montes de coisas bonitas no teu armrio e algumas deixam de te servir antes mesmo de teres oportunidade de as usares. Aos treze anos, ela 
era alta e esguia como Natalya e com uns palmos mais do que a me. E Nicholas era ainda mais alto do que as duas, aos dezessete. Estava no ltimo ano do colgio, 
antes de ir para Princeton.
       - Gostaria de me meter j no negcio como tu - declarara admirativamente a Simon mais que uma vez. Simon fora bom para os trs e Nicholas adorava-o.
       -  o que acontecer um dia, filho. No tenhas muita pressa. Se tivesse tido oportunidade de ir para a faculdade como tu, adoraria.
       - s vezes parece uma perda de tempo - confessou Nicholas, mas sabia que a me esperava que ele fosse para Princeton. No estava, alm disso, demasiado longe 
de casa e tencionava vir  cidade sempre que possvel. Tinha uma vida social intensa, mas tambm se saa bem nos estudos, contrariamente  irm. Esta, aos treze 
anos, era lindssima e parecia facilmente cinco anos mais velha quando se pavoneava pela sala nos vestidos que Zoya ainda lhe comprava.
       - Estes so muito de criana! - lamuriava, contemplando os vestidos de noite da loja. Mal conseguia esperar at ter idade bastante para os usar. E quando 
Simon se ofereceu para a levar ao filme de Disney Branca de Neve e os Sete Anes sentiu-se insultadssima. - J no sou uma criana!
       - Ento no te portes como se o fosses - espicaou Nicholas.
       Contudo, em vez disso, Sasha queria danar o samba e a conga como Simon e Zoya faziam quando iam a El Morocco. Nicholas tambm queria acompanh-los, mas Zoya 
insistiu que ele era ainda muito novo. Simon levou-os a todos ao 21 e falaram seriamente sobre o que estava a acontecer aos judeus na Europa.
       Simon sentia-se muito preocupado com o que Hitler fazia no final de 1938 e tinha a certeza de que haveria uma guerra. Contudo, ningum mais em Nova Iorque 
parecia preocupar-se com isso. Frequentavam festas, recepes e bailes e os vestidos voavam da loja de Zoya. Ela estava mesmo a pensar em abrir outro andar, mas 
parecia cedo de mais.
       Receava que o negcio pudesse diminuir, mas Simon limitava-se a troar das suas preocupaes.
       - Enfrenta a realidade, querida. s um sucesso. O negcio nunca vai diminuir. Depois de se construir algo como o fizeste, no desaparece assim. Ests a firmar 
o teu nome com qualidade e estilo. E, enquanto tiveres coisas para vender, clientes no faltaro.
       Zoya temia dar-lhe razo e trabalhava mais do que nunca, tanto que tiveram de lhe telefonar para a loja quando Sasha voltou a ser suspensa, pouco antes das 
frias do Natal. Tinham-na matriculado no Liceu Francs, uma instituio dirigida por um distinto francs, s que ele no tolerava disparates e convocou Zoya para 
se lhe queixar pessoalmente de mademoiselle. Apanhou um txi para a Rua 95, a fim de lhe suplicar que no expulsasse a filha. Parecia que ela fizera gazeta s aulas 
e fumara um cigarro no bonito salo de baile da instituio. 
       - Tem de castig-la, madame. E aplicar uma rgida disciplina, caso contrrio, madame, receio que todos o lamentemos um dia. - No entanto, depois de uma longa 
conversa com Zoya, concordou em no a expulsar. Coloc-la-ia em vez disso sob vigilncia depois das frias do Natal. E Simon prometeu ser ele a lev-la de carro 
ao liceu para ter a certeza de que no faltava.
       - Achas que devia sair todos os dias da loja quando ela vem do liceu? - perguntou Zoya a Simon nessa noite. Sentia-se mais culpada do que nunca por causa 
das muitas horas que trabalhava na loja.
       - No me parece que devas faz-lo - retorquiu Simon honestamente e pela primeira vez irritado com Sasha. - Com praticamente catorze anos, devia saber comportar-se 
at s seis horas, quando os dois chegamos a casa.
       Sabia perfeitamente que algumas vezes Zoya s chegava a casa depois das sete. Havia sempre tanto que fazer na loja, tantas alteraes que desejava supervisionar 
pessoalmente e encomendas especiais que ela prpria redigia para que no houvesse erros. E parte do seu sucesso residia na sua disponibilidade para as clientes que 
exigiam a condessa Zoya.
       - No podes fazer tudo sozinha - dissera-lhe Simon mais do que uma vez, mas, no ntimo, ela achava que devia, tal como achava que tambm devia estar em casa 
com as crianas. Contudo, nessa altura, Nicholas tinha quase dezoito anos e Sasha era apenas quatro anos mais nova, portanto j no eram crianas. - Ela vai ter 
de se portar corretamente. - E quando ele lhe disse o mesmo nessa noite, Sasha saiu a correr da biblioteca e bateu com a porta do quarto e Zoya comeou a chorar.
       - H momentos em que penso que ela est a pagar o preo da vida que levei antes - retorquiu, assoando-se ao leno de Simon e fitando-o com uma expresso triste. 
Sasha andava a causar preocupaes terrveis a Zoya, e Simon sentia-se zangado com ela por isso. - Quando ela era uma mida, eu estava sempre no trabalho e agora... 
quase me parece tarde de mais para a compensar.
       - No tens nada que a compensar, Zoya. Ela tem tudo o que pode desejar, inclusive uma me que a adora. - O problema residia em que era mimada e ele no queria 
diz-lo. O pai tinha-a estragado com mimos em criana, e Nicholas e Zoya haviam continuado o processo nos anos seguintes.
       Zoya tambm mimara Nicholas, mas ele aparentemente tornara-se mais bondoso e sensato, apreciando tudo o que Simon fazia por ele, contrariamente a Sasha, que 
s queria mais e tinha acessos de raiva quase dirios. Se no queria um vestido novo, era um novo par de sapatos ou uma viagem algures ou queixava-se porque no 
queriam ir a St. Moritz ou no possuam uma casa no campo. Tendo, porm, em considerao a fortuna que Simon tinha feito, nem ele nem Zoya gostavam de luxos excessivos. 
Ela j tivera tudo isso antes e o que partilhava agora com Simon era mais importante.
       As preocupaes de Zoya com Sasha quase lhe estragaram as frias de Natal e, depois do Natal russo, parecia realmente doente. Andava plida e trabalhava demasiado 
na loja, quase como se afogasse l as suas mgoas. Para a alegrar, Simon anunciou que ia lev-la a Sun Valley, sem as crianas, para esquiar.
       Sasha ficou ainda mais furiosa. Queria acompanh-los, e Simon disse-lhe com firmeza que no era possvel. Tinha de ficar em Nova Iorque e ir s aulas e ela 
fez o possvel e o impossvel para lhes estragar a viagem.
       Telefonou-lhes a dizer que a cadela estava doente e no dia seguinte Nicholas desmentiu-a. Entornou tinta na alcatifa do quarto, e do liceu telefonaram a informar 
que voltara a faltar s aulas. Zoya s desejava regressar a casa e control-la novamente. Contudo, enjoou durante toda a viagem de comboio e, quando chegaram a Nova 
Iorque, Simon insistiu para que fosse ao mdico.
       - No sejas idiota, Simon. Estou apenas cansada - ripostou, o que no era hbito nela.
       - No me interessa. Ests com um aspecto horrvel. A minha me disse que estava preocupada contigo quando te viu ontem.
       Zoya riu ante a observao. Sofia Hirsch costumava preocupar-se com a religio dela e no com o seu estado de sade. Contudo, acabou por concordar em ir ao 
mdico na semana seguinte, embora achasse um disparate. Sabia que andara a trabalhar demasiado e continuava preocupada com Sasha, embora a filha parecesse mais submissa 
agora que tinham regressado de Sun Valley.
       Todavia, Zoya no estava, de forma alguma, preparada para o que o mdico lhe disse, depois de a ter observado.
       - Est grvida, Mistress Hirsch. - Sorriu-lhe bondosamente do outro lado da secretria. - Ou devo chamar-lhe condessa Zoya?
       - Estou o qu? - redarguiu, fitando-o incrdula. Tinha quarenta anos e a ltima coisa que desejava era um filho, mesmo sendo de Simon.
       Quando tinham casado h dois anos e meio, haviam concordado que era algo fora de questo. Sabia que Simon o lamentava, mas, agora com a loja, teria sido ridculo. 
" ridculo", pensou, fitando o mdico sem querer acreditar no que ouvia. - Mas no posso estar!
       - Bom. Na verdade, est. - Fez-lhe mais algumas perguntas e calculou que o beb deveria nascer por volta de 1 de Setembro. - O seu marido ficar satisfeito?
       - Eu... ele... - Zoya mal conseguia falar. Tinha os olhos cheios de lgrimas e, prometendo voltar dali a um ms, saiu apressadamente do consultrio.
       Nessa noite ao jantar no falou, mais parecendo que algum tinha morrido, e Simon fitou-a, preocupado, vrias vezes. Contudo, esperou at estarem a ss na 
biblioteca para lhe perguntar o que dissera o mdico.
        - Passa-se alguma coisa? - Sabia que no podia continuar a viver se alguma coisa lhe acontecesse e detectava-lhe no olhar que ela estava terrivelmente perturbada.
       - Simon... - Ergueu o rosto, angustiada, na sua direo. - Estou grvida.
       Simon fitou-a e depois precipitou-se subitamente para ela e pegou-lhe ao colo com um grito de alegria.
       - Oh, querida... Oh, querida!.. Oh, meu Deus... Como te amo!...
       Quando Zoya voltou a olh-lo, apercebeu-se de que ele ria e chorava ao mesmo tempo e nem teve coragem de lhe confessar que nessa tarde chegara a pensar em 
fazer um aborto. Sabia que era perigoso, mas tambm sabia que vrias das suas clientes o haviam feito e sobrevivido e era velha demais para ter um filho. Ningum 
tinha um filho aos quarenta anos! Pelo menos, ningum que ela conhecesse, ningum no seu juzo perfeito, e fixou o marido com uma expresso irritada.
       - Como podes estar to feliz? Tenho quarenta anos. Sou velha demais para ter outros filhos.
       - Foi o que disse o mdico? - indagou, preocupado, quando ela recomeou a chorar.
       - No - respondeu, furiosa, e assoou-se. - Deu-me os parabns. Simon s conseguia rir-se dela, ao v-Ia percorrer a sala de um lado para o outro. - E a loja? 
Pensa nisso, Simon. E as crianas?
       - Ser bom para eles - redarguiu, sentando-se calmamente numa cadeira com o ar de quem tinha conquistado o mundo. - O Nicholas ir para a faculdade no prximo 
ano e, de qualquer maneira, acho que ficar feliz por ns. E talvez faa bem  Sasha deixar de ser a beb da casa. Seja como for, ter de se adaptar. Com a loja 
no haver problema. Podes ir l umas horas todos os dias e depois contratar uma ama... - J tinha tudo planeado quando Zoya o olhou. Trabalhara tanto, os humores 
de Sasha eram to instveis e do que menos precisava no mundo era um beb que perturbasse o equilbrio.
       - Umas horas? Achas que consigo dirigir a loja numas horas? Ests doido, Simon!
       - No, no estou - asseverou com um sorriso tranquilo. - Mas estou doido pela minha mulher, isso sim... - Os olhos brilhavam-lhe e parecia outra vez um rapazinho. 
Ia ser pai aos quarenta e trs anos. - Vou ser pai! - Parecia to satisfeito que ela no teve coragem de continuar irritada e sentou-se com uma expresso triste 
no sof, chorando com mais fora.
       - Oh, Simon... como  que isto pde acontecer?
       - Vem c. - Aproximou-se mais dela e rodeou-lhe o ombro com o brao. - Eu explico-te...
       - Deixa-te disso, Simon!
        - Porqu? Agora j no podes engravidar.
       Ainda se sentia mais divertido porque ela era sempre to cuidadosa, mas por vezes o destino troca as voltas e no podia deixar que ela mudasse o rumo. Zoya 
j dera a entender sombriamente que as coisas podiam ser "mudadas" e ele sabia o que estava por detrs das palavras, mas nem era bom pensar nisso. No ia permitir 
que a mulher arriscasse a vida com um aborto do filho que ele sempre desejara.
       - Zoya... minha querida... acalma-te um minuto e pensa. Podes trabalhar at ao fim da gravidez. Podes provavelmente estar no teu gabinete at o beb nascer, 
desde que no andes muito de um lado para o outro. E depois voltars a trabalhar e nada mudar, exceto que teremos um belo filho nosso para amar durante o resto 
da vida.  assim to terrvel, querida? - Com aquele raciocnio no parecia realmente o fim do mundo, e ele tratara to bem os filhos dela que sabia no poder negar-lhe 
um seu. Suspirou e voltou a assoar-se.
       - Rir de mim quando crescer. Pensar que sou a av em vez da me!
       - No, se tiveres o mesmo ar de agora. E por que razo havia isso de mudar? - Zoya ainda era bonita e, aos quarenta anos, parecia muito jovem. S o fato de 
ter um filho de dezessete anos atraioava a sua idade e ela orgulhava-se tanto dele que o referia sem cessar. Mas,  parte este pormenor, ningum lhe daria mais 
que vinte e tais, quando muito trinta. Amo-te tanto - tranquilizou-a de novo Simon, e Zoya empalideceu ao pensar em Sasha.
       - O que lhe diremos?
       - A boa notcia - afirmou meigamente  mulher - de que vamos ter um filho.
       - Acho que ela ficar muito perturbada.
       E foi a declarao do sculo. S que nenhum deles estava preparado para o furaco que varreu Park Avenue quando Zoya lhe falou do beb.
       - Ests o qu?  a coisa mais nojenta que alguma vez ouvi! O que direi aos meus amigos, cus? Vo rir-se de mim e ser tudo por tua culpa! - Mostrava toda 
a sua raiva, e Zoya fitava-a, infeliz.
       - Nada mudar e continuarei a amar-te. No sabes isso, querida? retorquiu, desesperada.
       - No me interessa! No quero ficar a viver aqui, se tiveres um filho!
       Batera com a porta e nessa tarde tinha desaparecido depois das aulas. Levaram dois dias a descobrir que ela estava na casa de uma amiga.
       Nessa altura, Zoya e Simon haviam chamado a Polcia, e ela encarou-os na casa da amiga com um olhar de desafio. Zoya pediu-lhe calmamente que voltasse com 
eles para casa, Sasha recusou e Simon teve, pela primeira vez, um verdadeiro ataque de fria.
       - Vai buscar as tuas coisas imediatamente! Entendes? - Agarrou-lhe no brao e abanou-a com fora. Nunca fizera nada parecido e ela achara-o dotado de uma 
infinita pacincia. Contudo, at Simon tinha os seus limites. - Vai buscar o chapu, o casaco e o mais que trouxeste para aqui e virs conosco, quer queiras ou no, 
caso contrrio, Sasha, interno-te num convento.
       Por instantes, ela acreditou nele. Simon no queria que a mulher abortasse por causa daquela sua filha mimada. Pouco depois, Sasha regressou  sala com as 
suas coisas, parecendo mais submissa e um tanto receosa de Simon. Zoya desfez-se em desculpas frente  me da amiga de Sasha e levou-a para casa, onde Simon lhe 
leu a sentena, mal puseram p no apartamento.
       - Se alguma vez te atreveres a voltar a afligir a tua me, Sasha Andrews, dou-te uma tareia de morte, entendes? - Rugia, mas Zoya sorria intimamente. Sabia 
que ele seria incapaz de pr a mo na filha ou em quem quer que fosse, mas estava plido de raiva. E, subitamente, comeou a temer que ele pudesse ter um ataque 
de corao como o que vitimara Clayton;
       - Vai para o teu quarto, Sasha - ordenou num tom frio, e a jovem obedeceu em silncio, surpreendida pela primeira vez ante a reao de ambos.
       - H muito que deviam ter feito isso - pronunciou-se Nicholas, que entrara e observara a cena. - Acho que  mesmo o que ela precisa. Umas boas palmadas no 
traseiro. - Depois, soltou uma risada maliciosa e Simon voltou a descontrair-se. - Posso substituir-te quando quiseres. - Virou-se em seguida para a me com o sorriso 
que tantas vezes lhe recordava o do irmo. - Quero que saibas que isso do beb e maravilhoso.
       - Obrigada, querido. - Aproximou-se e colocou os braos  volta do pescoo do filho, alto e elegante, fitando-o com uma expresso tmida. No vais sentir-te 
embaraado por a tua velha me ir ter um filho?
       - Se tivesse uma velha me, talvez. - Sorriu-lhe e momentos depois o seu olhar cruzou-se com o de Simon, detectando o amor que ele lhe dedicava. Dirigiu-se-lhe 
e abraou-o tambm.
       - Parabns, pap - felicitou Nicholas. Calmamente beijou-o, enquanto os olhos de Simon se enchiam de lgrimas. Era a primeira vez que o jovem o tratava assim. 
Uma nova vida comeara para todos eles e no s para Simon e Zoya.
       
CAPTULO 43
       
       Em Abril de 1939, foi inaugurada a Exposio Mundial em Flushing Meadows e Zoya queria muito ir, mas Simon achava que ela no devia. Haveria uma multido 
e ela estava com quatro meses de gravidez. Continuava a trabalhar a tempo inteiro na loja, embora fosse um pouco mais cuidadosa que anteriormente.
       Em vez disso, Simon levou os midos  exposio e ambos ficaram maravilhados. A prpria Sasha portou-se bem, como andava a faz-lo desde a famosa exploso 
de Simon. Continuava, porm, a mostrar-se difcil com Zoya sempre que podia, e isso acontecia com frequncia.
       Em Junho, iniciaram-se os primeiros voos de passageiros transatlnticos com a Pan American e Nicholas ansiava por ir  Europa no Dxie Clipper, mas Simon 
no deixou. Achava demasiado perigoso, e mais do que isso preocupava-o o que estava a passar-se na Europa.
       Na Primavera, ele e Zoya tinham voltado a viajar no Normande a fim de comprar roupa para a loja e tecidos para a sua linha de casacos.
       Todavia, sentira um clima de tenso por todo o lado e apercebera-se de um anti-semitismo muito mais vincado do que da ltima vez que l estivera. Agora, tinha 
a certeza de que haveria uma guerra e ofereceu em vez disso a Nicholas uma viagem de fim de curso  Califrnia.
       O jovem ficou deliciado. Fez a viagem de ida e volta de avio a So Francisco e mostrou-se apaixonado por tudo o que vira e divertido com o tamanho da barriga 
da me. Em Agosto ela deixou finalmente de ir  loja, passando a telefonar de meia em meia hora. Ignorava o que fazer quando no estava a trabalhar. Simon trazia-lhe 
doces, livros e as revistas de que ela gostava, mas no fim de Agosto Zoya s conseguia pensar no berrio em que transformara o quarto de hspedes junto  biblioteca 
e ia encontr-la ali diariamente a dobrar roupinha de beb. Era um lado da mulher que desconhecia. Zoya foi mesmo ao ponto de reorganizar os armrios e mudou a moblia 
do quarto deles.
       - Calma, Zoya! - dissera em tom de brincadeira. - At tenho medo de voltar para casa  noite. Posso sentar-me numa cadeira que j no existe.
       Ela corou, consciente de que ele tinha razo.
       - No sei o que se passa comigo - desculpou-se. - No consigo libertar-me da permanente necessidade de ter a casa arrumada.
       Mudara tambm a decorao do quarto de Sasha, que estava num acampamento para jovens, o que foi um alvio para Simon por no ter de se preocupar com ela. 
Tudo parecia correr bem por l, pois s fugira uma vez aos vigilantes para ir danar com as amigas na aldeia mais prxima.
       Tinham-na descoberto  cabea de uma fila de conga, levando-a de volta ao acampamento, mas, pelo menos, no haviam ameaado recambi-la para casa. Simon queria 
que Zoya pudesse descontrair-se antes de dar  luz.
        No fim de Agosto, a Alemanha e a Rssia surpreenderam o mundo ao assinarem um pacto de no-agresso, mas Zoya no parecia interessada nas notcias mundiais. 
Estava demasiado ocupada a telefonar para a loja e a mudar o apartamento.
       A 1 de Setembro, props-lhe irem ao cinema quando voltou a casa. Sasha devia regressar na noite seguinte e Nicholas partia na outra semana para Princeton, 
mas sara com uns amigos, para exibir o carro que Simon acabara de lhe oferecer para levar para a faculdade. Era um Ford coup novo em folha e com todos os extras 
possveis.
       - s demasiado generoso para ele - advertiu Zoya, sorrindo como sempre grata por tudo o que ele fazia pelos seus filhos. Nessa noite ele passara pela loja 
e deu-lhe as notcias, s depois reparando que a mulher parecia ainda mais desconfortvel do que de manh.
       - Sentes-te bem, querida?
       - Estou tima. - Contudo, respondeu que estava demasiado cansada para ir ao cinema. Nessa noite foram deitar-se s dez da noite e uma hora mais tarde ele 
sentiu-a mexer-se, ouviu um ligeiro gemido e acendeu a luz.
       Zova mantinha-se deitada, de olhos fechados e agarrada ao ventre.
       - Zoya? - Ignorava o que fazer. Saltou da cama e ps-se a andar pelo quarto  procura da roupa e sem se lembrar onde a deixara. - No te mexas. Vou chamar 
o mdico. - Nem sequer se lembrava onde estava o telefone e ela riu-se da cama.
       - Acho que  apenas uma indigesto.
       Mas a indigesto piorou nas duas horas seguintes e s trs da manh ele telefonou ao porteiro do prdio e pediu um txi. Quando a ajudou a entrar no txi, 
ela j mal conseguia falar e tinha dificuldade em andar.
       Simon estava aterrorizado e subitamente deixou de se interessar pelo beb. S queria que ela ficasse bem. Perdeu o controlo quando a levaram na maca no hospital 
e ps-se a andar nos corredores, enquanto o sol nascia. Uma hora mais tarde, ps-se em p de um salto quando uma enfermeira lhe tocou no ombro.
       - Ela est bem?
       - Est - disse a enfermeira a sorrir. -  pai de um belo rapazinho, Mister Hirsch.
       Ele fitou-a e comeou a chorar, enquanto a enfermeira se afastava calmamente. E meia hora depois deixaram-no ver Zoya, que mergulhara num sono pacfico com 
o beb nos braos. Simon entrou no quarto nos bicos dos ps e parou, maravilhado, ao ver o filho pela primeira vez.
       Tinha um tufo de cabelo negro como o dele e conservava a mozinha enroscada  volta dos dedos da me.
       - Zoya? - sussurrou no quarto enorme e soalheiro do hospital. -  to bonito - exclamou, quando ela abriu os olhos e lhe sorriu. Tinha sido um parto difcil 
pois o beb era grande, mas mesmo assim, logo a seguir, soube que valera a pena.
       - Parece-se contigo - proferiu numa voz ainda rouca da anastesia.
       - Pobre criana. - Os olhos encheram-se-lhe novamente de lgrimas e inclinou-se para a beijar. Nunca se sentira to feliz na vida e Zoya parecia igualmente 
feliz e orgulhosa quando passou suavemente a mo pelo cabelo preto e sedoso. - Como vamos chamar-lhe?
       - Que tal Matthew? - sussurrou, enquanto Simon no se cansava de olhar o filho. - Matthew Hirsch.
       - Matthew Simon Hirsch - rematou Zoya e depois voltou a adormecer com o filho nos braos e o marido observando-a com as lgrimas tombando na farta cabeleira 
ruiva ao beij-la.
       
CAPTULO 44
       
       Matthew Simon Hirsch ainda se encontrava no hospital e tinha apenas um dia de vida quando a guerra estalou na Europa. A Gr-Bretanha e a Frana tinham declarado 
guerra  Alemanha quando esta invadiu a Polnia, aliada dos dois pases.
       Simon entrou no quarto de Zoya com uma expresso triste e deu a notcia mas, instantes depois, quase a esquecera ao pegar em Matthew, observando-o a soltar 
um vagido lascivo pela me.
       Quando Zoya regressou ao apartamento de Park Avenue, Sasha estava l para a receber. Nem ela conseguiu resistir ao bonito beb que tanto se parecia com Simon.
       - Tem o nariz da mam - declarou, satisfeita e divertida, fascinada por tudo ser to perfeito e pequeno quando lhe pegou pela primeira vez. Aos catorze anos 
ainda no tinha idade para visitar o hospital, mas Nicholas conhecera o irmo, antes de partir para Princeton. - E tem as minhas orelhas! - Sasha riu. - Mas o resto 
 do Simon!
       A 27 de Setembro, depois de brutalmente atacada, Varsvia rendeu-se com baixas imensas. Simon ficou destroado com as notcias, e ele e Zoya conversaram pela 
noite fora, enquanto ela se lembrava da revoluo. Foi terrvel e Simon lamentou o massacre dos Judeus por toda a Alemanha e leste da Europa. Fazia tudo o que lhe 
era possvel pelos que conseguiam fugir.
       Estabelecera um fundo de auxlio e estava a tentar arranjar documentos para familiares de que nunca ouvira falar. As pessoas na Europa serviam-se de listas 
telefnicas e telefonavam a habitantes de Nova Iorque com apelidos parecidos, suplicando-lhes ajuda e ele nunca recusava. Mas foram muito poucos os que conseguiu 
ajudar. Os restantes eram conduzidos para a morte, fechados em campos de concentrao ou abatidos nas ruas de Varsvia.
       Quando Matthew tinha trs meses, Zoya voltou ao trabalho no dia em que a Rssia invadiu a Finlndia. Simon seguiu avidamente as informaes sobre a Europa 
sobretudo os noticirios de Edward R. Murrow, de Londres.
       Era 1 de Dezembro e Zoya ficou excitadssima por contrar a loja a abarrotar de clientela. Foram todos ver O Feiticeiro de Oz quando Sasha saiu das aulas. 
Nicholas chegara a casa de Princeton que estava a adorar, embora falasse muito com Simon sobre a guerra, sempre que vinha de frias.
       Ainda gostou mais do segundo ano e, antes de voltar de novo a Princeton, foi passar uma vez mais as frias de Vero  Califrnia. Nesse ano, Zoya no pudera 
viajar at  Europa por causa da guerra e tiveram de se servir dos estilistas dos Estados Unidos. Ela gostava sobretudo de Norman Norell e Tony Traina.
       Corria o ms de Setembro de 1941 e Simon tinha a certeza de que o pas entraria em guerra, mas Roosevelt continuava a insistir que no. E a guerra em nada 
prejudicara a loja, pois foi o melhor ano para Zoya.
       Quatro anos atrs, abrira as portas e agora utilizava os cinco andares do prdio que Simon inteligentemente comprara. Ele tinha adquirido mais quatro fbricas 
de txteis no Sul e o seu prprio negcio expandia-se a olhos vistos. Zoya tinha uma seco s com os casacos dele e chamava-lhe o seu fornecedor preferido.
       Nessa altura, o pequeno Matthew tinha dois anos e era a menina dos olhos de todos, inclusive de Sasha. Ela era, na opinio de todos, uma lindssima adolescente 
de dezasseis anos. Alta e magra como a me de Zoya o fora, mas, em vez do porte real de Natalya, irradiava uma sensualidade que atraa os homens como o mel as abelhas. 
Zoya sentia-se satisfeita por ela estar ainda no liceu e no ter praticado nenhum ato de revolta ao longo de quase um ano. Simon prometera levar todos a esquiarem 
em Sun Valley nesse ano e Nicholas ansiava por se lhes juntar.
       A 7 de Dezembro, estavam sentados na biblioteca a discutir os seus planos, e Simon ligou a rdio. Em casa, gostava de ouvir os noticirios e tinha Matthew 
nos joelhos quando o rosto se lhe contraiu subitamente. P-lo nos braos de Sasha e correu ao encontro de Zoya. Estava muito plido quando a encontrou no quarto.
       - Os Japoneses bombardearam Pearl Harbor, no Havai!
       - Oh, meu Deus... - Levou-a para a outra diviso com ele a fim de ouvirem as notcias, e o locutor relatava os acontecimentos num tom de grande excitao. 
Ficaram pregados ao cho. Matthew puxou pela saia de Zoya e tentou chamar-lhe a ateno, mas ela limitou-se a pegar-lhe ao colo e a apert-lo. S conseguia pensar 
que Nicholas tinha vinte anos. No queria que ele morresse como o irmo morrera na Preobrajenski. Simon... o que acontecer agora?
       Todavia, soube instintivamente quando continuaram a ouvir. Iam entrar em guerra. O presidente RooseveIt fez a comunicao num tom de voz cheio de pesar, mas 
no tanto quanto o de Zoya.
       Na manh seguinte, Simon alistou-se no exrcito. Tinha quarenta e cinco anos e Zoya suplicou-lhe que no fosse, mas ele fitou-a tristemente ao voltar a casa.
       - Tenho de ir, Zoya. Seria incapaz de me enfrentar, se me deixasse ficar aqui sentado sem fazer nada em defesa do meu pas. - E no o fazia apenas pelo seu 
pas, mas pelos Judeus da Europa. A causa da liberdade estava a ser destruda por todo o mundo e no podia ficar de braos cruzados, permitindo que isso acontecesse.
       - Por favor... - implorou Zoya. - Por favor, Simon... - Transbordava de tristeza. - No conseguiria viver sem ti. - J passara por tudo aquilo antes, perdera 
pessoas que amava e sabia que seria incapaz de sobreviver de novo... sem Simon, to meigo, terno e amoroso. - Amo-te demasiado. No vs. Por favor... - Estava morta 
de medo, mas ele no se deixou dissuadir.
       - Tenho de ir, Zoya. - Nessa noite ficaram deitados lado a lado na cama, ele acariciou-a suavemente com as enormes mos qua pegavam com tanto carinho no filho, 
as mesmas mos que agora lhe tocavam e a apertavam de encontro a li. Ela chorava, aterrorizada com a perspectiva de perder o homem que amava to profundamente. - 
No vai acontecer nada.
       - No sabes. Precisamos demasiado de ti para que vs. Pensa no Matthew. - Teria dito qualquer coisa para o convencer a ficar, mas nada o persuadiu.
       -  nele que estou a pensar. No valer a pena viver neste mundo quando ele crescer se ns no fizennos frente agora, se no lutarmos pela dignidade e pelo 
que  justo. - Ainda pensava com tristeza no que acontecera na Polnia, h dois anos. Contudo, agora que o seu prprio pas fora atacado, no lhe restava alternativa. 
E nem mesmo a entrega apaixonada de Zoya nessa noite nem as suas splicas renovadas o levaram a mudar de opinio. Por mais que a amasse, sabia que tinha de ir. O 
seu amor por Zoya s se comparava ao seu sentido de dever para com o pas, independente do que pudesse custar-lhe.
       Foi mandado para Fort Benning, na Jrgia, de comboio, e trs meses depois veio passar dois dias a casa, antes de partir para So Francisco.
       Zoya queria voltar  casinha, de Mrs. Whitman na Connecticut para ficar a ss com ele, mas Simon achou que devia passar esses ltimos dias em casa, com os 
filhos. Nicholas veio de Princeton para assistir  partida e os dois homens apertaram solenemente a mo na Grande Estao Central.
       - Toma conta da tua me por mim - pronunciou Simon sem erguer a voz no meio do barulho que o rodeava, sempre suave, sempre calmo. A prpria Sasha chorava. 
Matthew tambm chorava, embora no percebesse o que estava a acontecer. Sabia apenas que o pai ia para qualquer lado, a me e a irm choravam e o irmo tambm parecia 
triste. Nicholas abraou o homem que tinha sido um pai para ele naqueles cinco anos e Simon tinha lgrimas nos olhos, quando se lhe dirigiu. - Tem cuidado, filho.
       - Tambm quero ir. - Pronunciou a frase to baixo que nem a me o ouviu.
       - Ainda no - replicou Simon. - Tenta acabar o curso. De qualquer maneira podem recrutar-te. Contudo, ele no queria ser recrutado, queria ir para Inglaterra 
e pilotar avies. H meses que andava a pensar no assunto e em Maro no conseguiu aguentar por mais tempo. Nessa altura, Simon estava no Pacfico e Nicholas disse-lhes 
no dia a seguir a Sasha fazer dezessete anos.
       Zoya nem queria ouvir. Ficou furiosa e ps-se a chorar.
       - No te basta que o teu pai tenha ido, Nicholas? - Passara a referir-se assim a Simon, e Nicholas no se opunha Gostava dele como de um pai.
       - Tenho de ir, mam. No compreendes?
       - No, no compreendo. Porque no podes ficar onde ests at que te recrutem? O Simon quer que acabes a faculdade, ele prprio to disse. Tentou desesperadamente 
cham-lo  razo, mas sentiu-o sempre inamovvel, quando se sentou com ele na sala e chorou. J sentia horrivelmente a falta de Simon, e a perspectiva do afastamento 
de Nicholas era mais do que conseguia aguentar.
       - Posso voltar a Princeton depois da guerra - redarguiu.
       No entanto, h anos que achava que estava a desperdiar tempo, Gostava muito de Princeton, mas queria entrar no mundo real, trabalhar como Simon o fazia e 
agora combater, tal como ele no Pacfico. Escrevia-lhes sempre que podia a contar o que lhe deixavam do que se passava  sua volta. Mas agora Zoya desejava mais 
do que nunca que ele estivesse em casa e convencesse Nicholas a no abandonar os estudos.
       Passados dois dias de discusses, soube que tinha perdido. E, trs semanas mais tarde, ele partiu para Inglaterra para treinar. Zoya ficou sozinha no apartamento, 
pensando com amargura em tudo o que havia perdido e receando poder voltar a perder... um pai, um irmo, por fim um pas, e agora o marido e filho tambm tinham partido.
        Sasha tinha sado, e deixou-se ficar de olhos perdidos no vazio. Nem sequer ouviu o toque da campainha da porta. Soou repetidamente e pensou em no responder, 
mas depois levantou-se devagar. No queria ver ningum. Apenas queria que os dois voltassem para casa, antes que alguma coisa lhes acontecesse. Sabia que se algo 
acontecesse no aguentaria.
       - Sim? - Regressara da loja h uma hora e nem mesmo o trabalho servia para lhe ocupar o esprito, com a mente constantemente obcecada com Simon, tendo agora 
ainda de se preocupar com Nicholas, que pilotava avies de combate sobre a Europa.
       O rapaz de uniforme mostrava-se muito nervoso. Naqueles ltimos meses acabara por odiar o emprego. E agora fitava Zoya, desejando que tivessem mandado outra 
pessoa que no ele. Parecia uma mulher fantstica, com o cabelo ruivo apanhado e um sorriso nos lbios, sem compreender o que se aproximava.
       - Um telegrama, minha senhora - informou, acrescentando depois com os olhos tristes de criana: - Lamento muito.
       Entregou-lho e foi-se embora. No queria ver-lhe a expresso quando o abrisse e lesse a notcia. A tarja negra dizia tudo. Zoya susteve a respirao e as 
mos tremiam-le incontrolavelmente quando o rasgou e, nesse momento, o elevador veio salvar o mensageiro. J desaparecera quando ela leu as palavras...
       "Lamentamos informar que o seu marido, Simon lshmaci Hirsch, foi morto ontem..." ... Tudo o mais no passou de uma nvoa quando ela caiu de joelhos na entrada, 
soluando o nome dele... e recordando-se subitamente de Nicolai, sangrando de morte no cho de mrmore do Palcio Fontanka....
       Ficou a soluar durante horas a fio, ansiando o seu toque meigo, v-lo, o cheiro da gua-de-colnia que ele usava... o cheiro  espuma da barba... qualquer 
coisa... qualquer coisa... Ele nunca mais voltaria a casa.
       Simon desaparecera, como os outros.
       
CAPTULO 45
       
       Quando Sasha regressou a casa, encontrou a me sentada s escuras. Ao saber porqu, teve uma atitude sensata uma vez na vida. Chamou Axelle, que veio fazer-lhe 
companhia e organizar a cerimnia fnebre.
       No dia seguinte, a Condessa Zoya fechou e as portas foram tapadas com crepes pretos. Axelle ficou no apartamento com Zoya, que se manteve sentada, incapaz 
de raciocinar ou fazer algo mais do que acenos de cabea, enquanto Axelle se ocupava de tudo. Zoya no conseguia tomar as decises necessrias, o que em nada se 
lhe adequava.
       O seu ato final de coragem residira em ir a casa dos pais de Simon, em Houston Strect na noite anterior. A me gritara e lanara-se a chorar nos braos do 
marido e, por fim, Zoya fora-se embora, tropeando  sada e agarrando-se ao brao de Sasha. Estava cega de tristeza e dor pela perda do homem que amara mais do 
que qualquer outro.
       A cerimnia fnebre foi uma verdadeira agonia com toda a litania e os gritos da me. Zoya apertava o brao de Axelle e as mos de Sasha e depois tinham-na 
levado de volta ao apartamento onde chorara sem parar.
       - Tens de regressar ao trabalho, assim que puderes - replicou Axelle, olhando-a quase duramente.
       Sabia como era fcil deixar-se afundar, desistir, pois era o que quase tinha feito quando o marido morrera. E agora Zoya no podia dar-se a esse luxo. Tinha 
trs filhos em quem pensar, e nela tambm. E j antes sobrevivera  tragdia. Tinha de voltar a faz-lo agora, mas ela limitava-se a abanar a cabea, as lgrimas 
corriam-lhe abundantemente pelas faces e fitava Axelle com uma expresso vazia. Parecia no ter qualquer razo para continuar a viver.
       - Nem sequer consigo pensar nisso agora. No me interessa a loja. No me interessa nada. Apenas o Simon.
       - Bom,  preciso que o faas. Tens uma responsabilidade para com os teus filhos, tu prpria, as tuas clientes... e para com o Simon. Tens de continuar a obra 
que ele te ajudou a comear. No podes desistir. A loja foi o presente que ele te deu, Zoya!
       Era verdade, mas a loja parecia agora to trivial, to ridculamente insignificante. Sem Simon ao seu lado para partilhar, o que interessava tudo aquilo?
       - Precisas de ser forte. - Estendeu  bonita ruiva, um clice de brande que fora buscar ao bar e insistiu para que bebesse um gole, sem deixar de a observar. 
- Bebe tudo. Vai fazer-te bem. - Axelle parecia um militar e Zoya sorriu  amiga por entre as lgrimas e em seguida ps-se a chorar com mais fora ainda.
       - No sobreviveste  revoluo e a tudo o que aconteceu depois, para desistires agora, Zoya Hirsch - prosseguiu Axelle. Contudo o apelido apenas serviu para 
lhe provocar mais lgrimas e Axelle voltou todos os dias at convencer Zoya a regressar  loja.
       Vestia de preto e calava meias pretas, mas pelo menos estava de volta ao seu gabinete. E, decorridos uns dias, os minutos transformaram-se em horas. Acabou 
eventualmente por passar a maior parte do dia  secretria, com uma expresso vaga, pensando em Simon.
       Ia como um rob todos os dias, e Sasha comeara novamente a causar-lhe problemas. Zoya sabia que estava a perder o controlo sobre a filha, mas tambm no 
era capaz de lidar com o assunto. Apenas conseguia sobreviver aos dias, hora a hora, escondida no gabinete, e depois ir para casa  noite e sonhar com Simon. O prprio 
Matthew lhe partia o corao, pois v-lo lembrava-lhe constantemente o pai.
       H semanas que os advogados de Simon lhe telefonavam; no entanto, furtara-se a todas as tentativas de a verem. Simon deixara dois funcionrios leais a dirigir 
a fbrica onde faziam os casacos. Sabia que tudo ali se encontrava sob controlo e j tinha problemas que chegassem a dirigir a sua prpria loja sem enfrentar isso 
tambm. E falar com os advogados sobre os seus bens implicava aceitar a realidade de que ele desaparecera e no conseguia. Estivera a pensar nele, recordando o fim-de-semana 
no Connecticut quando uma das assistentes bateu ao de leve na porta do gabinete.
       - Condessa Zoya? - perguntou a mulher atravs da porta, e Zoya secou os olhos. Sentara-se  secretria, de olhos fixos na fotografia de Simon. Tivera mais 
uma discusso com Sasha na noite anterior, mas nem mesmo isso a afetara.
       - Vou j. - Assoou-se novamente e olhou-se de relane no espelho para compor a maquilhagem.
       - H uma pessoa que deseja falar consigo.
       - No quero ver ningum - replicou calmamente, abrindo apenas uma frincha da porta. - Informe que no estou. - E depois acrescentou como que refletindo: - 
Quem ?
       - Um tal Mister Paul Kelly. Disse que era importante.
       - No o conheo, Christine. Diga-lhe apenas que sa.
       A rapariga parecia nervosa. Custava-lhe tanto ver Zoya assim destruda desde que o marido fora morto, mas era compreensvel. Naquela poca, todas se preocupavam 
com os maridos, irmos, amigos e os receados telegramas de tarja preta como o que havia sido entregue a Zoya.
       Zoya voltou a fechar a porta, rezando intimamente para que no aparecesse ningum importante nesse dia. No conseguia suportar os olhares piedosos e as palavras 
compreensivas. S piorava a situao e depois apercebeu-se de uma segunda pancada na porta. Era Christine, nervosa e inquieta.
       - Ele diz que espera. O que hei-de fazer?
       Zoya suspirou. No conseguia imaginar de quem se tratava.Talvez fosse o marido de uma cliente, algum que receava que ela discutisse uma amante com uma mulher. 
Por vezes recebia visitas desse gnero e tranquilizava-os sempre com uma delicada firmeza. Contudo, desde a morte de Simon que no negociara com ningum.
        Regressou  porta e abriu-a  assistente; continuava com um aspecto muito elegante, de vestido preto e meias pretas. E os olhos refletiam uma infinda tristeza.
       - De acordo. Mande-o entrar. - Tambm no tinha mais nada que fazer. Era incapaz de se concentrar. Nem na loja, nem em casa, era intil.
       Conservou-se imvel quando Christine introduziu no gabinete um homem alto e distinto, vestido com um fato azul-escuro, de cabelo branco e olhos azuis. Ele 
ficou impressionado com a beleza dela e por v-Ia toda vestida de preto com aquele olhar que parecia trespass-lo.
       - Mistress Hirsch? - As pessoas no costumavam trat-la assim e esboou um aceno de cabea triste, interrogando-se sobre quem ele seria, mas pouco interessada.
       - Sim?
       - Chamo-me Paul Kelly. A nossa firma est a tratar dos... bens... do seu marido. - Zoya apertou-lhe a mo com uma expresso de imensa tristeza e convidou-o 
a sentar-se numa das cadeiras prximo da secretria.
       - Temos tentado tudo para contatar consigo. - Fitou-a com uma certa censura e ela reparou que era dono de uns olhos bonitos. Tinha feies irlandesas e sups 
corretamente que outrora o cabelo fora negro cor de azeviche e agora se tornara branco de neve. - No respondeu aos nossos telefonemas. - Contudo, agora ao v-la, 
entendia porqu. A mulher estava devastada pelo desgosto e sentiu uma enorme pena dela.
       - Eu sei - redarguiu, desviando os olhos. Depois soltou um suspiro e fitou-o. - Para falar verdade, no queria falar-vos. Tomava tudo demasiado real. Tem... 
- A voz morreu-lhe num sussurro e voltou a desviar o olhar. - ... Tem sido muito difcil para mim.
       Seguiu-se um longo silncio e ele esboou um aceno cabea, observando-a. Era bvio o desgosto que a consuma e, no entanto, para l da dor, sentia uma enorme 
fora, uma fora que ela prpria esquecera.
       - Compreendo. Mas precisamos de conhecer a sua vontade sobre algumas questes. amos sugerir uma leitura formal do testamento, mas talvez dadas as presentes 
circunstncias... - A voz perdeu-se e os olhos voltaram a encontrar-se com os dela. - Talvez de momento apenas necessite saber que ele deixou quase tudo o que tinha 
a si e ao filho dele. Os pais e os dois tios tambm receberam generosos legados, bem como os seus dois filhos, Mistress Hirsch.
       "Muito generosos, diria - prosseguiu num tom oficial. - De um milho de dlares cada, obviamente sob custdia. Apenas podero tocar-lhe quando atingirem a 
maioridade e h ainda outras condies, mas muito razoveis. O nosso departamento de custdia ajudou-o. - No entanto, deteve-se ao deparar com o olhar de Zoya. - 
Passa-se alguma coisa de errado? - indagou ele. De sbito, lamentou ter vindo. Ela no estava a ouvi-lo.
       - Um milho de dlares cada? - Era muito mais do que alguma vez sonhara, e eram filhos dela e no dele. Estava boquiaberta. Mas era to tpico de Simon. O 
amor que lhe dedicava voltou a trespass-la como um punhal.
       - Sim. Alm disso, queria oferecer um cargo ao seu filho na firma quando ele tiver idade bastante, claro. Trata-se de uma empresa enorme para dirigir, com 
o armazm, as seis fbricas de txteis, sobretudo agora com os contratos de guerra que chegaram depois de ele ter partido... Zoya tentava apreender tudo aquilo. 
Era mesmo de Simon ter providenciado o futuro de todos e mesmo planear a entrada de Nicholas no negcio. Era mesmo de Simon... Se, ao menos, ele tivesse vivido para 
os acompanhar, em vez de lhes deixar uma fortuna.
       - Que contratos? - Comeava lentamente a raciocinar; havia tanto em que pensar, em tanta coisa que Simon havia construdo do nada. Devia-lhe o tentar compreender 
tudo isso. - Ele no me falou em contratos de guerra.
       - Ainda no eram uma certeza quando ele partiu. As fbricas fornecero todo o tecido para os nossos uniformes militares durante a guerra. - Fitou-a, sem poder 
ignorar a beleza que ela emanava e toda a elegncia, ali sentada com uma calma dignidade, envolta no desgosto e dor de perder o marido.
       - Oh, cus... O que  que isso significa em termos de vendas? - Por um momento, foi como se Simon tivesse voltado. Sabia como ele teria ficado excitado e, 
quando o advogado lhe deu uma idia aproximada do montante, fitou-o, incrdula. - Mas no  possvel... Ou ? - Mostrou o esboo de um sorriso e parecia muito mais 
nova, muito longe dos quarenta e trs anos que ele sabia que ela tinha, segundo os documentos que lera. S que tal parecia difcil de acreditar agora.
       - Temo bem que sim. Para lhe falar francamente, Mistress Hirsch, a senhora e o seu filho vo ficar muito ricos depois da guerra. E se o Nicholas entrar para 
a firma, Mister Hirsch providenciou-lhe uma considervel percentagem.
       Simon pensara em tudo, mas era um pequeno consolo. O que fariam com todo aquele dinheiro sem ele? Mas, ao escutar, sabia que Axelle estivera certa. Devia 
a Simon continuar o que ele construra. Fora a sua ltima ddiva. E tinha de continuar, por ele e pelos filhos.
       - Os homens que ele deixou  frente do negcio so capazes de lidar com a situao? - inquiriu, semicerrando os olhos como se o visse pela primeira vez, e 
ele sorriu-lhe. Ela era bonita quando sorria, ainda mais bonita do que pensara  primeira vista.
       - Sim. Julgo que sim. Tm, obviamente, de nos prestar contas...  Fitou-a intensamente - A ns e a si. Mister Hirsch atribuiu-lhe a direo de todas as suas 
companhias. Tinha um grande respeito pelo seu sentido para o negcio. - Desviou o rosto quando os olhos de Zoya se encheram de lgrimas e se esforou por falar numa 
voz que era quase um sussurro.
       Simon significara mais para ela do que todas as suas empresas, mas aquele homem jamais o poderia entender.
       - Amei-o muito. - Levantou-se e foi at  janela, detendo-se a observar a Quinta Avenida. Agora no podia desistir. Tinha de continuar... pelas crianas... 
e por ele. Virou-se devagar e voltou a encarar Paul Kelly. - Obrigada por ter vindo - agradeceu por entre lgrimas e quase lhe tirando a respirao com tanta beleza. 
- Talvez nunca tivesse respondido aos seus telefonemas. - No o desejara. No desejara enfrentar a perda de Simon, mas agora sabia que tinha de o fazer.
       - Receei que assim fosse e por isso vim - proferiu ele calmamente. Espero que me perdoe a intromisso.  uma bonita loja - acrescentou. A minha mulher vem 
fazer compras aqui, sempre que pode. - Zoya esboou um aceno de cabea, pensando em toda a clientela que havia negligenciado, sem a esquecer.
       - Pea-lhe, por favor, que venha ter comigo quando voltar aqui. Podemos mostrar-lhe o que quiser aqui mesmo no meu gabinete.
       - Talvez fosse mais generoso para mim, se trancasse as portas antes de ela entrar. - Sorriu e Zoya correspondeu. Depois, ele fez-lhe algumas perguntas sobre 
Nicholas. Zoya explicou que o filho se encontrava em Londres, a pilotar avies de combate com as foras americanas ligadas  RAF. - Tem muito com que se preocupar, 
no  verdade, Mistress Hirsch? - Ela esboou um triste aceno de cabea, e ele sentiu-se comovido pela sua vulnerabilidade. Construra um imprio prprio com a ajuda 
do marido e parecia, contudo, to delicada como asas de borboleta, ali sentada do outro lado da secretria. - Informe-me, por favor, se houver alguma coisa que possa 
fazer para a ajudar. - Mas o que poderia ele fazer? Ningum era capaz de lhe trazer Simon de volta e era apenas isso o que desejava.
       - Quero passar algum tempo nos escritrios do meu marido - replicou com um leve franzir de sobrolho. - Se vou dirigir as empresas dele, tenho de me familiarizar 
com tudo. - Talvez no trabalho encontrasse o desejado entorpecimento.
       - Podia ser uma boa idia - concordou Kelly, visivelmente impressionado por ela em todos os aspectos. - Eu prprio queria fazer isso e teria o maior prazer 
em partilhar todas as nossas informaes consigo. Ele era scio de uma das mais importantes firmas de advogados de Wall Street, e Zoya sups que deveria ter uns 
dez anos mais do que ela, mas a forma como os olhos danavam quando se ria faziam com que parecesse mais novo. Na verdade, tinha cinquenta e trs e aparentava a 
idade.
       Falaram durante algum tempo e, por fim, ele levantou-se com pena de a deixar.
       - Encontramo-nos na prxima semana no escritrio do Simon na Stima Avenida ou quer que lhe traga o mximo que puder aqui ao seu escritrio? - perguntou.
       - Encontramo-nos l. Quero que eles saibam que esto a ser observados... por ns os dois. - Sorriu apertando-lhe a mo. - Obrigada, Mister Kelly - agradeceu, 
ainda num tom suave. - Obrigada por ter vindo aqui.
       Ele sorriu novamente e o olhar deixou transparecer todo o encanto irlands.
       - Estou ansioso por trabalhar consigo.
       Zoya voltou a agradecer-lhe e, quando ele saiu, deixou-se ficar sentada na secretria a olhar em volta. Os nmeros que ele lhe citara referentes aos contratos 
de guerra eram assombrosos. Para o filho de um alfaiate do Lower East Side fizera um trabalho de gigante. Construra um imprio. Sorriu para a fotografia de Simon 
e saiu do gabinete, voltando a sentir-se verdadeiramente ela pela primeira vez desde que ele morrera.
       As vendedores tambm repararam, ao passarem ao lado dela para ir atender as clientes e, nessa tarde, Zoya apanhou o elevador e parou em todos os andares para 
se inteirar do que estavam a fazer. Chegara a altura de voltarem a v-la. A altura de a condessa Zoya continuar... com a lembrana dele muito junto ao corao, como 
sempre estaria...  semelhana de todas as pessoas que amava. Contudo, agora no podia pensar nelas. Havia tanto trabalho a realizar. Por Simon.
       
CAPTULO 46
       
       No final de 1942, Zoya passava um dia inteiro por semana nos escritrios de Simon na Stima Avenida e Paul Kelly costumava estar ao seu lado. Haviam comeado 
a tratar-se muito formalmente por Mr. Kelly e Mrs. Hirsch. Ela usava simples vestidos pretos e ele fatos de riscas ou azul-escuros. Contudo, decorridos alguns meses, 
infiltrara-se um toque de humor.
       Ele contava-lhe anedotas horrveis e ela fazia-o rir com histrias da Condessa Zoya. Passou, ento, a ir trabalhar com roupas mais cmodas e ele tirava o 
casaco e enrolava as mangas da camisa. Sentia-se profundamente impressionado com a acuidade de Zoya para o negcio e achava que Simon tinha toda a razo em respeit-la 
como o fizera.
        De incio, Paul achara que ele era louco em dar-lhe a direo, mas louco  que ele no era, e Zoya excedera todas as expectativas. E, ao mesmo tempo, conseguia 
manter-se feminina, nunca erguia a voz, mas ningum duvidava que no toleraria idiotices. E vigiava atentamente os livros de contabilidade. Sempre.
       - Como  que chegaste aqui? - perguntou-lhe Paul um dia quando almoavam na secretria de Simon. Tinham mandado vir sanduches e usufruiam de uma merecida 
pausa no trabalho. No dia anterior, Atherton, Kelly e Schwartz haviam substitudo um dos dois gerentes de Simon e havia muita "limpeza" a fazer.
       - Por engano. - Riu e falou-lhe dos seus dias no teatro de cabar, do emprego no Axelle's e da poca muito antes disso em que danara com os Ballets Russes. 
Nessa altura, o sucesso da sua fantstica loja j era do conhecimento geral.
       Paul frequentara Yale e casara com uma debutante de Bston chamada Allison O'Keefe. Haviam tido trs filhos em quatro anos e ele referia-se-lhe com respeito, 
mas os olhos no brilharam quando pronunciou o nome e no havia aquele riso que Zoya tantas vezes partilhara com ele. No ficou surpreendida quando um dia, ao fim 
da tarde, ele lhe confessou que detestava ir para casa.
       - H anos que a Allison e eu vivemos como dois estranhos. - No o invejou por isso. Ela e Simon haviam sido os melhores amigos, independentemente da paixo 
fsica que partilhavam e de que ainda se lembrava com desejo.
       - Porque continuas casado com ela? - Divrcios era o que mais havia e, em seguida, recordou-se antes mesmo de ele lhe responder com uma expresso triste:
       - Somos ambos catlicos, Zoya. Ela jamais concordaria com a separao. Tentei h cerca de dez anos. Teve uma depresso ou assim o disse e nunca mais foi a 
mesma. No posso deix-la agora. E... - Hesitou e resolveu ser honesto com ela. Zoya era uma mulher em quem podia confiar e, no ltimo ano, tinham-se tornado grandes 
amigos. - A verdade  que ela bebe. No conseguiria viver com a minha conscincia se fosse responsvel por algo que lhe sucedesse.
       - No parece l muito divertido - redarguiu. "Uma fria debutante de Bston que bebia e no lhe concedia o divrcio." Zoya quase estremeceu ante o pensamento, 
mas havia muitas mulheres assim na loja, mulheres que iam s compras porque se sentiam entediadas e nunca vestiam o que levavam porque a aparncia pessoal estava 
longe de lhes interessar. Deves sentir-te s - prosseguiu, fitando-o com um olhar meigo, e ele controlou-se para no falar de mais. Tinham de trabalhar juntos todas 
as semanas e h muito que ele aprendera a lio. Haviam existido outras mulheres na sua vida, mas nada de muito significativo. Apenas algum com quem falar de vez 
em quando ou com quem fazer amor ocasionalmente, mas nunca conhecera ningum como Zoya e nunca se sentira assim junto de uma mulher, nem talvez voltasse a sentir-se.
       - Tenho o trabalho para me aguentar. - Sorriu. - Tal como tu. - Sabia quanto ela se dedicava ao trabalho. Era tudo para o que vivia agora, isso e os filhos, 
que tanto amava.
       Em 1943, passaram a jantar juntos s segundas-feiras, quando saam dos escritrios de Simon. Era a oportunidade de discutirem em mais pormenor o que tinham 
feito nesse dia e costumavam comer nos restaurantezinhos mesmo  sada da Stima Avenida.
       - Como est o Matt? - perguntou-lhe com um sorriso, numa noite dessa Primavera.
       - O Matthew? Est timo. - Tinha trs anos e meio e era a luz da sua vida. - Faz com que volte a sentir-me jovem.
       Era irnico que se tivesse achado velha demais para ter um filho quando ele nascera e agora lhe desse tanta alegria. Sasha saa to frequentemente, que era 
como se j no vivesse em casa. Acabara de fazer dezoito anos. Paul vira Sasha uma vez e ficara surpreendido com tanta beleza. Mas suspeitava dos problemas que causava 
a Zoya. Ela confessara mais de uma vez que s difcilmente conseguia mant-la no liceu. Nicholas continuava em Londres e ela rezava noite e dia para que ele regressasse 
so e salvo.
       - Como esto os teus filhos, Paul?
       No era um assunto que ele focasse com frequncia. As duas filhas estavam casadas, uma em Chicago, outra na costa oeste e o filho algures em Guam. E tinha 
dois netos na Califrnia que raramente via. A mulher no gostava de ir  Califmia e ele tinha medo de a deixar sozinha em casa.
       - Os meus filhos esto timos, suponho. - Sorriu. - Saram h tanto tempo do ninho que no recebemos muitas notcias deles. No tiveram uma infncia fcil 
com a Allison a beber daquela maneira. Uma coisa assim muda tudo. - Depois sorriu-lhe, pois gostava sempre de saber dela: O que h de novo na loja?
       - Nada de especial. Desta vez abri uma nova seco para homem e estamos a tentar algumas linhas novas. Vai ser bom viajar novamente  Europa depois da guerra 
para podermos experimentar outras coisas. Contudo, o fim no estava  vista, pois a guerra prosseguia violentamente do outro lado do Atlntico.
       - Gostaria de voltar um dia  Europa. Sozinho - vincou com um esboo de sorriso honesto. No era agradvel fazer de baby-sitter da mulher enquanto ela andava 
de bar em bar ou se escondia no quarto, fingindo estar cansada em vez de embriagada.
       Zoya interrogou-se sobre o que o levava a aguentar a situao. Parecia ser um fardo terrvel e disse-lhe isso mesmo quando ele a levou a casa e o convidou 
a subir para tomar uma bebida. Paul s estivera uma vez no apartamento dela e ficara-lhe uma recordao de calor e conforto, semelhante ao seu olhar.
       Acompanhou-a, feliz, no elevador e sentou-se num sof da biblioteca enquanto ela lhe servia uma bebida. Chamara Sasha quando tinham chegado, mas a empregada 
sara e Sasha ainda no aparecera. S estava Matthew a dormir no quarto, com a ama.
       - Devias fazer umas frias, Paul. Ir  Califrnia ver os teus filhos, sozinho. Porque  que a tua vida h-de ficar estragada pela atitude da tua mulher?
       - Tens razo, mas no  muito divertido ir sozinho. - Falava-lhe sempre com honestidade, como naquele momento em que sorvia a bebida em pequenos goles e observava 
Zoya, quando ela se sentou. Usava um vestido branco e tinha o cabelo apanhado atrs como uma rapariguinha.
       - No, no  nada divertido fazer as coisas sozinho. - Sorriu. - Mas comeo a habituar-me. - Fora brutal habituar-se a uma vida sem Simon.
       - No te habitues, Zoya.  horrvel - replicou to veementemente que ela pareceu sobressaltada. - Mereces mais do que isso. - Passara a vida dele s e no 
queria que lhe acontecesse o mesmo. Ela era uma mulher entusiasta, bonita e cheia de vida e merecia mais do que a solido que ele to bem conhecia.
       Contudo, Zoya limitou-se a rir e a abanar a cabea.
       - Tenho quarenta e quatro anos e sou velha de mais para recomear. E sabia que nunca ningum estaria  altura de Simon.
       - Uma treta. Eu tenho quase cinquenta e cinco e se tivesse a oportunidade de comear de novo, agarrava-a com unhas e dentes. - Era a primeira vez que lhe 
falava assim, estendendo as compridas pernas na frente, com o cabelo perfeitamente penteado e um brilho no olhar.
       Adorava estar na companhia dela. Ansiava a semana inteira pelas segundas-feiras de duro trabalho. Eram o que o mantinha vivo.
       - Sou feliz assim. - Mentia mais para si prpria do que para ele. No era feliz, mas era o que agora lhe restava.
       - No, no s. Porque havias de ser?
       - Porque  tudo o que tenho - replicou tranquilamente, com sagacidade bastante para aceitar a vida tal como era, em vez de ansiar por um passado que se perdera 
na distncia. J o fizera antes e no voltaria a faz-lo. Tinha de se contentar com o que lhe restava, os filhos, o trabalho e as suas conversas com Paul Kelly uma 
vez por semana.
       Ele fitava-a intensamente e, sem uma palavra, pousou o copo e foi sentar-se junto dela, perscrutando-a com os olhos azuis que pareciam trespass-la.
       - Apenas quero saber uma coisa. Neste momento no posso fazer nada, nem posso oferecer-te nada, mas Zoya... amo-te. Desde o dia em que te conheci. s a melhor 
coisa que me aconteceu. - Ela pareceu surpreendida e depois, sem mais uma palavra, Paul tomou-a nos braos e beijou-a apaixonadamente, sentindo fogo no corao e 
o corpo a arder de desejo. - s to bonita... e to forte...
       - No digas isso, Paul... no. - Queria afast-lo e no conseguiu. Sentia-se to culpada por o desejar, era como se estivesse a negar a memria de Simon, 
e mesmo assim foi incapaz de se controlar, beijando-o repetidamente e agarrando-se-lhe como se estivesse a afogar-se.
       - Amo-te tanto - sussurrou ele, voltando a beij-la; envolveu-a nos braos fortes, sentindo o corao dela a bater de encontro ao seu, e depois sorriu. - 
Vamos a qualquer lado... longe daqui... onde quer que seja... Fazia-nos bem.
       - No posso.
       - Podes, sim... podemos. - Agarrou-lhe a mo com fora e sentiu-se novamente vivo. Os anos pareceram desaparecer quando a fitou. Era outra vez jovem e no 
a deixaria fugir. Mesmo que tivesse de viver com Allison para o resto da vida, pelo menos e por um fulgurante momento, podia ter Zoya.
       -  uma loucura, Paul - replicou ela, afastando-se e pondo-se a passear pela sala, vendo o rosto de Simon nas fotografias, observando os trofus, os tesouros, 
os livros de arte dele. - No temos o direito de o fazer.
       Mas Paul no estava disposto a renunciar. Se ela o tivesse esbofeteado, teria pedido desculpas e partido, mas agora podia ver que ela o desejava tanto quanto 
ele.
       - Porque no? Quem dita essas regras? No s casada. Eu sou, mas no de uma forma que tenha qualquer significado para algum. H anos que no existe nada 
entre ns Estou armadilhado num casamento em forma de uma mulher, que nem sequer sabe se estou vivo e h anos que no me ama, se  que me amou... No tenho direito 
a mais do que isso? Estou apaixonado por ti - rematou com um brilho de luta no olhar pelo que to desesperadamente ansiava.
       - Porqu? Porque  que me amas, Paul?
       - Porque s exatamente quem sempre desejei.
       - No posso dar-te muito. - Era honesta com ele, como sempre havia sido com Clayton e Simon.
       - S um pouco de ti, bastar, eu compreendo. - E depois beijou-a mais calmamente, e Zoya verificou, para seu prprio espanto, que no o repelia.
       Ficaram sentados horas a fio, beijando-se e de mos dadas; passava da meia-noite quando ele se foi embora, prometendo telefonar-lhe no dia seguinte. Zoya 
ficou sentada no apartamento tranquilo, sentindo-se culpada. "Era errado, tinha de ser... no era? O que pensaria Simon?" Contudo, Simon j no pensaria nada; morrera 
e ela estava viva e Paul Kelly tambm significava algo. Apreciava a sua amizade e despertara uma parte dela que esquecera. Continuava sentada a pensar nele, quando 
ouviu Sasha entrar e foi ter com ela ao quarto.
       A filha pusera um vestido vermelho-vivo, tinha a maquilhagem arruinada e Zoya no gostou da forma como a olhava. Suspeitou que estava embriagada, e j no 
era a primeira vez que se confrontava com a situao. Fitou-a com um olhar cansado. Era to fatigante aquela luta permanente.
       - Onde estiveste? - Expressava-se num tom calmo e ainda pensava em Paul quando observou a filha.
       - Sa. - Virou as costas para que a me no lhe visse a cara. Zoya tinha razo. Estava embriagada, mas, mesmo assim, era bonita.
       - E fizeste o qu?
       - Jantei com um amigo.
       - S tens dezoito anos, Sasha, e no podes andar por a com quem queres. E as aulas?
       - Acabo o curso dentro de dois meses. Que diferena faz, agora?
       - Muita, para mim. Tens de te portar bem. As pessoas comearo a falar se pisares o risco, sabem quem s, quem eu sou. Por favor, Sasha. S sensata.
       No havia, porm, esperana de que tal acontecesse e h muito tempo j. Desde que Simon morrera e o irmo partira, Sasha tornara-se ainda mais rebelde. Zoya 
quase desistira de a controlar e receava perd-la totalmente. Sasha ameaara mais do que uma vez sair de casa, o que ainda seria pior. Pelo menos assim, Zoya tinha 
uma idia do que se passava e do que ela fazia.
       - Essa conversa  do antigamente - replicou Sasha, atirando o vestido para o cho e andando pelo quarto em cuecas. - Hoje em dia, j ningum acredita nessas 
tretas.
       - As pessoas acreditam no que sempre acreditaram. Vais acabar os estudos este ano e decerto no queres que falem mal de ti, querida. Sasha encolheu os ombros 
e Zoya suspirou, deu-lhe um beijo de boas-noites, sentindo o cheiro a lcool no hlito e o fumo de cigarro no cabelo.
       - No quero que bebas - avisou, fitando-a com uma expresso triste.
       - Porque no? J tenho idade.
       - No  isso que est em causa.
        Sasha limitou-se a um novo encolher de ombros e virou as costas at a me se ir embora. Era intil falar com ela. Zoya ansiava que Nicholas voltasse para 
casa, talvez ele ainda tivesse qualquer influncia sobre ela. Ningum mais tinha. Zoya sentia-se preocupada com o que aconteceria quando Sasha pudesse tocar no dinheiro 
que Simon lhe havia deixado. Seria o fim, se algum no tivesse mo nela antes.
       Ainda estava a pensar no assunto quando o telefone tocou  uma hora. Sentiu um baque momentneo no corao, temendo ms notcias.
       Contudo, era Paul. Estava em casa, mas decidira telefonar-lhe. Allison dormia fechada  chave no quarto, e ele, depois de se afastar de todo o calor de Zoya 
sentia-se duplamente s.
       - Apenas queria dizer-te quanto esta noite significou para mim. Deste-me algo muito especial.
       - No sei como, Paul - replicou num tom baixo e pensando intimamente que lhe dera muito pouco. Alguns beijos e o arrebatamento de um instante.
       - Ests a dar um novo colorido  minha vida. As nossas noites de segunda-feira do-me vontade de continuar. - Apercebeu-se ento do quanto tambm ansiava 
por elas, Paul era inteligente, bom e divertido. Esta semana vou sentir-te a falta - disse ele e acrescentou: - Achas que haveria raios e troves, se nos encontrssemos 
numa tera?
       - Achas que devemos tentar? - Sentiu-se muito arrojada ao pronunciar as palavras e riram ambos como duas crianas felizes.
       - Vamos almoar amanh e descobrir. - Sorria como no sorria h anos. Ela fazia com que se sentisse um rapazinho, e havia algo nele que lhe dava, a ela, felicidade 
e calma.
       - Pensas que deveramos? - Queria sentir-se culpada, mas, estranhamente, no era esse o caso. Tinha a bizarra intuio de que Simon compreenderia.
       - Amanh  uma?
       - Ao meio-dia. - A mo tremia-lhe, quando desligaram.
       Era uma loucura e todavia... no queria parar. Recordou-se do toque dos lbios na biblioteca nessa noite e havia algo de inocente e suave neles.
       Era seu amigo, independentemente do que pudesse acontecer. Era algum com quem podia trabalhar e conversar, passar o tempo, discutir o negcio e os filhos. 
Paul sabia escut-la e importar-se com o que acontecia.
       Interrogou-se sobre se seria errado, mas nessa noite, quando adormeceu, sonhou com Simon e ele encontrava-se ao lado de Paul Kelly, sorrindo.
       
CAPTULO 47
       
       No dia seguinte, Paul chegou  loja antes do meio-dia e encontrou-a no gabinete a trabalhar com uma expresso sria e uma caneta enfiada no cabelo. Bateu 
ao de leve na porta e, quando a abriu, esboou um sorriso ao v-Ia sentada  secretria.
       - Que imagem familiar - disse quando ela ergueu os olhos. - Muito ocupada, Zoya? Queres que volte mais tarde?
       - No, isto pode esperar - redarguiu, sorrindo tambm e usufruindo do calor da amizade que os unia. Ansiara por a ver e quedou-se a admirar-lhe a beleza quando 
ela foi buscar a mala.
       - Um dia difcil? - inquiriu com o caloroso encanto irlands.
       - No tanto como poderia ter sido - replicou, satisfeita por ele ter vindo v-Ia. Era mais fcil encontrar-se com Paul ali do que no escritrio de Simon. 
Era o seu territrio, no o dele, e permitia a Paul que partilhasse mais o seu presente do que o passado, o que de sbito lhe parecia mais importante.
       Foram a p at ao 21 onde almoaram e s trs da tarde continuavam a conversar e a rir. Spencer Tracy estava numa mesa ao lado com uma mulher de chapu de 
abas e culos escuros,e Zoya interrogou-se sobre quem seria, mas Paul no estava interessado nela. No conseguia tirar os olhos de Zoya.
       - Porque ests a fazer isto? - perguntou-lhe por fim, fitando-o, mas tranquilizada ante o que detectou. Havia somente bondade e fora e todos os bons sentimentos 
que nutria por ela.
       - Porque te amo - respondeu Paul suavemente. - No tencionava apaixonar-me por ti, mas aconteceu.  assim to errado? - Ela no podia responder-lhe afirmativamente, 
conhecendo o vazio da vida dele com Allison.
       - No  errado. Mas, Paul.. - Hesitou e depois prosseguiu: - ... O que teremos se formos em frente? Uns momentos roubados de vez em quando.  isso o que queres?
       - Se tiver de ser s isso, sentir-me-ei grato. Para mim so horas preciosas ao teu lado, Zoya. O resto ... bom, o que quer que tenha de ser. - E sabia por 
instinto que e no queria mais do que isso dele. Tinha os filhos, a loja e as recordaes de Simon. - No pedirei mais. No te mentirei. Nunca. Sabes que no posso 
deixar a Allison e, se o que posso oferecer-te no chegar, compreenderei. - Pegou-lhe meigamente na mo por baixo da mesa. - Talvez esteja a ser muito egosta.
       Zoya abanou a cabea, sem deixar de reparar em Spencer Tracy, que ria na mesa ao lado. Voltou a interrogar-se sobre quem seria a mulher e por que razo ele 
parecia to feliz.
        - De qualquer maneira, ignoro se estarei preparada para mais do que isso. Talvez nunca venha a estar. Amei muito Simon.
       - Eu sei.
       E depois Zoya declarou num fio de voz:
       - Mas acho que tambm te amo... - Era to estranho. Nunca julgara que viesse a acontecer, mas gostava de estar com ele. Acontecia todas as segundas-feiras 
e acabara por confiar nele e respeit-lo.
       - No te pedirei mais do que o que quiseres dar. Compreendo a situao. - Era impossvel pedir-lhe mais. Ele parecia entender cada um dos seus sentimentos. 
Em seguida, ganhando coragem, sorriu-lhe ternamente: - Um dia irs comigo, quando estiveres preparada?
       Zoya fitou-o demoradamente e depois esboou um lento aceno de cabea.
       - Ignoro quando ser. Por enquanto ainda no estou preparada. Embora os beijos da noite anterior lhe tivessem tocado profundamente, ainda no estava preparada 
para ser infiel  memria do marido.
       - No estou a pressionar-te. Posso esperar. Talvez mesmo uma vida inteira. - Ambos riram. Ele era to diferente de Simon com a sua arrebatada impacincia 
e excitao frente  vida, e tambm de Clayton, com os seus modos suaves e aristocratas. Paul Kelly era ele mesmo, com o seu estilo e situao prprios.
       - Obrigada, Paul - agradeceu, erguendo o rosto e, sem dizer nem mais uma palavra, ele inclinou-se e beijou-a.
       - Podemos jantar sempre que for possvel. - Parecia feliz e esperanado.
       - A Allison no se importar?
       - Nem dar por isso - respondeu com um ar momentaneamente triste.
       Desta vez foi Zoya a dar-lhe um beijo, um beijo para sarar a ferida de anos de solido. Eram ambos solitrios e, contudo, os momentos que passavam juntos 
transbordavam de alegria e felicidade. As decises que tomaram sobre o negcio de Simon foram importantes, e ela adorava plo ao corrente dos acontecimentos da loja. 
Por vezes, fazia-o rir durante horas a fio, falando-lhe das clientes mais extravagantes... ou do pequeno Matthew.
       Depois ele acompanhou-a de volta  loja e ambos ficaram surpreendidos ao darem-se conta de que eram quatro da tarde e mais do que nunca ele desejou ficar 
com ela.
       - Podes jantar na sexta  noite, ou deixamos para segunda? - No queria pression-la e limitou-se a fit-la com uma expresso feliz do lado exterior da loja. 
Zoya sabia que Sasha passava fora o fim-de-semana e subitamente desejou v-lo antes de voltarem a encontrar-se no escritrio de Simon.
        - O jantar seria timo. - Os olhos fitaram-no com um fogo verde que o fez sorrir.
       - Devo ter cometido uma boa ao na vida para merecer esta felicidade.
       - No sejas tonto! - exclamou Zoya a rir e beijou-lhe a face quando ele prometeu telefonar-lhe. Sabia que o faria e ela tambm lhe telefonaria, mesmo que 
fosse a pretexto do negcio.
       Todavia, as rosas que chegaram para ela nessa tarde nada tinham que as ligasse a negcio. Eram duas dzias de rosas brancas, porque ela uma vez lhe dissera 
que gostava. E h muito sabia que era raro ele esquecer-se de qualquer coisa. O carto dizia: "No so momentos roubados, querida Zoya, apenas emprestados. Obrigado 
pelo teu emprstimo, por cada precioso momento. Amo-te, P." Leu o carto, meteu-o na mala com um sorriso e saiu novamente do gabinete para ir atender as clientes. 
Contudo, no podia negar que Paul acrescentara algo  sua vida. Algo de muito precioso, algo que quase tinha esquecido... o toque de uma mo, o olhar de um homem 
que se preocupava com ela e queria estar presente ao seu lado.
       Era impossvel dizer onde a vida os conduziria um dia. Talvez a nenhum stio. Mas entretanto sabia que precisava dele, tal como ele precisava dela. E ao regressar 
ao trabalho caminhava com um passo mais leve. Nem sequer se sentia culpada por isso.
       - Com quem  que foi o almoo hoje? - perguntou-lhe a assistente, curiosa, quando se preparavam para fechar loja. Era raro Zoya sair da loja para almoar. 
Mas riu e o olhar brilhou como no acontecia h meses.
       - O Spencer Tracy - respondeu num tom confidencial.
       - Claro - replicou a jovem com um sorriso. E era verdade. Vira o Spencer Tracy... e Paul Kelly.
       
CAPTULO 48
       
       Paul e Zoya continuaram a encontrar-se todas as segundas-feiras nos escritrios de Simon. Trabalhavam muito, jantavam tarde e, sempre que podiam, iam passar 
um fim-de-semana tranquilo. Passeavam na praia, conversavam sobre as suas vidas e faziam amor, mas a amizade foi sempre mais importante para eles do que a relao 
fisica. Depois regressavam a Nova Iorque,  realidade e s pessoas a quem pertenciam.
       Zoya no deixava que nada disso interferisse com a sua vida. Havia muito mais coisas que ambos tinham de fazer. E nunca criou iluses quanto a casar-se com 
ele. Estava fora de questo. Paul era o seu amigo, um amigo muito especial; e, ao sentarem-se  mesa de reunies durante anos e anos, orgulhavam-se do fato de ningum 
saber quanto significavam um para o outro em privado, nem mesmo os filhos.
       Matthew gostava muito dele e Sasha tolerava-o. Andava demasiado ocupada com a sua prpria vida para se importar muito com o que a me fazia e nunca pareceu 
ter muita conscincia do envolvimento deles. E Nicholas continuava ausente, combatendo com a RAF na Europa.
       O presidente Roosevelt morreu a 12 de Abril de 1945. E trs semanas depois acabou a guerra na Europa e Zoya rejubilou, com as lgrimas correndo-lhe pelas 
faces. O filho continuava vivo. Regressou a casa no dia em que completou vinte e quatro anos e, dois dias mais tarde, a guerra tambm acabou no Pacfico. Houve imensas 
celebraes e paradas pela Quinta Avenida. Zoya fechou a loja e foi para casa ver Nicholas, que estava na janela da sala, observando as pessoas a danar nas ruas 
com as lgrimas a correrem-lhe pelas faces.
       - Se ao menos o pap pudesse estar vivo para assistir a tudo isto sussurrou-lhe, de olhos postos no jbilo das ruas; Zoya fitou meigamente o seu elegante 
filho. Parecia-se mais do que nunca com Nicolai, sobretudo agora de uniforme. Tornara-se um homem e no se surpreendeu quando ele lhe comunicou que no voltaria 
a Princeton. Queria comear a aprender o que precisava do imprio que Simon deixara atrs de si.
       Paul ensinou-lhe tudo o que ele precisava de saber e Nicholas ficou boquiaberto com o dinheiro que lhe fora legado. Sasha tambm sabia que iria herdar uma 
enorme quantia em dinheiro no ano seguinte, embora ainda desconhecesse o montante. Contudo, Nicholas ficou surpreendido ao ver a forma como ela se comportava durante 
o pouco tempo que ficou com Zoya. Saa todas as noites at de manh, na maioria das vezes regressava a casa embriagada e era mal-educada com todos os que tentavam 
falar-lhe no assunto, sobretudo Nicholas, mas tambm Zoya. Nicholas estava furioso quando abordou o tema com me uma noite.
       Sasha regressara a casa cedo, mas j estava no quarto. Um rapaz fardado viera traz-la, mas em tal estado de embriaguez que mal conseguia andar, e Nicholas 
quase o expulsou.
       - No podes fazer nada por ela, mam? Est completamente descontrolada.
       - J no tem idade para lhe bater, Nicholas, e no posso fech-la  chave no quarto.
       - Gostaria de tentar. - Parecia falar a srio, mas no dia seguinte, quando conversou com a irm, de nada serviu. Ela voltou a sair nessa noite e s regressou 
s quatro da manh.
       Sasha era ainda mais bonita do que dantes e a juventude ainda no revelava as consequncias dos excessos, mas Zoya sabia que isso aconteceria se no parasse 
a tempo. E Zoya no ficou nada satisfeita quando em Dezembro desse ano ela fugiu de casa. Casara com um rapaz que conhecera h menos de trs semanas, e o fato de 
ele ser o filho de um jogador de plo de Palm Beach de pouco consolo lhe serviu. Tinha um estilo de vida igual ao dela, bebiam, danavam e embriagavam-se todas as 
noites. A situao piorou quando Sasha informou sem delongas a me, quando ela regressou de Nova Iorque em Maro, que esperava um filho l para Setembro.
       - No aniversrio de Matthew, penso - replicou num tom vago quando ele entrou na sala. Tinha agora seis anos e meio, os grandes olhos castanhos de Simon e 
modos ternos. Adorava Nicholas, mas aprendera a afastar-se do caminho da irm. Ela bebia demais e mostrava-se indiferente ou visivelmente desagradvel. Tinha agora 
vinte e um anos, e  herana que Simon lhe deixara s a impelia mais rapidamente para o caminho, da sua autodestruio.
       Em Junho, voltou a casa, anunciou que Freddy a enganava e vingou-se de imediato. Comprou um carro novo, duas pulseiras de diamantes, dormiu com um dos amigos 
dele, embora estando grvida, e regressou a Palm Beach  procura de outro marido.
       Zoya sabia que nada podia fazer. At mesmo Nicholas se recusava a falar do assunto. A irm era o que era e ponto final. Conversava muitas vezes com Paul a 
esse respeito, e a sua enorme sabedoria consolava-a um pouco.
       Aos fins-de-semana, Nicholas levava Matthew  pesca e, sempre que podia, ao parque para jogar  bola. Estava sempre cheio de trabalho, mas arranjava sempre 
tempo para o mido que, por seu turno, proporcionava a Zoya alguns momentos tranquilos com Paul Kelly. Continuavam a ter uma relao calma, e Nicholas nunca soube, 
o que era um tributo  discrio de Paul e de Zoya.
       No fim de Agosto nasceu o beb de Sasha, uma menina de cabelo ruivo. Zoya viajou at  Florida para a ver e ficou a olh-la com admirao. Era to pequena 
e querida e a me parecia no lhe dedicar o mnimo interesse! Quase a seguir ao nascimento da criana, j Sasha andava a divertir-se por todo o lado nos seus luxuosos 
carros, com ou sem o igualmente permissivo Freddy.
       Zoya nunca sabia onde estavam, e a beb ficava sempre com uma ama, para desagrado de Zoya. Tentou falar a Sasha sobre o seu estilo de vida durante as suas 
raras conversas telefnicas, mas Sasha nem queria ouvi-la, como era de esperar.
       Nicholas tambm no tinha notcias dela. Quase parecia ter desaparecido das suas vidas, e o que causava maior tristeza a Zoya era no ver com mais frequncia 
Marina, a filha de Sasha. E quando o telefone tocou na vspera de Natal, Zoya esperou que fosse a filha.
       Nicholas estava a jantar na sua companhia e Matthew acabara de ir deitar-se, depois de ornamentar a rvore. Tinha sete anos e quase continuava a acreditar 
no Pai Natal, embora Zoya desconfiasse que fosse apenas mais esse ano. Matthew continuava a ser a alegria da sua vida e sorria, feliz, ao levantar o auscultador.
       - Est? - Era a Polcia Estatal de Nova Iorque. O corao deu-lhe um salto no peito, receando de imediato o motivo daquele telefonema.
       Comunicaram-lhe que Sasha e Freddy tinham tido um acidente de automvel no regresso a casa vindos de qualquer festa e, sustendo a respirao, soube que os 
seus piores receios haviam tido fundamento.
       Pousou o auscultador, fixando Nicholas, incapaz de lhe contar. Um momento depois, telefonou a ama da beb, histrica por estar sozinha com ela. Nicholas falou-lhe 
e prometeu apanhar o avio da manh para ir buscar a criana. A ama explicou-lhe tudo enquanto ele olhava para a me num mudo terror. Nessa noite culpabilizou-se 
e desfez-se em lgrimas. Insistia em que fizera tudo errado e agora era tarde de mais. Falhara como me e agora Sasha estava morta.
       - Ela era uma beb to amorosa... - chorava Zoya. Contudo, Nicholas tinha outras recordaes de Sasha. S se lembrava de como ela fora mimada, egosta e m 
para a me. A Zoya, porm, no lhe parecia justo. Tinha apenas vinte e dois anos e desaparecera como o rasto brilhante de uma estreIa-cadente numa escura noite de 
Vero. Num momento viva e no momento seguinte desaparecida para sempre.
       No dia seguinte, Nicholas apanhou o avio para a Florida e trouxe de volta o corpo da irm e a sua pequenina filha, Marina. Foi um Natal triste para Zoya 
quando abriu os presentes com Matthew, esforando-se por conter as lgrimas e interrogando-se sobre se haveria algo que pudesse ter feito e no fizera pela filha.
       Talvez se nunca tivesse trabalhado, se as coisas se apresentassem mais fceis, se Clayton no tivesse morrido... nem Simon... ou talvez... A dor era infinda 
enquanto tentava concentrar-se em Matthew, que parecia no compreender o que acontecera  irm. O mido era demasiado calmo, o que assustava Zoya. No entanto, tomou 
conscincia de que ele compreendia perfeitamente quando levantou os olhos e perguntou a Zoya:
       - Ela estava outra vez embriagada, mam? 
       Ficou chocada ao ouvir as palavras de Matthew, mas ele tinha razo. Estava mesmo. Zoya no o negou, enquanto pegava ao colo na filha de Sasha. Nessa noite, 
Zoya deixou-se ficar sentada a olh-la. A mida abriu os olhos e bocejou, sonolenta. Tinha quatro meses e apenas lhe restava agora Zoya, e Matthew e Nicholas, os 
tios.
       - Estou velha demais para isto - suspirou Zoya nessa noite quando Paul telefonou, como habitualmente.
       - No, no  verdade. Ela estar melhor contigo do que estaria com eles.  uma criana com sorte. - E ele era um homem com sorte por partilhar a vida com 
ela.
       As bnos na vida de Zoya tocavam todos  volta dela... excetuando Sasha; voltou a sentir-se culpada nessa noite, sabendo que falhara. Mas como poderia ter 
agido de outra forrna? Soube com uma dor aguilhoante que nunca teria a resposta. Para compensar, apenas poderia amar Marina como se fosse sua prpria filha. Colocou 
o bero da beb ao lado da sua cama e sentou-se durante horas a observ-la a dormir, de olhos fechados, o cabelo ruivo e sedoso, como o de Zoya. Prometeu proteg-la 
e desta vez dar o seu melhor.
       Com um soluo na garganta, lembrou-se da noite em que Sasha e Nicholas quase haviam morrido no incndio... a pequena Sasha prostrada no passeio com os bombeiros 
tentando reanim-la e, por fim, mexendo-se.
       Zoya reprimira os soluos como o fazia agora ao record-la... Como  que tudo correra to mal? Afinal e apesar de tudo, perdera-a tendo ela somente vinte 
e um anos.
       O funeral realizou-se dois dias depois e estiveram presentes amigas do liceu e pessoas que ela conhecera em Nova Iorque. Os rostos denotavam um silncio chocado 
quando Zoya saiu da igreja pelo brao de Nicholas e dando a mo a Matthew. Avistou Paul, que se mantinha solenemente na ltima fila, o cabelo grisalho ressaltando 
acima da multido e os olhos oferecendo-lhe tudo o que sentia por ela.
       Fitou-o um momento e depois afastou-se com os dois filhos de cada lado, enquanto a pequena Marina, cuja vida estava ainda no incio, os esperava em casa, 
na cama ao lado da de Zoya.
       
CAPTULO 49
       
       Mil novecentos e quarenta e sete foi o ano do new look de Dior, e Zoya viajou at Paris acompanhada por Matthew e Marina quando foi encomendar as novas linhas. 
Matthew tinha ento quase oito anos e Marina ainda era beb. Contudo, ela levou Marthew  Torre Eiffel, caminhou com ele junto ao Sena e foi s Tulherias, onde estivera 
com Eugenia h tanto tempo atrs.
       - Fala-me outra vez da tua av. - Zoya sorriu e contou-lhe tudo outra vez, sobre as tricas russas de quando ela era criana, as brincadeiras que tinham e 
as pessoas que haviam conhecido. Era uma forma de partilhar a sua histria com o filho e na verdade a dele tambm.
       Depois foram at ao Sul de Frana e, no ano seguinte, de novo com os filhos, Zoya viajou at Roma. Levava Marina por todo o lado, como se de qualquer maneira 
pudesse compens-la pela me que ela perdera.
       Marina era agora como se fosse sua filha e parecia-se imenso com Zoya, ao andar no seu passinho hesitante pelo navio no regresso a casa, e as pessoas supuseram 
naturalmente que era filha dela. Aos quarenta e nove anos conservava uma aparncia juvenil e no era assim to incrvel que ainda tivesse filhos jovens junto dela.
       - Mantm-me jovem, suponho - disse a Paul mais de uma vez.
       E ele estava inteiramente de acordo. Parecia ainda mais bonita que dantes. Nessa altura, Nicholas dirigia a firma e, na Primavera de 1951, tinha o perfeito 
controlo das fbricas de txteis. Estava agora quase com trinta anos e, quando Zoya regressou da Europa com os midos, apareceu para ouvir tudo sobre a viagem.
       Marthew tinha onze anos, Marina quatro e meio e um cabelo ruivo e brilhante e grandes olhos verdes. Riu  gargalhada quando Nicholas lhe fez ccegas. Depois 
foi deit-la e voltou  sala para contar os seus planos a Zoya.
       - Bom, mam... - Hesitou com um sorriso, e ela pressentiu que algo de importante acontecera.
       - Sim, Nicholas? Devo compor uma expresso sria ou ests apenas a tentar assustar-me?
       H uns tempos que esperava as novidades. Ele andava a sair com uma bela rapariga do Sul. Conhecera-a quando estava na Carolina do Sul, de visita s fbricas. 
Era muito bonita e um pouco mimada. Porm, Zoya nunca fizera comentrios. O filho era adulto e livre de tomar as opes que quisesse. Como afirmara a Paul, respeitava 
a sua opinio. Era um homem jovem e sensvel, de bom corao e uma inteligncia que se desenvolvera ao estar  frente dos negcios de Simon.
       - Ficars muito surpreendida se te disser que vou casar-me no Outono? - Os olhos denotavam um brilho divertido e ela riu.
       - Devo ficar surpreendida, meu querido?
       - A Elizabeth e eu vamos casar-nos - anunciou orgulhosamente.
       - Sinto-me contente por ti, meu amor - replicou, fitando-o com um sorriso. Ele era um homem bom, e os seus dois pais teriam tido orgulho nele. - Espero que 
ela te faa feliz.
       - J faz.
       Zoya no podia ter pedido mais e, na prxima vez que falaram, ofereceu-se para a ajudar a encontrar um vestido de casamento, recordando a inspeco a que 
Sofia a submetera antes dela e Simon terem casado. H muito que os pais de Simon tinham morrido e os tios depois.
       Nunca fora muito prxima deles, mas zelara para que Matthew os visitasse frequentemente antes de morrerem, e eles mostraram-se gratos por esse fato. Controlou-se 
para no parecer difcil, quando Elizabeth entrou de rompante pela loja e foi brusca para com todos. O vestido de casamento era o menos. Esperava igualmente que 
Zoya lhes oferecesse todo o enxoval dela e lhes comprasse um apartamento.
       Zoya sentiu um leve arrepio na espinha quando assistiu ao casamento e observou Matthew equilibrando as alianas na almofada que segurava e Marina balouando 
um cestinho de ptalas de rosa, quando acenou  av postada na fila de frente. Zova sorriu-lhes, orgulhosa.
       Contudo Nicholas satisfez-lhe todos os desejos e exigncias e submeteu-se a todos os seus caprichos at ao dia em que no aguentou mais. Quase quatro anos 
depois do dia em que Zoya observara Marina a lanar-lhes ptalas de rosa, Nicholas mandou Elizabeth para casa dos pais.
       Nessa altura, Marina tinha nove anos e Zoya levava-a todos os dias s aulas de ballet. Fora a sua nica paixo na vida desde os cinco. E, desta vez, Zoya 
estava decidida a fazer tudo o que pudesse pela mida, continuando a sentir que de certa maneira falhara com Sasha.
       Saa todos os dias da loja s trs horas, ia buscar Marina a Miss Nightingale's e levava-a s aulas de ballet, onde ela executava os mesmos tours jets, os 
mesmos pols, os mesmos exerccios que Zoya executara h muito tempo em Sampetersburgo com Madame Nastova.
       Era estranho como as coisas se repetiam. Falou-lhe do Marinski, de todas as suas maravilhas e alegrias e de como Madame Nastova se mostrara exigente. E quando 
ela e Nicholas foram assistir ao seu recital, observou tranquilamente e chorou. Nicholas pegou-lhe na mo, e Zoya sorriu por entre as lgrimas, assistindo  exibio 
de Marina.
       - E to meiga e inocente. - Para ela a vida estava agora a comear.
       E trabalhava to empenhadamente em tudo, era uma criana to boa e franca. Matthew era como se fosse seu irmo, embora tivessem sete anos de diferena, contrariamente 
a Nicolai, quando ela estava a crescer. Era estranho como acontecia uma e outra vez, de gerao em gerao, a sua prpria paixo pelo ballet renascida em Marina.
       Nessa noite, Paul ofereceu um pequeno bouquet  potencial bailarina e, depois de Marina se ter ido deitar, falando excitada em como correra o recital, fez-lhe 
a pergunta que Zoya receara ouvir da sua boca h anos.
       A mulher morrera finalmente de cirrose h uns meses e ele fitou Zoya com uma expresso tranquila no silncio da biblioteca depois de Nicholas ter sado, de 
volta ao seu apartamento.
       - Zoya... depois de doze anos, agora posso perguntar-te. Casas comigo? - Estendeu a mo na sua direo e ela fitou-o com um sorriso nascido de um amor h 
muito partilhado, mas nunca totalmente concretizado.
       H doze anos que estavam juntos e ela amava-o profundamente e dava um imenso valor  amizade que os unia, mas esse tempo passara para ela. Nunca quisera voltar 
a casar depois de Simon. Sentia-se feliz, observando Matthew a crescer e Marina a danar.
       Continuava a movimentar-se pela loja com a mesma energia de outrora. Aos cinquenta e seis anos, pouco abrandara. No entanto, o casamento no era o que desejava 
nesse momento e tocou-lhe suavemente os dedos com os lbios, abanando a cabea.
       - No posso, Paul, meu querido.
       Ele pareceu magoado ao ouvi-la, e Zoya tentou encontrar as palavras corretas para explicar.
       - J passei essa altura. Sou velha demais para casar com quem quer que seja.
       - No digas isso, Zoya! Olha bem para ti. No mudaste, desde a primeira vez que te vi. - Ela mantinha a mesma beleza de sempre.
       - Mudei, sim. - Sorriu com afeto. - Por dentro. Quero envelhecer tranquilamente, observando o Matthew a seguir o seu caminho e a Marina a transformar-se no 
que quer mesmo ser. Quero que ela tenha o prazer de fazer exatamente o que quer, ser o que tem de ser... e  apenas o que quero tambm.
       Paul temera essa resposta, mesmo antes de lhe perguntar. H anos que queria casar com ela, mas no pudera. E, agora que estava livre, o momento passara para 
ela. Interrogou-se sobre se tudo seria diferente, se Allison tivesse morrido mais cedo.
       Os seus fins-de-semana com Zoya eram agora menos frequentes, mas continuavam a ir de vez em quando  casa dele em Connecticut, s que nos ltimos anos tinham-se 
tornado menos importantes para ela. O que realmente lhe interessava era a amizade que os unia, e preferia-a ao casamento. Teria desejado paixo, e a sua nica paixo 
agora residia nos filhos. Nos filhos e tambm na loja. Sempre isso, em memria de Simon.
       - No posso voltar a ser a mulher de ningum. Sei-o agora. Dei tudo o que tinha a dar ao Clayton e depois ao Simon, h muito tempo atrs. Agora, existo eu. 
As crianas, o meu trabalho e tu, quando os dois estamos disponveis. No conseguiria, porm, dar-te o bastante de mim que justificasse o casamento. Seria injusto.
       "Quero algum tempo para mim, Paul, por mais terrvel que isso te parea. Contudo, talvez tenha chegado a minha vez de ser egosta. Quero viajar quando as 
crianas tiverem idade suficiente, para me sentir de novo livre. Talvez voltar um dia  Rssia... visitar novamente Sampetersburgo... ou Livadia.
       Sabia que seria doloroso, mas era um sonho que acalentara nos ltimos anos e se tornava mais possvel, de ano para ano. Apenas necessitava de tempo e coragem 
para regressar. Contudo, sabia tambm que no podia fazer nada disso com ele, que tinha a sua vida, a sua casa, os amigos, o trabalho, a jardinagem... A vida dele 
abrandara bastante nos ltimos anos.
       - Acho que finalmente cresci - prosseguiu. Aos sessenta e seis anos, ele parecia-lhe subitamente muito mais velho, mas Zoya no o disse. Estive to ocupada 
a sobreviver durante tantos anos. Acabei finalmente por descobrir que h muito mais do que isso. Talvez, se o tivesse sabido mais cedo... talvez tudo fosse diferente 
para a Sasha. - Continuava a culpar-se pela morte da filha e era difcil olhar para trs e ver que poderia ter agido de forma diferente, mas tambm j no interessava. 
Para Sasha era tarde demais, mas no para Matthew, para Marina, nem mesmo para ela. Ainda lhe restava un tempo de vida e resolvera gast-lo  sua maneira, independentemente 
de quanto amava Paul Kelly.
       - Quer dizer que para ns terminou? - replicou, fitando-a com um olhar triste. Ela inclinou-se meigamente, beijou-o nos lbios e ele sentiu-se invadido pelo 
mesmo fogo de sempre desde o primeiro dia em que se tinham conhecido.
       - S se quiseres. Se conseguires aceitar-me assim, estarei aqui para te amar, muito, muito tempo. - Da mesma maneira que estivera durante os anos em que ele 
era casado.
       - Para sorte minha - gracejou Paul -, o mundo mudou finalmente e as pessoas esto a fazer coisas que teriam chocado o mundo h vinte anos, dormindo abertamente 
umas com as outras, vivendo em pecado...  o que acontece. Ofereo-te respeitabilidade doze anos tarde demais. - Ambos riram e sentaram-se confortavelmente na biblioteca... 
- s muito jovem para mim, Zoya.
       - Obrigada, Paul.
       Voltaram a beijar-se e, pouco depois, ele foi para casa. Ela prometera passar o fim-de-semana em Connecticut na sua companhia e ele ficara um pouco mais brando. 
Zoya foi nos bicos dos ps at ao quarto de Marina para a observar durante o sono e sorriu novamente. Um dia, o mundo seria dela. Os olhos de Zoya encheram-se-lhe 
de lgrimas quando se inclinou ternamente para a beijar no rosto e, sem acordar, Marina mexeu-se um pouco sob a mo afetuosa da av.
       - Dana, pequenina... pequena bailarina... dana...
       
CAPTULO 50
       
       Os anos dos Kennedy foram excitantes para Zoya na loja. A jovem mulher do senador denotou tendncias inovadoras que todos seguiram. Zoya admirava-a muito. 
Foi mesmo convidada para jantar na Casa Branca, com grande satisfao do seu filho mais velho.
       Zoya era ainda bonita e elegante como o fora em criana. Aos sessenta e um anos era reconhecida por todos quando se movia orgulhosamente pela loja, endireitando 
um chapu, franzindo o sobrolho ante algo que lhe desagradava, mudando as flores com mo experiente.
       Nessa altura, Axelle j morrera e a sua loja era apenas uma lembrana, mas Zoya aprendera muito bem as lies pela mo dela.
       Marina estava na Juilliard, danava profissionalmente de vez em quando e, sempre que Zoya a via danar, quase sentia o corao saltar-lhe no peito como na 
altura em que danara para Diaghilev, h mais de quarenta anos.
       Matthew formou-se por Harvard em Junho de 1961 e Zoya sentou-se na primeira fila com Nicholas e aplaudiu-o. Era um belo jovem e orgulhava-se dele. Ia continuar 
gesto e depois trabalhar na loja com ela.
       Nicholas queria que ele ficasse ao seu lado, mas Matthew confessou sentir-se mais interessado pela venda a retalho. Zoya prometera manter a loja aberta at 
ele estar preparado, e os dois riram.
       - No fechavas a porta, nem que tudo ardesse - troou Matthew, e ela riu.
       Conhecia bem os filhos e amava-os profundamente. Conversava, distrada, com Nicholas num vo de regresso a Nova Iorque e, por fim, virou-se para ele. Era 
fcil detectar que havia algo a preocup-lo e decidiu perguntar.
       - Muito bem, o que se passa, Nicholas? No consigo aguentar mais o suspense. - Os olhos emitiam um brilho trocista, e ele riu nervosamente.
       - Conheces-me bem demais. - Endireitou o n da gravata e aclarou a garganta.
       -  natural, depois de todo este tempo. - Ele tinha agora trinta e nove anos. - O que ests a esconder-me? - E lembrou-se subitamente do irmo a levar a dar 
um passeio h mil anos e de ela o espicaar quanto  bailarina. Soube sem que ele lhe dissesse que a causa da atrapalhao do filho era uma mulher.
       - Vou casar-me novamente.
       - Devo aplaudir ou chorar? - Riu. - Vou gostar mais desta do que da ltima?
       Fitou-a tranquilamente, um homem elegante de olhos argutos.
       -  advogada. Na verdade, vai colaborar com o Paul Kelly. Vive em Washington e tem trabalhado para a administrao dos Kennedy.  divertida, inteligente e 
uma cozinheira fantstica... - Riu. - E estou doido por ela. - Na verdade - acrescentou, parecendo de novo pouco  vontade -, esperava que viesses jantar conosco 
esta noite, se no estiveres muito cansada. - H mais de um ano que andavam naquela roda-viva entre Nova Iorque e Washington.
       Zoya olhou-o com uma expresso sria, esperanada que desta vez ele tivesse feito uma escolha mais acertada.
       - Ia trabalhar at tarde na loja, mas... poderia deixar-me convencer.
       Ambos riam quando ele a deixou no apartamento a caminho do dele. Julie j o esperava e ele disse-lhe que convidara a me para jantar com eles.
       - Oh, no! E se ela me odeia? - retorquiu Julie com uma expresso aterrorizada. - Olha para este vestido! No trouxe nada decente de Washington.
       - Ests uma maravilha. Ela no dar nenhuma importncia a isso.
       - No dar, uma ova! - Vira fotografias de Zoya, que parecia sempre impecvel e vestida segundo a ltima moda.
       Zoya examinou-a atentamente nessa noite quando foram jantar ao La Cte Basque. Ficava prximo da loja e era o seu restaurante favorito. E ela correspondia 
 descrio de NichoIas: divertida, inteligente, excitada com a vida e atenta ao trabalho, mas no obcecada. Tinha dez anos menos que NichoIas e Zoya estava certa 
de que daria uma boa esposa. A tal ponto, que tomou uma deciso importante quando os deixou nessa noite. Iria dar-lhes o ovo imperial como presente de casamento. 
Chegara a altura de o passar aos filhos.
       Nessa noite, regressou calmamente a p  loja depois do jantar e entrou com a sua chave, percorrendo os corredores silenciosos. O segurana no ficou surpreendido 
ao avistar luz por baixo da porta do seu gabinete. Aparecia frequentemente  noite, para verificar coisas e levar algum trabalho para casa.
       E ao voltar ao apartamento, pensou de si para si como seria bom ter um dia Matthew a trabalhar ao seu lado. Ele era a luz da sua vida, o filho que se achara 
demasiado velha para dar  luz. Simon tivera razo. At mesmo agora, servia para a manter jovem, enquanto caminhava muito direita, aos sessenta e dois anos, ao encontro 
de Marina, que esperava ansiosamente a p o regresso da sua querida av.
       Era meia-noite quando chegou a casa e ouviu a neta cham-la do quarto.
       - Av? s tu?
       - Espero bem que sim. - Entrou no quarto, tirou o chapu que pusera para ir jantar com Nicholas e Julie e sorriu  neta que tanto se parecia com ela. Tinha 
o cabelo ruivo to comprido como o seu, que agora estava branco, e tombava-lhe numa cascata sobre os ombros.
       - Imagina s que fui convidada para danar no Lincoln Center!
       - Mas isso  timo! Conta-me! - Sentou-se na beira da cama, ouvindo a sua alegre tagarelice. Vivia apenas para a dana, mas agora tinha a certeza de que a 
neta possua um enorme talento e no se tratava de mero orgulho de av. - V l! Avana. - E ela desbobinara os nomes de todo o elenco, o coregrafo, o diretor, 
pois aos seus olhos o "quando" no era assim to significativo.
       - Daqui a seis semanas! Acreditas? Acho que no vou estar preparada!
       - Claro que estars.
       Os seus estudos tinham sido um pouco prejudicados pela dana nos ltimos anos, mas Marina no se importava, e Zoya interrogava-se frequentemente sobre se, 
desta vez, as musas cantariam, se Marina viria a ser uma famosa bailarina. H muito que lhe falara de ter danado para os Ballets Russes em Paris na sua juventude, 
uma vez com Nijinski e, muito depois, contara-lhe a sua experincia no Fitzhugh's. Marina adorava a histria, pois fazia com que a av parecesse muito mais extica.
       E, seis semanas depois, o espetculo correu optimamente. Recebeu a sua primeira crtica. Aos quinze anos estava lanada. Marina era uma verdadeira bailarina.
       
CAPTULO 51
       
       O primeiro rebento de Nicholas, uma filha, nasceu em 1963, no mesmo ano em que John Kennedy foi abatido a tiro e em que Matthew foi trabalhar para a loja 
de Zoya. E ela sentiu-se extremamente lisonjeada quando Nicholas e Julie chamaram Zoe  filha. Tratava-se de uma americanizao do seu nome e, na verdade, agradava-lhe 
muito mais.
       Aos dezessete anos, Marina danava agora a tempo inteiro. Adotara o nome russo de Zoya e era conhecida por Marina Ossupov. Trabalhava arduamente e viajava 
por todo o pas. Nicholas achava que ela devia ser obrigada a seguir a faculdade, depois de ter acabado o liceu, mas Zoya no se mostrava de acordo.
       - Nem todos so talhados para os estudos, Nicholas. Ela j tem uma vida. Agora que s pai, no sejas to limitado.
       Zoya estava sempre aberta a idias novas, sempre excitada com a vida e jamais entediada. E Paul continuava a am-la profundamente. Retirara-se h vrios anos 
e estava a viver em Connecticut a tempo inteiro. Zoya ia v-lo sempre que podia e Paul queixava-se sempre que ela estava demasiado ocupada.
       A loja parecera ganhar uma vida nova. Ela introduzira Cardin, Saint Laurent, Courrges, e agora Matthew acompanhava-a sempre que ia a Paris. Andava atrs 
de todas as modelos que lhe era possvel e gostava de ficar no Ritz. Aos vinte e quatro anos, era um jovem entusiasta e malicioso, recordando a me. E, em vez de 
abrandar o ritmo, como prometera fazer depois dele entrar em cena, Zoya dava a sensao de trabalhar ainda mais.
       - A tua me  fantstica! - comentava Julie para Nicholas e, contrariamente  maioria das noras, falava a srio.
       As duas mulheres almoavam ocasionalmente juntas e, quando Zoe fez cinco anos, Zoya comprou-lhe o primeiro tutu e as sapatilhas. Nessa altura, Marina tinha 
vinte e dois anos e era uma estrela. Danara por todo o mundo e obtivera as melhores crticas. Era a menina querida dos fs de bailado por toda a parte e, no ano 
anterior, chegara a danar na Rssia. Contara excitadamente a Zoya a sua viagem a Leninegrado, que fora Sampetersburgo, estivera no Palcio de Inverno e visitara 
o Marinski.
       Ao ouvi-la, os olhos de Zoya encheram-se de lgrimas. Era como que um sonho tornado realidade... Todos aqueles lugares que abandonara h mais de cinquenta 
anos, onde deixara um bocado de si mesma e que Marina visitara agora. Continuava a falar em ir  Rssia, mas insistia em que estava a reservar a viagem para a velhice.
       - E quando ser isso, mam? - troou Nicholas por altura do seu septuagsimo aniversrio. - Estou a envelhecer mais depressa do que tu. Tenho quase cinquenta. 
O problema  que tu no aparentas a idade e eu sim.
       - No sejas pateta, Nicholas. Estou uma anci. - Contudo e surpreendentemente, a verdade no era essa. Continuava bonita, o cabelo ruivo embranquecera, mas 
vestia-se de uma forma requintada e a roupa que usava denotava a sua figura ainda elegante. Constitua um alvo de inveja para todos os que a conheciam. As pessoas 
continuavam a ir  loja e suplicavam para ver a condessa. Mattew estava sempre a contar histrias engraadas de pessoas que insistiam em que tnham de a ver. - Um 
pouco como o Lotivre - replicou Zoya, secamente. - S que em ponto pequeno.
       - No sejas modesta, me. Sem ti, a loja nada seria.
       Contudo, j no era verdade. Matthew tinha aplicado as tcnicas de venda que aprendera e, nos primeiros cinco anos, duplicara as vendas. Adicionara um novo 
perfume chamado, obviamente, Condessa Zoya um ano depois e, nos primeiros cinco anos, as vendas duplicaram novamente.
       Em 1974, a condessa Zoya, a mulher e a loja, eram uma lenda. Porm, com a lenda chegaram propostas que interessavam Matthew e assustavam a me. Associaes 
queriam comprar a loja, bem como outras cadeias, uma empresa de bebidas e uma companhia que vendia comida enlatada mas que queria diversificar os seus investimentos.
       Matthew foi ao gabinete de Nicholas discutir o assunto e os dois irmos conferenciaram durante dias. Nicholas apenas se mostrava surpreendido por as ofertas 
no terem surgido mais cedo.
       -  um tributo que te fazem - retorquiu Nicholas com uma expresso tranquila e fitando afetuosamente o irmo mais novo. Contudo, Matthew limitava-se a abanar 
a cabea e a percorrer a sala em passos rpidos. Era um homem em permanente movimento. Pegou em livros, examinou os objetos expostos nas prateleiras do irmo e depois 
virou-se para o enfrentar, voltando a sacudir a cabea.
       - No, no , Nick.  um tributo a ela. Apenas fiz o perfume.
       - No  inteiramente verdade. Analisei os nmeros.
       - Isso no  importante. Mas o que vamos dizer  mam? Sei o que ela pensar. Tenho trinta e cinco anos e posso arranjar outro emprego. A mam tem setenta 
e cinco. Para ela, ser o fim.
       - No estou assim to certo.
       Nicholas ponderou o assunto. De um ponto de vista comercial, as ofertas eram demasiado boas para serem recusadas, sobretudo uma e que agradava aos dois. Mantinha 
Matthew durante cinco anos como presidente e consultor e dava a todos uma quantia fantstica, incluindo Zoya. Contudo, ambos sabiam que no era o dinheiro que interessava 
 me. Era a loja, as pessoas e o movimento.
       - Acho que ela vai compreender o valor de tudo isto. - Nicholas assim o esperava, mas Matthew desatou a rir e deixou-se cair numa cadeira de cabedal.
       - Ento, no conheces a nossa me. Vai ter um ataque. O que temos de pensar  no que ela far depois. No quero que fique deprimida. Na idade dela, poderia 
mat-la.
       -  algo a ponderar tambm - acrescentou Nicholas sabiamente. - Aos setenta e cinco anos, no podemos esperar que viva eternamente. E  natural que tudo mude 
quando ela desaparecer, mesmo contigo l. Ela confere um toque especial  loja. Sente-se vida quando ela entra.
       Zoya continuava a ir trabalhar todos os dias, embora sasse pontualmente s cinco horas e fosse levada a casa por um motorista. H vrios anos que Nicholas 
insistira nesse ponto e ela acedera. Contudo, estava novamente na loja s nove, quer chovesse ou fizesse sol.
       - Vamos ter de falar com ela - decidiu finalmente Matthew. Porm, quando o fizeram, Zoya teve a reao que o filho to sabiamente havia previsto.
       - Por favor, mam - suplicou. - V s o que nos oferecem. - Zoya virou-se na sua direo e fitou-o com um olhar de gelo que teria feito jus  sua prpria 
me.
       - H algo que desconheo? Ficmos subitamente pobres ou estamos s a ser ambiciosos?
       Fixou intencionalmente o filho e ele soltou uma gargalhada. A me era insuportvel, mas ele amava-a. H cinco anos que vivia com a mesma mulher e estava convencido 
de que a nica razo porque a amava se devia  sua origem russa, ao cabelo ruivo e a uma vaga parecena com Zoya.
       Sabia que era muito freudiano e admitira-o mais do que uma vez. Contudo, ela era tambm muito esperta e sensual. Igualmente prxima da me.
       - Prometes, pelo menos, refletir no assunto? - perguntou Nicholas.
       - Sim, mas no esperes que aceite. No vou vender a loja a um fbricante de comida para co s porque vocs os dois esto entediados. Virou-se, em seguida, 
para o filho mais novo: - Porque no inventas um novo perfume?
       - Nunca conseguiremos uma oferta igual, mam.
       - Ser que a queremos? - Ao olh-los, compreendeu e sentiu-se inegavelmente ferida. - Acham-me demasiado velha, no  verdade? Fixou ora Nicholas ora Matthew 
e emocionou-se ante o respeito e amor que apreendeu. - E estou. No h dvida. Mas estou de boa sade. E em meu perfeito juizo - acrescentou, semicerrando os olhos. 
- Estava a pensar em retirar-me aos oitenta. - Riram os trs e ela levantou-se e prometeu pensar no assunto.
       Nos quatro meses seguintes, a batalha continuou  medida que chegavam novas ofertas, cada uma delas melhor que a anterior. Contudo, o mago da questo no 
era quanto, mas se iriam realmente vender. E, na Primavera de 1975, quando Paul morreu tranquilamente durante o sono aos oitenta e seis anos, Zoya comeou a entender 
que no duraria para sempre.
       Era injusto manter os filhos agrilhoados e recusar-lhes o direito de fazerem o que queriam. Tivera a sua vida, divertira-se e no lhe cabia o direito de alterar 
o curso da deles. Com a mesma firmeza com que os enfrentara, capitulou graciosamente uma tarde, no final de uma reunio de quadros, surpreendendo toda a gente.
       - Falas a srio? - retorquiu Nicholas, fitando-a, surpreso. Nessa altura, j se resignara a conservar a loja nem que fosse apenas pela me.
       - Sim, Nicky. Falo. - Expressou-se calmamente, tratando-o pelo diminutivo que no usava h anos. - Acho que chegou a altura.
       - Tens a certeza? - Sentia-se repentinamente nervoso ante aquela cedncia to branda. Talvez no se sentisse bem, ou estivesse deprimida. Mas, ao fitar os 
profundos olhos verdes, no teve essa sensao.
        - Tenho a certeza, se  o que ambos desejam. Descobrirei outra coisa para fazer. Quero viajar um pouco. - H umas semanas atrs prometera a Zoe que a levaria 
a Paris no Vero. Levantou-se devagar e passeou o olhar pelo conselho de gerncia. - Obrigada, meus senhores. Pela vossa argcia, pacincia e pela alegria que me 
deram.
       Abrira a loja h quase quarenta anos, antes de alguns deles terem mesmo nascido. Deu a volta  mesa e apertou a mo a toda a gente e, quando saiu, Matthew 
enxugou os olhos. Fora um momento extraordinrio.
       - Acho que est decidido - redarguiu Nicholas, fitando tristemente o irmo, depois de ela ter sado. - Quanto tempo pensas que demorar a concluir o negcio? 
- J haviam optado pela proposta desejada.
       - Uns meses. Devemos estar instalados no vero. - Matthew parecia em simultneo comovido e excitado.
       Nicholas esboou um aceno de cabea, com uma expresso sombria.
       - Ela quer levar a Zoe  Europa. Ia desencoraj-la, mas agora acho que no o farei.
       - Vai fazer bem s duas.
       Nicholas anuiu com um novo movimento de cabea e regressou ao gabinete.
       
CAPTULO 52
       
       O dia amanheceu claro e soalheiro, quando Zoya se sentou  secretria pela ltima vez. Tinha empacotado as suas coisas no dia anterior, e Matthew organizara-lhe 
uma festa fantstica. A loja enchera-se de todos os nomes conhecidos, a elite da sociedade e dois membros da realeza. Todos a tinham beijado e abraado e recordado.
       E agora sentava-se e recordava-os, trinta e oito anos da presena de todos, enquanto se preparava para abandonar o gabinete. Provavelmente, o motorista esperava-a 
l fora, mas no tinha pressa de ir, mantendo-se junto  janela observando a Quinta Avenida, observando o trnsito l em baixo.
       Tanta coisa mudara em quarenta anos, tantos sonhos realizados e outros desfeitos. Lembrou-se de como Simon a ajudara a comear a loja, de como se mostrara 
entusiasmado, de como se haviam sentido felizes na primeira viagem de compras  Europa. Parecia toda uma vida, desaparecida num momento.
       - Condessa?... - Uma voz suave chamou-a da porta e, ao virar-se, deparou com a sua ltima assistente, uma rapariga mais nova do que a sua neta mais velha.
        - Sim?
       - O carro aguarda l em baixo. O motorista mandou avisar para o caso de estar  espera.
       - Obrigada. - Sorriu graciosamente, de costas direitas e um briIho orgulhoso nos olhos. - Diga-lhe, por favor, que deso j. - As palavras e o porte ainda 
emanavam nobreza, mais do que o proprio ttulo. Ningum que tivesse trabalhado para ela alguma vez a esqueceria.
       A porta fechou-se sem rudo depois de ela olhar uma vez mais em redor. Sabia que voltaria para visitar Matthew, mas nunca mais seria o mesmo. Agora, a loja 
era deles. Fora um presente que eles haviam optado por vender. Contudo, suspeitava que Simon no teria discordado. Ele tinha sido um arguto homem de negcios e Matthew 
no lhe ficava atrs.
       Deitou um ltimo olhar por cima do ombro e fechou a porta, muito direita, vestida com um novo conjunto Chanel azul-escuro e o cabelo apanhado com esmero. 
E, ao sair do gabinete, quase chocou com Zoe.
       - Av! Estava com medo que te tivesses ido embora. Olha! Olha s o que tenho! - H muito que Nicholas concordara com a viagem a Paris e partiriam dali a duas 
semanas, mas desta vez no de navio. Iam de avio. No havia navios em que lhe apetecesse viajar, e Zoe no se importava. Pulava de alegria com toda a exuberncia 
dos seus doze anos e as mos cheias de brochuras.
       - O que tens, ento? - indagou Zoya a rir.
       A neta olhou por cima do ombro, como se tivesse sido seguida e sussurrou num tom conspiratrio:
       - No digas ao pap. Depois de l chegarmos, ele nunca vir a saber. As brochuras que Zoe tinha na mo no eram de Paris, mas da Rssia. As espiras do Palcio 
de Inverno fitavam-na, orgulhosas, das fotografias. O Palcio Alexandre... o Antitchkov... Zoya fitou-a com uma muda admirao.
       - Vamos antes  Rssia, av! - H anos que andava a fazer a promessa a si prpria e agora, com a pequena Zoe, talvez se sentisse preparada.
       - No sei. Talvez o teu pai no queira que tu... - E depois sorriu. Partira com a av h meio sculo e agora podia voltar com a sua neta. Acho que me agrada 
a idia, sabes? - retorquiu, pondo um brao  volta dos ombros da neta. Entrou com ela no elevador, examinando as brochuras e pensando nos planos de ambas.
       Chegaram ao rs-do-cho e ergueu o rosto, surpreendida, ao deparar com as empregadas, de p e muitas delas chorando sem vergonha. Beijou uma ou duas e depois 
tudo acabou subitamente e viu-se com a neta na Quinta Avenida, mandando embora o motorista. No queria ir de carro.
       Iriam dar um longo passeio, enquanto Zoe tagarelava, excitada, sobre a viagem.
       - E depois... podamos ir a Moscovo!... - Os olhos brilhavam-lhe como os de Zoya, enquanto escutava.
       - No. Moscovo foi sempre muito montono. Sampetersburgo... e talvez... Sabes... Quando eu era mida, costumvamos passar o Vero no palcio em Livadia... 
na Crimeia...
       Desceram a rua de mo dada, quando a limusina de Nicholas subia a rua devagar. No conseguira suportar a idia de que a me abandonasse a loja sozinha, viera 
busc-la e depois avistou-as subitamente... as costas direitas no conjunto Chanel e a sua prpria filha com o cabelo negro esvoaando, falando animadamente sobre 
algo.
       A velhice e a juventude. O passado e o futuro regressando a casa, de mo dada. Resolveu deix-las ss e entrou lentamente na loja para falar com Matthew.
       - Achas que podemos ir, av?... A Livadia, quero dizer... - Fitava-a com uns olhos cheios de amor e Zoya sorriu.
       - Claro que tentaremos, no , minha querida?
       
       
Danielle Steel nasceu em Nova Iorque em 1949. Passou parte da sua infncia em Frana e, regressada aos Estados Unidos, estudou Literatura Francesa e Italiana na 
Universidade de Nova Iorque. Autora de mais de 30 romances, 300 milhes de livros vendidos, traduzida em 50 lnguas e publicada em 80 pases.










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